25/11/2013

||| caíram todos ou ficou só lá um...


||| ... ainda sou do tempo em que, no final do período lectivo, lá havia um jogo de futebol famoso. era o dos professores contra os alunos. geralmente com grande desafio anunciado e que iam levar uns quantos ou marcar outros tantos. era um tempo de desconstrução. de não se ser professor mas pessoa. éramos todos pessoas por um bocadinho. eles e nós. pessoas. e sempre foi um espaço que habitei. o do recreio. palavra velha esta. recreio. já pouca gente a usa. foi substituída pelo "apanhar ar". e está tudo dito. apanhar ar. e hoje, chegado à minha sala de aula alguém me disse: professor hoje só tem cá oito alunos porque foi semana de projecto e por isso tiveram tolerância. estes oito vieram. fui buscar a chave, rodei a fechadura, abri a porta e na minha mala havia [como sempre há] solução para cinco hipóteses de trabalho em aula. menos um. aquele. para oito. todos os outros eram para os vinte e cinco ou mais. então perguntei. o que querem fazer? vamos fazer isto, aquilo ou vamos embora. embora não já que estamos aqui vamos fazer qualquer coisa juntos. vamos para a rua, aqui na sala não queremos estar. vamos. descemos ainda sem saber o que fazer. alguém, dos oito disse: vamos jogar bowling. e eu disse, está bem. a sério, professor. sim, vamos. onde? lá sabiam onde. lá fizemos quinze minutos de viagem para lá e lá fomos. dez jogadas cada um. éramos nove pessoas. eles, oito e eu, um. pessoas. fomos a conversar e viemos a conversar. sobre os gatos, o trabalho da mãe de um deles, o irmão e a prima, os anos que uma aluna fazia e eram dezasseis e todos sabemos o quão importante é fazer dezasseis anos. e fomos pessoas. não foi uma aula. e o que é que isso importa? foi outra coisa qualquer. foi um jogo de bowling entre pessoas. e houve respeito. regras. conversas. houve tempo para me perguntarem coisas que queriam saber de mim como professor. e que não sabiam. e eu respondi. e eu deles. das coisas, deles. e quando os deixei de volta na escola pensei se teria feito bem. se não devia ter dado a aula que trazia prevista na mala e pensada em tudo o resto. e recordei-me de uma frase de um mestre que tive na faculdade, talvez o único professor com quem aprendi alguma coisa que me ficou até hoje. o que fica, sempre, na história, nas histórias de cada pessoa e dos países, são os momentos vividos sem serem pensados. a história está cheia deles. os imprevistos. o impensáveis. e este foi um deles. e foi saudavelmente bom saber que num tempo em que ninguém tem tempo eu tive tempo para ir, com estes oito alunos, pessoas em construção, jogar bowling e conversar sobre tudo e sobre nada. há lugar para o recreio na escola. haja lugar para as pessoas na escola. e teremos escola. e teremos, futuro.