22/10/2013

||| da palavra dita à palavra escondida...


||| indisciplina. disciplina. um aluno disse um palavrão na minha aula. vai para o caralh... foi o que ele disse para um colega. eu estava perto. ouvi. lembrei-me de lhe dizer: isso não se diz. as pessoas não ouvem a palavra não. não pensem em pipocas. e as pessoas pensam. não se dizem palavrões e as pessoas dizem. os meus alunos, também. aquele aluno, ali, naquele momento, também. pensei então em batista-bastos. sim, naquele preciso momento foi o que apareceu claro no meu pensamento. de um dos livros que mais gosto e de um dos autores que mais admiro: o tempo não é favorável à afabilidade: confusamente, as relações entre as pessoas tornaram-se hostis por descorteses. o livro chama-se cão velho entre flores. nada mais adequado à situação. pensei depois em dar um sermão. tipo santo antónio aos peixes. sendo eu um peixe e querendo fazer dele um santo antónio: ou é porque o sal não salga, ou que a terra se não deixa salgar. ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber.e percebi a inutilidade do que ira fazer. sentei-me então junto do meu aluno indisciplinado. parei a aula. fez-se silêncio. vai para a rua... devem todos os outros ter pensado. não, não vai. para a rua não se manda ninguém. a rua é um lugar tão bom para passear e o que ele merecia era um castigo. melhor, uma lição. os castigos são coisas antigas e em desuso. uma lição. disse com o meu ar de professor e mestre e tudo o mais: sabes que não há coisa mais estúpida do que um palavrão? o quê professor? sim, não há nada mais estúpido do que um palavrão. e sabes porquê [entretanto uma aluna perguntou se se podia sentar no chão mais perto para ouvir]. ó professor desculpe, saiu-me. não tens que pedir desculpa. um palavrão é mesmo a coisa mais estúpida do mundo. porque é só uma palavra. se eu disser que cadeira é um palavrão como é que vocês faziam? é só uma palavra. se for dita com a maldade de todas as coisas o mal não está na palavra está na intenção. e isso sim, importa. vou-te contar uma coisa. eu tinha uma pessoa na minha família que morreu recentemente que era uma pessoa que eu gostava muito. era velhinha. para teres uma ideia, daquelas velhinhas como há nos filmes. de cabelo todo branco. um dia disse-me por ter vivido uma situação horrível: olha, vou dizer uma coisa muito feia, não oiças: que chatice. chatice. era esse o palavrão. eu nem percebi. pensei que ia sair pior. saiu isto. chatice para mim não era um palavrão. para ela, sim. compreendes como um palavrão é a coisa mais estúpida do mundo? por isso, evita dizer, aqui. aqui, na aula, há lugar para coisas para aprender e não coisas sem valor como palavrões que um dia serão esquecidos ou palavras que não tem valor. ele e quase toda a turma olharam para mim e sorriram. levantei-me e continuei a aula. e claro, cadeira passou a ser o palavrão lá do sítio...