28/11/2013

||| o super-homem que nasceu num livro...


||| ... sempre fui e sou professor a noventa por cento. sim, faltam dez por cento. noventa por cento porque o resto sou eu. eu, pessoa. eu, gente. eu que faço outras coisas para além de dar [e gosto desta expressão - dar/doar/partilhar] aulas. nunca me foi possível ver a sala de aula como um palco. ou como outra coisa qualquer que não seja uma sala de aula. ou a escola como um lugar onde gosto de estar. os alunos dizem sempre: tenho que ir à escola. este ter assusta-me. gosto quando dizem que vão à escola. estão na escola. e penso nisso quando penso uma aula. e agora que um primeiro período de tempo escolar termina [expressão que não gosto porque me lembra ainda as paragens nas fábricas para reposição de stocks], que vem aí o natal [gosto mais] penso nas aulas que já dei e nas que quero dar. e vou aos dez por cento de mim buscar o que os noventa por cento de mim professor precisam. isto é, vou falar com pessoas que conheço, pedir um favor, dizer que não tenho dinheiro e a escola não tem dinheiro e os alunos também não. que se puderem fazer por amizade agradeço. se não puderem, ficaremos amigos na mesma e quando eu [ou eles, ou nós] tiver[mos] dinheiro lá irei[mos]. e muitas vezes vejo que isto falta no espaço escola. sei de professores que são músicos, poetas, pintores, desenhadores ou dedicam-se a coleccionar coisas fantásticas de que nunca falam ou levam para a escola. imaginem por um breve instante que todos esses professores levavam os seus dez por cento para a escola. esses dez por cento de si. esses dez por cento de um talento e de uma vontade imensa de fazer melhor, diferente, ou de provocar mudança. e eu, com os meus dez por cento que já pedi [mesmo sem dinheiro] vou conseguindo algumas coisas para eles. eles, os meus alunos. e para mim. para mim para que a escola seja o lugar onde todos estamos. onde ninguém vai lá de passagem mas para estar, viver e aprender. se custa, custa. se pedir não é fácil. não é. mas são dez minutos, um telefonema ou um email. o não é certo. o sim, também. e podemos, com dez por cento de nós, fazer da escola aquilo que somos. humanos. seres imensos. maiores do que uma função. maiores. nós e eles. nós. na escola...

||| tic, tac, tic, tac, tic, tac...


||| ... contemplei as maravilhas em silêncio. não tinha palavras para expressar as minhas sensações. a frase é do escritor júlio verne. na sua viagem ao centro da terra. tudo isto porque dei por mim a pensar no uso das tecnologias [principalmente o computador] no meu contexto de sala de aula. e pensei no meu percurso. cresci sem a sua existência. a tecnologia mais avançada na escola eram os slides ou os acetatos. depois surgiram as máquinas que transportaram a informação para outro nível. este nível. e fiz o percurso de contemplar a maravilha. achei que os mundos virtuais que emergiam podiam trazer algo de novo para enriquecer o meu espaço enquanto professor de história, área onde o universo da informação surge como primacial. quando andavam a falar de acesso eu falava de comunidade. quando falavam de comunidade falei de rede. quando falavam de rede desliguei-me. sim, apercebi-me que desde que comecei a dar aulas neste ano lectivo nem uma envolveu o uso deste universo virtual. vejo-o agora com a mesma importância de um lápis. como um recurso. mais um. mas estou atento. os meus alunos usam o acesso móvel em qualquer lugar. pelo telemóvel. e quando penso nisso penso na "aprendizagem em movimento". sou um atento e curioso professor que usa as tecnologia na medida do que e como quer ensinar. não como um fim em si mesma, mas como um recurso. mais um. e conversava um dia destes com um aluno no corredor pois ele tinha adquirido um telemóvel xpto. e expliquei-lhe que tenho uma vantagem. sou um adepto [embora não profundo conhecedor] de ficção científica. ler e ver este universo é como olhar para o lado de escrita do futuro que é antecipado por breves instantes. foi assim quando li júlio verne. é assim sempre que o universo do futurismo [e sou um futurista e tudo - "à lá almada"] no que ao futuro toca. foi assim quando a conversa resvalou para a identificação das pessoas pelo rosto. e curiosamente estava a ver uma reportagem ontem sobre uma nova consola de jogos onde somos automaticamente identificados pelo nosso rosto pois a máquina conhece cada detalhe da nossa forma humana. e como professor penso muito nisto. e falta neste uso em rede, em 2.0 ou 3.0 em qualquer terminologia moderna esse coisa que me importa um pouco mais do que a ferramenta que uso para ensinar: ética e humanismo. ui, tão velho que estou. tão velho como júlio verne que falava em contemplar. ou em não ter palavras para descrever o que sentia uma personagem. é este o meu estado de alma enquanto professor num mundo que vejo erguer-se para o controlo muito mais do que para a liberdade que quero ensinar seja com que recurso for.. 

27/11/2013

||| o riso é a fraqueza, a corrupção...


||| ... não há progresso, não há revolução de eras, na aventura do saber, mas, no máximo contínua e sublime recapituação. para quem tem a obra de memória sabe que esta frase só podia vir de uma das personagens mais emblemáticas da obra de umberto eco. jorge. como professor encontro muitos igual a ele. em todo o lado.  gosto muito desta personagem. tanto como gosto de guilherme em oposição. e tuo isto porque vou dar uma aula a serralves. uma aula-atelier. uma fábrica de sons. a próxima aula será isso. lá. naquelas salas. entre aquelas salas. naqueles espaços. e há algo na frase do venerável jorge que me prende a atenção. tal como pierre bourdieu o toma como certo. uma sublime recapitulação do saber. como professor esse foi sempre um caminho pelo qual tentei não ir. mais do que repetir o que aprendi procuro questionar ensinando o que aprendi. complexo? pois é. as minhas certezas sobre o que aprendi alguns anos de estudo são mínimas. as dúvidas, imensas. e por isso procuro questionar o que sei ensinando isso e o processo para o desconstruir. e é isso que vou fazer com os meus alunos para serralves. desconstruir o que sabemos já. o que já aprendemos. fazer um teste a essa capacidade de desconstruir. tirar o tapete. desafiar. e ter o museu como sala de aula dá-me essa possibilidade imensa de criar uma aprendizagem em contexto que não o posso fazer em sala de aula. e a arte contemporânea permite ainda mais essa liberdade da inexistência do erro. do lugar da experimentação. talvez isso seja uma aula, um lugar onde gostem de estar, como eu gosto de estar em serralves como se todo o espaço fosse uma imensa sala de aula...

||| dos erros, lapsos e afins...


||| ... somos todos professores de português. ó professor, é com o acordo ou sem o acordo? é bem escrito, é a minha resposta. antes deste acordo havia outro. se souberem escrever bem com as regras anteriores a este que ainda não está em vigor, melhor. e relembro george steiner e as palavras. e não perco muito tempo com os erros. há uma regra. cada erro um balão para tomar conta uma semana. tenho um saco de balões comigo, sempre. mas isso não importa. importa-me muito mais o vocabulário. as palavras para explicar o real. a realidade precisa de palavras para ser explicada. se tal não existir, dentro de cada um deles, a realidade será algo de inexplicável ou a percepção sobre as coisas será muito pequena. e isso sim, assusta-me. assusta-me que num texto existam dezenas de palavras que não conhecem. um texto simples. e gosto de perder esse tempo de suspender a aula e explicar o sentido de uma palavra. não sou professor de português. sou professor. e as palavras são a matéria-prima de que são feitas as minhas aulas. se não falarmos a mesma língua [que falamos] a aula será só minha. e por isso é preciso começar pelo comum. o estar num espaço de palavras em comum. e construir tudo partindo desse espaço habitado de palavras que ganham sentidos. se a ortografia é relevante? é. mais é ter palavras com que escrever as ideias. muito mais.

||| um, dois, três, diga lá outra vez...


||| ... das coisas simples. como contar uma história. ou simplesmente partilhar uma memória. não vem no programa. mas faz parte da coerência. e eu que sou a pessoa e o professor com mais defeitos de todas as pessoas e todos os professores que conheço tenho que reforçar esta ideia. num tempo de tão poucos significados, referências e identificações para os alunos o professor tem, antes de tudo, constituir esse baluarte de apoio à navegação no espaço da contemporaneidade que vá para além do conhecimento. se neste o professor tem que se centrar e centrar a sua prática também é verdade que o deve fazer no seu papel de actor num espaço único que é a escola. pode ser por via dos seus defeitos, das suas [im]perfeições ou mesmo dos seus talentos. mas este dar significado é algo de preciso no tempo que corre agora, para muitos alunos, sem um sentido claro. e se falamos [alguns falam] do regresso às coisas simples é por andamos todos a tentar encontrar esse significado e podemos levar os nossos alunos nessa caminhada. explicando, construindo ou identificando noções da realidade que lhes permitam vislumbrar o futuro. não há necessidade de regressar às coisas simples nem é lá que está a beleza do mundo. pode ser em algo imensamente complexo. por exemplo, quando olhamos o cosmos. o que importa é a imensidão de formas de dar sentido às coisas que procuramos e podemos encontrar em conjunto. e para isso é que precisamos desse regresso aos lugares de descanso da alma. os lugares que nos fazem sentido mais do que dão sentido à realidade. e como transferir isto para os alunos é um desafio de coerência num tempo e num mundo incoerente. um desafio que só um professor pode abraçar. 

