12/12/2013

||| o que vê um homem que desenha linhas...


||| ... estava a olhar para o jornal e a ver o rosto de nadir afonso. e lembro-me de uma entrevista feita para rtp há uns anos no meio de uma rua qualquer. dizia ele que era o tempo para olhar o mais importante. que via o que todos viam. mas com tempo para olhar. lembro-me ainda de me surpreender com uma obra em azulejo que está para os lados de cascais e ter referido logo que aquele lugar tinha a assinatura do mestre. lembrei-me ainda de manuel de oliveira nos seus cento e cinco anos. um dia para explicar o seu cinema disse que nos seus filmes as pessoas bebem o chá. há tempo para as personagens no tempo real fazerem e beberem o chá. não há truques para além do olhar em perspectiva. há tempo e disso é feita a magia do seu cinema. do tempo real irreal na forma do registo. tudo isto para falar de uma coisa que me assusta. a ausência da condição em suspenso. da espera. do não saber esperar. do querer e estar sempre no imediato. no agora. no ser tudo para agora. e isso é algo que os alunos, nos dias que correm, não sabem gerir. muitas vezes digo que vamos ter uma aula aqui ou ali, assim ou assado. que vamos juntos ao cinema [e vamos], que iremos visitar este ou aquele espaço. de aula para aula os meus alunos perguntam-me sempre: é hoje que vamos aqui ou ali. a minha resposta, não. e posso ter marcado o dia certo há algum tempo. saber exactamente quando vou fazer o que tenho pensado, programado ou agendado. mas ensinar a esperar é também o meu papel como professor. travar esse consumo excessivo do agora. adiar a experiência. porque isso é tão importante como ensinar a percepção sobre o que se aprende em cada momento. hoje não se sabe esperar. há sempre qualquer coisa para fazer agora. já nem é depois. é agora. e nós transportamos muitas vezes isso para a sala de aula inconscientemente. porque há pouco tempo para um programa tão grande. porque temos que aprender isto, aquilo e mais isto e aquilo. porque o professor tem reuniões naquele dia, nas horas em que devia estar a pensar aulas. porque os alunos terão mais mil coisas para fazer depois das aulas. anulámos o vazio e com isso anulámos a capacidade de esperar. e em contra-mão, sabendo que todas as aulas os meus alunos vão perguntar se vamos fazer hoje o que está pensado desde o início para ser amanhã, arrisco ser um professor que tudo o que faz para e com os seus alunos sirva para que, vivendo eles a experiência de ter que esperar, cada coisa tenha o seu tempo e lugar. ontem, hoje e amanhã...