08/11/2013

||| do medo de não saber como pintar um pinto de azul...


||| ouvia ontem a crónica do bruno nogueira sobre margarida rebelo pinto. esta. e pensei que uma vez ouvi uma conversa com a referida autora [escritora é um pouco excessivo]. e detive o pensamento nisso. dizia ela que só conseguimos ver o mundo da perspectiva do nosso universo de vida. dos nossos círculos de experiência e vivência. não devem ter sido estas as palavras mas a ideia era essa. e fixo o meu pensamento nisto. nisto porque explica a controvérsia que as suas palavras criaram. nisto porque é, de facto, o meu medo enquanto professor. não é o medo de ser contaminado pelas palavras da margarida rebelo pinto, que nunca li mas gostava de ler para saber o que dizer, mas o medo desse universo fechado, sem janelas para o outro, os outros e as outras vidas. essa definição de ser por não compreender o universo dos outros. situo-me por isso nos antípodas deste pensamento. fui, a seu tempo, leitor de tolkien e dos seus universos criados e imaginários quando os gnr cantavam que aos dezasseis anos nunca se teve tempo de ler o senhor dos anéis. ou de dante e dos seus infernos. ou mesmo, recentemente, de j. k. rowling e o ser harry potter. para não falar de homero ou de júlio verne lidos em tempos em que o tempo permitia outras coisas. e agora que saiu um livro único que quero muito comprar, o dicionário dos lugares imaginários da literatura, penso que medo que tenho em ser professor. um medo legítimo. o medo de ter medo de dar aos meus alunos apenas o meu universo e não conseguir pensar para além disso. de não conseguir construir aulas para além daquilo em que acredito. porque a visão maniqueísta do mundo não se satisfaz. bem e mal. certo e errado. um e outro lado da barricada. bruno nogueira vs margarida rebelo pinto. importa-me ser capaz de construir aulas que permitam aos meus alunos ver os mundos para além destes. aqueles, imaginados. aqueles que podem compreender e aceitar. um e o outro. a democracia não é o contrário da ditadura. é a forma única de expressão da liberdade de todos. de dar a palavra a todos. de dar o direito de pensar igual ou diferente de uma suposta maioria ou lutar ao lado de uma suposta minoria. mas também não é esse o meu objectivo. como professor a única coisa que quero é que os meus alunos aprendam a plenitude do respeito e de se ser humano. homem. mulher. inteiro em todos os mundos possíveis e imaginários. em respeito ético e social pelo outro. e é disso que tenho medo. de não ser capaz de ir mais longe do que o mundo em que cresci e habito e não ter as ferramentas e ideias necessárias para criar essas oportunidades. e para mim é isso que distingue um professor de qualquer outra profissão. ser mais, olhar mais longe, ver para além do seu mundo e ver os mundos para além de hoje...