26/11/2013

||| uma aula sobre percepção...


||| ... pedagogia: a percepção que temos sobre os factos torna-se num dos principais instrumentos da análise da sociedade e da história criando representações mais do que leituras concretas sobre o conhecimento a produzir. esta aula é um instrumento de reflexão pela criação que permite aos alunos questionarem a realidade do conhecimento social e histórico actual partindo da leitura e percepção da construção do conhecimento e da arte.

||| ... metodologia: o professor prepara a sala colocando nas paredes folhas de papel branco [preferencialmente papel cavalinho] e lápis de carvão ou carvão de desenho ao nível do olhar/rosto dos alunos. o número de folhas deverá ser para que os alunos estejam em pares em trabalho prático. um dos alunos é convidado a ficar em frente à folha de papel colocando o braço e a mão esquerda atrás das costas. o aluno em par com esse deverá colocar-se em posição que permita escrever/desenhar uma figura na palma da mão do aluno que está virado para a folha. assim que o aluno começar a desenhar na palma da mão do colega este deve tentar reproduzir o desenho da mesma forma que está a ser feito na folha que tem à sua frente sem nunca falar ou ver o que está a ser desenhado na sua palma da mão. terminado o desenho/escrita os alunos comparam o que está na sua mão com o desenho feito no papel. podem inverter [ou não] posições e repetir a actividade. deve depois o professor colar numa parede um pedaço de tamanho alargado de papel de cenário. no centro do papel de cenário desenhará um círculo de tamanho médio colocando no centro a palavra percepção. cada aluno deverá então desenhar fora do espaço deste círculo aquilo que ainda se encontra na palma da sua mão. um dos alunos deverá então convidar outro professor ou colega que não tenha estado na sala a comentar aquela "obra". deixa o professor ou aluno convidado fazer a sua análise até ao fim e no final todos explicam o processo de criação da "obra". 

||| ... esta aula tem como tema: a percepção e a construção do conhecimento/arte. permite aos alunos reflectirem sobre como se faz a leitura da realidade e como a percepcionamos se não usarmos os sentidos, o conhecimento e a análise racional e comparada. permite ainda questionar a produção do conhecimento de uma forma interpretativa mais do que pela apropriação directa sem questionamento. permite aos alunos perceberem que o conhecimento tem sempre uma leitura de perspectiva e em construção, assim como, permite sempre o questionamento sobre o adquirido.

||| da insustentável leveza do saber...


||| ... sou daqueles professores que estão inconformados. daqueles que já estão fartos de tanta estupidez vinda de quem devia ter poder e tem prepotência. e manda. e estou-me nas tintas para as ordens. a única coisa que me preocupa é que andem a roubar uma só coisa. o tempo. o resto, com luta e resistência, com inteligência e serenidade, com o passar deste soluço [que isto e esta gente hoje é só um soluço no devir histórico] passará. o que me assusta é o tempo. roubarem-me tempo. é que eu sou daqueles encravados nas frases que destruíram a contemporaneidade. começou pelo viver a vida um dia de cada vez. depois, forte visual e emotivamente foi o desvirtuar do conceito carpe diem. e terminou com a terrível expressão que todos somos substituíveis. eu não sou um professor desse tempo. talvez, nem deste. nem um dia de cada vez. nem o sentido deturpado do cape diem. nem substituível. sou e quero para mim, como professor, o tempo dos construtores de catedrais, do homem que plantava árvores, do que ficará depois de mim. quero o tempo com sentido. com profundidade. com saber. o tempo da prática que leva à perfeição. o tempo em que nenhum ser humano é substituível. porque não o é. e sei que este é um combate de pensamento. mas é o meu. o meu como professor. porque eu estou um ano lectivo com os meus alunos. um ano. não é um dia de cada vez. e eles vão sair das minhas mãos como professor para continuar a sua vida. e nenhum deles é substituível como eu não sou. e porque o mundo e as coisas nele terão que ser inteligíveis para eles e para mim e isso requer tempo. o tempo dos construtores de catedrais que não construíam para si mas para a eternidade do tempo. e hoje, vamos lá visitar, os templos, os espaços, os lugares e ninguém se lembra destes homens e mulheres que nos deixaram em pedra o seu tempo. ser professor é isso. ser professor como quero e sou é isso. ser como o incógnito homem que num vale deserto planta árvores e quando as planta não volta lá para as ver crescer porque há muito terreno pela frente. e eu não quero que os meus alunos vivam mais neste tempo, nem sejam atacados por esta gente que me ataca a mim. por isso, para isso é que sou professor. dos dias que estão para vir. do aproveitar a vida toda e não só um momento. do ser, para mim e para eles, cada pessoa que cruzar a nossa vida, insubstituível. e por isso o meu combate hoje, nestes dias, nestas horas, no meu tempo é por isso. porque me podem tirar tudo menos o tempo que tenho para ser professor e como o quero ser...

25/11/2013

||| caíram todos ou ficou só lá um...


||| ... ainda sou do tempo em que, no final do período lectivo, lá havia um jogo de futebol famoso. era o dos professores contra os alunos. geralmente com grande desafio anunciado e que iam levar uns quantos ou marcar outros tantos. era um tempo de desconstrução. de não se ser professor mas pessoa. éramos todos pessoas por um bocadinho. eles e nós. pessoas. e sempre foi um espaço que habitei. o do recreio. palavra velha esta. recreio. já pouca gente a usa. foi substituída pelo "apanhar ar". e está tudo dito. apanhar ar. e hoje, chegado à minha sala de aula alguém me disse: professor hoje só tem cá oito alunos porque foi semana de projecto e por isso tiveram tolerância. estes oito vieram. fui buscar a chave, rodei a fechadura, abri a porta e na minha mala havia [como sempre há] solução para cinco hipóteses de trabalho em aula. menos um. aquele. para oito. todos os outros eram para os vinte e cinco ou mais. então perguntei. o que querem fazer? vamos fazer isto, aquilo ou vamos embora. embora não já que estamos aqui vamos fazer qualquer coisa juntos. vamos para a rua, aqui na sala não queremos estar. vamos. descemos ainda sem saber o que fazer. alguém, dos oito disse: vamos jogar bowling. e eu disse, está bem. a sério, professor. sim, vamos. onde? lá sabiam onde. lá fizemos quinze minutos de viagem para lá e lá fomos. dez jogadas cada um. éramos nove pessoas. eles, oito e eu, um. pessoas. fomos a conversar e viemos a conversar. sobre os gatos, o trabalho da mãe de um deles, o irmão e a prima, os anos que uma aluna fazia e eram dezasseis e todos sabemos o quão importante é fazer dezasseis anos. e fomos pessoas. não foi uma aula. e o que é que isso importa? foi outra coisa qualquer. foi um jogo de bowling entre pessoas. e houve respeito. regras. conversas. houve tempo para me perguntarem coisas que queriam saber de mim como professor. e que não sabiam. e eu respondi. e eu deles. das coisas, deles. e quando os deixei de volta na escola pensei se teria feito bem. se não devia ter dado a aula que trazia prevista na mala e pensada em tudo o resto. e recordei-me de uma frase de um mestre que tive na faculdade, talvez o único professor com quem aprendi alguma coisa que me ficou até hoje. o que fica, sempre, na história, nas histórias de cada pessoa e dos países, são os momentos vividos sem serem pensados. a história está cheia deles. os imprevistos. o impensáveis. e este foi um deles. e foi saudavelmente bom saber que num tempo em que ninguém tem tempo eu tive tempo para ir, com estes oito alunos, pessoas em construção, jogar bowling e conversar sobre tudo e sobre nada. há lugar para o recreio na escola. haja lugar para as pessoas na escola. e teremos escola. e teremos, futuro.

||| sobre a mais alta árvore na floresta...


||| ... hoje quando carreguei neste botão que me leva à sala de aula pensei por um instante numa coisa que me parece andar esquecida pelas escolas. a nobreza da arte de ensinar. que nos esquecemos disso. que o tempo nos tem roubado isso. que as discussões sobre carreiras, modelos e teorias nos afastam disso. e nos poucos segundos que vão do zero ao quinto andar fui a pensar nisso. que tinha estado a pensar na aula que ia dar. que fui comprar umas coisas para a tornar possível. que me dedico todos os dias a ser melhor professor para que os meus alunos sejam melhores homens e mulheres do que eu fui ou sou porque poderão saber mais do mundo do que eu alguma vez sonhei saber. e assusta-me que andemos todos a discutir tudo menos isso. isso que é a mais nobre das acções e a mais prestigiada também. a de ensinar o que se sabe [muito ou pouco] é das coisas mais prestigiantes que existem. e nisso, nesse acto, está a valorização do que somos, do que fazemos, nesse simples acto que guarda em si todo esse universo de acção para o futuro muito maior do que nós. a porta do elevador abriu-se. deixei lá ficar todos estes pensamentos e mais aqueles que me consomem nos tempos que correm. ali, naqueles corredores, naquelas salas, neste tempo e neste espaço eu sou só um professor com orgulho de o ser e de ter a mais nobre das artes. a de ensinar...


