23/10/2013

||| amanhã é sempre tarde demais...


||| ... recorro a hemingway para começar. não quero deixar-me levar, mas tenho por onde escolher? isso de ter por onde escolher é coisa que nos tiraram. posso não aproveitar isto; e o que poderá vir depois? não procurei nada disto, e se nos calha fazer uma coisa que remédio há senão fazê-la? e recordo um professor que tive, melhor, dois. melhor, duas professoras. e relembro a última aula que dei. curiosamente as duas professores eram de áreas disciplinares diferentes. uma de filosofia e uma de física/química. a primeira escreveu o seguinte dilema no quadro: num tubo com vácuo estão uma tartaruga que se chama platão e uma lebre que se chama sócrates. numa corrida entre ambas, quem ganha. e a aula foi toda sobre isto. nunca esqueci aquela aula. até hoje, quase trinta anos depois, acompanha-me. é actual. é uma ferramenta útil. disse a professora naquela altura que nem imaginávamos o que era preciso sabermos para conseguir responder a tudo aquilo. desde as histórias clássicas às dos irmãos grimm. e fomos ler. lendo. e ficou tudo para o futuro. as estórias, o pensamento de platão que era do de sócrates que não era dele. e tanta coisa mais. e a professora de física/química que nos encomendou uma experiência [como fazia quase todas as aulas], encomendas era a palavra que usava, para provarmos que os corpos são bons condutores de electricidade. lembro-me de ligar fruta entre si e acender uma lâmpada. que importa a simplicidade de tudo isso comparado com o que me ensinou para o futuro. devemos pedir encomendas. trabalho é sempre um exercício de esforço. uma encomenda é um desafio de criatividade. e hoje recordo a minha aula. e o medo que sinto ao ver que somos cada vez mais professores de um tempo que já não existe e não do futuro. e o que temos, só o que temos, é mesmo futuro para ensinar. aquele que eles, os nossos alunos, vão viver. se tudo correr pelo melhor, alguns vão mesmo construir futuro. mas a maioria vai viver nesse outro tempo. e assusta-me que deixemos de ser professores no seu tempo a pensar no futuro. a desenhar com a ciência de hoje esse futuro com os nossos alunos. só assim podemos ensinar qualquer coisa verdadeiramente útil...