31/10/2013

||| é que isto é uma brincadeira muito séria...


||| ... olha que estou a brincar contigo. dizemos sempre, e lembro-me de uma professora amiga que sempre me recorda esta expressão como definição do quão alterada está a noção de brincar por seremos adultos. se é a brincar tudo é permitido. mas não é. só os adultos brincam. é uma expressão fantástica. só os adultos brincam. então podemos brincar com o conhecimento. e podemos levar as regras [ou ausência delas] para a sala de aula. brincar não significa deixar de aprender. significa exactamente o contrário. aprender. aprender porque temos que construir o próprio processo para o fazer. se há expressão que me transtorna é mesmo aquela que parece ser muito querida a muita gente: aprender a aprender. estranho a paixão pelo conceito. e estranho o próprio conceito em si. e por isso gosto muito mais de colocar o conhecimento como motor para o desenvolvimento da brincadeira. isto é, de transformar o que sabemos em algo novo. mas partindo do conhecimento. do nada, nada nasce. e a criatividade sem conhecimento é idiotice [no sentido mais banal do conceito]. os meus alunos sabem por isso que podem brincar com o que sabem. podem até construir coisas novas com o que aprenderam. têm toda a liberdade criativa que a brincadeira permite. mas a base de tudo isso é mesmo a exploração inteligente das regras que podem e devem ser quebradas no acto de brincar com o que se sabe. por isso cada aula que penso é um desafio. sem regras. podendo cada aluno brincar com o conhecimento e criar algo que é uma nova forma de olhar a realidade e o que o próprio aluno já sabe. dar-lhes o poder de brincarem com o conhecimento é das coisas mais ricas que tenho vivido enquanto professor. mas no princípio... no princípio do mundo estava o conhecimento e isso é uma brincadeira muito séria...

||| a guerra dos mundos ou o exercício da surpresa...


||| ... não é que os meus alunos saibam mais do uso da tecnologia digital do que eu. é que esse é o seu tempo. este é o tempo de tudo isso e eles já nasceram com tudo isso acessível. eu não. eu sei utilizar um livro. ou uma folha em branco. e não vou correr atrás do prejuízo. de não ter nascido neste tempo. porque se assim fosse, seria eu o aluno. importa-me sim, estar no meu tempo e para além deste tempo. com um pé no futuro. ou melhor, com a ideia de saber o que se faz de melhor em cada domínio. das artes à ciência, da cidade ao espaço público. estar atento. olhar e procurar. saber dizer que existe isto e aquilo que podem ir ver, ler, ouvir, saber. estar atento ao que se passa perto e longe de mim. num aula passada desafiei os alunos a criarem uma peça de teatro com quinze minutos [na lógica do modelo do teatro rápido]. um dos grupos de alunos falou-me que queria abordar as questões da guerra/conflito israelita. fiquei na dúvida se saberiam de que se trata, de facto. e percebi que conhecem o conceito de guerra, de conflito, muito pelo poder da imagem. a história, essa, é um lugar distante, confuso. e por isso é preciso explicar. gosto muito da palavra explicar. saramago dizia que todas as coisas têm explicação. podem não ter justificação. mas explicação, sim. e concordo plenamente. podemos explicar. dar razão. enquadrar. tornar lógico. inteligível. e esse é um papel único que cabe ao professor ter sempre em conta. não tomar por adquirido que os alunos sabem as coisas mais simples. podem não saber. podem ter a memória, como diz marc augé, daquilo e dos lugares onde nunca estiveram e desconhecer por completo a sua explicação. é por isso que o professor, eu, mais do que ninguém tenho que estar atento. atento ao que é saber e atento ao que é memória construída sem explicação. é que o meu papel, único e simples, é dar um contexto, uma explicação, transferir o que sei para esse lugar de memória que hoje, mais do que nunca, a tecnologia digital permite criar. dar um contexto. ser professor...

30/10/2013

||| estou velho, doí-me o joelho...


||| ... motivação. este é o maior embuste que se vende e fala. professores motivados. professores do futuro. professores brilhantes. etc, etc, etc... e no meio de tudo a palavra motivação. estar motivado. predisposto e bem disposto. feliz, alegre e afins. ninguém está sempre motivado. ninguém está sempre feliz. por muito positivo que seja. por muito optimista que seja. há aulas que me apetece dar. outras que nem por isso. há dias em que estou bem disposto. outros, cansado. outros, focado numa ou noutra coisa que não aquele momento de aula que tenho para realizar. assim é com os alunos. assim é com os professores, os outros, os colegas. mas tal como queremos que todas as relações sejam o mais limpas e simples possíveis também neste campo o desejamos. todos motivados. todos felizes, todos predispostos para aprender. felizmente que a realidade não é assim. felizmente que temos todos, eu como professor, eles como alunos, que negociar a nossa motivação aula a aula, dia a a dia, hora a hora. e que a realidade nos dá, a todos, mostras da importância da nostalgia. ou do desligar da aula. ou simplesmente da inabilidade de um momento de menor inspiração. não, não tem tudo que correr bem. somos todos humanos, demasiados humanos e ainda bem. ainda bem que a realidade é multifacetada e não somos máquinas de motivação automática. porque esquecer é tão importante como lembrar. porque estar atento é tão importante como estar desatento. porque o que é belo nisto tudo é mesmo esse desafio de cada momento ser um desafio. não de motivação, mas de realidade. de ver, estar e perceber a realidade das coisas e dos momentos. e nada há mais rico do que uma aula nesse campo. da diversidade imensa destes momentos reais que precisam ser geridos instante a instante. e por isso não me vendam palavras, discursos, livros ou receitas. deixem que eu seja um professor na realidade do meu tempo e dos meus momentos vividos com os meus alunos. só isso, somente isso, tudo isso. o resto são receitas. e não sei usar receitas dos outros para uma realidade que é a minha. vejo, construo e negoceio a minha realidade e isso faz de mim professor. motivado ou não, não importa. que consiga todos os dias interpretar, viver e ensinar na minha realidade das coisas e dos momentos, isso sim, me importa. e afinal é tão simples não ter receitas para nada e viver só a realidade pura do tempo de uma aula...

||| lost in translation...


||| ... gosto particularmente desta fotografia que consegui registar de uma aula. diz tudo sobre o que penso sobre o processo de aprender. o professor não é um amigo. é um professor. um desafiador. um caminhante. e há uma necessária distância que vem do tempo. do que tenho a mais do que eles. tempo não, vida. um pouco mais de registos na memória. e quando o cansaço suspende a vontade de mudar, olho para imagens como esta que fazem parte do meu imaginário enquanto inventor de aulas. let's never come here again because it would never be as much fun. é mesmo isso. não repetir o que usei. um texto, um recurso. é muito fácil dizer que estou cansado e que aquilo que já usei sei que funciona. mas o pior que me podia a acontecer era mesmo ser eu a perder a imaginação para criar. nos tempos que correm a escola é para muitos o último reduto de liberdade e de acolhimento. para muitos alunos todo o mundo fora da escola é muito mais complicado do que ali. ali tudo é muito mais simples. as regras são muito mais claras. a vida corre mais perfeita. e estou cansado de ouvir que a escola espelha o todo social e mesmo é uma micro-representação da sociedade. sempre combati esta ideia. a escola não pode nem deve ser isso. deve ser o lugar onde tudo isso é alterado para melhor. onde se pode construir conhecimento. onde se pode desenhar o amanhã. onde se pode experimentar, criar, formar novos rumos para a sociedade de hoje. se não for assim, não estamos a falar de escola. estamos a falar de um local sem identidade, forma ou força. e se nada mais resta dessa escola que é o lugar de futuro então cabe a mim, a nós enquanto professores, fazer com que cada aula seja esse lugar... é nosso dever, nosso imperativo ou veremos a escola desaparecer para um espaço de vazio imaginário que os nossos alunos anseiam mais do que qualquer outra coisa...

29/10/2013

||| olha que se eu te apanho lá fora!...


||| ... ó pá, tu não me irrites!... e levantou-se. naquele gesto de confronto. uma aluna para a outra. eu observei. e o discurso subiu de tom. eu, observei. sou professor e aquele espaço, mesmo o corredor é a minha escola. porque isto, aquilo e... e era minha aluna. eram minhas alunas. fui lá. já me conhecem pela minha forma diferente de reagir às coisas. comecei a dizer nomes de peixes. sim, isso mesmo, peixes. e o tom baixou. e deviam pensar que eu estava a ficar um pouco mais louco. calaram-se. acalmou tudo. quando não sabemos como fazer ou o que fazer perante algo que nos é estranho paramos o que estamos a fazer para pensar como reagir. esta era a premissa que tinha a meu favor por ler uma ou duas coisas das neurociências. é simples. não é absurdo. é a natureza humana. elas, alunas, pararam perante o absurdo dos nomes dos peixes. depois riram. mas eu não achei graça nenhuma. sou professor e acima de tudo abomino qualquer tipo de violência ou comportamento violento. verbal, não verbal ou de qualquer outro tipo. e a escola é um espaço de cidadania. e já que não há espaço para isso há sempre tempo. mesmo que tudo tenha tido lugar no espaço que não foi o de aula pedi a uma das duas alunas para ficar comigo no fim da aula. o meu tempo é o deles. e o deles é o meu. naquele espaço que é nosso, a escola. e não é a fechar os olhos que eu sou professor. é agindo. falámos, no fim da aula. enquanto professor e como pessoa há uma coisa que abomino mais ou tanto como a violência. são os sermões morais. e por isso foi só uma conversa. dois a cinco minutos. ó professor porque ela... ui... não vás por ai. não vás mesmo. as razões não me dizem respeito. diz-me o comportamento. público. no espaço que é de todos. no exemplo. no atravessar o círculo da minha liberdade que não gosto de ver atravessado com gestos que não pertencem ao espaço da escola. a civilidade. foi disso que lhe falei. falei dos gregos e do cumprimentar. de onde vem a palavra cumprimentar. e de onde vem a palavra violência. e do que é o espaço público onde somos cidadãos. e estivemos a conversar. no final, a minha aula, disse desculpe. eu digo sempre a mesma coisa: não precisas de me pedir desculpa. precisas de ver a escola como o lugar onde mais gostas de estar. e se te lembrares nesse lugar não há espaço para desculpas nem para a violência de um gesto, de uma palavra ou de uma acção. pensa nisso... e lá foi ela, minha aluna, e eu seu professor. cada vez mais lidamos com estes e outros comportamentos. a questão não está no comportamento em si. está na nossa vontade de agir ou de fechar os olhos. e fechar os olhos é tudo menos ser o construtor do lugar que queremos, com eles, para eles, os nossos alunos...

