15/11/2013

||| o tempo já nem tem tempo para perguntar ao tempo...


||| ... já usei o início deste poema de ary num título. hoje apeteceu-me partilhar aqui um pouco mais. aristóteles, visita/ da casa de minha avó,/ não acharia esquisita/ esta forma de estar só/ esta maneira de ser contra a maneira do tempo/ esta maneira de ver/ o que o tempo tem por dentro. todo o poema é belo. e ao entrar na escola deparei-me com esta palavra escondida no meio de tantas outras. é uma marca. ou um projecto. ou coisa parecida. atalho, em português. e eu como professor penso muito nisso. no caminho. nas minhas aulas como esse caminho. e que não sou um professor de atalhos. e que sofro do mal da pós-modernidade. ou da sobre-modernidade [segundo marc augé] e dessa coisa chamada gestão do tempo. se o ser humano é feito de ilusões a maior é mesmo essa. a da possibilidade de gerir o tempo. aos deuses o que é dos deuses e aos homens o que é dos homens. gerir o tempo? não. habitar o tempo. este que nos é concedido. e as minhas aulas são parte desse tempo. que tenho que habitar com os meus alunos. e parece que nunca chega. que se fosse possível teria mais um pouco. ou naquele dia em que o cansaço aperta, menos um pouco. talvez seja eu que não sei gerir esse tempo. ou simplesmente ele que me escapa pelas mãos. ou é o tempo certo. e é isso mesmo que penso. não que não sei gerir o tempo porque isso é um conceito impossível para mim como pessoa e como professor, mas principalmente porque sinto mesmo que o tempo que me é cedido, não pela organização artificial de um calendário, mas aquele que habito em cada aula com os meus alunos é o perfeito. nem mais, nem menos. mesmo quando sabe a pouco ou a muito. mesmo que saia da aula com a letra de sérgio godinho, hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a tanto. o tempo, esse que não existe, só faz sentido ser assim. aquele que tenho. nem mais nem menos. mas habitado. como uma casa. partilhado. e isso sim, faz o tempo de uma aula ser um tempo útil...