22/11/2013

||| rir não é o melhor remédio mas ajuda...


||| ... nunca percebi esta necessidade de fazer da educação um lugar cinzento. rir é hoje um exercício fechado. o sorriso ainda mais. e o que gosto mais de ver nos meus alunos é mesmo aquele momento em que se desconstrói o lado sério e «adulto» e como eles próprios dizem [estranhamente] voltam a ser crianças.  estranho conceito eu que lhes digo que tenho a idade que tenho e ainda e sempre serei, criança. e um brincador, como no poema. mas para isso eles e eu temos que dominar o saber. os saberes. o conhecer. o que há para descobrir. e assim podemos brincar com isso tudo. brincar é um exercício muito complexo. talvez dos mais difíceis de fazer em educação. tal como rir. rir do que se está a aprender sem perder o norte, sem perder a exigência e a aprendizagem. é por isso que numa aula que estou a preparar sobre a cultura científica vou convidar os meus alunos a estudarem comigo a ciência do riso. como? terão que esperar para ver pois deixarei a aula pensada em breve por aqui.

||| a joana tem que fazer uma escala de serviço...


||| ... como professor tenho que avaliar os meus alunos. criar testes. provas. desafios. uma prova é isso mesmo. fazer prova, mostrar. ora, como professor preparo sempre muito bem esse momento. primeiro porque uma prova não é um teste. é um desafio. um teste é um elemento de avaliação imediato. sei, não sei. uma prova é isso. um desafio. e faço ver isso aos meus alunos. que não os estou a testar. estou a desafiar o que sabem [ou não sabem]. estou a valorizar a sua inteligência e não o contrário. estou a mostrar-lhes que, de tudo o que foi falado, experimentado, vivido, pensado, ao longo de um determinado período de tempo os conduziu até a um desafio que agora devem superar com as mesmas ferramentas, conhecimentos e competências que lhes ajudei a conhecer, construir e criar. ora, uma prova tem que ser algo de inteligente. de desafiante. de formativo. de construtor. tem que apelar ao espírito de superação. tem que ser complexo e simples, dinâmico e estático, abarcando o universo de todos os meus alunos para que todos possam responder com generosidade e interesse a esta etapa. é por isso que uma prova tem que ser um desafio de inteligência e perspicácia para quem a cria. para mim como professor. nunca um simples instrumento de pura e mera avaliação em si mesmo. tem que ser um objecto que promova a coerência, defina um grau de exigência e expectativa, crie mobilização para a acção e superação e não um instrumento de nivelação ou menorização do processo de aprender. é por isso que provar não é testar. e é por isso que qualquer professor que o seja sabe isto e qualquer aluno que veja numa prova o contrário disso tem o dever de se indignar...

21/11/2013

||| um dia será um dia...


||| ... apercebi-me que uma ideia é algo perigoso. e por isso é tão importante ensinar a ter ideias. e como fazer isso sem quebrar a ordem é algo de imensamente complexo. podemos quebrar as regras, não podemos quebrar a ordem. se aceitamos viver neste modelo social essa é a única linha de orientação inquebrável. e para quebrar as regras é preciso, em primeiro lugar, saber cada uma delas dominando com mestria a sua essência. é por isso que o professor deve ser um mestre no domínio de todas as regras. e uma em particular. a regra de como construir conhecimento. nunca fui muito naquela onda que refere que "eles aprendem comigo, eu aprendo com eles". sou mais " eles aprendem de mim e comigo, eu partilho experiências com eles". não é colocar-me à distância nem coisa parecida. é simplesmente o papel que tem o conhecimento lido como tal. se eu sou professor devo dominar esse espaço, esse lugar, essas regras de ser eu construtor do conhecimento que lhes posso transferir esse domínio pela prática. depois experimento com eles. e eles comigo. partilhando. se eu aprendo com isso, sim. mas esse não é o meu propósito inicial. é uma consequência de se ser humano e de partilhar vivências. se é imensamente rico esse lugar de experiências partilhadas? é. é por isso que sou um professor que coloca o perigoso lugar de ensinar a ter ideias no centro da sua prática. porque um dia as regras são quebradas e o conhecimento nasce de natural processo e a ordem, essa, talvez mude para um futuro que é deles, dos meus alunos, muito mais do que meu...

||| de babilónia restam os relatos, o silêncio e as sombras...


 ||| ... isto não é uma carta aberta. é um panfleto. quase me sinto lutero em luta. sou professor por destino. não sou só professor, mas sou professor porque a vida fez de mim um professor. é o que sou. mais do que outra coisa qualquer. tenho um imenso encanto pela arte de ensinar e dedico-me a ela de alma e coração. e hoje, ao passar pela escola, pensei. pensei que não posso deixar de dar o exemplo aos meus alunos quando vejo a educação a ser vandalizada como hoje acontece. não é a escola. a escola é uma instituição. e como isto que estão a fazer é má gestão de recursos humanos a escola estará depois disto. o pior é o que estão a fazer à educação. por mim passaram já muitos ministros, secretários de estado e até primeiros-ministros. a democracia que aceito é assim. é natural a mudança. faz parte de um sistema que tende para a evolução. mas isto não. isto, esta coisa que tendem a chamar de reformar é tudo aquilo que não deve ser um processo de transformação no contexto educativo. sou professor e estou a ver a educação ser vandalizada. em tudo. porque ser professor contratado ou do quadro é ser professor, ponto. desde quando o vinculo laboral faz das pessoas seres diferentes uns dos outros se a função é a mesma? porque uma escola não é uma fábrica. porque o mundo só funciona bem se a escola for um lugar onde a educação é usada para treinar a obediência e a repetição? porque não se governa mandando nas pessoas que fazem a escola todos os dias funcionar, educadamente. mandar é o que fazem. governar é o que não sabem fazer. porque educar não é repetir e avaliar o que se fez decorar durante um ano. porque ser professor não é ser funcionário. ser funcionário é por as coisas a funcionar. ser professor é ensinar a ser gente. e não como esta gente que manda. gente, que sente, pensa e sabe. gente que será futuro. pessoas. pessoas em construção. e o pior, o horrível de tudo isto, é que estão a vandalizar a educação. primeiro porque estão a partir em pedaços a confiança. e as relações humanas. hoje as escolas estão a tornar-se lugares de anónimos. de professores que passam por lá, de alunos que passam por lá, de pais que vão lá. ninguém lá está. e a escola é uma casa. deve acolher. e em tempos de crise, de dificuldade, para muitos alunos [e muitos adultos] esta é a sua única casa. e eu, que sou professor, não posso mostrar aos meus alunos que deixo isso acontecer sem dizer nada, sem fazer nada. e agora, neste tempo dedicado ao aprender, neste lugar que é a escola, fala-se de uma prova, de provas, de avaliar o que se devia saber quase como a tabuada decorada em coro. e coloca-se em cima da mesa uma prova, para provar que aqueles que todos os dias ainda fazem da escola uma casa, sabem como o fazer. e não é a prova. é a política que está mal. é a prova e a política. é o vandalizar de tudo o que se conquistou em civilização em evolução nos últimos anos. porque esta não será a escola do futuro. porque quem vier a seguir [e em democracia  - graças aos deuses e ao povo] vem sempre alguém a seguir, vai ter que começar pelo mais difícil. por reconstruir a educação. por refazer as pessoas agora partidas e espartilhadas de tanto serem desconstruídas, lei após lei, dia após dia, num acto de prepotência do mando que vai para além do razoável em todos os aspectos. sou professor. este é o meu panfleto. digo que chega. basta. morram estas leis e estas regras, morram, pim! na minha sala de aula não entram. em mim, não entram. eu não quero esta vandalização da educação. em mim, de mim, não fazem o que querem só por mandarem. eu ensinarei aos meus alunos o que é resistir. o que é a liberdade do pensamento. o que é a força da convicção daquilo que é a escola em que acredito. posso não lhes ensinar mais nada. isto, ensinarei. morram estes tempos estúpidos, morram, pim! eu sou professor.


20/11/2013

||| a máquina sabe mais do que homem da minha rua...


||| ... um texto. quero dar aos meus alunos um texto para lerem. não, não é isso. é mesmo para lerem. para perceberem como foi construído. quem o escreveu. porque o escreveu. ando à procura. de um texto para ser lido. primeiro em silêncio, depois em voz alta. depois, lido. por cada um. porque sinto uma necessidade urgente de ver que os meus alunos lerem um texto para além do óbvio. do que conseguem encontrar nas letras juntas que foram um melodia lógica. e hoje, em tempos de uma contemporaneidade acelerada pela percepção imediata das coisas, simplificadas, quero dar-lhes um universo mais complexo. aprofundar o pensamento. criar dúvida. questionar. ensinar-lhes a lerem para além do óbvio. o texto. esse, importa. como qualquer coisa que escolho para eles. não é nunca a primeira imagem que aparece num ciberespaço desregulado. nem um texto copiado e colado. é um texto. uma imagem. de autor. no original. em folha preparada. em forma criada. em jeito pensado para desafiar o raciocínio. o simples, o imediato ficam longe, nesse momento. porque é na escolha que eu me diferencio do mundo lá fora, fora da sala. e essa escolha foi a razão pela qual abracei esta profissão de ser professor. porque no meio de tanto lixo há obras de referência, há imagens e textos diferenciadores. há lugar para o bom e o muito bom. o diferente em vez do igual. e por isso procuro agora um texto. não. procuro o texto. aquele. aquele único que me vai permitir fazer o que quero. irei demorar horas. dias, talvez. nessa procura. mas o óbvio e o simples não são os caminhos de quem ensina. podem ser os caminhos do mundo. nunca, de quem ensina. o texto, esse, surgirá. claro. imenso. inquietante. para ser lido...

||| um homem que tenta parar para respirar sem o fazer...


||| ... diria que o estado de alma se assemelha ao dos vencidos da vida. da geração de setenta. e há alturas em que devia ser permitido ensinar aos nossos alunos o que é o cansaço. ou o que é a urgência de parar. e vejo o caminho da educação em portugal e as forças não falham, mas cansam. cansa a luta constante. o caminhar sozinho. o ver, cada vez mais gente boa, fora de um sistema que desgasta, maltrata, esquece. hoje apetece só dizer isso. que falta a forma simples de respeitarem quem todos os dias luta por ter uma sala de aula viva e homens e mulheres que pensem para além do óbvio. haja forças, haverá resistência. e hoje só isto tenho para ensinar aos meus alunos. que ainda estou cá e resisto. de pé, sem ser árvore.