||| uma aula como um exercício estético para a aprendizagem...



||| já ninguém ensina o belo...


estou na pré-primária
e caí de cabeça no chão e de joelhos
era tudo uma confusão na minha cabeça
como se fosse invadido por algo que não faz parte de mim
um universo de ideias confusas e distorcidas
autoria: turma 2.t

||| ... tenho sempre comigo, como professor, a abertura do livro - a história do feio, de umberto eco. para as civilizações arcaicas e para os povos chamados primitivos, temos achados artísticos, mas não dispomos de textos teóricos que nos digam se aqueles se destinavam a provocar o deleite estético, o terror sagrado ou hilaridade. e hoje, nas nossas salas de aula esquecemos de nos ensinar a pensar a coisa mais simples. o belo e o feio. o sentido estético. as nossas salas são armazéns. não são espaços de beleza. são espaços preparados para a entrada e a saída. o estar implica o desfrute do espaço onde estamos. e o belo tem esse papel. então pode um professor que não é de artes usar a arte para ensinar, questionando a noção de perspectiva na construção do conhecimento utilizando a criação de um momento belo? porque não podem as aulas ser pensadas no seu sentido estético, também. foi isso que fiz. nesta aula. criar sentidos estéticos para a minha sala de aula de onde tenho uma das mais belas vistas sobre a cidade mas que é, ela mesmo, um espaço feio. frio. ausente de beleza e carregada de funcionalidade. mas eu sou um funcionário cansado de funcionar. e por isso preciso de estar perto do belo para poder levar aos meus alunos o desejo de aprender. e por isso a minha resposta foi esta. tornar a minha aula num exercício de olhar o conhecimento enquanto observação em estado de alma em alerta para o espaço e para a apropriação visual do conhecimento. foi só um momento. mas o dia e aula ficaram muito mais belos e os alunos diziam que se sentiam num museu de arte contemporânea a brincarem aos artistas. talvez assim a história da arte não seja somente o local onde se indica as coisas belas, feias ou hilariantes das quais nada ou muito pouco sabemos...


||| uma aula que é um exercício de ruptura...



||| ... pedagogia: esta é uma aula para quebrar um ciclo. ou simplesmente para questionar. ou pensada para ser totalmente prática e permitir criar novas leituras da realidade transformando o aluno num dos elementos da leitura de novas perspectivas através da performance artística como modelo de interacção social e cívica. 


||| ... metodologia: esta aula é composta por três partes. parte um: o professor prepara a sala afastando todas as mesas e colocando as cadeiras em círculo onde os alunos se devem sentar. o professor terá, nesta aula, de delegar parte da dinâmica aos seus alunos. tendo como base e recurso um rolo de fio colorido o professor vai questionando os alunos que passam entre si o fio guardando uma ponta do mesmo nas suas mãos. as perguntas podem ir de conteúdos a questões abertas sobre o futuro. todos os alunos devem ficar com uma parte do fio e o professor deve criar as questões e orientar a dinâmica para que o maior número de cruzamentos no fio seja possível sendo que essa é uma dinâmica que muitas vezes os alunos optam por controlar entrelaçando eles mesmo o fio. terminado o novelo os alunos são convidados a prender a teia criada nas cadeiras e a sentarem-se no chão. parte dois: sentados no chão, tendo a teia de fios como tecto ou estando ao nível dos seus ombros o professor distribuiu uma folha em branco e uma caneta a cada aluno. os alunos devem agora desenhar o emaranhado de fios nessa folha. é essa a premissa deste desafio. uma leitura de perspectiva. ao fim de trinta segundos de os alunos estarem a desenhar o professor pede aos alunos para trocarem a sua folha com o colega à sua direita e continuarem o desenho. assim sucessivamente até todos terem passado a folha e chegar ao aluno que serve de ponto de referência. no final o professor pede aos alunos para colocarem no centro do círculo onde estão todos os desenhos realizados da teia que os cerca e envolve. distribui depois uma nova folha em branco. pede novamente aos alunos para refazerem o exercício mas desta vez escrevendo uma frase sobre que é estar naquela posição em observação daquela teia. e ao fim de trinta segundos mudam novamente para o colega até todos terem escrito. no final todos os alunos se devem levantar e ler todos ao mesmo tempo os textos elaborados. após esta leitura que não permite a percepção pede o professor a cada aluno para ler o texto que tem na sua posse. faz-se uma reflexão partilhada e comenta-se. terceira parte: o professor apresenta um desafio de leitura de obras de arte contemporânea. do movimento dada aos desafios da arte conceptual. a discussão é aberta e experimental.

||| ... esta aula tem como tema: o tema desta aula é - perspectivas. a sua essência é ser, em si mesma, um exercício de reflexão pela perfornance artística. baseada nas práticas naif e dada permite aos alunos perceberem que o conhecimento depende da perspectiva do observador/investigador. assim como, a construção do próprio conhecimento. é uma aula-arte ou um desafio de descontrolo do conhecimento em detrimento da forma de olhar a realidade. é uma aula de ruptura com a aprendizagem teórica e permite a construção de objectos visuais fortes.

||| do anúncio para a compal ou o tempo perdido...


||| sou professor. deles. destes quatro alunos aqui na fotografia. isto foi depois da aula terminar. e o mais importante do meu dia. e hoje não me apetece escrever sobre aulas e coisas dessas que ocupam o tempo antecedendo estes momentos. estava para sair para almoçar e duas alunos vieram falar comigo. tenho sempre tempo para eles. posso ter menos para mim. para eles, tenho todo. disse que, claro, as ouvia. ó professor, criámos um anúncio para o compal essencial. queremos a sua opinião. demorei a processar a informação. sentaram-se. falaram-me da moda do cup. é basicamente a versão moderna do se fazia nos recreios há uns bons anos com o bater das mãos criando uma sequência com ritmo. assisti. tinham letra e música e tudo. tentaram uma, duas e três vezes. pediram-me opinião. disse-lhes, melhor, ensinei-lhes as regras da publicidade. até a regras dos trinta segundos de um spot de televisão. ouviram-me atentamente. disse que para a semana gravaria o seu trabalho. que iríamos fazer um cd para enviar para compal pois podia ser uma boa ideia. ficaram contentes. o produto da sua ideia tinha valor. estava pensado. era bom. e eu ouvi. e só passada meia hora ou quase quarenta e cinco minutos de me terem pedido para os ouvir saí da sala. mas saí imensamente rico. saí com a sensação que ainda sou professor. que ainda tenho tempo para os meus alunos. para aquelas conversas onde se aprende tanto mas não estão escritas em nenhum guião. e com tempo. tempo para os ouvir, acompanhar e com eles pensar. tempo para nos ligarmos e crescermos em confiança. tempo para conversar com eles, os meus alunos que tinham tido uma ideia e queriam partilhar aquela descoberta comigo. foi bom. e fui um bocadinho mais professor, hoje...

||| de como tudo muda quando tudo precisa mudar...


||| ... sou sincero. nem sempre as coisas correm bem. não sou um romântico da educação ou um amante das teorias pedagógicas (sejam quais forem). para mim, o importante é o conhecimento. o resto é acessório. acessório, não. complementar. complementar, também não. envolvente. o que me interessa é a promoção e a valorização do conhecimento. a forma de o fazer é aquela que encontro em cada momento e para cada aula. não sou um professor de roteiros, fichas, grelhas e planificações. pensar é para mim o mais importante. e sentir. cada aula antes de a dar. e hoje ao chegar chovia. o dia estava cinzento. saí de casa com a certeza completa da aula que iria dar. cheguei depois da viagem até à escola com essa certeza. pensei a aula até nesse tempo de viagem que medeia um ponto ao outro. e ao sair da viagem mudei tudo. fui a correr à loja onde sou já cliente fiel e comprei três rolos de fio brutalmente coloridos. o dia estava cinzento e eu não. não me afastei do tema que tinha pensado. apenas mudei radicalmente de estratégias. e que importa isto? nada. deixo só registado o meu pavor e horror a planificações. ninguém podia prever o dia cinzento. ou a viagem. ou a súbita sensação de que tudo iria correr mal se eu mantivesse a aula que tinha pensado. ter perspectivas é isto. e isso era o que eu tinha para ensinar aos meus alunos. e foi isso a que nos dedicámos durante as aulas. a forma é só o complemento. o que importava era a visão a criar sobre o conhecimento a mobilizar. tudo seria tão mais fácil se tudo fosse tão mutável como a aula que se tinha pensado e se repensou por se saber que o céu cinzento não trazia bom augúrio... 

