19/11/2013

||| da forquilha ao garfo ou a arte de diagnosticar o outro...


||| ... no morrer da idade média o chefe da igreja católica usou pela primeira vez um garfo. um garfo não, uma forquilha, como relatado na altura. como seria possível tal incongruência espiritual? e foi assim que o garfo nasceu e modificou o seu design para o que hoje temos em todas as mesas. e o que é que isto é para aqui chamado? esta é uma parte da capa do livro não é meia noite quem quer de antónio lobo antunes. tem uma palavra que é um referente para mim como professor. quem. tudo isto a propósito da avaliação diagnóstica e da avaliação formativa [da outra falarei um dia em que tenha tomado um chá de tília]. a pergunta: então não fizeste um teste diagnóstico? resposta: não. então porquê? resposta: porque não passaram na triagem primeiro. sorriso. e pronto. um dia ainda vou ver os alunos entrarem na sala com pulseiras verdes, amarelas, vermelhas e [não sei se há mais cores] de acordo com o que sabem ou não sabem. em primeiro lugar não acredito no modelo de avaliação diagnóstica por via de testes. os meus alunos não são o que sabem. são o que são. e assusta-me quando pergunto a outros professores que os conheceram mais cedo do que eu e que me descrevem cada um deles assim: esta é boa aluna, estuda, sabe tudo. este é terrível. ui, tem cuidado, não lhe dês corda. ou qualquer coisa pior que é: neste nem vale a pena falar, anda lá por andar. ou qualquer coisa como: esta miúda é aluna de cinco desde o sétimo ano. que medo. penso. e pergunto: está bem, a miúda lê, e que livros lê? [e não me sabem responder] e este que dizem que anda lá por andar do que gosta de fazer fora da escola? [e não me sabem responder]. às vezes sou um pouco mais cruel. pergunto, olha que giro, estuda muito, então e de que cor são os olhos dela ou dele? [e não me sabem responder]. mas isto é algo que nos assombra a vida toda. somos o que estudamos, sabemos ou fazemos. nunca o que somos. é assim quando nos apresentam numa coisa qualquer. é fulano tal, licenciado em ..., mestre em... doutor em... sábio com prémios que até lhe pesam nas costas e etc... então opto sempre por querer saber quem eles são. eles, os meus alunos. uma folha em branco e escrevam. sobre o que quiserem. e escrevem. e o diagnóstico é feito de aula para aula. em conversas. foi assim que soube que há alunos meus que querem ler o senhor dos anéis. ou que gostam de futebol mas não de jogar, de ver o movimento para copiar os gestos. ou que gostam e sabem cantar. outros que simplesmente querem ser muito bons no que estão a aprender. sabem o que querem. ou outros que ainda estão em construção. que procuram ideias. e isso só se consegue fazer conversando. é esse o melhor instrumento de diagnóstico possível para um professor. não querer saber só o que sabem. procurar partilhar o que é e o que eles são. e assim, ensinar a aprender...