08/10/2013

||| todos os meus alunos sabem onde está a beleza...


||| ... eu também já fiz isto. ir espreitar para ver a cidade lá de cima. agora sou professor destes alunos e fica mal fazer tal coisa. dizem. mas faço. isto não porque me ficavam a doer os joelhos. mas coisas parecidas em outros locais. sim. isto é uma aula. sim. aquela ali é minha aluna. sim, está a uma boa centena de metros de altura na torre dos clérigos. e sim, está a ver a vista e a tirar fotografias. melhor. está a tirar fotografias enquanto eu e outra colega dela lhe tiramos a ela. sim, somos humanos e às vezes apetece-nos ser curiosos. o meu papel como professor é sempre o de avaliar o perigo, claro. mas avaliando o perigo e este sendo mesmo reduzido que fazer à curiosidade? deixar fluir. o que está detrás daquela porta? e desta janela vejo mesmo o mundo? o rio da minha aldeia é maior do que o tejo? do tejo vai-se para o mundo. daquela janela da torre dos clérigos aquela aluna viu um mundo que nunca tinha visto. "é lindo isto visto daqui". sorriu. eu sorri também. depois disse com ar grave e sério, eu, feito mostrengo do fim do mar: vá, ainda te faltam cento e tal degraus até lá cima. "ó professor, eu tenho medo de alturas." [pensei e disse: então estás no local errado]. "mas vou lá acima, quero ver. isto é lindo visto daqui." e uma questão surgiu-me como clara. estes alunos são daquela cidade. não conhecem a sua cidade. os seus espaços. de que vale falar de património ou de vivências sociais de coisas onde nunca estiveram? como os posso fazer ver tudo isso sem os colocar nos locais para os sentirem? e estava um dia bom, com um sol limpo. e eu podia, somente, ensinar-lhes uma coisa. eu que vinha com um discurso pensado sobre a arquitectura como ideal de fruição das pessoas. eu que lhes ia explicar a história daquela torre. dos 250 anos daquela torre. não lhes disse nada. nem uma só explicação. deixei-os estar. subir, sorrir, rir, dizer um ou outro disparate e observei-os, de longe, eu que já subi aquela torre várias vezes. olhei-os com aquele espanto que todos temos ao observar uma coisa bela. e por instantes aqueles miúdos que são os mais conversadores do mundo, fizeram silêncio. a beleza tem esse poder. o espanto também. e cidade que agora era mais um bocadinho deles disse-lhes tudo o que eu nunca poderia dizer. guardei a história da torre para outra aula. que importa? ensinei-lhe algo mais importante naquela meia hora de visita: a beleza das coisas que alguém criou para nós... a arquitectura do belo e do simples... imemorial, intemporal, perfeita.