05/11/2013

||| romeu não morreu por amor. foi mesmo o veneno que o matou...


||| ... os meus alunos estão entre os dezasseis e os vinte anos. ainda morrem por amor. a sério. ou não será por isso que os filmes, livros e coisas que tais em que o amor tem a forma mais intensa de se revelar tem sempre como personagens uns jovens amantes. depois há os romances. mas os romances já não é este amor. é o amor complicado do mundo dos adultos a fingir que é simples. e que importa isso para um professor? se um aluno na nossa aula teve uma quebra nesse processo amoroso então tudo o que possamos querer dizer entra por um ouvido e sai por outro. o amor, esse sim, está primeiro. e claro que está. é óbvio que está. não é um romance. é o amor da vida inteira. e só porque se passou numa aula minha achei que devia abrir assim este bocadinho das minhas palavras inúteis. não desvalorizem o amor quando ele é tudo no universo dos nossos alunos. é que é mesmo para ser vivido estúpida e intensamente. senão, não vale a pena. e agora... retomando. sou, como todos nós professores, bombardeado com regras, leis, descrições e prescrições... e reuniões. eu não reúno. vou lá. estou lá. às vezes não estou. desligo. ou ligo-me a outras coisas. e o murmúrio de fundo  oiço: porque no decreto-lei número um milhão e trinta e cinco alínea z, está escrito que não pode ser assim. e logo alguém diz mas no outro decreto-lei e no regulamento xpto está escrito o contrário. e o programa. sim, aquele que agora vai ou está a ser renovado que foi remodelado há dois anos e aprimorado à quinze dias também vai ser revisto ou está em discussão pública [imagino logo uma ágora com um homem no cimo das escadas de papiro na mão a mostrar ao povo que não sabe ler que ali está algo de importante em discussão]. e o murmúrio não cessa. fecho os olhos por uns instantes. lembro-me de ainda este sábado passado ter falado nisto. vivemos no tempo em que os alunos esperam aulas em metodologia james bond. sim, é isso mesmo. como nos filmes. ter uma cena de abertura fantástica, que os prenda. desenvolver como jeremy irons diz com aquela voz só dele num qualquer filme da saga die hard: here is where the plot thickens e depois fechar tudo com uma explosão de ideias [e não julguem o meu gosto cinéfilo pelos exemplos apresentados]. e a escola, o sistema escolar, parece mais uma cena saída do processo de kafka. e volto a fechar os olhos. aprendi com uma colega de profissão que muito estimo e respeito uma regra de ouro. quando te pedirem opinião sobre regras, regulamentos e coisas que tais dizes sempre: acho que devemos pedir um esclarecimento à tutela para que tudo fique bem claro, dizia ela e agora digo eu. o resultado é que ficas com um ar de sábio e prudente. mais do que isso, esclarecido. e tudo fica como estava até vir mais um regulamento, nota informativa ou coisa que tal. mas sou um funcionário cansado de funcionar. e chega a hora de dizer que já chega. que as palavras escritas num qualquer papel por mais timbrado que seja não me ajudam a lidar com a realidade da minha sala de aula. sou eu e eles [os meus colegas e os nossos alunos] que temos o poder de mudar tudo. de fazer. de refazer. de experimentar. de deixar de aplicar as regras que dizem que são boas e não funcionam e experimentar pensar e criar por nós. desafiar o futuro. desafiar o hoje. e deixar esses regulamentos no armário de kafka para que lá, longe daqui, possam ser felizes com tudo isso que nada diz aos meus alunos, agentes secretos de um futuro ao qual e para o qual os quero preparar... talvez seja isto o amor que desligou o meu aluno da minha aula como eu desliguei das regras, normas e afins que diz alguém que não me liga nenhuma...