08/10/2013

||| nada é igual para todos...


||| ... são uns breves segundos até chegar à porta da minha sala de aula. os segundos de carregar no botão e as portas fecharem-se. venho sempre com três ou quatro ideias na cabeça. nunca: "uma aula preparada". nunca, mesmo. nunca entrei numa sala de aula para dar uma aula preparada. trago é comigo três ou quatro ideias do que quero fazer para ensinar isto ou aquilo. assim foi hoje novamente. e naqueles segundos pensei em mais uma hipótese. é o tempo em que dispo a roupa do que trago para vestir a roupa do que sou. professor. e sei que sou um exemplo do momento em que entro ao último adeus no final do dia. os meus alunos, como todos os alunos, olham ainda para nós, professores, como uma referência. boa ou má. uma referência. depois, vou buscar a chave da sala e entro. das três ou quatro ideias que tinha na cabeça uma torna-se clara. olho para os meus alunos em todas as aulas como se fosse a primeira. eles não são os mesmos de dia para dia. eu não sou o mesmo. eu conheci-os. eles, conheceram-me. fomos todos para casa no final do último dia. passou a vida por nós. rimos, chorámos, sorrimos, namorámos, fechámos os olhos para descansar. eu li um livro que não tinha lido. eles ouviram uma música nova ou trocaram ideias sobre outras aulas que me contaram. olhei-os. é nessa fracção de segundo, nesse acto de os ver, que decido o que será a minha aula. e começo. e por breves instantes lembro-me do pantagruel. sim, o livro de receitas de cozinha. não há receitas em educação. nem para a sala de aula. há o conhecimento como ferramenta e a velha e simples regra de que cada um é como cada qual e cada momento não se repete, como um rio. por isso nenhuma aula pode ser igual. nenhum instante repetido. não há receitas. há pessoas que nos olham à espera de serem vistos, ouvidos, entendidos. e há o conhecimento que os torna mais livres e que eu tenho nas mãos para lhes dar... aos meus alunos. que nunca são os mesmo e ainda bem!...