29/10/2013

||| olha que se eu te apanho lá fora!...


||| ... ó pá, tu não me irrites!... e levantou-se. naquele gesto de confronto. uma aluna para a outra. eu observei. e o discurso subiu de tom. eu, observei. sou professor e aquele espaço, mesmo o corredor é a minha escola. porque isto, aquilo e... e era minha aluna. eram minhas alunas. fui lá. já me conhecem pela minha forma diferente de reagir às coisas. comecei a dizer nomes de peixes. sim, isso mesmo, peixes. e o tom baixou. e deviam pensar que eu estava a ficar um pouco mais louco. calaram-se. acalmou tudo. quando não sabemos como fazer ou o que fazer perante algo que nos é estranho paramos o que estamos a fazer para pensar como reagir. esta era a premissa que tinha a meu favor por ler uma ou duas coisas das neurociências. é simples. não é absurdo. é a natureza humana. elas, alunas, pararam perante o absurdo dos nomes dos peixes. depois riram. mas eu não achei graça nenhuma. sou professor e acima de tudo abomino qualquer tipo de violência ou comportamento violento. verbal, não verbal ou de qualquer outro tipo. e a escola é um espaço de cidadania. e já que não há espaço para isso há sempre tempo. mesmo que tudo tenha tido lugar no espaço que não foi o de aula pedi a uma das duas alunas para ficar comigo no fim da aula. o meu tempo é o deles. e o deles é o meu. naquele espaço que é nosso, a escola. e não é a fechar os olhos que eu sou professor. é agindo. falámos, no fim da aula. enquanto professor e como pessoa há uma coisa que abomino mais ou tanto como a violência. são os sermões morais. e por isso foi só uma conversa. dois a cinco minutos. ó professor porque ela... ui... não vás por ai. não vás mesmo. as razões não me dizem respeito. diz-me o comportamento. público. no espaço que é de todos. no exemplo. no atravessar o círculo da minha liberdade que não gosto de ver atravessado com gestos que não pertencem ao espaço da escola. a civilidade. foi disso que lhe falei. falei dos gregos e do cumprimentar. de onde vem a palavra cumprimentar. e de onde vem a palavra violência. e do que é o espaço público onde somos cidadãos. e estivemos a conversar. no final, a minha aula, disse desculpe. eu digo sempre a mesma coisa: não precisas de me pedir desculpa. precisas de ver a escola como o lugar onde mais gostas de estar. e se te lembrares nesse lugar não há espaço para desculpas nem para a violência de um gesto, de uma palavra ou de uma acção. pensa nisso... e lá foi ela, minha aluna, e eu seu professor. cada vez mais lidamos com estes e outros comportamentos. a questão não está no comportamento em si. está na nossa vontade de agir ou de fechar os olhos. e fechar os olhos é tudo menos ser o construtor do lugar que queremos, com eles, para eles, os nossos alunos...