31/10/2013

||| a guerra dos mundos ou o exercício da surpresa...


||| ... não é que os meus alunos saibam mais do uso da tecnologia digital do que eu. é que esse é o seu tempo. este é o tempo de tudo isso e eles já nasceram com tudo isso acessível. eu não. eu sei utilizar um livro. ou uma folha em branco. e não vou correr atrás do prejuízo. de não ter nascido neste tempo. porque se assim fosse, seria eu o aluno. importa-me sim, estar no meu tempo e para além deste tempo. com um pé no futuro. ou melhor, com a ideia de saber o que se faz de melhor em cada domínio. das artes à ciência, da cidade ao espaço público. estar atento. olhar e procurar. saber dizer que existe isto e aquilo que podem ir ver, ler, ouvir, saber. estar atento ao que se passa perto e longe de mim. num aula passada desafiei os alunos a criarem uma peça de teatro com quinze minutos [na lógica do modelo do teatro rápido]. um dos grupos de alunos falou-me que queria abordar as questões da guerra/conflito israelita. fiquei na dúvida se saberiam de que se trata, de facto. e percebi que conhecem o conceito de guerra, de conflito, muito pelo poder da imagem. a história, essa, é um lugar distante, confuso. e por isso é preciso explicar. gosto muito da palavra explicar. saramago dizia que todas as coisas têm explicação. podem não ter justificação. mas explicação, sim. e concordo plenamente. podemos explicar. dar razão. enquadrar. tornar lógico. inteligível. e esse é um papel único que cabe ao professor ter sempre em conta. não tomar por adquirido que os alunos sabem as coisas mais simples. podem não saber. podem ter a memória, como diz marc augé, daquilo e dos lugares onde nunca estiveram e desconhecer por completo a sua explicação. é por isso que o professor, eu, mais do que ninguém tenho que estar atento. atento ao que é saber e atento ao que é memória construída sem explicação. é que o meu papel, único e simples, é dar um contexto, uma explicação, transferir o que sei para esse lugar de memória que hoje, mais do que nunca, a tecnologia digital permite criar. dar um contexto. ser professor...