19/11/2013

||| o homem dos braços longos que não chegam à lua...


||| ... numa escola há desculpas para tudo. para tudo não mudar. ou para serem cumpridas as coisas que estão determinadas. vamos fazer isto: ó não... é melhor perguntar se é possível. não é possível, não há condições, não há dinheiro, não há tempo, não há forma, não há espaço, não há indicações, não está no regulamento, não há interesse, não. ou então: é muito caro, é muito estranho, é muito arriscado, é muita gente, é pouca gente, é difícil, é complicado, é pouco urgente, é pouco importante, há outras prioridades, não. ó não... pior: vamos marcar uma reunião para ver isso. ó não! e desiste-se. não. nunca. faz-se. e depois perguntam: mas tinhas autorização? tinha, da minha consciência e da minha vontade. e como conseguiste? fiz, simples, fiz, somente. só tu! não. ó não... se o tempo dedicado a arranjar uma desculpa fosse o mesmo para fazer muito já se tinha feito. ó... só tu mesmo. e pronto. não saímos disto. saímos, porque fazemos. eu e eles, os meus alunos. vamos fazendo. é sempre muito mais simples deixar tudo como está. acho mesmo que vou levar um cartaz para a escola e colar na entrada a dizer: não se aceitam estas desculpas. e faço uma lista. quem arranjar estas desculpas tem que pagar um euro. ui... vai aumentar o orçamento da escola em muito... a mulher que desapareceu até hoje ao tentar voar à volta do mundo, essa personagem fantástica do mundo dos seres humanos, amelia earhart teve uma frase única que me regressa sempre à memória: a mais eficiente forma de fazer as coisas é: fazer as coisas. [e esta é uma história de vida que irei trabalhar com os meus alunos muito em breve]. por isso, cartaz, vamos a isso... fazer dinheiro com desculpas... ó não... se calhar vão arranjar uma desculpa para não poder colocar o cartaz... mas vou afixar às escondidas e dizer que foi o abominável homem das neves que por ali passou e o deixou. assim ninguém o vai tirar de lá... 

||| da forquilha ao garfo ou a arte de diagnosticar o outro...


||| ... no morrer da idade média o chefe da igreja católica usou pela primeira vez um garfo. um garfo não, uma forquilha, como relatado na altura. como seria possível tal incongruência espiritual? e foi assim que o garfo nasceu e modificou o seu design para o que hoje temos em todas as mesas. e o que é que isto é para aqui chamado? esta é uma parte da capa do livro não é meia noite quem quer de antónio lobo antunes. tem uma palavra que é um referente para mim como professor. quem. tudo isto a propósito da avaliação diagnóstica e da avaliação formativa [da outra falarei um dia em que tenha tomado um chá de tília]. a pergunta: então não fizeste um teste diagnóstico? resposta: não. então porquê? resposta: porque não passaram na triagem primeiro. sorriso. e pronto. um dia ainda vou ver os alunos entrarem na sala com pulseiras verdes, amarelas, vermelhas e [não sei se há mais cores] de acordo com o que sabem ou não sabem. em primeiro lugar não acredito no modelo de avaliação diagnóstica por via de testes. os meus alunos não são o que sabem. são o que são. e assusta-me quando pergunto a outros professores que os conheceram mais cedo do que eu e que me descrevem cada um deles assim: esta é boa aluna, estuda, sabe tudo. este é terrível. ui, tem cuidado, não lhe dês corda. ou qualquer coisa pior que é: neste nem vale a pena falar, anda lá por andar. ou qualquer coisa como: esta miúda é aluna de cinco desde o sétimo ano. que medo. penso. e pergunto: está bem, a miúda lê, e que livros lê? [e não me sabem responder] e este que dizem que anda lá por andar do que gosta de fazer fora da escola? [e não me sabem responder]. às vezes sou um pouco mais cruel. pergunto, olha que giro, estuda muito, então e de que cor são os olhos dela ou dele? [e não me sabem responder]. mas isto é algo que nos assombra a vida toda. somos o que estudamos, sabemos ou fazemos. nunca o que somos. é assim quando nos apresentam numa coisa qualquer. é fulano tal, licenciado em ..., mestre em... doutor em... sábio com prémios que até lhe pesam nas costas e etc... então opto sempre por querer saber quem eles são. eles, os meus alunos. uma folha em branco e escrevam. sobre o que quiserem. e escrevem. e o diagnóstico é feito de aula para aula. em conversas. foi assim que soube que há alunos meus que querem ler o senhor dos anéis. ou que gostam de futebol mas não de jogar, de ver o movimento para copiar os gestos. ou que gostam e sabem cantar. outros que simplesmente querem ser muito bons no que estão a aprender. sabem o que querem. ou outros que ainda estão em construção. que procuram ideias. e isso só se consegue fazer conversando. é esse o melhor instrumento de diagnóstico possível para um professor. não querer saber só o que sabem. procurar partilhar o que é e o que eles são. e assim, ensinar a aprender...

18/11/2013

||| um pouco de loucura [qb] se faz favor...


||| ... ó professor... e lá vem a pergunta. a resposta, quase sempre é: sim, podes. ó professor, posso mesmo? sim, podes. disse que escreveria sobre este ó. cá vai. não gosto. não gosto do ó professor. nem do ó s'tor. nem de ó coisa alguma. gosto que os meus alunos me chamem pelo meu nome. o ó é muito parecido com o olhe. pior ainda. o nome. eles sabem o meu nome. eu, o deles. não é por aí que o respeito se perde. é por todos os outros lados, menos por ai. lembro-me perfeitamente de no segundo ano em que dei aulas [ui onde isso lá vai] ser logo chamado ao conselho executivo [saudades desta nomenclatura] para me chamarem a atenção do perigo que era os alunos me chamarem pelo nome. nunca houve perigo nenhum e o respeito sempre esteve lá. primeiro porque os respeito tanto como peço que me respeitem a mim. e porque sabem que a minha única regra é mesmo essa. no dia em que me faltarem ao respeito saio pela porta por onde entrei e não volto. simples. por isso, ó cá vamos nós para outra coisa. é que me perguntaram se dava os mesmos programas e como fazer para fazer assim como eu faço. a resposta é simples. sim. o programa é o mesmo. eu só leio para além dele. ou leio-o mesmo. sem coisas feitas por mim ou pelos outros que descodificam aquilo. aquilo que são as palavras do programa. os conceitos. os termos. os temas. vou lá, directamente. obrigo-me a criar eu soluções para cada assunto. não compro nenhumas. não copio nenhumas. dá uma trabalheira que nem imaginam. esgota, muito mais. mas obriga-me a estar vivo. a pensar. a criar. a brincar com aquilo tudo que tem um ar sério de ter sido dactilografado no século passado [e foi] e se encheu de poeira ao longo deste tempo e de coisas que os outros dizem que devem ser feitas. pois, mas os outros são os outros e eu sou eu. e eu sou professor. e algures num tempo qualquer deram-me um papelinho que diz: licenciatura. ou seja, deram-me licença. educadamente. para eu ensinar. [a mesma que não parece valer agora grande coisa pois tenho que ir em noventa minutos dizer o que sei em dezanove de estudo e mais uma dezena e tal de trabalho como professor]. mas está lá escrito. licença. se me deram licença então eu entro. e entro por dentro dos programas empoeirados e penso. para isto era giro isto. para aquilo, aquilo e mais isto. e sinto-me a criar cada aula como se fosse nova. mesmo que já tenha dado aquilo vezes sem conta nos últimos anos. é assim que faço. mas não recomendo. cansa. dá trabalho. inquieta. pode até mesmo fazer nascer qualquer coisa gira. não recomendo. as receitas dos outros são sempre mais simples. para mim não quero. mas são. por isso, cá vou sorrindo e seguindo nesta dose de pequena loucura [qb] de não repetir aulas, nem estratégias, nem fichas ou coisas que tais. de criar livremente. de ser professor livre de tudo o que os outros dizem ser bom e que a mim não me preenche. pronto, sou assim. o que é que se vai fazer. diria sérgio godinho: o que é que se há-de fazer? viver...

||| a guerra dos mundos numa aula...


||| ... pedagogia: a comunicação e a manipulação da linguagem e da mensagem é o propósito desta aula preparada como um desafio de nível complexo. para além do conhecimento do ambiente social e do poder da observação são trabalhadas técnicas de enquadramento da linguagem histórica assim como modelo de dramatização e oratória.

|||| ... metodologia: o professor apresenta aos alunos fazendo o enquadramento histórico, literário e narrativo da intervenção radiofónica criada por orson welles [a guerra dos mundos] o desafio para a aula. este será realizado em grupos de cinco ou seis elementos e tem um grau de complexidade elevado. os alunos devem, em grupo, criar uma narrativa de enquadramento histórico num tema contemporâneo que possa influenciar o comportamento em sociedade de pessoas suas desconhecidas. esse tema deve ser claro, objectivo e ter uma narrativa simples e que os alunos devem construir com base nos princípios dos textos jornalísticos ou noticiosos. feita a escolha do tema, os alunos devem pensar, em grupo, num suporte publicitário/de intervenção pública para o mesmo. poderá ser um discurso público, folhetos, cartazes ou qualquer outro tipo de suporte que permita a intervenção pública em média escala. pode até ser uma pequena dramatização de situação enquadrada social e historicamente ou utilizando o [des]conhecimento de momentos dramáticos e históricos para serem recriados conduzindo a reacções cívicas inesperadas. após esta criação deverá ser feito um pequeno ensaio/teste entre os grupos. o professor acompanha os alunos para um contexto aberto de intervenção onde vão levar a cabo as suas intervenções por grupo. [note-se que os elementos oficiais da escola devem estar informados deste desafio para não haver intervenções imprevistas]. os alunos realizam as suas criações e devem, no final, explicar aos participantes desconhecidos que se tratou de um exercício. deve o professor no final de cada momento criado fazer uma abordagem de desconstrução dos comportamentos fazendo uma análise sociológica dos mesmos em reflexão com os alunos.

