31/01/2014

||| eles fazem assim, nós também...


||| ... temos a capacidade de fazer melhor. de criar. de pensar estratégias únicas para os nossos alunos. mas copiamos, colamos, recortamos. usamos parte. coisas criadas por outros que funcionam com os alunos deles e muitas vezes esses alunos nada são parecidos com os nossos. perdemos [ganhamos] tempo a traduzir material, guias, recursos. uma folha em branco é um desafio maior. ver o que outros fazem não é copiar. é ver para tirar ideias e recriar. adaptar é preciso. sempre. o que é bom para uns pode não ser bom para outros. e uma estratégia é boa se os alunos estiverem sossegados? ou se aprenderem, de facto, algo novo? adoptar um projecto não é o mesmo do que copiar estratégias sem integrar o projecto. isso tem outro nome. perdemos tempo demais nestas coisas quando temos em nós e nos nossos alunos tudo o que precisamos para lhes dar uma resposta concreta e interessante para os seus desafios de aprendizagem. o problema é só um. estamos mais divididos do que juntos. não falamos. e assim não vamos lá. assim vamos só achar que o que os outros fazem porque falam e estão unidos num projecto é melhor do que tempo. e calei-me. e ficaram todos os colegas a olhar para mim...

||| chegou ao meu email uma coisa...


||| ... professor, o que acha disto? pode convidar para virem cá? os meus alunos, de vez em quando, fazem isto. enviam-me um email com uma pessoa ou um projecto que gostavam de conhecer. e eu faço o trabalho depois. envio emails, faço contactos, peço ou convido para darem um salto até à minha aula. a uma aula. desta vez o convite era sobre a curiosidade sobre o erro. o título não me apela a mover-me. escola do erro ou parecido. abraçar o erro. isso não gostei. a escola, para mim, é o lugar da ciência. o erro é um dos momentos do processo de aprendizagem e também do conhecimento. valorizar o erro não me parece ser o melhor caminho. incorporar como algo relevante no processo é também valorizar todas as outras etapas. mas fiquei curioso pela razão que levou os meus alunos a fazerem este pedido. por isso respondi que sim. que vou fazer tudo para levar lá alguém para falar sobre o erro. mas não nesta perspectiva. na perspectiva integrada no processo criativo. gosto desta relação que os meus alunos fazem de que o professor é um agitador do correr dos dias. que me façam desafios. que me peçam o que querem ouvir para além de mim que digo quase sempre a mesma coisa. é que antes de tudo a escola é uma universidade. uma universalidade do pensamento e do desejo de aprender. se assim não for estamos num supermercado...

30/01/2014

||| tem tudo que ser simples...


||| ... irrita-me esta coisa de tudo ter que ser simples. simplificado. descodificado. simples. que hoje já não podemos dizer uma frase mais complexa que alguém diz logo que isso é muito complicado. até me deu um nó na cabeça é a expressão. tudo simples. tudo pronto a comer. tudo pronto a entender. esta preguiça mental tem nos alunos um perigo imenso. é que qualquer desafio, pergunta ou problema tem que ser mastigado para depois ser consumido mais facilmente. estamos a caminhar pelas ruas onde tudo tem que ser fácil. e não digo isto no grau de exigência. digo isto na origem da palavra fácil. do latim facĭlis. da atenção. do tomar a razão como ferramenta para entender o mundo para além da informação imediata. e isso fica em mim para além do susto. é irritante. se "puxo" pelos meus alunos dizem que sou muito exigente. se facilito ou descodifico sigo no rumo da coisa em comum. ler um livro é coisa impossível. um texto, um trabalho de hércules. mais do que dois parágrafos já é uma trabalheira que precisa de uma semana de férias. isto é uma representação dos tempos. mas não vou por ai. direi sempre palavras "difíceis", trabalharei ideias complexas. não desisto disso. não desisto deles. os meus alunos precisam disso. nem que seja para poder pensar...

||| da complexidade da mudança...


||| ... hoje tudo se resume a uma frase: já todos percebemos que o sistema de ensino assim não funciona. então porque não mudamos o sistema em vez de o remendar?

29/01/2014

||| isto serve para pintar paredes...


||| ... acho sempre curioso quando digo a um colega que comprei uma lata de tinta de água azul para ir dar uma aula sobre o renascimento. ou numa reunião. ou que vou usar esparguete. ficam a olhar para mim com aquele ar de espanto/dúvida/curiosidade/loucura. e quase nunca ou sempre a medo me perguntam: mas o que é que vais fazer com isso? e eu explico. digo. vou fazer isto e isto e isto para ensinar isto e isto e isto. e farei assim, assim e assim. e em dez minutos explico como irei dar a minha aula. e falta tanto isto na escola hoje. para que as coisas não sejam estranhas. para que haja lugar ao experimental mais do que ao experimentado. para que ainda se possa criar coisas diferentes para ensinar. falta cada vez mais isto. por medo, preguiça, cansaço ou desânimo. mas falta. e por isso é que é estranho eu usar coisas do dia a dia para ensinar coisas de outros tempos. não devia ser. mas é.