25/10/2013

||| das bicicletas em outubro ou o cinzento dos dias...


||| ... às vezes admiro os comentários dos outros que como eu se dedicam à nobre arte de ser professor. falam do reconhecimento social [ou não, segundo alguns] e de todas as condições. da carreira. admiro-me. quando me perguntam o que faço digo: sou professor. ah... isso está mau, dizem em ar penoso. eu respondo sempre: não, por acaso não está. o que está mau é tudo o resto e não a minha profissão. na minha sala de aula tenho alunos que sabem mais do que eu sabia. que estão com acesso a conhecimento que eu não tive enquanto aluno e que são acompanhados por professores [uns bons e outros menos bons] muito mais qualificados do que eu tive. mau? não. má está a política e as regras. e penso sempre que se não for eu a dizer o que tem de bom ser professor é logo uma sina e não uma arte. e não é uma carreira. é mesmo uma nobre arte. saramago dizia da sua arte que chamava trabalho que "pegava às nove horas e saía para almoço às treze, retomava às quinze e saía às dezassete horas". curiosamente sinto o mesmo. mas trago-a comigo. na pele, na roupa, no pensamento. não como profissão. como arte. porque uma profissão por muito nobre que seja não tem este poder imenso de transformar o pensamento, de o enriquecer, de o transformar. de formar pessoas pensantes, conhecedoras, inquietas. está tudo mau. mal. errado. sim, está. mas não é na minha sala de aula. é tudo à volta. e só na minha sala de aula eu sou professor. na escola sou um funcionário. na rua sou um trabalhador. na minha sala de aula sou um professor. para os meus alunos, na rua, também sou o seu professor. e isso não é construído por decreto, reconhecimento social ou pelo qualquer gesto político. é feito por mim, todos os dias, naquelas quatro paredes onde mora a arte de ensinar as almas inquietas...

||| de olhos fechados o mundo é mais claro...


||| ... como tantos sou um professor menor que o programa que tenho para dar. sou pequeno para tanta coisa. a história da humanidade é maior do que eu e do que um espaço de tempo escolar que vai de setembro a junho. dumbledor, sim o mago da saga harry potter ensina-nos que temos que fazer escolhas. e é nas escolhas que me defino. como professor não gosto de todos os temas. há coisas mesmo que acho inúteis, outras, simplesmente como sabedor da coisa não em entusiasmam. então como posso passar o encanto de saber tudo aos meus alunos se eu próprio não acho interesse no que tenho que ensinar. faço escolhas. opto por encontrar dentro dos temas, assuntos que possam despertar-me o encanto. chego à aula e digo: nem sabem o que descobri hoje sobre isto. eu, regresso ao lado de investigador. procuro, selecciono, escolho. defino-me nas escolhas que faço. não repito. há anos que não repito uma aula ou uma conversa. seria a morte do artista. preciso desse desafio constante de procurar, encontrar e partilhar. nem sabem o que descobri sobre isto, digo aos meus alunos. e só assim posso recordar que antes de ser professor sou licenciado na velha arte de descobrir coisas perdidas para ensinar aos outros e a mim próprio quando as escolhas são tão precisas para matar um programa absurdo onde cabe tudo o que dizem que tenho que ensinar...

24/10/2013

||| da urgência do pensamento construído...


||| ... a banalidade das coisas ditas prosaicamente. do conhecimento imediato. sem reflexão. sempre  sem apropriação. sem associação de ideias. das coisas vistas aqui e ali. da ausência dos sábios. do saber e da ciência. do senso-comum. do humor fácil. da sabedoria simples. é tão mais fácil tudo isto para ensinar do que o seu contrário. o elevar o espírito. o sossegar o murmúrio das almas inquietas. a minha como professor, sempre inquieta, sempre com dúvidas. é tão mais fácil não estudar. não aprofundar. não saber para além do óbvio. porque os tempos são de certezas absolutas num espaço onde nada é absoluto. e isso estranha-se. e o hábito de citar: alguém disse. ou como diz o outro. ou qualquer coisa assim não tem lugar ali, na sala de aula, no centro do universo do conhecimento. saber é preciso para ensinar. saber muito. e muito mais ter dúvidas. e procurar respostas. e ser e ter licença para aprender sempre. e ser o primeiro dos curiosos antes de apontar o dedo aos alunos pela falta do mesmo sumo de que se tem sede. e custa ver tudo isto e o rio ser mais forte do que a pedra. mas o rio passará. a pedra fica. a erosão da pedra é mais lenta do que o rio que passa sem ordem ou destino. fica. ali, imóvel por baixo das águas que correm. mas não digam mais... alguém disse ou como o outro diz. digam e saibam o nome desse alguém, desse outro, na escola todas as coisas terão sempre um nome e um lugar para serem descobertas. aquela janela que dá para rio onde a pedra descansa a aguardar o seu dia de ver e ser reflexo de luz...

||| perspectiva e metamorfose ou os outros na sala...


||| ... eu tenho bem a consciência que não me exprimo com exactidão. as senhoras e os cavalheiros têm um tal domínio da palavra que podem sempre dizer o que querem, mas um homem vulgar como eu não o sabe fazer. as palavras não acodem naturalmente. têm mais pensamentos que palavras e as palavras quando vêm não dizem com os pensamentos. esta frase é do livro o altruísta de b. shaw. e estou a pensar as minhas aulas partindo dele. todas pensadas, quase todas, até ao final deste tempo antes do natal. sentei-me. telefonei. pedi. falei de não haver dinheiro. de ter que conter custos. liguei para amigos e conhecidos. e até desconhecidos. quero levar os meus alunos aí. fazer isto e aquilo. quero, tão somente, que vá lá à minha aula. gente conhecida que não tinha o email ou telefone e que não parei até os conseguir. e liguei e disseram-me que não. e disseram-me que sim. aos que disseram não, agradeci. percebi que o tempo é complexo e as razões ainda mais. aos que disseram que sim, agradecerei depois um pouco mais. e desenhei a próxima aula. dei-lhe um nome. faz parte da triologia de aulas para preparar o acesso e gosto pelo conhecimento. comecei com o silêncio, passei para os outros e agora, para terminar: perspectivas. a ideia também não é minha. é roubada deste livro. não tenho nem a arte nem o domínio da técnica para conceber algo tão bom. algo que explique como podemos olhar para as coisas e saber o seu sabor, cor, compostos e componentes e mesmo assim não saber o que é. de como ao mudar de perspectiva tudo muda. a pergunta de abertura da aula será simples. porque é que nas escolas o nosso mapa mundo tem a europa ao centro? sabem?... 

||| do que vem de fora da escola para dentro...


||| ... há muito que perdi a veleidade de pensar que inovo alguma coisa no processo pelo qual tento ensinar alguma coisa aos meus alunos. gosto muito de estudar com eles. sim, de estudar com eles. trabalhar, não. estudar. uma das coisas que em disseram como sacrossanta quando comecei a dar aulas foi uma coisa que, estranhamente ainda outro dia ouvi. se não souberes não digas que não sabes. há uma resposta milagrosa para dizer ao aluno: vais ver isso e depois trazes a resposta para a próxima aula. ou seja, o aluno não sabe, está com uma dúvida e nós tratamos de o encaminhar para o abismo. ele não sabe, muitas vezes nem sabe como procurar ou encontrar a informação [e consequentemente a resposta à sua dúvida]  mas eu, professor, devia ficar muito mais descansado por, não sabendo, parecer que sei mas não quero dizer. se há coisa que sempre estranha foi esta. já me justificaram com o fomentar a autonomia do aluno e criar espírito de descoberta. ainda mais estranho achei. autonomia? descoberta? a dúvida fica ali pendurada num vazio sem qualquer orientação ou apoio e isso fomenta a autonomia e a descoberta. ou será que gera, simplesmente, esquecimento? eu gosto imenso do desafio de estudar com os meus alunos. de ir descobrir o que não sei. quando me perguntam: ó professor esta torre tem as janelas assim porquê? e eu não sei responder. e na aula seguinte levo os livros, os textos, as músicas, as fotografias, o que consegui reunir para investigar. e digo-lhes como fiz. onde fui procurar, como procurei e como encontrei a resposta [ou não]. e falo com eles cinco ou dez minutos sobre como se constrói o conhecimento científico. como se faz investigação histórica ou social. e estudamos juntos. e novas dúvidas surgem. e desta primeira abordagem centrada no que sei de como fazer uma investigação passo a construir a autonomia de novas investigações a novas dúvidas com eles. eu arranjo isto e vocês outras coisas. na próxima aula começamos por aqui. e da soma de todas as dúvidas nasce a curiosidade. essa sim, fundamental para a autonomia e descoberta... dá trabalho? dá. mas estudar é isso...

||| o óbvio, o menos óbvio e o estranho...


||| ter atenção. percepção. compreensão. voltemos ao início. atenção. é como fazer um negócio. a negação do ócio. a atenção. ou não. é talvez o contexto que tem que mudar para que a atenção renasça. é outra das coisas que nunca tenho como garantida quando começo uma aula. não tenho como garantido que os meus alunos me darão a sua atenção. não tenho o dever de a conquistar. nem sou um romântico das perspectivas pedagógicas que acham que o saber e o conhecimento apaixonam por si mesmos. há um caminho, um processo, um desafio. não de captar a atenção. porque se assim for teria que ir de crescendo em crescendo de surpresa e espanto. que sendo instrumentos pedagógicos muito válidos o não são para a atenção. pelo contrário. provocam dispersão e falsa atenção, assim como, ao fim de pouco tempo, cansaço. chamo-lhe foco. focagem. concentração. todas as aulas, dois ou três minutos. ler em voz alta funciona muito bem. cria silêncio. gera, foco. cria, atenção enquanto concentração. enquanto pausa do momento de recreio terminado minutos antes. e nunca dou por garantido que tenha a atenção conquistada. são precisos passos e marcos no tempo para aula para refocar cada uma das pessoas ou mesmo o tempo de aula que tem o seu próprio ritmo. uma cadência. uma organização. e não basta ler em voz alta para construir um processo de atenção contínuo e continuado. é preciso ser óbvio. menos óbvio e até estranho. porque a atenção não é, de todo, um dado adquirido. é uma das coisas mais importantes de ser ensinada, treinada e construída. não é simples, mas isso é óbvio...