||| ... esta aula tem como tema: a cultura social e a relação comportamental e cívica da sociedade contemporânea face ao imprevisto. é uma aula que permite aos alunos perceberem como as massas podem ser manipuladas e como a história prova que essa forma de manipulação sempre foi usada para a gestão do comportamento individual e colectivo. é uma aula onde o desenvolvimento de técnicas de comunicação é muito acentuado.

||| a ilha onde as pessoas são todas pequenas...


||| ... nunca temer. nunca deixar de ousar. não são minhas, as palavras. são de maquiavel. e estou e pensar no que quero ensinar aos meus alunos. na próxima aula. ser professor é isto. nunca deixar de pensar na aula. correcção. nunca deixar de pensar neles. correcção. nunca deixar de pensar no que quero partilhar com eles. correcção. nunca deixar de pensar no que vamos partilhar na próxima aula. eu gosto da palavra aula. implica um momento específico. não um lugar. um momento com princípio e fim. e cada aula é mesmo um momento. uns mais fáceis e outros mais difíceis. e como professor faço sempre esta gestão. do grau de dificuldade. das etapas. dos marcos pedagógicos se quiserem um termo técnico. sim, porque dar aulas não é ir da um para a dois, da dois para a três... é definir um percurso. quase como uma viagem. onde sabemos em que momento parar, em que momento acelerar para ganhar tempo, em que momento apenas parar para descansar um pouco ou aquele momento em que se adivinha uma subida à serra mais difícil de aguentar. e por isso no início do ano lectivo faço um linha numa folha em branco. depois dou a primeira aula. vejo quem me vê. olho-os. não lhes faço um diagnóstico porque não sou médico. sou professor. desafio-os. vejo como superaram [ou não] alguns desafios simples. o tempo que levam a fazer as coisas, o ritmo da turma como um todo e dos alunos, um a um, individualmente. exercícios simples que são desafios a superar. terminada a aula olho para a linha em branco no papel. faço traços que representam as etapas a cumprir. eu como professor e eles como alunos. duas linhas semi-paralelas [se é que tal existe]. uma para mim, outra para eles. ao centro um círculo a intersectar as duas. os nosso momentos em simultâneo nas etapas desenhadas. penso sempre em três níveis de dificuldade para os desafios a criar. nível um - simples, nível dois - misto, nível três - complexo. e assim sei que aulas vou dar em cada momento. que grau de dificuldade vou aplicar em cada aula que tem, em si mesmo, um desafio. e jogo com isso como um elemento de treino da resiliência. se é complexo e trabalhoso? é. mas é muito divertido. e ao mesmo tempo muito gratificante. porque não vou da aula um para a aula dois. vou de desafio em desafio, para mim como professor e para eles como pessoas. um dia, no final do ano, as duas linhas semi-paralelas vão tocar-se [daí o termo não científico que usei]. num último desafio. conjunto. de dificuldade muito acima dos níveis que defini. mas um dia falarei disso. agora não que tenho uma aula para pensar...

15/11/2013

||| godzilla numa aula...


|||... vivemos no tempo do espectáculo. [do latim spectacùlum, *vista, aspecto, chamar a atenção pública, jogos públicos, espectáculo*, derivado de spectáre *olhar, observar atentamente, contemplar*. e do derivado pouco resta nos tempos que correm. reina, na sala de aula e no espaço escolar, o instante. o imediato. derivado do princípio que rege o século vinte e um. vive um dia de cada vez e sê sempre feliz. não sei a razão mas lembrei-me de uma frase de derrida: a metafísica apagou em si mesma a cena fabulosa que a produziu e que permanece, no entanto, activa, turbulenta, inscrita com tinta branca... das memórias de um cego. e penso que talvez tenha sido sempre assim. dos coliseus romanos aos jogos gregos. dos autos de fé. o espectáculo. o chamar a atenção. mas o que me importa como professor é que tenho que lidar com isso em cada aula. e digo lidar de lide. de gestão. de movimento. de apropriação. porque há uma corrente que corre do outro lado daquela janela da minha sala de aula que vende esse lugar de felicidade, de fama, de voo sobre a realidade, de optimismo constante. e eu que sou optimista por natureza já digo a brincar [e muito a sério] que não suporto tanta felicidade. eu, professor, na minha sala de aula, com pessoas em construção tenho que trabalhar com seres humanos. não campanhas de publicidade ou modelos sociais onde a perfeição é mais real do que a realidade das coisas. por isso muitas vezes digo que estou cansado. ou que algo é triste. ou que o caminho muitas vezes se faz com o esforço de sermos nós a colocar as pedras e não a voar sobre ele [porque toda a gente quer ter asas e ninguém liga ao homem que coloca pedras na calçada para os nossos pés caminharem]. apesar de acreditar no deslumbramento como factor pedagógico válido é por isso que não me considero um romântico no que toca à educação. nem romântico, nem idealista. pragmático. porque quero que os meus alunos, ao saírem de uma aula minha, levem uma pedra na mão, um pedaço de areia e o horizonte como caminho. e não asas. podem depois acreditar que o mundo é esse, aquele que corre lá fora. mas ali, ali naquele tempo que é o nosso em conjunto, quero-os de pés assentes na terra, a pensar e viver hoje mas com ideia de um caminho de futuro. a pensarem o que serão amanhã e depois de amanhã e depois de depois de amanhã para que sejam eles o caminho livre, limpo para inventarem o dia claro que ainda nos falta a todos viver...

... e já agora, esta fotografia
é da criação dos meus alunos
para um anúncio para a compal
de que falei já aqui uma vez.
está a correr bem. está a ficar
muito bom e por isso...
estou feliz!

||| o tempo já nem tem tempo para perguntar ao tempo...


||| ... já usei o início deste poema de ary num título. hoje apeteceu-me partilhar aqui um pouco mais. aristóteles, visita/ da casa de minha avó,/ não acharia esquisita/ esta forma de estar só/ esta maneira de ser contra a maneira do tempo/ esta maneira de ver/ o que o tempo tem por dentro. todo o poema é belo. e ao entrar na escola deparei-me com esta palavra escondida no meio de tantas outras. é uma marca. ou um projecto. ou coisa parecida. atalho, em português. e eu como professor penso muito nisso. no caminho. nas minhas aulas como esse caminho. e que não sou um professor de atalhos. e que sofro do mal da pós-modernidade. ou da sobre-modernidade [segundo marc augé] e dessa coisa chamada gestão do tempo. se o ser humano é feito de ilusões a maior é mesmo essa. a da possibilidade de gerir o tempo. aos deuses o que é dos deuses e aos homens o que é dos homens. gerir o tempo? não. habitar o tempo. este que nos é concedido. e as minhas aulas são parte desse tempo. que tenho que habitar com os meus alunos. e parece que nunca chega. que se fosse possível teria mais um pouco. ou naquele dia em que o cansaço aperta, menos um pouco. talvez seja eu que não sei gerir esse tempo. ou simplesmente ele que me escapa pelas mãos. ou é o tempo certo. e é isso mesmo que penso. não que não sei gerir o tempo porque isso é um conceito impossível para mim como pessoa e como professor, mas principalmente porque sinto mesmo que o tempo que me é cedido, não pela organização artificial de um calendário, mas aquele que habito em cada aula com os meus alunos é o perfeito. nem mais, nem menos. mesmo quando sabe a pouco ou a muito. mesmo que saia da aula com a letra de sérgio godinho, hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a tanto. o tempo, esse que não existe, só faz sentido ser assim. aquele que tenho. nem mais nem menos. mas habitado. como uma casa. partilhado. e isso sim, faz o tempo de uma aula ser um tempo útil...

||| o problema é que não está escrito em letras pequenas...


||| ... fui ler. de tempos a tempos regresso ao programa que dizem que tenho que cumprir para ver se os meus caminhos estão longe ou perto do que desejavam ver transferido para os meus alunos. deparei-me com isto: a construção do conhecimento ou o fogo de prometeu. tema, chamam-lhe. fiz depois o que todos fazemos embora com intenções diferentes. fui navegar no ciberespaço. e lá estavam. manuais, testes, fichas, powerpoint's e toda uma bateria de coisas criadas sobre isto. eu só pensei numa coisa. e ainda bem que este não é um tema [como lhe chamam] que eu tenha que trabalhar. lembrei-me de ícaro. de propor aos meus alunos criar umas asas gigantes forradas com fotocópias do programa da disciplina e fazer como ícaro. não como prometeu. porque a mensagem da história de prometeu é um pouco menos relevante do que a vontade e lições morais do voo imperfeito. mas voltei a tentar. e voltei ao programa. volto sempre. estou sempre atento a isso, principalmente em história a que me ligo de forma quase umbilical. se os temas [palavra assustadora neste contexto] se alargam para além do tempo possível, pior são as recomendações. leia este texto, veja este filme, visite este museu ou espaço, faça isto, aquilo, ou então isto e mais aquilo. e volto a pensar nas asas de ícaro. e na facilidade com que me seria fácil cair no mesmo erro se tivesse que criar um programa. mas leio e releio tudo outra vez. os temas [que deviam ser assuntos] e guio-me pela minha razão. tudo o que vi nesse espaço virtual me leva a pensar que as recomendações se tornaram obrigações. por isso, vou aos clássicos e salva-me maria helena da rocha pereira. abro um livro. palavras belas. imensas. tantos assuntos e tão poucos temas. estou salvo. prometeu versus ícaro. não importa. nem grego nem romano. clássico. belo. e recrio, olimpo ou qualquer coisa parecida. mas as asas de ícaro fazem mais sentido do que tudo o resto. e vou por ai. fecho o ficheiro virtual do programa impossível e não sei para onde vou, não sei como vou, sei, como o poeta, que não vou por ali...

