23/10/2013

||| do proibir, do espaço público e privado...


||| ... castraram-nos o espaço público. esta é uma fotografia da minha última aula. as duas pessoas nítidas são meus alunos. e este espaço, assim como toda a cidade, foram a minha sala de aula. mas isto era bonito [ou não] se tudo o que conheço como certo não estivesse, hoje, castrado. roubado. cercado. e não tinha percebido até um grupo de alunos me vir dizer: professor o senhor está a dizer que não podemos fazer as perguntas para o nosso trabalho aqui. aqui. aqui era o espaço público. não. de um serviço público. não, o metro já não é um serviço público. é privado. ou público gerido por privados. logo o espaço da cidade, da ágora, já não é público. é semi-público ou semi-privado. ou castrado. ou sequestrado. e falei com o tal senhor de ar de segurança que segura coisa nenhuma e falei-lhe do privado e da privacidade. de que a privacidade é uma coisa com cem anos. e o privado, muitos mais. e o público ainda mais, muito mais antigo. e se fosse pela palavra comunal ia aos primórdios da humanidade e ele, com ar de segurança da coisa segura, não conheceria a palavra. falei da revolução republicana e do é o direito à privacidade versus o dever de cidadania. e que ambas estão na constituição. que não é uma empresa. nem pública, nem privada. e a minha sala de aula mudou de lugar. não importava o confronto. importava a aula. o ensinar. que o que é público é a terra, não é o espaço que a ocupam outros que dela dizem ser privada confundido tudo o que é o dever de utilização. e ao subir as escadas uma senhora de certa idade comentou comigo, eu em papel de professor, que é perigoso levar os alunos para a rua para fazer perguntas. que a aula se faz na sala. e eu sorri. os meus alunos lá tinham regressado com os questionários completos. ó professor, fomos até ali aos taxistas e quase todos nos responderam. foi fixe. e o pessoal dos correios também. senti que havia ainda ilhas gaulesas neste universo dos espaços sequestrados e das mentes sequestradas. lugares onde eles foram. e o que aprenderam, mais do que as respostas que obtiveram no questionário que era a sua missão, foi o exercício da cidadania e da luta pela liberdade no espaço público que é preciso reclamar de volta... ou ficará sequestrado no espaço físico e nas mentes dos outros...