05/11/2013

||| silêncio que vale algodão que não engana...


||| ... ando angustiado. como professor. desde o início do ano lectivo. mestre almada relembra-me na invenção do dia claro que nós não somos do século d'inventar as palavras. as palavras já foram inventadas. nós somos do século d'inventar outra vez as palavras que já foram inventadas. mas mestre almada era mesmo um mestre. e eu sou só um professor. e ando angustiado a tentar criar uma aula para ensinar a importância do silêncio. não é da ausência do som. ou do espaço entre as palavras. é do silêncio enquanto espaço de tempo para a reflexão. a introspecção. ui... tantas palavras esquecidas ou a precisarem de nova invenção. porque até já tenho marcado para as minhas turmas um atelier fantástico em serralves chamado fábrica de sons. isso tudo, sim. até ir escutar a cidade e os seus sons com uma equipa única de um projecto único em curso na cidade. o problema não é o som. é o silêncio. aquele espaço de tempo para olhar para nós. aquele espaço de tempo para estar só. aquele espaço de tempo em que pensar é a única coisa para fazer. organizar ideias. e preciso de criar essa aula. ensinar cada um dos meus alunos, um aluno só, a estar sozinho consigo próprio. a todos eles. e ando a remoer ideias. a pensar como criar essa aula. esse momento. entre nós e as palavras. os emparedados, diria cesariny que vai ter a sua casa da liberdade. e era mesmo isso. o silêncio como a casa da liberdade do pensamento de cada um dos meus alunos. eles que vivem no tempo da permanente audição e visualização do mundo e dos outros, precisam mesmo, de saber qual o sabor, cor, cheiro e presença do silêncio. não os quero calar. quero ensinar-lhes que o silêncio é o cimento do pensamento. uma linha invisível que suspende e sustenta as ideias. talvez a minha sala de aula tenha que se transformar numa casa da liberdade suspensa em fios de ideias unidas em silêncio. talvez a poesia me ajude nesse caminho. mas a poesia são palavras. criar introspecção. criar silêncio[s] e o nó do meu pensamento não desata. e a aula não nasce... e ando assim há semanas, meses, dias... o silêncio. ensinar o silêncio...