23/10/2013

||| do proibir, do espaço público e privado...


||| ... castraram-nos o espaço público. esta é uma fotografia da minha última aula. as duas pessoas nítidas são meus alunos. e este espaço, assim como toda a cidade, foram a minha sala de aula. mas isto era bonito [ou não] se tudo o que conheço como certo não estivesse, hoje, castrado. roubado. cercado. e não tinha percebido até um grupo de alunos me vir dizer: professor o senhor está a dizer que não podemos fazer as perguntas para o nosso trabalho aqui. aqui. aqui era o espaço público. não. de um serviço público. não, o metro já não é um serviço público. é privado. ou público gerido por privados. logo o espaço da cidade, da ágora, já não é público. é semi-público ou semi-privado. ou castrado. ou sequestrado. e falei com o tal senhor de ar de segurança que segura coisa nenhuma e falei-lhe do privado e da privacidade. de que a privacidade é uma coisa com cem anos. e o privado, muitos mais. e o público ainda mais, muito mais antigo. e se fosse pela palavra comunal ia aos primórdios da humanidade e ele, com ar de segurança da coisa segura, não conheceria a palavra. falei da revolução republicana e do é o direito à privacidade versus o dever de cidadania. e que ambas estão na constituição. que não é uma empresa. nem pública, nem privada. e a minha sala de aula mudou de lugar. não importava o confronto. importava a aula. o ensinar. que o que é público é a terra, não é o espaço que a ocupam outros que dela dizem ser privada confundido tudo o que é o dever de utilização. e ao subir as escadas uma senhora de certa idade comentou comigo, eu em papel de professor, que é perigoso levar os alunos para a rua para fazer perguntas. que a aula se faz na sala. e eu sorri. os meus alunos lá tinham regressado com os questionários completos. ó professor, fomos até ali aos taxistas e quase todos nos responderam. foi fixe. e o pessoal dos correios também. senti que havia ainda ilhas gaulesas neste universo dos espaços sequestrados e das mentes sequestradas. lugares onde eles foram. e o que aprenderam, mais do que as respostas que obtiveram no questionário que era a sua missão, foi o exercício da cidadania e da luta pela liberdade no espaço público que é preciso reclamar de volta... ou ficará sequestrado no espaço físico e nas mentes dos outros...

||| saber o nome de tudo ou lembrar as palavras...


||| ... quiçá... o quê professor? profícuo... o quê professor? proliferação... o quê professor? inquieto... o quê professor? as palavras. esquecemos de ensinar, palavras. eu esqueci-me, por instantes, mas voltei a elas. e parei a aula. e vamos falar das palavras. só com elas conseguimos [ou tentamos] explicar o mundo. e já são tão poucas. as palavras. poucas, mesmo poucas. e dou um número de todas as palavras num dicionário. e dizem eles... ui... tantas. e digo eu que uso mais do que eles: e são tão poucas. e todos os dias morrem palavras. recreio é uma delas. digo vezes sem conta. deixamos de dizer: ir ao recreio. e era o tempo de recriar, refazer, repensar, brincar com o que se tinha aprendido ou se queria aprender. e passámos dizer: vão lá para fora. por oposição, a estar ali, na aula, ou apanhar ar. vão apanhar ar. coisa invisível e estranha. poética, talvez. e eles, sem palavras, não podem descrever o mundo. e nós, sem palavras, não o podemos mostrar. e esta é uma revolução a acontecer. não nos roubem as palavras porque precisamos delas para lutar pelo dia de amanhã... 

||| de quem não sei quem é mas trabalha comigo...


||| ... há pessoas para além de professores. e devia haver conversas. entre as pessoas. e tempo para falar das outras pessoas que são os nossos alunos. e não de coisas. falamos de coisas. de muitas coisas. de todas as coisas. e de papeis. e grelhas. e não de pessoas. e somos pessoas e eles também. e não nos conhecemos. não sabemos que música gostamos. que livro lemos. que filme fomos ver. não há tempo. tempo há, roube-se ao tempo inútil das coisas e falemos como pessoas. diga-se bom-dia. olá. diga-se: vamos tomar um café. e não se fale de coisas outra vez. fale-se das pessoas que somos e que eles são. ou viveremos na escola tão sós que um dia todas as coisas serão só coisas e nós também, e eles também e a escola fechará as portas e será só mais uma coisa entre todas as outras...

||| amanhã é sempre tarde demais...


||| ... recorro a hemingway para começar. não quero deixar-me levar, mas tenho por onde escolher? isso de ter por onde escolher é coisa que nos tiraram. posso não aproveitar isto; e o que poderá vir depois? não procurei nada disto, e se nos calha fazer uma coisa que remédio há senão fazê-la? e recordo um professor que tive, melhor, dois. melhor, duas professoras. e relembro a última aula que dei. curiosamente as duas professores eram de áreas disciplinares diferentes. uma de filosofia e uma de física/química. a primeira escreveu o seguinte dilema no quadro: num tubo com vácuo estão uma tartaruga que se chama platão e uma lebre que se chama sócrates. numa corrida entre ambas, quem ganha. e a aula foi toda sobre isto. nunca esqueci aquela aula. até hoje, quase trinta anos depois, acompanha-me. é actual. é uma ferramenta útil. disse a professora naquela altura que nem imaginávamos o que era preciso sabermos para conseguir responder a tudo aquilo. desde as histórias clássicas às dos irmãos grimm. e fomos ler. lendo. e ficou tudo para o futuro. as estórias, o pensamento de platão que era do de sócrates que não era dele. e tanta coisa mais. e a professora de física/química que nos encomendou uma experiência [como fazia quase todas as aulas], encomendas era a palavra que usava, para provarmos que os corpos são bons condutores de electricidade. lembro-me de ligar fruta entre si e acender uma lâmpada. que importa a simplicidade de tudo isso comparado com o que me ensinou para o futuro. devemos pedir encomendas. trabalho é sempre um exercício de esforço. uma encomenda é um desafio de criatividade. e hoje recordo a minha aula. e o medo que sinto ao ver que somos cada vez mais professores de um tempo que já não existe e não do futuro. e o que temos, só o que temos, é mesmo futuro para ensinar. aquele que eles, os nossos alunos, vão viver. se tudo correr pelo melhor, alguns vão mesmo construir futuro. mas a maioria vai viver nesse outro tempo. e assusta-me que deixemos de ser professores no seu tempo a pensar no futuro. a desenhar com a ciência de hoje esse futuro com os nossos alunos. só assim podemos ensinar qualquer coisa verdadeiramente útil...

22/10/2013

||| os pés são a parte do meu corpo mais longe de mim...


||| ... duas horas e trinta minutos. em vinte e quatro horas. tirando o tempo de sono. uma hora que seja. estes cinco minutos de palavras são para as coisas inúteis na escola. gosto e sempre gostei dos detalhes. deus está nos detalhes. como os construtores de catedrais diziam. mas agora já não há construtores de catedrais. antónio damásio diz aqui: todas as pessoas sabem que aquilo que acontece na consciência depende daquilo que acontece ao corpo. se entalares um dedo, dói‑te. se fechares os olhos, não vês o que se passa à tua frente. e um dos detalhes mais belos na escola são os sons que nascem nas esquinas, curvas e contracurvas da escola. da presença dos alunos. nunca percebi quem, professor como eu, dizia que gostava da escola era quando não havia alunos, naquelas alturas de reuniões e afins. eu não. não gostava. não gostava e não gosto. é como dizer a um construtor de catedrais que bonito é um dia em que não tem pedra para trabalhar. ou a um carpinteiro que belo é o dia em que não tem madeira para trabalhar. há nas coisas detalhes que contam logo toda a história dos lugares. como este que encontrei ao chegar à escola. um chapéu que secava. como se aquele espaço de passagem de tanta gente fosse um átrio de uma sala de estar de uma casa qualquer. e ali ficou sem ninguém lhe mexer pois todos sabiam quem era o seu dono. há uma vida necessariamente útil na escola. e o mais curioso é que, há tanta coisa inútil dentro deste universo. reuniões de duas horas e trinta que terão, obrigatoriamente que ter duas horas e trinta minutos para tratar de coisas que em trinta minutos ficavam resolvidas. ou os eternos inúteis sumários escritos no início ou fim de aula. como se fosse preciso dizer a um omnipresente senhor quantos parafusos foram apertados em noventa minutos. sumários que ninguém lê, nem mesmo quem escreve e que colocam o professor numa categoria estranha de trabalhador que depois de passado o tempo deve dizer ao seu senhor que cumpriu aquilo que disse que ia fazer. estranhos lugares estes que colocam a fábrica num lugar de cultura. estranhos e inúteis passos estes que um dia vão acabar de tão inúteis que são e por habitarem um espaço onde as coisas úteis são de tanta importância que o corpo e a consciência as reconhecem de olhos fechados...

||| da palavra dita à palavra escondida...


