08/10/2013

||| de como estou velho ou do correr atrás do prejuízo...


||| ... powerpoint. um edifício escuro e estranho projectado numa sala de aula. o mesmo edifício que fica a cinco/dez minutos a pé da minha sala de aula. por isso, tudo para a rua. nenhum powerpoint, por muito bonito [estranho conceito de beleza] que seja tem o poder de uma caminhada em conversa até ao espaço e regresso em conversa à sala de aula. e assim foi. deixem tudo, levem só a máquina fotográfica que vos pedi na aula anterior. primeiro momento em que me senti velho. "ó professor, não trouxe máquina, o telemóvel tem câmara, serve?"é claro que serve. a aula não é de técnicas de fotografia. é sobre a história da cidade e da construção social dos espaços. a máquina fotográfica é para os meus alunos que nasceram quase todos depois de mil novecentos e noventa e cinco um objecto de museu ou de referência de empréstimo dos seus pais/educadores. curioso, pensei. já estou desactualizado. e eu que achava que estava a acompanhar o ritmo do mundo. depois, lá fomos. e nada há mais rico do que uma caminhada numa manhã de sol. as conversas fluem. as perguntas também. fomos pelas ruas com uma missão. fotografar espaços e pessoas. o património material e imaterial. as coisas, as vidas, as memórias e o futuro. e o amor e a solidão. primeira paragem. o tal edifício. o espaço que alberga agora o centro português de fotografia. era uma ironia que eles perceberam. eles, fotógrafos da cidade e das pessoas por umas horas olhavam para o centro onde essas memórias são guardadas. e lá estava. a estátua. pergunta minha: "sabem que está ali abraçado apaixonadamente a uma rapariga semi-nua?". era ver os olhares a procurar como se fosse possível tal acontecer no meio da cidade. sim, era camilo castelo branco. e lá ficámos uns bons minutos a conversar sobre o escritor, o amor, a ana plácido, a prisão, as memórias do cárcere e o amor de perdição. ficaram curiosos para ler o livro. gostei disso. mas antes de lhes dizer qual era a obra de referência de camilo castelo branco voltei a sentir-me velho. tentei o exercício de os deixar na dúvida. aquela coisa estranha agora de dizer: "vá, na próxima aula quero que me digam qual o livro de referência da obra de camilo castelo branco". qual próxima aula... uma das minhas aulas pegou no telemóvel e quatro ou cinco segundo depois respondeu: "amor de perdição". "mas ó professor, o homem fartou-se de escrever. tem aqui bué livros deles". e eu, velho. aqui era na internet. sim que a cidade tem wi-fi. eu uso e não me lembrei que eles também. eu, velho. e percebi que aquelas receitas velhas já não faziam sentido. o caminho faz-se caminhando e fomos seguindo. falámos da história da cidade. do espaço público e do espaço privado. de como a privacidade é uma coisa moderna. de como eram aquelas ruas antes de serem como são. chegados ao rio falámos dos desastres históricos e da história das coisas. das pontes, do vinho, do turismo. e numa zona sem wi-fi voltei a sentir-me da idade dos dias que correm. uma aluna baptizou a outra dizendo que ela parecia uma patapon. sim, que eu sou do tempo da cultura francesa ter mais valor do que a americana. e eu sorri. "ó professor, gosta da palavra que eu inventei: patapon?". por instantes pensei que era brincadeira. não era. tive que lhe desconstruir o sonho de ser inventora de palavras e expliquei: (tout) doucement. quand les blés seront poussés, alors la pluie se mettra à tomber tout à petit patapon, sans discontinuer, sans plus savoir sur quoi elle tombe que si c'était sur la mer [proust]. mas para não me sentir velho outra vez fui um pouco mais longe, ao meu dicionário de coisas urbanas: Patapons are black and white creatures with a large single eye.. "fogo, o professor sabe bué..." e eu sorri. já não era velho. e respondi... queres que te explique de onde vem a expressão "...fogo" antes de tudo que disseste? e sem dar por isso estava de regresso à sala de aula com uma aula feita de espantos, descobertas e coisas belas...