14/11/2013

||| o gato verde e o homem velho e os conflitos entre ambos...


||| ... é um concentrado de pessoas. uma escola. um micro-lugar de encontros e desencontros. quase uma ilha. melhor, uma península. o portão ou porta de saída faz da escola uma península. crusoe não acharia estranho tanto tempo preso numa ilha. nós [professores e alunos] achamos. e parte dos conflitos, desentendimentos, acções e reacções surgem desse simples facto que parece ser esquecido por muitos. estamos fechados. um ano. dia após dia. dias com vontade de lá estar [na península], dias em que não apetece lá ir. mas por obrigação de um mar que nos cerca, lá estamos. e se fossemos reis e senhores dessa península poderíamos gerir esses dias, essas horas, esses anos procurando encontrar, como crusoe um lugar, um espaço, algo para fazer, onde o tempo e as coisas fossem refúgio para esses momentos menos inspirados na vontade, simples, de estar. mas não somos, nem reis, nem senhores. mais nos parecemos a presos em alcatraz onde a fuga se avizinha apenas ao fim de doze anos. é por isso que nunca penso assim. é por isso que vou gerindo os dias, as horas, os anos, como rafael ou more na ilha da utopia. como se fosse possível ser como alexandre o grande e as suas batalhas contra os elefantes. ou o hipopótamo desenhado que chega à corte portuguesa com espanto. ou mesmo como quixote cavalgando contra os gigantes moinhos de vento. se não posso sair da península ou da ilha também não preciso. se as regras que ditam para eu cumprir não me servem nem ao propósito para que foram sabiamente criadas num qualquer gabinete sem janela, também não faz mal. eu tenho um gato verde, flautista [que paula rego me deu a conhecer] ou um velho e o seu peixe, que hemingway me deixou. eu tenho a guerra dos mundos de orson welles ou as cantigas de amor de d. dinis. eu tenho-os todos comigo e são eles que me guiam na luta que crio ao pensar as minhas aulas como essa janela, quase uma janela de matisse, para ver para além dos limites e levar os meus alunos comigo. porque por mais que seja esgotante e pesado estar na escola todos os dias, e como diz pedro paixão, viver todos os dias cansa, há esse lugar que é o único instrumento que tenho para combater os conflitos, a indisciplina e o facto de não saber ser crusoe por muito tempo, que é a minha imaginação e o lugar que consigo fazer nascer em cada aula. esse continente inteiro de terra nova onde posso pisar, eu e eles, pela primeira vez a terra e saber-lhe o cheiro novo, a cor nova, a descoberta por fazer, o conhecimento por aprender e focar tudo o que é o universo de um dia nesse lugar que passa a ser deles e meu. desafio a desafio. cansa pensar as aulas assim? cansa. mas não há lugar mais belo para se estar do que esse...


||| ... do imprevisto que acontece sempre...


||| ... ó professor [e a seu tempo falarei desta forma de chamar por mim - a parte do ó, claro], nem sabe o que aconteceu. um senhor esteve à minha espera para dar resposta ao papelinho com a frase que dizia: bom dia, e que nós entregámos às pessoas na aula da semana passada. nem eu, confesso, esperava tal situação. fiquei surpreendido. ao mesmo tempo, inquietamente feliz. de todas as coisas que podia prever que fossem acontecer na minha aula ou em resposta a esta, aquela, não tinha previsto. e ainda bem que assim é. que não consigo ver para além do óbvio. que são eles, os meus alunos, que me lembram disso. que não posso controlar tudo. que há respostas em jeito de teoria do caos que me surpreendem. há nisso uma beleza infinita. e lembro rómulo de carvalho que dizia em conversa que ficou registada para a história que o que gostava mais nas suas aulas era quando surgia uma situação para a qual não tinha resposta. que a tinha que procurar ou construir. e ainda bem que assim é. que há no mistério das coisas imprevistas todo o espaço do mundo para eu ser professor e encontrar, com os meus alunos, significados. porque a lógica é fruto da descoberta. e esta é a origem do conhecimento. e esse é o único universo do professor que conheço.

||| ... [re]criações

Despedidas - Partindo de António Nobre

Só - Partindo de António Nobre

Glória - Infante

Fortuna - Infante

13/11/2013

||| a toca do coelho da alice está maior...


||| ... os meus alunos estavam a ler um texto de maria luisa ducla soares. a seleccionar frases, texto e contexto. para um trabalho de recriar pela dramatização em quinze minutos uma história. normal? sim. a única questão é que a leitura do texto estava a ser feita através do visor de um telemóvel. não por um livro. não numa fotocópia. no telemóvel. não me incomoda porque o texto não é o essencial neste desafio em que estão a trabalhar. mas é assim com toda a informação. à distância de segundos lá está, disponível. eu ainda a tenho em mim. a informação. fragmentos, por vezes. pedaços inteiros de dados, em muitos casos. acedo com menos rapidez do que eles. a memória vai falhando. tem uns bugs de vez em quando. mas lá está. a ocupar espaço. sim, espaço. porque a informação ocupa espaço em nós. como o passar das coisas, por nós. ocupam espaço em nós. e uso-a para ensinar. essa informação. essas memórias. mas ultimamente tenho-me perguntado muito seriamente. e eles? o que acontece a uma pessoa que tem a informação fora de si. o que acontece a esse espaço do cérebro que fica livre. duplica tarefas [e a verdade é que eles e nós somos cada vez mais multitasking - embora eu cada vez mais me sinta um dr jekyll and mr hyde nesse campo]. tenho estado muito atento. se o tempo de atenção diminui a capacidade de fazer mais em menos tempo aumenta. mas menos co-relação entre informação acontece. e isto, para ensinar e aprender, muda as regras. e eu tenho pensado nisso. para onde vai toda a potencialidade dessa libertação de espaço que estava reservado à informação? sinceramente trabalho todos os dias para que seja ocupado pela imaginação. assim seja... espero.

||| da dívida para com os meus alunos...


||| ... de aula para aula penso que tenho que gostar de a orientar. à aula. aos meus alunos, em contexto de aula. eu, como professor, tenho mesmo que gostar de dar aquela aula. de nada vale o exercício fútil de cumprir programa, de cumprir objectivos, de chegar ao fim de um tempo qualquer marcado num calendário qualquer e dizer: cumpri tudo certinho. sou [im]perfeito. penso as aulas para os meus alunos para quem tenho uma dívida. estou sempre em dívida para com eles. porque saio sempre da aula a pensar que podia ter dito aquilo naquele momento, que podia ter ainda feito isto ou aquilo para complementar a experiência, porque podia ter ido mais longe, exigindo um bocadinho mais. esta fotografia representa um desses momentos. se eles criaram um novo cenário partindo da leitura visual e contextual da obra de arte eu podia ter parado por cinco minutos e ter falado do autor. da sua lógica. da sua corrente de trabalho. e por vezes fica isso em dívida para com eles. porque cada aula é um momento e por muito que eu possa voltar a falar em tudo isso já não é o momento vivo da aula. aquele que é o momento certo em que o conhecimento se cruza com a curiosidade e as coisas fazem sentido. é por isso que um dos instrumentos mais importantes na função de ensinar é a observação do contexto. do momento do contexto. ali, naquele instante, faria sentido aprofundar a noção de arte contemporânea. da diferença entre ser moderno e ser contemporâneo. da criação e da arte pública. da arte para o público e da arte para as elites. do tempo histórico e da função da arte. sei que novos momentos vão surgir onde falarei disso. sei que sentiram isso e isso ficou registado na experiência de descobrir a obra. mas é destes momentos em dívida que vive a relação do professor com os seus alunos. e da superação dos mesmos, criando novos contextos para superar esta falta. e tudo isto é um universo único que representa o que de mais desafiante tem esta arte de se ser professor...

||| dos espaços infinitos e para além disso...


||| ... tenho sempre uma ideia em mente, como professor. uma ideia que é uma pergunta. será que os meus alunos conhecem a sua cidade? conhecer é habitar. habitar é explorar. ver de todos os ângulos e perspectivas. foi por isso que, durante o meu tempo para almoço fui visitar uma exposição presente na faculdade que já não visitava há uns bons tempos. o tema: a origem da terra. o que encontrei? uma colecção sobre o egipto, uma colecção de borboletas, uma múmia,  um esqueleto de um crânio de um dinossauro, uma vespa em tamanho aumentado a pairar sobre a minha cabeça e fosseis de uma beleza curiosa. perguntei quanto custava a visita orientada. um euro por aluno. não tenho dinheiro. a aula era daí a menos de uma hora. era uma hora e trinta e cinco minutos e eu tinha aula ás quatorze e trinta. impossível. e sem ser orientada, explicada ou afins? é gratuito. a conversa durou, talvez, dez minutos. e achei, como acho sempre, que quem está num espaço museológico tem um profissionalismo e uma dedicação muito grande. e foi assim que no espaço de uma hora decidi levar lá os meus alunos. visitei em cerca de quinze minutos e desenhei um plano. a identificação com uma peça. sem explicações. em silêncio. qual a peça que lhes despertava maior interesse, curiosidade, espanto. escolher uma de todas as que estão presentes na exposição. ó professor a múmia é verdadeira? ó professor viu as borboletas? ó professor aquele esqueleto do dinossauro é verdadeiro? temos que escolher uma ou podemos escolher mais? foram para ver. não foram para serem orientados. e com tantas perguntas foi possível responder a cada uma delas. falta o enquadramento histórico e científico das respostas. isso tenho tempo para o fazer. gostei da experiência. eles, observadores. seleccionadores pelo olhar. pela dúvida. sem orientação. e o técnico do museu estranhou tanto. mas senhor professor não seria bom eles terem um enquadramento teórico? científico? explicar o que estão a ver? respondi o que observei: assim o farei, depois, ligando interesses, descobertas e dúvidas. em conversa. eu converso muito com os meus alunos. no final, de tanto estranhar o silêncio que reinou na visita e esta abordagem perguntou: posso saber o seu nome? e eu disse. e ele agradeceu ter tido uma abordagem diferente no seu espaço que não estava à espera. nem ele, nem eu, nem eles. e a múmia ganhou a todos os outros...