||| indisciplina. disciplina. um aluno disse um palavrão na minha aula. vai para o caralh... foi o que ele disse para um colega. eu estava perto. ouvi. lembrei-me de lhe dizer: isso não se diz. as pessoas não ouvem a palavra não. não pensem em pipocas. e as pessoas pensam. não se dizem palavrões e as pessoas dizem. os meus alunos, também. aquele aluno, ali, naquele momento, também. pensei então em batista-bastos. sim, naquele preciso momento foi o que apareceu claro no meu pensamento. de um dos livros que mais gosto e de um dos autores que mais admiro: o tempo não é favorável à afabilidade: confusamente, as relações entre as pessoas tornaram-se hostis por descorteses. o livro chama-se cão velho entre flores. nada mais adequado à situação. pensei depois em dar um sermão. tipo santo antónio aos peixes. sendo eu um peixe e querendo fazer dele um santo antónio: ou é porque o sal não salga, ou que a terra se não deixa salgar. ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber.e percebi a inutilidade do que ira fazer. sentei-me então junto do meu aluno indisciplinado. parei a aula. fez-se silêncio. vai para a rua... devem todos os outros ter pensado. não, não vai. para a rua não se manda ninguém. a rua é um lugar tão bom para passear e o que ele merecia era um castigo. melhor, uma lição. os castigos são coisas antigas e em desuso. uma lição. disse com o meu ar de professor e mestre e tudo o mais: sabes que não há coisa mais estúpida do que um palavrão? o quê professor? sim, não há nada mais estúpido do que um palavrão. e sabes porquê [entretanto uma aluna perguntou se se podia sentar no chão mais perto para ouvir]. ó professor desculpe, saiu-me. não tens que pedir desculpa. um palavrão é mesmo a coisa mais estúpida do mundo. porque é só uma palavra. se eu disser que cadeira é um palavrão como é que vocês faziam? é só uma palavra. se for dita com a maldade de todas as coisas o mal não está na palavra está na intenção. e isso sim, importa. vou-te contar uma coisa. eu tinha uma pessoa na minha família que morreu recentemente que era uma pessoa que eu gostava muito. era velhinha. para teres uma ideia, daquelas velhinhas como há nos filmes. de cabelo todo branco. um dia disse-me por ter vivido uma situação horrível: olha, vou dizer uma coisa muito feia, não oiças: que chatice. chatice. era esse o palavrão. eu nem percebi. pensei que ia sair pior. saiu isto. chatice para mim não era um palavrão. para ela, sim. compreendes como um palavrão é a coisa mais estúpida do mundo? por isso, evita dizer, aqui. aqui, na aula, há lugar para coisas para aprender e não coisas sem valor como palavrões que um dia serão esquecidos ou palavras que não tem valor. ele e quase toda a turma olharam para mim e sorriram. levantei-me e continuei a aula. e claro, cadeira passou a ser o palavrão lá do sítio...

||| duas razões e meia para estudar e esquecer...


||| ... na porta de entrada para a escola está este letreiro. acho que ninguém dá por ele. são umas palavras importantes. deviam estar em todas as escolas. acesso livre. e ao subir levei isto comigo. para a segunda aula com os meus alunos para os desafiar para o conhecimento. sim, eu como professor, não parto da premissa que os meus alunos estão automaticamente predispostos a aprender. que é a sua obrigação. que, como ouvi tantas vezes, é o seu trabalho. estudar não é um trabalho. é uma ocupação. e o espírito precisa de estar predisposto a estar ocupado. não confundir com motivação [que estando na moda é a maior falácia de todas]. é ocupado. concentrado. inquietantemente ocupado. curioso. predisposto a aprender. com acesso livre. e como o fazer? instalar a dúvida da utilidade do conhecimento e do estudo parece inútil até pelos tempos que correm. então? o caminho que escolhi foi o de mostrar aos meus alunos o conhecimento dos outros. e foi isso que fizeram numa aula indo questionar pessoas. gente que passava ou simplesmente estava por ali. sobre os temas/conteúdos que vamos trabalhar. o que sabem hoje as pessoas sobre isto e como o sabem. e o confronto com a realidade revelou-se imensamente avassaladora. que aqueles que diziam que os alunos hoje não sabem nada são os primeiros a errar nas questões que esses mesmos alunos lhes colocam. ó professor, as pessoas não sabiam isto que é tão básico. pois não. é por isso que vocês estão aqui. ou então, como ouvi de uns alunos: ó professor, o senhor esteve ali dez minutos a falar-nos de samuel becket. era um actor. foi mesmo giro. agora cabe-me desconstruir tudo isto em aula. o saber, o que os outros guardam. o que é o conhecimento num tempo, no seu tempo. e só assim se pode perceber o que é a história e o que são as classes sociais. os letrados e os não letrados. o saber do senso-comum e o saber erudito. e fazer perceber onde querem estar, eles. mais do que estudar ser uma ferramenta para a vida é dizer aos meus alunos, mostrando, em que lugar querem estar na construção social do seu tempo. e assim foi. os outros são sempre o melhor espelho de nós próprios...

||| de como fechar isto ou da utilidade do saber...


||| ... professor, isto não fecha! a aula era simples. lembro-me até, de enquanto aluno, ter feito um desafio muito similar há muitos anos. é uma técnica de projecção do eu para o lugar do outro já antiga. por isso o desafio de escrever uma carta para si próprio, projectando-se num futuro onde os objectivos se transformam em realidade até nem representava um grande desafio de inovação. o que quero ser? como quero ser? o que quero e tenho que aprender para ser o que quero? simples. o curioso foi depois. depois da carta escrita, de colocada dentro do envelope. a pergunta elevada às dezenas de almas: professor, isto não fecha! como é que se fecha? não percebi. por uns segundos não percebi. era demasiado óbvio para mim. como se fecha um envelope. é uma tecnologia do meu tempo, não deles. aquela de ter que lamber a cola para fechar a carta. é a sério professor? e os risos, sorrisos e afins. era mesmo, sério [metódico. importante, grave. sincero, verdadeiro. real.]. era tão sério que estive o resto do dia a pensar nisso. no que transformámos tudo isto. no que nos esquecemos de ensinar por pensar que é óbvio. do falar de um envelope e ser um objecto curioso. e pensar que há envelopes com tirar que só é preciso retirar para não ser pouco higiénico. de que tenho que levar selos. de que escrever uma carta, colocar num envelope e enviar por correio é algo de inovador no tempo do email e afins. e de como, por querermos tudo tão limpo nos esquecemos do abraço. porque está tudo ligado. a que não tocamos nos outros. no óbvio. no simples. no claro. é melhor o que deslumbra e cria distância do outro. e esta foi a aula em que aprendi. eu professor ia para ensinar e aprendi. que estamos cada vez mais longe do que nos torna humanos porque estamos mais longe das coisas simples. fechar um envelope é só um pequeno mundo desta distância que nos coloca como outros em nós mesmo... e isto não é uma escola. é outro lugar qualquer. a escola tem que ser um lugar de proximidade. de acolhimento. de humanismo. e tudo isto já não cabe num envelope...

21/10/2013

||| do pensar uma aula para depois de amanhã...


||| ... pedagogia: esta é uma aula para ser trabalhada em duas fases. a primeiro é composta por esta aula e a segunda pela próxima aula cujo conteúdo partilharemos para a semana. é uma aula de confrontos. de reflexão. de construção de um mote para uma conversa em jeito de aprendizagens pela dúvida.


||| ... metodologia: o professor começa por pedir aos alunos, no momento inicial da aula, que se coloquem numa posição confortável ou de escuta atenta. assim que as condições de silêncio e concentração reunidas lê uma carta. pode ser qualquer carta. mas tem que ter a forma e o conteúdo de uma carta escrita de alguém para outro alguém. de preferência um autor consagrado. dá-se como exemplo as cartas de amor de fernando pessoa a ofélia queiroz. depois de terminada a leitura lança imediatamente o desafio entregando uma folha em branco a cada aluno. escrevam uma carta a vocês próprios mas pensado que estão daqui a cinco anos. o tempo é relativo e podem ser encontradas outras soluções, como por exemplo, indicar o fim de ciclo ou fim de ano lectivo. depois de escrita a carta o professor entrega o envelope. os alunos preenchem. pode ser a morada da escola e o seu nome ou a morada pessoal. esta é uma opção do professor. por experiência e reserva de privacidade o contacto da escola é uma boa opção, para impacto de mudança e surpresa a morada pessoal é melhor. escrita a carta, sem o professor ou qualquer outra pessoa lerem, os alunos colocam a carta dentro do envelope e fecham. entregam no final ao professor que as coloca no correio para envio em correio normal. na segunda parte da aula o professor pede aos alunos, organizados em grupos de dois ou três elementos, para criarem um questionário com cinco perguntas. sobre o que querem saber no âmbito dos conteúdos e/ou assuntos curriculares. essas cinco questões devem incidir sobre elementos muito concretos e respostas muitos simples e breves. o objectivo seguinte é o que cada grupo ir colocar essas questões a dez a vinte pessoas e registar as respostas. a aula termina quando os alunos tiverem conseguido, fora da sala de aula [acompanhados ou não/depende do nível etário] reunir o número de respostas pedido. na próxima aula, cuja organização partilharemos aqui em breve, os alunos serão os comentadores dos resultados obtidos.

||| ... esta aula tem como tema: os outros. a primeira actividade potencia a reflexão em torno do eu como outro. o eu que define os objectivos e se projecta no futuro. um outro que sou eu e que ajuda na construção da identidade. a segunda actividade visa os outros como massa crítica de gente que olha para nós. e que tem um conjunto de conhecimentos. que conhecimentos são esses, apreendidos na escola ou por outra via formal ou informal é o objectivo deste exercício. deverá ser desconstruído pelo professor na aula cujo conteúdo revelarei em breve. permite ver e dar a conhecer aos alunos aquilo que os outros julgam como conhecimento em função do conhecimento científico actual e actualizado. permite analisar e diferenciar o que é o senso-comum, o mito ou a inverdade em confronto com o conhecimento teórico e científico.

||| as paredes não são transparentes e o futuro também não...


