15/11/2013

||| godzilla numa aula...


|||... vivemos no tempo do espectáculo. [do latim spectacùlum, *vista, aspecto, chamar a atenção pública, jogos públicos, espectáculo*, derivado de spectáre *olhar, observar atentamente, contemplar*. e do derivado pouco resta nos tempos que correm. reina, na sala de aula e no espaço escolar, o instante. o imediato. derivado do princípio que rege o século vinte e um. vive um dia de cada vez e sê sempre feliz. não sei a razão mas lembrei-me de uma frase de derrida: a metafísica apagou em si mesma a cena fabulosa que a produziu e que permanece, no entanto, activa, turbulenta, inscrita com tinta branca... das memórias de um cego. e penso que talvez tenha sido sempre assim. dos coliseus romanos aos jogos gregos. dos autos de fé. o espectáculo. o chamar a atenção. mas o que me importa como professor é que tenho que lidar com isso em cada aula. e digo lidar de lide. de gestão. de movimento. de apropriação. porque há uma corrente que corre do outro lado daquela janela da minha sala de aula que vende esse lugar de felicidade, de fama, de voo sobre a realidade, de optimismo constante. e eu que sou optimista por natureza já digo a brincar [e muito a sério] que não suporto tanta felicidade. eu, professor, na minha sala de aula, com pessoas em construção tenho que trabalhar com seres humanos. não campanhas de publicidade ou modelos sociais onde a perfeição é mais real do que a realidade das coisas. por isso muitas vezes digo que estou cansado. ou que algo é triste. ou que o caminho muitas vezes se faz com o esforço de sermos nós a colocar as pedras e não a voar sobre ele [porque toda a gente quer ter asas e ninguém liga ao homem que coloca pedras na calçada para os nossos pés caminharem]. apesar de acreditar no deslumbramento como factor pedagógico válido é por isso que não me considero um romântico no que toca à educação. nem romântico, nem idealista. pragmático. porque quero que os meus alunos, ao saírem de uma aula minha, levem uma pedra na mão, um pedaço de areia e o horizonte como caminho. e não asas. podem depois acreditar que o mundo é esse, aquele que corre lá fora. mas ali, ali naquele tempo que é o nosso em conjunto, quero-os de pés assentes na terra, a pensar e viver hoje mas com ideia de um caminho de futuro. a pensarem o que serão amanhã e depois de amanhã e depois de depois de amanhã para que sejam eles o caminho livre, limpo para inventarem o dia claro que ainda nos falta a todos viver...

... e já agora, esta fotografia
é da criação dos meus alunos
para um anúncio para a compal
de que falei já aqui uma vez.
está a correr bem. está a ficar
muito bom e por isso...
estou feliz!