12/11/2013

||| aristóteles visita de casa da minha avó...


além, na tapada das quatorze cruzes, 
que triste velhinha que vae a passar! 
não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes... 
nautella, velhinha, não vás tropeçar!
antónio nobre

||| ... tenho uma memória que me leva a uma conversa com uma pessoa que admiro pela sua perseverança. digo na brincadeira que ela anda sempre com os seus calhaus de quem gosta de falar e que lhe contam histórias. é uma embaixadora de um museu único. o museu arqueológico de são miguel de odrinhas. e dizia-me ela em conversa entre amigos que a eternidade tem o espaço de três gerações. depois há o esquecimento. e ao levar os meus alunos a ver as estátuas da cidade senti isso. esta que estão a recriar é a de almeida garrett. muitos passam por ela todos os dias e ainda não sabiam quem era. não importa. agora já sabem. não temos que saber tudo. mas o que me custou mais foi parar num busto de um dos poetas mais interessantes da literatura portuguesa e ver o estado de degradação e esquecimento a que está votado. falo de antónio nobre. está ele, só. desta vez mais do que isso. esquecido. vandalizado. e como se fosse possível falar da solidão sem falar dele. dele, nas suas palavras num português que já não existe. nem este, nosso de hoje, tenderá a continuar. e que lição maior podia eu dar aos meus alunos sobre a necessidade de olhar e cuidar do esquecimento e da memória do que este. ó professor, isto aqui está uma porcaria. pois está. a memória de um povo está a ser apagada em função de um futuro que querem-nos dizer que é melhor do que a nossa história. apagando-nos a memória é sempre mais fácil dizer que há verdades absolutas. não importa se viram o mesmo do que eu. se compreenderam. importa que sentiram. o que sentiram. e isso foi o melhor que lhes pude dar nesta aula.