25/10/2013

||| das bicicletas em outubro ou o cinzento dos dias...


||| ... às vezes admiro os comentários dos outros que como eu se dedicam à nobre arte de ser professor. falam do reconhecimento social [ou não, segundo alguns] e de todas as condições. da carreira. admiro-me. quando me perguntam o que faço digo: sou professor. ah... isso está mau, dizem em ar penoso. eu respondo sempre: não, por acaso não está. o que está mau é tudo o resto e não a minha profissão. na minha sala de aula tenho alunos que sabem mais do que eu sabia. que estão com acesso a conhecimento que eu não tive enquanto aluno e que são acompanhados por professores [uns bons e outros menos bons] muito mais qualificados do que eu tive. mau? não. má está a política e as regras. e penso sempre que se não for eu a dizer o que tem de bom ser professor é logo uma sina e não uma arte. e não é uma carreira. é mesmo uma nobre arte. saramago dizia da sua arte que chamava trabalho que "pegava às nove horas e saía para almoço às treze, retomava às quinze e saía às dezassete horas". curiosamente sinto o mesmo. mas trago-a comigo. na pele, na roupa, no pensamento. não como profissão. como arte. porque uma profissão por muito nobre que seja não tem este poder imenso de transformar o pensamento, de o enriquecer, de o transformar. de formar pessoas pensantes, conhecedoras, inquietas. está tudo mau. mal. errado. sim, está. mas não é na minha sala de aula. é tudo à volta. e só na minha sala de aula eu sou professor. na escola sou um funcionário. na rua sou um trabalhador. na minha sala de aula sou um professor. para os meus alunos, na rua, também sou o seu professor. e isso não é construído por decreto, reconhecimento social ou pelo qualquer gesto político. é feito por mim, todos os dias, naquelas quatro paredes onde mora a arte de ensinar as almas inquietas...