12/11/2013

||| aristóteles visita de casa da minha avó...


além, na tapada das quatorze cruzes, 
que triste velhinha que vae a passar! 
não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes... 
nautella, velhinha, não vás tropeçar!
antónio nobre

||| ... tenho uma memória que me leva a uma conversa com uma pessoa que admiro pela sua perseverança. digo na brincadeira que ela anda sempre com os seus calhaus de quem gosta de falar e que lhe contam histórias. é uma embaixadora de um museu único. o museu arqueológico de são miguel de odrinhas. e dizia-me ela em conversa entre amigos que a eternidade tem o espaço de três gerações. depois há o esquecimento. e ao levar os meus alunos a ver as estátuas da cidade senti isso. esta que estão a recriar é a de almeida garrett. muitos passam por ela todos os dias e ainda não sabiam quem era. não importa. agora já sabem. não temos que saber tudo. mas o que me custou mais foi parar num busto de um dos poetas mais interessantes da literatura portuguesa e ver o estado de degradação e esquecimento a que está votado. falo de antónio nobre. está ele, só. desta vez mais do que isso. esquecido. vandalizado. e como se fosse possível falar da solidão sem falar dele. dele, nas suas palavras num português que já não existe. nem este, nosso de hoje, tenderá a continuar. e que lição maior podia eu dar aos meus alunos sobre a necessidade de olhar e cuidar do esquecimento e da memória do que este. ó professor, isto aqui está uma porcaria. pois está. a memória de um povo está a ser apagada em função de um futuro que querem-nos dizer que é melhor do que a nossa história. apagando-nos a memória é sempre mais fácil dizer que há verdades absolutas. não importa se viram o mesmo do que eu. se compreenderam. importa que sentiram. o que sentiram. e isso foi o melhor que lhes pude dar nesta aula.

||| nove fora nada dá nada que se lhe valha...


||| ... não irei transformar este espaço no que não quero. não quero partilhar aqui as coisas que não são educação. mas não resisto a deixar a minha posição pessoal no contexto que me cerca [que nos cerca] neste momento. falo da avaliação, da prova de competências para a docência e mais mil e uma formas de avaliação do que quer que seja. e por isso este será o único texto inútil que farei sobre isso. não sou contra avaliar seja o que for. acho que é preciso porque pode ser visto como um instrumento válido de análise sobre o conhecimento. sou contra e sempre serei que isso seja um fim em si mesmo. isto para os nossos alunos será algo irreversivelmente terrífico. a vida é feita de testes. é. mas não da mecanização das respostas. a teoria do caos prova o contrário para aqueles que da sua sapiente ciência falam. preparar um aluno não é criar e educar um papagaio. é construir uma pessoa. porque eles antes de serem alunos e nós antes de sermos professores somos pessoas. pessoas. e ser humano não é ter. é ser. não é ter respostas para tudo. é não saber e ter dúvidas. é procurar saber. é ser curioso. e estamos a roubar isso ao futuro deles e nosso. nós ao fazermos da escola uma máquina de reprodução de respostas automáticas e eles ao assumirem que o erro, esse elemento fundamental para a aprendizagem, é ter uma cruz a vermelho numa linha qualquer. é fácil saber o que se espera de tudo isto no futuro. homens e mulheres que obedeçam. homens e mulheres para quem o erro é algo castrador. é assim será muito mais fácil mandar. porque é isso que nos estão a fazer. a mandar em nós e neles. não a governar. governar é outra coisa. e por isso sou daqueles professores que nunca pedi a minha avaliação para ser excelente. sim, fui prejudicado. cheguei naquela fase do absurdo a ter nove e ser classificado com bom porque não pedi para ser avaliado e tudo aquilo que implicava, desde as aulas assistidas a tudo o resto. não pedi e não peço. mas o sistema ganhou e a coisa ficou. e ainda hoje me pergunto do tanto e dos tantos que ouvi que eram contra uma avaliação incapaz de avaliar que hoje pedem e aceitam tudo isso. resistir é sempre mais difícil do que ceder. contra mim falo que todos os anos me prejudico mas faço-o porque um dia tudo isto irá passar de tão absurdo que é. e para terminar, a prova. sinceramente ainda estive do lado utópico [e estou] porque gostava de uma vez na minha vida assistir a um acto único de desobediência civil. este é agora o meu estado de alma. estou em desobediência civil. em esperança queria ver que ninguém fosse fazer a prova. mas a realidade já me mostrou no passado que por mais licenciaturas, mestrados e doutoramentos que haja num grupo de pessoas é a consciência cívica o elemento mais importante. e a luta pela causa comum. e por isso tudo me prende em suspenso. num misto de desejar e dizer que vai ser agora que se mostra a quem manda o que deve ser governar. e por outro a realidade da história mostra que essa visão romântica tende a só acontecer em momentos únicos da história guiados por uma transcendência qualquer que ninguém sabe depois descortinar. por isso, resta-me desejar uma coisa. como muitos, se tiver que fazer a dita prova, provarei. sim, em jeito de uma desobediência ainda maior. serei brilhante. tentarei ser brilhante. ser muito melhor do que sou. mostrar que para se ser professor não é preciso escrever umas coisas num papel sobre o que é ser professor ou sobre o que estudei e estudo todos os dias. se tiver que ser irei lá e farei a prova para ser avaliada acima de excelente. e talvez assim, se todos nós formos brilhantes o absurdo de tudo isto seja maior do que a realidade e se calem todas as vozes que ensurdecem a nobre arte de governar democraticamente... 

e sobre isto, nada mais direi.

||| uma aula aberta ao património esquecido...


||| ... pedagogia: valorizar o património desconstruindo a sua relação com a indiferença do espaço e tempo de uma comunidade tem como base uma apropriação completa dos monumentos vistos como elementos incompletos onde a arte e a intervenção contemporânea podem explicar contextos, histórias e identidades.

||| ... metodologia: esta é uma metodologia de «aula-aberta». todo o processo de apropriação do património monumental passa para o processo criativo dos alunos por via de desafios directos. é trabalhada a questão da apropriação individual e colectiva [enquanto turma]. o professor desenha um percurso por cinco estátuas da cidade. este percurso tem que estar muito bem definido pois será a partir dele que toda a aula vai [ou não] fluir. se possível escolher estátuas de figuras individuais e colectivas. ou baixos-relevos. escolhidas as estátuas e definido o percurso o professor começa por definir que o desafio será feito primeiro individualmente, depois em pares, depois em grupos de três elementos, depois em grupos de cinco ou seis elementos e para último deixa a divisão da turma em dois grandes grupos. das cinco estátuas que são simultaneamente cinco paragens de cinco a dez minutos e cinco desafios o professor desenha e explica, em cada paragem, esses mesmos desafios. o primeiro, individual consiste em representar com o corpo a posição que a estátua apresenta. obriga os alunos a perceberem a relação entre o real e o figurado/encenado, assim como, a mestria do escultor/criador para a modelação das posições do corpo. o segundo desafio numa outra paragem/estátua é feito em pares e deve permitir a interacção entre os alunos que devem replicar a imagem da estátua em conjunto. este desafio permite trabalhar a noção de proporção e tomada de decisão, assim como analisar a relação entre a mensagem intrínseca e o significado. a terceira paragem representa o primeiro desafio criativo para os alunos. em grupos de três elementos os alunos são convidados a criarem uma primeira representação sua da mensagem que uma nova estátua lhes transmite. são aqui trabalhadas as questões da identidade, da mensagem histórica e da cultura social. na penúltima paragem e estátua os alunos são convidados, em grupos de cinco ou seis a criarem um elemento estranho à estátua que observam. esta paragem permite trabalhar o contexto e a coerência na obra de arte e na temporalidade histórica do património cultural em espaços públicos. por fim, na última paragem e estátua a turma dividida em dois grandes grupos é desafiada a completar o cenário/elementos que formam o conjunto monumental  esta intervenção permite uma apropriação do património e uma leitura do universo histórico e social do seu enquadramento.

||| ... esta aula tem como tema: o património público e a identidade cultural, social e histórica. muitas vezes descurada e esquecida a relação entre as estátuas colocadas em espaços públicos e a apropriação da mensagem histórica permite uma releitura dos espaços do quotidiano e uma valorização do mesmo. é uma aula-aberta onde, de facto, a liberdade de criação por parte dos alunos deve ser valorizada e impulsionada. 

||| do tempo de espera à espera do tempo...


||| ... como professor não gosto de voltar aos lugares comuns. mas este é o meu lugar comum. e gosto dele. da perspectiva que me dá. é como se fosse um universo em si mesmo. um espaço onde posso ver e esconder. revelar, sem ser visto. nunca gostei da sala de professores. nunca lá fui. em todas as escolas que estive poucas vezes me viram por lá. talvez para ir buscar uma chave ou coisa parecida. para me encontrar era preciso ir à biblioteca. ou a um lugar como este. não é o meu lado anti social. é a minha visão do que é um professor e do tempo que tenho para a escola. não gosto do isolamento que a sala dos professores cria do espaço comum. da ágora que deviam ser todos os espaços da escola. quando chego oiço os sons que só a escola tem. eles, a rir. a falar. a correr. a gritar ou a namorar. nós, os professores, muitas vezes em conversas ou em silêncios. para mim, quando era aluno como eles, a sala dos professores era um templo. um local a respeitar. um sacro-santo lugar onde eles estavam. eles, os professores. e nós, os alunos, em reverência temíamos lá entrar. talvez tenha sido essa imagem que me levou a escolher este sofá como o meu lugar de descanso nos intervalos entre aulas. é gosto de ver que os meus alunos ali vão falar comigo. noventa e nove por cento das vezes para perguntar: ó professor, o que é que vamos fazer hoje? ou simplesmente para dizer: bom dia. e isso é demasiado importante para ser fechado numa sala isolada do universo da escola enquanto comunidade. e agora que estamos a perder, mesmo entre nós, professores, e entre nós e eles, alunos, a capacidade e o tempo para conversar há que resgatar esse espaço comum, esse tempo comum, procurando novos espaços para o reencontro que tanta falta faz para que uma escola seja, de facto, uma escola...