||| ... primeira aula da manhã. não sei a razão mas esta turma encanta-me. disse: todos de pé. todos de pé em cima das cadeiras. todos de pé em cima das cadeiras de costas para mim. estes são os meus dez minutos desta aula que tem três partes. e li. em voz alta. um texto que nunca tinha lido no contexto de aula. um texto de um livro que não abandona a minha pasta. este texto. no final, eles, de olhos fechados, em cima das cadeiras, de costas para mim bateram palmas. disse: podem sentar-se. a aula vai começar. por instantes roubei-lhes o tempo. e ouviram-me. eu li, em voz alta, sê como uma pedra. e pensei isso mesmo. um rochedo. no tempo das coisas que passam sempre sem parar, como um rio, o professor pode ser uma pedra. uma rocha, uma parede. um lugar de âncora para os seus alunos. eles são só pessoas e por serem tanto pessoas em construção, mais do que tudo, precisam disso. e fechei o livro. e comecei a aula que já tinha começado há muito tempo...

||| das coisas simples antes das outras coisas todas...


||| ... sem o romantismo da expressão. mais uma semana começa. o meu lugar, lá estava. ao chegar. sentei-me. tenho sempre o espaço de trinta minutos entre chegar à cidade e à escola e o meu primeiro destino. uma loja de esquina onde sou, agora, cliente assíduo. envelopes, tem? sim, lá ao fundo. empoeirados. lá estavam. pensei nestes movimentos que agora são uma espécie de rotina no meu tempo. e achei curioso. sentado, no lugar onde todos passam tinha pensado em tudo. quase com a certeza de estar a jogar com cartas antigas um jogo conhecido. era uma aula sem riscos, pensei. daquelas onde sabemos os gestos todos de tão rotineiros que são. mas não. nada era igual. nem o tempo, nem as perguntas. nem a dúvida mais curiosa de todas... e foi aí, sentado no fim do dia, no mesmo local onde comecei que me apercebi. deixámos de ensinar as coisas simples. as necessárias. aquelas que são simples como um movimento. fomos levados pela tecnologia ou pelas especializações. pelas grandes orientações de dezenas de teorias pedagógicas. enchemos tudo com o espectáculo das coisas todas e perdemos tudo na transformação complexa de uma coisa simples. e seguimos o deslumbre de tudo isso. com coisas interactivas, coloridas, perfeitas. máquinas e estratégias de encantar. e perdemos as coisas simples. as mais simples. como os gestos. e a certa altura achámos mesmo que os nossos alunos já sabiam o que não sabiam. e erravam por não ajuste a estas coisas todas que eram só todas as coisas que queríamos que funcionassem simplesmente. e eles, sem as coisas mais simples, admiravam o espectáculo sem o compreender. e hoje percebi tudo isso, com um simples envelope...

17/10/2013

||| da percepção do mundo ou do saber dos outros...


||| ... a razão de estudar. do «lat[im] studĭum, ĭī, "trabalho, cuidado, zelo; vontade, desejo..." e da razão dos outros. do saber dos outros. do valor que tem esse cuidado, esse zelo, esse desejo de saber. e do trabalho que é preciso para o conseguir. para a semana vou trabalhar com os meus alunos esta questão. transversalmente aos conteúdos a leccionar, os outros. aqueles que não somos nós. e para quê? para lhes mostrar a importância do conhecimento. que há esse valor intrínseco no acto de aprender. e que o que hoje estão a aprender estará, certamente, em parte, errado no futuro. já [espero] não encontraremos na rua, em conversas, gente que julgue e afirme que a terra é plana. mas durante séculos isso foi ensinado. eu também aprendi que não existia uma partícula que afinal existe e valeu um prémio nobel ainda há uns dias. ou que em aljubarrota houve uma técnica do quadrado que afinal não era um quadrado. entre tantas coisas. recordo-me de torga: pregados na parede da memória,/os dias do passado/amarelecem. recordo-me que como professor tenho a obrigação de lhes dizer que nem sempre a terra foi redonda. que nem sempre tivemos o luxo de saber que a gravidade era uma força explicável matematicamente. ou que a revolução francesa também se deu pela falta de pão. sabemos hoje muito mais do que ontem. e saberemos amanhã, certamente, muito mais do que hoje. há dias e saberes amarelados que já nos esquecemos que fizeram parte de nós como forma de ler o mundo. hoje obsoletos, ficam esquecidos. resta-me dar-lhes essa consciência. que somos seres em construção. permanente. como o conhecimento que nos habita. operários em construção. sábios com amor à coisa por descobrir. e se não lhes conseguir ensinar isto, nada de útil sairá da minha passagem no nosso tempo em comum...

||| do lado da cultura que dá para a janela aberta...


||| ... há uma coisa muito importante para mim enquanto professor. o tempo. não, não é o tempo de aula, que é importante. não, não é o tempo, agora contado em minutos, não, não é esse tempo. é o tempo. o tempo para pensar. o tempo para aprender. o tempo para mergulhar na cultura e no que se faz, pensa, diz, publica, inova, cria, refaz, desfaz, renova e muda. o tempo para me apropriar do movimento das coisas. o meu tempo de recreio. de refazer, de recriar. e assusta-me que mais do que as condições materiais e organizativas de tudo o que gira em torno do meu trabalho em sala de aula, nos andemos a esquecer que o mais precioso é mesmo esse tempo. e disto até nem me posso queixar. tenho esse tempo para pensar o que fazer, como fazer e como trabalhar com os meus alunos. e para a semana o tema das aulas será os outros. os outros que não somos nós. o que os outros pensam, sabem, compreendem. e uma pergunta emerge. o que os outros querem? e por instantes assusto-me. eu sei o que quero para a minha escola. quero uma escola pequena, com poucos alunos por turma, com uma relação de proximidade construída na confiança e no conhecimento. não é uma utopia. é o que quero. é pelo que luto todos os dias dentro da minha pequena esfera de poder. mas sei o que quero. o que me assusta é que muitos professores já sem sabem o que querem. não querem esta escola, mas de tanto tempo roubado para pensar nem conseguem vislumbrar o futuro. e mais do que nunca, esse desenho imaginário que que queremos é fundamental. não estamos presos numa ilha de hoje. há ali ao fundo um caminho mas desta vez, mais do que nunca, é preciso construir o caminho com as próprias mãos. e para retomar esse caminho o que é preciso é começar por reclamar esse lugar, esse espaço de pensamento: o tempo para o nosso recreio...

||| deixem-nos trabalhar, pensar e aprender...


||| ... testes. fichas de avaliação. mini-testes. questionários. exames. lixo. caixote do lixo. reciclagem. papel em branco. esse sim, útil. há muito tempo que quase aboli os testes, provas e coisas que tais da sala de aula. ou melhor, andam por lá, mas sem utilidade. apenas para registo. apenas para ficarem num dossier cerca de cinco anos [porque é obrigatório, dizem] e depois vão ser úteis sendo reciclados. que valor tem a repetição em formato de quinze ou vinte perguntas se depois, perante uma situação real, um desafio ou um problema os meus alunos não sabem aplicar o conhecimento pois não vem na forma de uma pergunta com linhas ou hipóteses de resposta? paralelamente defini outros modelos para me aperceber de onde estão os meus alunos na sua relação com o que aprendem em sala de aula. chamo-lhes marcadores de aprendizagem. fica giro e tem aquele ar de coisa pensada e teoricamente fundamentada no caso de me perguntarem. são desafios. complexos. tão complexos como uma máquina de Rube Golberg [cujo concurso já inscrevi os meus alunos] que são centrados nos conteúdos que tenho no tal programa que me obrigam a dar. partem destes mas vão muito mais longe. são pensados para os próprios desafios serem obstáculos que os alunos precisam superar com ajuda do conhecimento apreendido em contexto de trabalho comigo sobre temas concretos. não testam. questionam. e geram dúvida. e esse elemento é o mais fundamental. que um mecanismo de avaliação não se esgote em si mesmo. seja ele mesmo gerador de dúvida para promoção da curiosidade de saber mais. o certo e errado marcado a caneta vermelha há muito se esgotou. a provocação para o desenvolvimento de novos conhecimentos e capacidades tem uma potencialidade quase inesgotável se for bem pensado. e num tempo em que a educação se transformou numa máquina de repetição, teste, repetição, teste, repetição, teste, repetição, teste, repetição, teste, repetição, teste, repetição, teste seria importante parar, pensar e ver a utilidade de tudo isso para uma coisa ainda mais importante do que tudo isto... o tempo. o tempo que é retirado a cada um de nós como professores e aos nossos alunos para, de facto, aprender...

