22/10/2013

||| de como fechar isto ou da utilidade do saber...


||| ... professor, isto não fecha! a aula era simples. lembro-me até, de enquanto aluno, ter feito um desafio muito similar há muitos anos. é uma técnica de projecção do eu para o lugar do outro já antiga. por isso o desafio de escrever uma carta para si próprio, projectando-se num futuro onde os objectivos se transformam em realidade até nem representava um grande desafio de inovação. o que quero ser? como quero ser? o que quero e tenho que aprender para ser o que quero? simples. o curioso foi depois. depois da carta escrita, de colocada dentro do envelope. a pergunta elevada às dezenas de almas: professor, isto não fecha! como é que se fecha? não percebi. por uns segundos não percebi. era demasiado óbvio para mim. como se fecha um envelope. é uma tecnologia do meu tempo, não deles. aquela de ter que lamber a cola para fechar a carta. é a sério professor? e os risos, sorrisos e afins. era mesmo, sério [metódico. importante, grave. sincero, verdadeiro. real.]. era tão sério que estive o resto do dia a pensar nisso. no que transformámos tudo isto. no que nos esquecemos de ensinar por pensar que é óbvio. do falar de um envelope e ser um objecto curioso. e pensar que há envelopes com tirar que só é preciso retirar para não ser pouco higiénico. de que tenho que levar selos. de que escrever uma carta, colocar num envelope e enviar por correio é algo de inovador no tempo do email e afins. e de como, por querermos tudo tão limpo nos esquecemos do abraço. porque está tudo ligado. a que não tocamos nos outros. no óbvio. no simples. no claro. é melhor o que deslumbra e cria distância do outro. e esta foi a aula em que aprendi. eu professor ia para ensinar e aprendi. que estamos cada vez mais longe do que nos torna humanos porque estamos mais longe das coisas simples. fechar um envelope é só um pequeno mundo desta distância que nos coloca como outros em nós mesmo... e isto não é uma escola. é outro lugar qualquer. a escola tem que ser um lugar de proximidade. de acolhimento. de humanismo. e tudo isto já não cabe num envelope...