21/11/2013

||| de babilónia restam os relatos, o silêncio e as sombras...


 ||| ... isto não é uma carta aberta. é um panfleto. quase me sinto lutero em luta. sou professor por destino. não sou só professor, mas sou professor porque a vida fez de mim um professor. é o que sou. mais do que outra coisa qualquer. tenho um imenso encanto pela arte de ensinar e dedico-me a ela de alma e coração. e hoje, ao passar pela escola, pensei. pensei que não posso deixar de dar o exemplo aos meus alunos quando vejo a educação a ser vandalizada como hoje acontece. não é a escola. a escola é uma instituição. e como isto que estão a fazer é má gestão de recursos humanos a escola estará depois disto. o pior é o que estão a fazer à educação. por mim passaram já muitos ministros, secretários de estado e até primeiros-ministros. a democracia que aceito é assim. é natural a mudança. faz parte de um sistema que tende para a evolução. mas isto não. isto, esta coisa que tendem a chamar de reformar é tudo aquilo que não deve ser um processo de transformação no contexto educativo. sou professor e estou a ver a educação ser vandalizada. em tudo. porque ser professor contratado ou do quadro é ser professor, ponto. desde quando o vinculo laboral faz das pessoas seres diferentes uns dos outros se a função é a mesma? porque uma escola não é uma fábrica. porque o mundo só funciona bem se a escola for um lugar onde a educação é usada para treinar a obediência e a repetição? porque não se governa mandando nas pessoas que fazem a escola todos os dias funcionar, educadamente. mandar é o que fazem. governar é o que não sabem fazer. porque educar não é repetir e avaliar o que se fez decorar durante um ano. porque ser professor não é ser funcionário. ser funcionário é por as coisas a funcionar. ser professor é ensinar a ser gente. e não como esta gente que manda. gente, que sente, pensa e sabe. gente que será futuro. pessoas. pessoas em construção. e o pior, o horrível de tudo isto, é que estão a vandalizar a educação. primeiro porque estão a partir em pedaços a confiança. e as relações humanas. hoje as escolas estão a tornar-se lugares de anónimos. de professores que passam por lá, de alunos que passam por lá, de pais que vão lá. ninguém lá está. e a escola é uma casa. deve acolher. e em tempos de crise, de dificuldade, para muitos alunos [e muitos adultos] esta é a sua única casa. e eu, que sou professor, não posso mostrar aos meus alunos que deixo isso acontecer sem dizer nada, sem fazer nada. e agora, neste tempo dedicado ao aprender, neste lugar que é a escola, fala-se de uma prova, de provas, de avaliar o que se devia saber quase como a tabuada decorada em coro. e coloca-se em cima da mesa uma prova, para provar que aqueles que todos os dias ainda fazem da escola uma casa, sabem como o fazer. e não é a prova. é a política que está mal. é a prova e a política. é o vandalizar de tudo o que se conquistou em civilização em evolução nos últimos anos. porque esta não será a escola do futuro. porque quem vier a seguir [e em democracia  - graças aos deuses e ao povo] vem sempre alguém a seguir, vai ter que começar pelo mais difícil. por reconstruir a educação. por refazer as pessoas agora partidas e espartilhadas de tanto serem desconstruídas, lei após lei, dia após dia, num acto de prepotência do mando que vai para além do razoável em todos os aspectos. sou professor. este é o meu panfleto. digo que chega. basta. morram estas leis e estas regras, morram, pim! na minha sala de aula não entram. em mim, não entram. eu não quero esta vandalização da educação. em mim, de mim, não fazem o que querem só por mandarem. eu ensinarei aos meus alunos o que é resistir. o que é a liberdade do pensamento. o que é a força da convicção daquilo que é a escola em que acredito. posso não lhes ensinar mais nada. isto, ensinarei. morram estes tempos estúpidos, morram, pim! eu sou professor.