16/10/2013

||| do ser, criar e confundir... da razão à lógica...


||| ao pensar a próxima aula faço sempre, como professor, três exercícios. o primeiro é pensar que estava à mesa do banquete. sim, aquele escrito por Kierkegaard. recordo a frase perdida no meio de uma das conversas: concebe-se a coisa, mas dela não se pode dar razão. recordo sempre este livro pela razão que tem cada um dos personagens como se fossem parte de mim, como professor, na criação de um percurso. nunca penso numa aula. muito menos, apenas numa. penso num ciclo, num percurso. quase como um jogador de xadrez. penso no momento em si e nos três seguintes. para que haja uma lógica. uma harmonia. uma ligação. faço-o pelos nomes que dou às aulas. títulos, motes, legendas. como se cada fosse um desenho ou uma fotografia ou um frame de um filme que tem que ter um antes e um depois. porque por muito criativa que seja uma aula se não assentar no conhecimento não passa de um exercício idiota que se perderá no tempo. e se os meus alunos procuram tenho que ser eu, como professor, a dar-lhes significados e coerência. mesmo que o mundo inteiro, lá fora, seja completamente surreal. o segundo exercício de reflexão que faço é o da perspectiva. se eu estivesse sentado do lado dos meus alunos faria sentido a leitura que desejo dar à sequência de aprendizagens vividas que estou a pensar? o outro. os outros. eles que sou eu. eu que tenho que ser eles por um breve instante de sobreposição de personagens para entender o todo. ou esconder a surpresa. ou preparar o momento de agitação em jogo com o de acalmia. o de antecipar e prever dúvidas. faço-o e geralmente repenso a aula, as aulas, o percurso em função de cada turma. ligeiras cambiantes permitem uma mesma estratégia para alunos diferentes em turmas diferentes e ciclos de aprendizagem diferentes. por isso tenho que os pensar. sentar-me no meio deles imaginariamente e dizer: isto faz sentido. em último lugar, desenho as soluções. [re]centro o conhecimento que quero que apreendam. coloco-o o saber e os saberes a mobilizar no centro da estratégia. e penso em desafios. caminhos, actividades. algumas que uso com frequência. outras, pensadas no momentos. mas ao levar a chave à porta da sala nunca sei qual vou usar. sei só que as levo pensadas comigo para um fim. e a próxima aula será para serem eles a pensar os outros. porque a história e a construção social é feita de outros. muitas vezes antes de nós. partilharei, como sempre, a metodologia na próxima semana. mas só com o colocar da chave na fechadura da porta da sala saberei, ao certo, o que vou fazer...

||| les un et les outre... ou o som de cada uma das salas...


||| ... quando penso nas minhas turmas lembro-me sempre de um filme e de um som. este. uns e outros. a tradução em português deu qualquer coisa como retratos de vida. e recordo george steiner: a qualidade do silêncio está organicamente ligada à da linguagem. gosto muito desta sua entrevista. volto a ela muitas e muitas vezes. para além disso é a única fonte de fundamentação teórica que tenho para algumas vezes falar de harry potter como literatura a estar atento. com tudo isto estou a pensar na última aula dada aos meus alunos de outra turma. se precisam de ler, de desenvolver a escrita, de trabalhar a palavra, o primeiro desafio é conhecer o que está sempre no meio de tudo isso. o som e o silêncio. e assim foi. de olhos vendados foram [re]descobrir lugares comuns. a sala de aula onde estão. as escadas que sobem e descem todos os dias. a entrada e a rua. os sons. o caminhar sem ver. só para ouvir. não era o simples exercício de não ver. era o exercício de escutar o silêncio de que são feitas as palavras e as conversas. na sala o exercício transformou-se num trabalho concreto e criativo de olhar e ver nas imagens conceitos. e em vinte e cinco minutos, perante cinco fotografias de património local e social conseguiram associar mais de trezentas palavras construindo espaços entre os silêncios vividos. curioso que raramente damos esse poder ao silêncio. esse poder que steiner refere. esse lugar de vazio onde tudo habita. até as palavras que precisamos para explicar a realidade...

15/10/2013

||| eles não sabem que o sonho... ainda está no vitral...


||| ... do jornal, a poesia dos meus alunos...

o perfume transmite paz
e a vida fazia-se de avanços e recuos
e voltava tudo ao início
deitar tudo cá para fora,
o dinheiro é pouco mas vai dando
ninguém estudou para isto...

... se por momentos olham para o seu património, se pensam no tempo, se compreendem o hoje, podemos partir daqui para interpretar o ontem. e quem sabe o amanhã. mas importa-me o ontem pois é isso que está no programa. no programa não está o hoje. está o ontem. e o que importa o ontem, hoje? para eles? para mim? todos nós estamos sedentos de significados. eu, como professor, consigo ler um pouco mais a realidade do que eles. penso e tenho algumas ferramentas mais desenvolvidas pelo tempo e pela experiência. digo-lhes sempre que experiência não é razão. podemos ter passado a vida toda a apertar o parafuso mal e temos imensa experiência numa coisa que não devia ser assim. importa a reflexão sobre a experiência. e isso sim, ajuda-me como professor e a eles como alunos a perceberem o hoje, o agora, o aqui. só assim podemos partir para ontem sabendo de onde estamos...

... dos meus alunos, em sessenta minutos...

a minha partida foi horrível
mas consegui recuperar, ainda não foi desta
que alcancei o meu lugar.
uma época cheia de vitórias, com razões para desconfiar
uma vez perdidas, só resta recordar.
estava um pouco na defensiva mas depois de uma volta rápida
dei pela falta da pessoa desaparecida
era a chave do meu grande e perfeito lugar.

||| de como uma aula pode ter três partes e meia...


||| ... pedagogia: uma aula pensada para não ser um contínuo processo de trabalho mas a gestão dos momentos de aprendizagem partilhada em diversidade de actividades. trabalhar o conceito de informação, história local, comunidade e investigação. dar continuidade e razão/significado ao trabalho realizado na aula [não] preparada já explicada aqui. é assim uma aula em três momentos...

||| ... metodologia: trabalho prévio do professor | seleccionar 20 fotografias das enviadas misturando registos de diferentes turmas e temas. criar uma apresentação (ver aqui - as fotografias apresentadas são todas da autoria dos alunos). primeiro momento: a aula requer um foco completo dos alunos nos noventa minutos de trabalho e um ritmo de concentração elevado. é preciso um momento inicial com a duração máxima de cinco minutos em que os alunos, em silêncio [e preferencialmente de olhos fechados] ouvem uma música ou um poema de um autor português que esteja ligado historicamente ao local ou seja relevante/fonte de inspiração para o trabalho a realizar no momento seguinte da aula. após este primeiro momento o professor explica, em dez a quinze minutos, os conceitos que quer associar. pode ser qualquer temática ou conteúdo programático. este é o momento de enquadramento teórico do desafio seguinte. no segundo momento da aula o professor desafia os alunos a sentarem-se em grupos de 3 ou 4 elementos. entrega a cada grupo uma folha de jornal do dia (recomenda-se jornais com algum conteúdo e texto...). cada grupo deverá ficar com uma página do jornal que o professor entrega com a indicação que só podem escolher um dos lados da página entregue. dá, então, o professor a indicação à turma que vão ter que usar exclusivamente e unicamente palavras que encontram naquelas páginas para criar um texto crítico sobre o conteúdo/conceito a desenvolver. o desafio que coloquei foi o de criar a letra de uma música partindo de uma das fotografias que foi colocada visivelmente para a turma observar em torno do conceito de património imaterial. mas este desafio pode ser alargado a qualquer tema, assunto ou conteúdo. a criação obriga os alunos a lerem, assim como, a escolherem palavras e a questionarem, muitas vezes, significados de palavras que desconhecem. devem então sublinhar as palavras escolhidas e riscar todas as outras. numa folha à parte escrevem o texto que entregam no final do tempo. esta actividade deve ter cerca de sessenta minutos para realização.  terminada esta parte da aula o professor inicia o terceiro momento. este momento deve ter entre 5 a 10 minutos. pedindo aos alunos para preparar a sala, afastando as cadeiras e mesas e criando um círculo os alunos deverão construir uma ideia de turma enquanto grupo para um objectivo. várias modalidades de o fazer são possíveis. a opção tomada foi o de ter várias bolas pequenas que são passadas entre os alunos que devem, sem falar, articular a comunicação entre si para não as deixarem cair. pode ainda existir a variação de tal experiência ser feita com balões. esta última actividade pode parecer desligada das antecedentes mas será o mote para uma dinâmica para a criação de uma actividade de construção colaborativa do conhecimento em torno de uma temática concreta numa aula futura...

||| ... a relação entre aulas é tão importante como não pensar que uma aula tem que ter um movimento contínuo e continuado. pode não ter. pode ser um conjunto em forma de manta de retalhos com diferentes momentos pensados para diferentes fins. importa que o professor tenha sempre a visão global e a orientação e controlo desses momentos como uma estratégia pensada para que faça sentido a si e aos seus alunos. esse é o desafio.

||| de não saber como fazer ou simplesmente tentar...


||| ... lembro-me dos meus melhores professores. dos meus, aqueles que me ensinaram. lembro-me do que gostava neles, do que aprendi com eles, do que deles ficou em mim, do que deles, os meus professores preferidos, replico ou tento replicar. lembro-me também dos meus piores professores. muitas vezes pela diferença em relação aos primeiros. ou pela personalidade. ou por, com eles, não ter encontrado um caminho útil. ou simplesmente porque eram tudo menos professores. nada disto me assusta. com uns e com outros, aprendi. o que quero. o que não quero. o que gosto, o que não gosto. mas aprendi. lembro-me e relembro-me deles e do que deixaram em mim. o que me assusta, preocupa e até me deixa a pensar no professor que sou são todos aqueles, anónimos, cobertos pelo nevoeiro do tempo, de quem não recordo o nome, o rosto, as aulas, o que aprendi. aquela massa imensa de gente em terra de ninguém que não me deixou nada. que passou por mim e simplesmente, passou. é dessa bruma que tento fugir como professor. tentando ser o melhor ou o pior professor do mundo. mas nunca indiferente. nunca sem vida ou a pensar que estou ali como estaria em qualquer outro lugar. a minha profissão é uma das mais nobres do mundo. é um legado de história. um espaço de tempo que não se pode esquecer. e o que quero deixar nos meus alunos não é a memória de mim. é o que comigo possam aprender. que lhes fique para a vida. na vida. com eles, como ferramentas para edificarem a sua própria caminhada. bom ou mau, sim. no meio, não está a virtude. está a indiferença de quem ensina sem encanto no que faz...