||| preocupados com a coisa errada...


||| ... escrevi aqui uma vez sobre isto. retomo. porque anda tudo a atirar palavras sobre a praxe e a violência e os rituais e o nazismo e salazar e tudo e mais alguma coisa mas ainda não vi ninguém falar do mais grave. da base. de onde tudo isso vem e como mudar o comportamento social [que é disso que se trata] quando falamos em integração numa comunidade escolar. tenho pensado nisto. e dito várias vezes que o que me preocupa é o grau de violência que existe na escola. eu sei que não são todas. eu sei que há casos e casos e graças aos deuses ainda há escolas que são verdadeiras comunidades auto-reguladas. a questão está na violência enquanto representação e comunicação em sociedade. e na escola ela tem aumentado. nas escolas básicas e secundárias. nas escolas profissionais e depois no ensino [dito] superior. é que o que eram brincadeiras passaram a movimentos e actos de violência. não falo só de violência física. falo de violência de poder, de identificação, de comunicação. e por isso nada é estranho que o grau de permissividade entre alunos leve a que essa violência seja integrada na vivência ou nos rituais como algo natural. o que está mal não é a existência ou não dos rituais numa comunidade [embora longe de ser a favor da praxe - antes pelo contrário] mas o que me assusta não é a sua existência de per si. é mesmo a linha comum que começa na escola e se está a alastrar como algo vulgar, uma forma de resolver "as coisas" ou simplesmente como forma de comunicação entre pessoas. o problema, de facto, é maior do que um acontecimento ou outro que já não são pontuais. está no grau de permissividade que nós, professores, temos para com a violência entre alunos neste momento. e se tal não for pensado a sério, podem fechar-se todos os rituais que a violência ganhará lugar, noutros momentos, para se mostrar. penso nisto quando agora se fala do que vejo todos os dias em frente aos meus olhos...

28/01/2014

||| foi o tempo que nos roubaram...


||| ... falamos logo. é pá, agora não dá mas liga-me ao fim do dia. já nem um café consigo beber descansado. olha, que achas disto? posso levar para ver com calma, aqui não consigo. e assim sucessivamente. numa escola imensa [porque as escolas agora são lugares onde tudo é imenso] estas frases são uma realidade. quase um presente. um aqui e um agora. e como professor podem retirar-me o dinheiro como a todos os outros. mas não me retirem o principal que preciso para ser um bom professor [ou tentar ser melhor do que sou]. o tempo. não me tirem mais tempo. tempo para pensar. tempo para preparar uma aula. tempo para falar [conversar já é proibido] com um colega sobre uma matéria que podemos dar em comum. não me façam correr de cá para lá e de lá para cá. não me roubem mais tempo para os meus alunos. para estar com eles. para os ver. para os ouvir. para os acompanhar. não me roubem mais tempo para eu estudar e poder ensinar mais e melhor. podem roubar-me tudo, fazendo de mim outra coisa qualquer, mas então deixam de me ter como professor. serei tudo menos um professor. porque um professor sem tempo é um vazio. é um funcionário. funciona. às vezes já nem isso. faz o sistema parecer que funciona. restaurem a dignidade do tempo e terão em mim um homem livre para ensinar. roubem-me tudo, mas não me tirem nem mais um minuto para que eu não deixe de funcionar...

||| no centro do universo está o que não sabemos...


||| ... ao terminar uma aula olhei para os meus alunos e pensei que não os sei preparar para o futuro com aquilo que me pedem para lhes ensinar. é algo estranho. sou professor de uma disciplina estranha. quase esquecida. a história tem hoje um peso turístico. vamos até lá para ver como foram os outros que afinal somos nós mas não somos porque somos hoje muito mais do que fomos. será? mas essa discussão não é para agora. para agora e aqui é mesmo só o registo dessa sensação. do que me dizem ser oficialmente válido para um jovem estar preparado para o futuro eu sentir que não é. uma parte, de facto, não me parece ser. e depois eu pensar. é perigoso quando um professor não se limita a reproduzir o que oficialmente lhe indicam como obrigação a cumprir. quando um professor pensa. e pensa se o que ensina ainda é válido. é actual. porque o ensino deve preparar uma pessoa em construção para o futuro mesmo quando não sabemos muito bem como esse mesmo futuro será. e penso um pouco mais nessa sensação estranha. do pensar que sei o que podia ensinar e não estou a ensinar porque as horas são poucas, os dias são poucos, o programa é imenso. então mudo. foco-me no que tenho. o que tenho neste momento é sempre o melhor que podia ter. faço desta uma premissa relevante. não é desculpa. não arranjo desculpas. então se não posso [e posso] mudar o que ensinar mudo a forma. nisso, na minha sala de aula, não entram as regras oficiais. estou lá eu e eles. e ninguém me pode proibir de ensinar pelas formas mais absurdas ou reais que me apetecer. a minha forma. e pela forma também se ensina muita coisa. o como é tão importante como o quê e o porquê. e por vezes fica mais dessa coisa que se vê do que aquilo que outros julgam útil. e penso nisto, nestes tempos que correm tão estranhos...

