11/12/2013

||| quem está ao meu lado é mais alto do que eu...


||| ... sei três coisas sobre outro professor que trabalha no mesmo espaço do que eu. que é mais alto do que eu. que tem um casaco que gosto e que tem aulas no mesmo período de tempo do que eu, na porta ao lado. não sei mais nada. sei o primeiro nome. não sei o último. não sei do que gosta. o que fez. o que faz. a desumanização. lembro-me tão bem das fugas para almoço entre colegas quando comecei a dar aulas. ou dos petiscos ao fim do dia e da conversa sobre coisas inúteis que tive há uns anos. agora andamos todos de cá para lá, de lá para cá, desumanizados, como se a vida fosse esse correr sem razão para o cumprimento de todas as coisas que temos que fazer. tudo isto porque estava a dar uma aula e alguém bateu à porta e parou por uns segundos. bateu porque os meus alunos estavam em actividade e o burburinho era [muito] algum. uma aula é um lugar santo. não pode haver barulho. mas nem eu sou santo nem a aula é esse espaço e por isso eles estavam em processo artístico e a conversa era inevitável. ah... está aí professor. desculpe. gosto tanto quando isto acontece. por um lado é por eu ser baixo e no meio deles [os alunos] não me conseguirem ver. depois é porque há uma necessária desconstrução da ordem. um remexer nessa desumanização. porque a ordem nunca pode ser mais importante que a troca de ideias. querem que seja. mas não é. e naturalmente e de forma organizada podemos agitar só um pouco e tudo muda. em duas horas de aula tudo muda. é que na minha aula há tempo para tudo. para esse silêncio. como para o burburinho da conversa. como para o riso ou a reflexão. na minha aula somos seres em construção. e o barulho das máquinas do pensamento faz barulho real. que se ouve na sala ao lado. que pode ser controlado mas não silenciado. e no fim das duas horas fecho a porta. passo por portas fechadas. lá dentro, professores ensinam, alunos aprendem. ideias nascem. deles sei só que são colegas. se gostam de bolo de chocolate ou são vegetarianos, não sei. o corredor cheio de portas faz-me pensar como foi possível chegarmos aqui. e eu sou um professor privilegiado. a escola onde ensino [esta onde partilho estas reflexões] é um lugar mágico cheio de humanidade e arte. mas imagino isto em todas  as escolas. corredores e corredores de portas. com gente dentro. sem se conhecer. fecho a porta do corredor que dá para as salas e sei que dentro da minha sala seremos sempre seres humanos. graças aos deuses e a quem bate à porta por causa do barulho que as ideias provocam.