14/10/2013

||| ensinar os lugares da imaginação ou da inutilidade das coisas...


||| ... sim, isto foi o fim da minha primeira aula da manhã. os meus alunos haviam acabado de trabalhar quase sessenta minutos em criação de textos partindo do património e do jornal do dia [em breve apresentarei a metodologia de aula que comecei num post anterior]. todos temos memórias que não são nossas. mesmos os nossos alunos que podem ter, no máximo, um terço da nossa vida, das nossas experiências, do que vivemos. esta é daquelas memórias que temos, não a tendo. uma sala cheia de balões. para o desafio colectivo de não os deixar tocar o chão. e fazê-lo em conjunto. todos. um desafio que obriga todos a envolverem-se. só podiam sair da sala quando tivessem passados cinco minutos neste lugar de imaginação. sim. cinco minutos sem um balão tocar no chão. sim, cinco minutos de uma aula de uma hora e meia. não foi nenhum crime de lesa-pátria. e o que somos nós, professores, senão aqueles que, de candeia na mão podemos, em cinco minutos, iluminar o caminho duas vezes porque vamos à frente? porque transportamos connosco os sonhos que eles querem viver. e porque temos os dever de lhes dar as memórias que poucos o podem fazer por não saberem como, nem ter os cinco minutos que temos, mesmo ali à mão, para gastar... é o nosso dever. o nosso imperativo e isso é muito mais do que ensinar...

||| de como vinte e tal almas juntas não são uma banda...


||| ... estes são os meus alunos no início da aula, hoje. de costas para mim. a ouvir uma música logo no início da aula. que música? esta. estiveram assim três minutos e meio. em silêncio. o mesmo nome que dei a esta aula. todas as aulas têm um nome, um título, um mote. não é um sumário [coisa ainda permitida pela falta de imaginação ou simplesmente pelo sentimento estranho do dever cumprido num quadradinho onde não cabe nenhum resto de alma]. o nome desta aula foi: cenários e silêncio. quando estavam assim pensei muito seriamente por nunca os ter visto assim. seriam eles uma turma? ou seriam um grupo de pessoas que se encontrava diariamente no mesmo local, à mesma hora, há pelo menos dois anos? e lembrei-me do conceito turma, da origem da palavra. do lado guerreiro da mesma. da organização da cavalaria e grupo que trabalhava em conjunto para um mesmo fim. e perguntei-me, como professor, seriam eles uma turma? quanto tempo perdemos nós, professores, a criar turmas? ou simplesmente achamos que o são porque vão passar tempo juntos? tiramos tempo para observar os grupos que se formam dentro desta turma? ou criamos mesmo estratégias para que aquelas vinte e muitas almas se tornem numa turma? eles ali ficaram. eu, preparei logo depois deste pensamento, um desafio para os levar a actuar como turma. juntos para um desafio comum. todos. e o resultado foi ver que ainda lhes faltam batalhas de imaginação para o conseguirem... mas deram um passo, hoje. [e que bom é saber que são pessoas antes de serem uma turma e que podemos sempre ver cada um deles nessa organização artificial que cada vez mais faz menos sentido... acabem-se com as turmas. criem-se novas coisas que sejam desafios de futuro e não tenham em si impregnados os princípios do aluno anónimo que cabe em qualquer lado, que pertence, naturalmente, a qualquer horda militar treinada para obedecer...]

||| do ser ridículo ao universo infinito da autoridade...


||| ... sabia que ideias levava. esta não estava prevista. ao chegar fui a correr a uma loja comprar três bonequinhos iguais a este que me acompanhou no sofá no meu momento de espera que antecede sempre o início da primeira aula. os meus alunos estão por definição oficial no chamado ensino secundário. é ridículo fazer qualquer coisa com eles com este bonequinho. é? ou será ridículo exactamente o oposto? não o fazer? que medo temos todos desse lado do sorriso, do riso, do imprevisível comportamento no uso do humor. só um. o de perder a autoridade. será? não, não é. é mesmo de sermos ridículos e de perdermos a autoridade, com isso. pois eu sou um professor que não tem medo de ser ridículo. nunca encontrei sucesso no formalismo artificial. nunca encontrei proximidade e transferência de conhecimento nas formas rígidas de relação pedagógica, como lhe chamam aqueles que sabem destas coisas que eu, professor, não sei. é que a minha autoridade na relação com os meus alunos só vem de uma coisa. do imenso respeito que lhes tenho. a cada um deles e a todos eles. e se tenho alguma inteligência em mim não lhes podia negar o humor que, para mim, é um dos lados dessa mesma inteligência. não é por sorrir, rir e brincar muito a sério com eles, com eles como alunos e como pessoas, que o respeito se perde. é mesmo disso que ele vive, se alimenta e onde se alicerça. eles sabem e sentem que eu sou verdadeiramente ridículo também para eles e com eles e todas as regras de uma relação social que terá que durar um ano lectivo se tornam muito mais claras e justas...

11/10/2013

||| do que não sei e gostava de saber...


||| ... pensar uma aula. preparar, não. planificar, muito menos. pensar. uma aula é um exercício vivo e livre. as barreiras são os limites do conhecimento. pensar. primeiro o conceito. o ponto de partida. muito bem definido. quero ensinar isto. este conceito. este facto. estas coisas. depois o como. vinte e cinco pessoas (alunos, não. pessoas). e o canivete suíço de estratégias. não uma. no mínimo quatro. pensadas. quatro formas de ensinar aqueles conceitos, factos, aquelas coisas. meter tudo no saco para levar. acordar de manhã cedo. estado de espírito, check. tempo: chove, faz sol, check. chegar à escola. respirar fundo. sentido os sons, o ambiente do dia. ouvir os bons-dias. as primeiras perguntas. algumas dúvidas. olhar para o saco com quatro ideias. entrar na sala. olhar para aquelas vinte e cinco pessoas. sentir o que procuram naquele dia. naquela hora. perguntar: por onde querem começar hoje: ó professor, estamos cansados. ó professor gostou das fotos? ó professor, o que é que vamos fazer hoje? tudo indicações para a escolha. tomar a decisão. fechar a porta. encher o peito de ar para acompanhar a procura de um sossego inicial. começar... a escolha feita é agora um desafio para noventa minutos. começa a aula...

||| do [não] prazer de ler...


||| ... de tempos a tempos regresso a uma procura constante sobre a temática da promoção da leitura junto dos meus alunos. faço uma busca no universo virtual. entro em bibliotecas na procura de ideias que possam servir de raiz às minhas. e vejo associadas, tantas vezes, palavras que me assustam. o prazer de ler. o gosto pela leitura. e mais umas quantas. eu não tenho prazer ao ler. sinceramente ler é um dos exercícios físico mais desagradáveis que existem. fico com dores nas costas e nos olhos. ao fim de algum tempo sinto-me imóvel e o mundo a andar. geralmente os braços pesam ao fim de algum tempo. e mais do que isso mudo de posição várias vezes mesmo sentado numa confortável cadeira ou banco de jardim. não é esse o conceito que associo ao facto de ler muito. e leio. agora menos que o tempo é preenchido por muitas coisas para além das palavras escritas e lidas. prazer não a palavra certa. nem o gosto enquanto conceito de momento. desisto, quase sempre, ao ver estratégias associadas a estes conceitos. eu e os meus alunos, creio que, também. até porque ler exige tempo e concentração. um desligar do mundo. e muitos deles não o querem fazer. uso sempre a mais simples das estratégias. ler é poder. ler é conhecimento. ler é saber o futuro antes de todos os outros porque o passado está à nossa frente. levo sempre livros para as minhas aulas. na minha mala anda sempre um. mas levo sempre livros. os alunos perguntam tantas vezes: "ó professor como é que saber isso?" e a minha resposta imediata é [passando o livro para o seu universo e as suas mãos]: "está aqui, página cento e tantos, ora espreita..." e assim o livro ganha vida. não é prazer. é vida. porque para além do vício da leitura está o saber que fica incorporado ao ler. esse é um exercício de provocação. talvez um dia veja escrito num qualquer lugar: a provocação da leitura... e deixemos o prazer e o gosto para quando o tempo passar a ser das palavras e da memória como a imagem de camilo castelo branco que os meus alunos encontraram numa caminhada em conversa...

10/10/2013

||| do medo de brincar a sério...


||| ... sento-me para pensar cinco formas de trabalhar com os meus alunos na próxima aula. e penso que tenho que levar papel, vendas para os olhos e velas. a idade média. penso em mais de mil coisas que podia fazer. não concordo com a comercialização da história nem acho que as feiras e coisas que tais representem o que terá sido uma época. e tenho no programa: a construção do social. e tenho que ir falar do medo. e o medo tem uma época. a idade média. nasceu lá. cresceu lá. no escuro. com o escuro. com a ausência de luz. com a imaginação. ainda ontem estive na casa das história paula rego e ouvi uma lição única. sobre a memória. e sobre a lembrança. sempre achei fascinante esse conceito. que somos aquilo de que nos lembramos. nada mais. e de como criamos lembranças pela auto determinação e auto construção da memória que nem sempre é a reprodução do real. eu, que sou professor, crio lembranças nos meus alunos. gostava de o saber fazer melhor. uma coisa que um dia lhes vai parecer natural mas que é um fragmento do conhecimento apreendido. uma lembrança. nem saberão, certamente, identificar como "sabem aquilo". da mesma forma como eu, quando me perguntam: "ó professor, como é que sabe isso", respondo tantas vezes: nem eu sei... é só algo que me lembro. sem recordar a fonte ou a forma. para isso só preciso dessas ideias. a única ferramenta que tenho como professor: imaginação e conhecimento. única, em simbiose perfeita. o resto são coisas. e coisas são só coisas. instrumentos. e o que importa não são os instrumentos. é tudo aquilo que os faz nascer e renascer. é tudo aquilo que cria lembranças...