14/11/2013

||| o gato verde e o homem velho e os conflitos entre ambos...


||| ... é um concentrado de pessoas. uma escola. um micro-lugar de encontros e desencontros. quase uma ilha. melhor, uma península. o portão ou porta de saída faz da escola uma península. crusoe não acharia estranho tanto tempo preso numa ilha. nós [professores e alunos] achamos. e parte dos conflitos, desentendimentos, acções e reacções surgem desse simples facto que parece ser esquecido por muitos. estamos fechados. um ano. dia após dia. dias com vontade de lá estar [na península], dias em que não apetece lá ir. mas por obrigação de um mar que nos cerca, lá estamos. e se fossemos reis e senhores dessa península poderíamos gerir esses dias, essas horas, esses anos procurando encontrar, como crusoe um lugar, um espaço, algo para fazer, onde o tempo e as coisas fossem refúgio para esses momentos menos inspirados na vontade, simples, de estar. mas não somos, nem reis, nem senhores. mais nos parecemos a presos em alcatraz onde a fuga se avizinha apenas ao fim de doze anos. é por isso que nunca penso assim. é por isso que vou gerindo os dias, as horas, os anos, como rafael ou more na ilha da utopia. como se fosse possível ser como alexandre o grande e as suas batalhas contra os elefantes. ou o hipopótamo desenhado que chega à corte portuguesa com espanto. ou mesmo como quixote cavalgando contra os gigantes moinhos de vento. se não posso sair da península ou da ilha também não preciso. se as regras que ditam para eu cumprir não me servem nem ao propósito para que foram sabiamente criadas num qualquer gabinete sem janela, também não faz mal. eu tenho um gato verde, flautista [que paula rego me deu a conhecer] ou um velho e o seu peixe, que hemingway me deixou. eu tenho a guerra dos mundos de orson welles ou as cantigas de amor de d. dinis. eu tenho-os todos comigo e são eles que me guiam na luta que crio ao pensar as minhas aulas como essa janela, quase uma janela de matisse, para ver para além dos limites e levar os meus alunos comigo. porque por mais que seja esgotante e pesado estar na escola todos os dias, e como diz pedro paixão, viver todos os dias cansa, há esse lugar que é o único instrumento que tenho para combater os conflitos, a indisciplina e o facto de não saber ser crusoe por muito tempo, que é a minha imaginação e o lugar que consigo fazer nascer em cada aula. esse continente inteiro de terra nova onde posso pisar, eu e eles, pela primeira vez a terra e saber-lhe o cheiro novo, a cor nova, a descoberta por fazer, o conhecimento por aprender e focar tudo o que é o universo de um dia nesse lugar que passa a ser deles e meu. desafio a desafio. cansa pensar as aulas assim? cansa. mas não há lugar mais belo para se estar do que esse...