22/10/2013

||| os pés são a parte do meu corpo mais longe de mim...


||| ... duas horas e trinta minutos. em vinte e quatro horas. tirando o tempo de sono. uma hora que seja. estes cinco minutos de palavras são para as coisas inúteis na escola. gosto e sempre gostei dos detalhes. deus está nos detalhes. como os construtores de catedrais diziam. mas agora já não há construtores de catedrais. antónio damásio diz aqui: todas as pessoas sabem que aquilo que acontece na consciência depende daquilo que acontece ao corpo. se entalares um dedo, dói‑te. se fechares os olhos, não vês o que se passa à tua frente. e um dos detalhes mais belos na escola são os sons que nascem nas esquinas, curvas e contracurvas da escola. da presença dos alunos. nunca percebi quem, professor como eu, dizia que gostava da escola era quando não havia alunos, naquelas alturas de reuniões e afins. eu não. não gostava. não gostava e não gosto. é como dizer a um construtor de catedrais que bonito é um dia em que não tem pedra para trabalhar. ou a um carpinteiro que belo é o dia em que não tem madeira para trabalhar. há nas coisas detalhes que contam logo toda a história dos lugares. como este que encontrei ao chegar à escola. um chapéu que secava. como se aquele espaço de passagem de tanta gente fosse um átrio de uma sala de estar de uma casa qualquer. e ali ficou sem ninguém lhe mexer pois todos sabiam quem era o seu dono. há uma vida necessariamente útil na escola. e o mais curioso é que, há tanta coisa inútil dentro deste universo. reuniões de duas horas e trinta que terão, obrigatoriamente que ter duas horas e trinta minutos para tratar de coisas que em trinta minutos ficavam resolvidas. ou os eternos inúteis sumários escritos no início ou fim de aula. como se fosse preciso dizer a um omnipresente senhor quantos parafusos foram apertados em noventa minutos. sumários que ninguém lê, nem mesmo quem escreve e que colocam o professor numa categoria estranha de trabalhador que depois de passado o tempo deve dizer ao seu senhor que cumpriu aquilo que disse que ia fazer. estranhos lugares estes que colocam a fábrica num lugar de cultura. estranhos e inúteis passos estes que um dia vão acabar de tão inúteis que são e por habitarem um espaço onde as coisas úteis são de tanta importância que o corpo e a consciência as reconhecem de olhos fechados...