11/11/2013

||| do banho do gato que devia ser pardo mas não é...


||| ... da confiança. há nesta fotografia uma coisa que não gosto. a tira de aço que ata a cadeira ao chão. se o exercício de colocar cadeiras no espaço público é em si curioso, a falta de confiança em sociedade não o é. é fruto de uma espécie de evolução [dizem]. e hoje que não me apetece falar da aula que dei e que foi um exemplo de liberdade e confiança não posso deixar de falar nisso mesmo. na confiança. porque há uma relação que é fundamental entre o professor e os seus alunos. entre eu e eles. e sabemos, ambos, disso. eles esperam que eu não a rompa com falsas expectativas ou quebra de lealdade. e eu espero que eles não a quebrem por desrespeito ou falta de dedicação e brio. eu sei, são palavras antigas. brio. dedicação. mas é nisso que eu aposto quase tudo. e sei que eles são capazes de o fazer e conseguir como eu tento, a cada aula que penso e crio, conseguir. porque hoje no fim de uma aula dizia a uma aluna que me olhava com ar de espanto: eu gosto muito de vos dar aulas. vocês aceitam os desafios, envolvem-se, empenham-se. querem e tentam fazer bem. mesmo quando podia sair melhor ou alguma coisa corre menos bem. e isso, no meu tempo, fazia já parte de uma parte do que era o brio e a dedicação. e por isso quando penso uma aula há sempre uma margem que dou para trabalhar esse factor determinante para o nosso sucesso em conjunto. há uma matriz de base em cada desafio que parte da minha confiança em cada um dos meus alunos e deles em mim. só assim posso depois criar desafios onde a autonomia e a inteligência social podem ter lugar. e não há nada mais pedagogicamente válido do que um professor que confia nos seus alunos e vice-versa. porque a escola, como já aqui escrevi uma vez, para mim como professor, tem que ser muito melhor do que a sociedade o é hoje e não precisa de tiras de aço que falsamente prendem a imaginação e a liberdade. precisa de tiras de aço que nos unam a todos em confiança para sabermos mais, crescermos mais, criarmos mais em conjunto...

||| do proibido proibir ao fazer o que não é suposto...


||| ... foi um fim-de-semana de muito trabalho. o foco estava noutro desafio realizado. o cansaço não ajuda. dormir pouco. andar com a aula sobre o silêncio sempre na cabeça. e chegar, a metros da porta da escola e não saber mesmo o que fazer. parar um segundo. andar perdido um segundo. deambular. palavra que adoro. acto que ainda gosto mais. e foi exactamente isso que aconteceu. vi isto. exactamente o que está nesta fotografia. e fui buscar aos arquivos da memória duas coisas. a primeira uma experiência que fiz com professores no museu nacional de arte antiga há uns bons dois ou três anos. e depois o imenso gozo que dá podermos trabalhar o património pelo qual passamos todos os dias sem o ver. e hoje, sinceramente, apetece-me dizer que ainda bem que não tinha nada pensado. um aluno meu que faltou à aula mas pediu no fim para lhe dizer o que havia sido feito neste dia, chamou à aula - aula aberta. gostei da designação que vou adoptar. brilhante. é isso mesmo. aula aberta. e foi a sensação absoluta de liberdade de pensamento que me levou a decidir. com o sol a ajudar, com a ideia completa, subi até ao meu lugar de descanso, eu, agora descansado que lá estaria a história para me ajudar. e assim foi... e gosto imenso de não saber de uma única ficha, questionário, dinâmica ou actividade que tenha registado num qualquer papel. para dizer a verdade não tenho nenhum arquivo. é verdade. pura e simples. não tenho um único papel ou ficheiro que use mais do que uma vez. isso obrigou-me, como professor, a criar sempre. a recriar sempre. posso pensar as minhas aulas com uma liberdade que me leva a brincar com conteúdos, objectivos e metodologias sempre com a angústia libertadora de não saber como fazer. tenho ideias. as ideias. o conhecimento. e misturar isso, só em pensamento, vale mais do que qualquer papel que possa servir-me de cábula anos a fio ou num momento de aflição pelo cansaço. valeu-me o bonequinho vermelho que me obrigou a parar e almeida garrett que me olhou em silêncio...

08/11/2013

||| do medo de não saber como pintar um pinto de azul...


||| ouvia ontem a crónica do bruno nogueira sobre margarida rebelo pinto. esta. e pensei que uma vez ouvi uma conversa com a referida autora [escritora é um pouco excessivo]. e detive o pensamento nisso. dizia ela que só conseguimos ver o mundo da perspectiva do nosso universo de vida. dos nossos círculos de experiência e vivência. não devem ter sido estas as palavras mas a ideia era essa. e fixo o meu pensamento nisto. nisto porque explica a controvérsia que as suas palavras criaram. nisto porque é, de facto, o meu medo enquanto professor. não é o medo de ser contaminado pelas palavras da margarida rebelo pinto, que nunca li mas gostava de ler para saber o que dizer, mas o medo desse universo fechado, sem janelas para o outro, os outros e as outras vidas. essa definição de ser por não compreender o universo dos outros. situo-me por isso nos antípodas deste pensamento. fui, a seu tempo, leitor de tolkien e dos seus universos criados e imaginários quando os gnr cantavam que aos dezasseis anos nunca se teve tempo de ler o senhor dos anéis. ou de dante e dos seus infernos. ou mesmo, recentemente, de j. k. rowling e o ser harry potter. para não falar de homero ou de júlio verne lidos em tempos em que o tempo permitia outras coisas. e agora que saiu um livro único que quero muito comprar, o dicionário dos lugares imaginários da literatura, penso que medo que tenho em ser professor. um medo legítimo. o medo de ter medo de dar aos meus alunos apenas o meu universo e não conseguir pensar para além disso. de não conseguir construir aulas para além daquilo em que acredito. porque a visão maniqueísta do mundo não se satisfaz. bem e mal. certo e errado. um e outro lado da barricada. bruno nogueira vs margarida rebelo pinto. importa-me ser capaz de construir aulas que permitam aos meus alunos ver os mundos para além destes. aqueles, imaginados. aqueles que podem compreender e aceitar. um e o outro. a democracia não é o contrário da ditadura. é a forma única de expressão da liberdade de todos. de dar a palavra a todos. de dar o direito de pensar igual ou diferente de uma suposta maioria ou lutar ao lado de uma suposta minoria. mas também não é esse o meu objectivo. como professor a única coisa que quero é que os meus alunos aprendam a plenitude do respeito e de se ser humano. homem. mulher. inteiro em todos os mundos possíveis e imaginários. em respeito ético e social pelo outro. e é disso que tenho medo. de não ser capaz de ir mais longe do que o mundo em que cresci e habito e não ter as ferramentas e ideias necessárias para criar essas oportunidades. e para mim é isso que distingue um professor de qualquer outra profissão. ser mais, olhar mais longe, ver para além do seu mundo e ver os mundos para além de hoje... 

07/11/2013

||| ó tempo volta para ali e esconde-te...


||| um ano. cento e tal aulas. semana após semana. dia após dia. dois anos que são cortados a meio pelo tempo. ou que importa tudo isso. são números. o tempo, já nos ensinou stephen hawking não existe. e não existe mesmo. existe uma sucessão de momentos que teimamos em ordenar. o pensamento, a lógica, o raciocínio faz isso. e vejo todas as aulas como uma só. cinco, dez, setenta, cem. uma só. que começou há uns momentos atrás e acabará num momento no futuro. o que importa é mesmo cada um desses momentos. a lógica de tudo isso. pensar aula a aula é mesmo voltar a hawking: it’s like asking directions to the edge of the earth; the earth is a sphere; it doesn’t have an edge; so looking for it is a futile exercise. tudo isto para falar da gestão dos momentos. já uma vez referi aqui esta questão. da diversidade do que é considerado automaticamente uma turma. um dos exercícios que mais faço é olhar para os meus alunos. para o seu movimento ao chegar. ao estar na aula. ao formar os grupos de trabalho. ao sair. ao estar no corredor. ao sair para almoçar. ao passar na sala de convívio. ao falarem uns com os outros. eu preciso, não integrar, mas perceber esses movimentos. compreender como eles estão naquele momento. como eu estou para aquela aula. que esperam. o que procuram. como estão as relações entre eles. nós não vamos estar juntos um dia ou uma hora. vamos partilhar muitos, muitos momentos juntos. e mais do que qualquer outra coisa eu tenho o dever de perceber o ambiente e a forma de cada um desses momentos antes de os pensar e criar. é um desafio complexo. exige uma atenção permanente. o descuido é problemático. por isso, a atenção é uma das ferramentas mais importantes de um professor. e nunca, mas nunca, ter como garantido que eles estão disponíveis para aprender e eu disponível para ensinar. não somos espelhos. não estamos ali para replicar. estamos ali para reflectir. somos espelhos de duas faces. e isso é algo que determina a forma como tudo tem o seu tempo e o seu espaço na construção de uma aula para além do tempo...