26/11/2013

||| da insustentável leveza do saber...


||| ... sou daqueles professores que estão inconformados. daqueles que já estão fartos de tanta estupidez vinda de quem devia ter poder e tem prepotência. e manda. e estou-me nas tintas para as ordens. a única coisa que me preocupa é que andem a roubar uma só coisa. o tempo. o resto, com luta e resistência, com inteligência e serenidade, com o passar deste soluço [que isto e esta gente hoje é só um soluço no devir histórico] passará. o que me assusta é o tempo. roubarem-me tempo. é que eu sou daqueles encravados nas frases que destruíram a contemporaneidade. começou pelo viver a vida um dia de cada vez. depois, forte visual e emotivamente foi o desvirtuar do conceito carpe diem. e terminou com a terrível expressão que todos somos substituíveis. eu não sou um professor desse tempo. talvez, nem deste. nem um dia de cada vez. nem o sentido deturpado do cape diem. nem substituível. sou e quero para mim, como professor, o tempo dos construtores de catedrais, do homem que plantava árvores, do que ficará depois de mim. quero o tempo com sentido. com profundidade. com saber. o tempo da prática que leva à perfeição. o tempo em que nenhum ser humano é substituível. porque não o é. e sei que este é um combate de pensamento. mas é o meu. o meu como professor. porque eu estou um ano lectivo com os meus alunos. um ano. não é um dia de cada vez. e eles vão sair das minhas mãos como professor para continuar a sua vida. e nenhum deles é substituível como eu não sou. e porque o mundo e as coisas nele terão que ser inteligíveis para eles e para mim e isso requer tempo. o tempo dos construtores de catedrais que não construíam para si mas para a eternidade do tempo. e hoje, vamos lá visitar, os templos, os espaços, os lugares e ninguém se lembra destes homens e mulheres que nos deixaram em pedra o seu tempo. ser professor é isso. ser professor como quero e sou é isso. ser como o incógnito homem que num vale deserto planta árvores e quando as planta não volta lá para as ver crescer porque há muito terreno pela frente. e eu não quero que os meus alunos vivam mais neste tempo, nem sejam atacados por esta gente que me ataca a mim. por isso, para isso é que sou professor. dos dias que estão para vir. do aproveitar a vida toda e não só um momento. do ser, para mim e para eles, cada pessoa que cruzar a nossa vida, insubstituível. e por isso o meu combate hoje, nestes dias, nestas horas, no meu tempo é por isso. porque me podem tirar tudo menos o tempo que tenho para ser professor e como o quero ser...