06/11/2013

||| no começo era o verbo...


||| ... estou a pensar as aulas da próxima semana. ando sempre uma semana para a frente para pensar como ligar tudo. é que dar aulas não é entrar num comboio e parar de tempos a tempos num ritmo contínuo e continuado. é como ir ver o mar. para mim é exactamente isso. como se fossem ondas. cada aula. recordo as ondas de virgínia wolf e sei que é exactamente isso que penso. um determinado momento não conduz forçosamente a outro. a porta abre-se e o tigre salta. vocês não me viram entrar. fiz questão de passar por entre as cadeiras para evitar o horror do salto. tenho medo de todos vocês. tenho medo do choque provocado pelas sensações que sobre mim se abatem, pois não posso lidar com elas do mesmo modo que vocês - sou incapaz de fazer com que um momento se funda noutro. e sei que assim faz sentido. um sentido que é preciso que cada aluno construa para além daquele que eu quero dar. é disto que se fala quando se fala em autonomia. essa é uma das palavras tão apregoada e tão contrariada nos dias de hoje na escola. autonomia. queremos ter alunos autónomos mas fazemos fichas, controlados os exercícios, queremos que cumpram tudo o que programamos. são autónomos quando não são mas parecem. e esta falsa ilusão é das coisas mais perigosas que temos. fazemos um trabalho de grupo mas damos todas as regras, passos e formas. a autonomia exige liberdade. e para ser verdadeira exige coerência e conhecimento. e isso é preciso se criado como base e não dado como barreira. uma aluno autónomo não é aquele que vai daqui para ali sozinho porque eu lhe digo, enquanto professor, que tem que ir daqui para ali. é aquele que olhando o desafio cria o seu caminho, vai, volta e pergunta a razão daquele exercício. questiona-me e questiona-se. e isso não se ensina numa aula. ensina-se em muitas aulas, como ondas, umas atrás das outras, sempre imprevisíveis para que o aluno aprenda a gerir o seu espaço e o seu pensamento criando uma posição segura para enfrentar os desafios...