01/10/2013

||| o que é que querem aprender...


[Conforme digo sempre aos mais novos
e por não ter quem me aconselhasse aprendi à minha custa
a gente nasce inocentes e à pala da inocência leva cada bofetada da vida que até andamos de lado]
boa tarde ás coisas aqui em baixo | antónio lobo antunes

||| ... a minha primeira pergunta para os meus alunos sempre foi: então digam lá o que querem aprender... e faço uma ronda perguntando o nome e esta pergunta mágica. invariavelmente a resposta é quase sempre a mesma. composta por uma mistura de três. tudo o que tiver para me ensinar. qualquer coisa. ou simplesmente: tudo. de quando em vez alguém diz: gostava de aprender como se fazem os gelados. um dia, inesperadamente, um aluno queria saber como se faziam os berlindes. agora é mais como se fazem os filmes ou as séries. ou então como funciona qualquer coisa. mas sinceramente é muito, muito, muito raro quando algum aluno diz que quer aprender uma coisa em concreto. esta é a minha oportunidade para uma primeira lição [do latim lectio, relacionado a legere, “ler”]. a minha primeira lição é sempre sobre o poder da liberdade. a liberdade como exercício de responsabilidade ou de fuga. porque se um aluno não me diz, enquanto professor, o que gostava de aprender eu vou sempre ensinar-lhe aquilo que eu julgo que ele quer aprender ou simplesmente o que tenho que ensinar. o não compromisso do aluno em fazer a sua escolha ao dizer: quero aprender isto ou aquilo leva sempre ao atravessar da linha da liberdade pelo professor que tem que ensinar qualquer coisa que leva consigo não tendo como norte ou caminho esse lugar decisivo de felicidade e encontro que é o conhecimento desejado pelo outro em curiosidade. e as respostas repetem-se sempre. quero aprender o que o professor tiver para me ensinar. e com isto sabemos que os nossos alunos mataram a arma mais poderosa que podem ter nos tempos que correm: a sua própria curiosidade de conhecer novos mundos, coisas e o próprio futuro...