27/01/2014

||| o conhecimento é grátis...


||| ... a césar o que é de césar. ao homem o que é dos homens. aos deuses o que é dos deuses. e ao esquecimento todas as outras coisas que ficam pelo meio de tudo isto. tirei esta fotografia para ilustrar este pensamento. que o conhecimento é um lugar, uma coisa, gratuita. o que eu sei qualquer um pode saber. não é o que vivi ou o que a experiência me ensinou. isso guardo-o comigo como saber dos deuses. é o conhecimento. o que sei. basta pegar nos mesmos livros do que eu. ouvir as mesmas pessoas. entender as mesmas coisas. visitar os mesmos lugares. será? será assim tão fácil ou tão difícil? penso nisto sempre que vou dar uma aula a uma escola que não é a minha. a alunos que não são os meus. quando me pedem. sempre achei que o conhecimento é gratuito. não é que não tenha um custo. ou um valor. tem. mas não se traduz. não é possível traduzir-se esse valor. o valor de ensinar é medido em tempo e na forma de o fazer. nos recursos. agora o conhecimento não. é mesmo isso. é gratuito porque está acessível. basta ver. basta viver. basta procurar. basta ouvir. basta pensar. e por isso quando me dizem que há um valor em saber mais do que os outros ou ser reconhecido por esse conhecimento assusto-me sempre. desumanizamos até o simples acto de conhecer e partilhar o conhecimento. e passamos a cobrar pelo conhecimento. não estou a falar do acto/trabalho de ensinar. esse sim deve ser pago no seu valor que é o tempo e labor. estou a falar do conhecimento em si. da sua natureza tão simples que até se torna estranho pensar no seu valor num tempo em que tudo é economia. e olhei para o navegador uma vez mais. saberá ele tudo isto? terá ele pensado que o mundo que iria dar a conhecer um dia seria fechado pelo custo de procurar saber um pouco mais? e fechei os olhos. lembrei-me que era professor. uma senhora inglesa que visitava o mesmo espaço perguntou-me quem era aquele ali no cimo. e estive meia hora a conversar, porque afinal, eu só sabia uma coisa que ela queria saber...

||| o tiago mandou-me um email...


||| ... o que é que podemos realmente fazer para que os alunos "pensem" durante uma semana? era a pergunta que vinha no email que o tiago me enviou. o tiago é presidente da associação de estudantes de uma escola secundária onde recentemente fui orientar um momento sobre leitura de imagens para uns simpáticos setenta e tal alunos. no final chegou ao pé de mim e disse quem era e ao que vinha. queria pedir-me ajuda. tinha gostado do que havia ouvido nos noventa minutos de exploração de ideias que tinham acabado com algumas actividades pelo meio que faço sempre porque ninguém [nem eu] aguenta já ouvir outro alguém falar durante noventa minutos. gostou. no final eu disse-lhe que me podia enviar um email a explicar o que queria de mim. e assim foi. recebi o email. respondi: vou desenhar umas ideias e para a semana envio-te para avançar. foi o que me ocorreu. é pouco, eu sei. mas foi o que me ocorreu. gostei tanto do desafio que me apetece fazer tudo para que o tiago tenha a sua semana para colocar os seus colegas a "pensar". e eu nem sou professor do tiago. e não serei. não terei essa oportunidade. logo ele me respondeu: muito obrigado por responder. vou lançar o projecto também no nosso grupo da associação de estudantes para termos uma boa equipa a trabalhar para isto. acho curioso isso. ele talvez fosse pensando que eu não iria responder a este repto. geralmente é assim. dizemos que ajudamos e depois fica tudo por ali. mas não. quero mesmo ajudar o tiago, que nunca será meu aluno, a ter a sua semana de pensadores. acho nobre a ideia. não me pediu coisas. pediu-me uma ideia. o tiago é uma pessoa em construção que gostei de ver com esta força presidencial de querer mudar as coisas. nem que seja por uma semana. só por isso já valeu a pena ter aceite, no meio de uma semana interminável, o desafio de uma colega para ir à sua escola dar esta aula. e agora resta-me o meu bloco e o procurar ideias. para o tiago. para pensar...

||| aula em que não se brinca com a comida...



||| ... pedagogia: pela construção de formas em altura os alunos são desafiados a conhecerem a visão espiritual e/ou mundana da relação entre o homem e a representação arquitectónica da religião vista enquanto modelo social e de expressão simbólica da representação divina nos espaços de culto ao logo da história.

||| ... metodologia: para a aula são necessários alguns recursos - um pacote de esparguete [fora de circulação/consumo], uma barra da plasticina e imagens de igrejas/espaços religiosos de diferentes épocas/estilos arquitectónicos. a sala precisa de preparação prévia. em mesas em estilo de ilhas são colocados os materiais e as imagens. são ainda impressos em folhas brancas palavras/conceitos como: contraforte, verticalidade, etc... os alunos são convidados, com o esparguete e a plasticina a construírem uma estrutura em três desafios: primeiro - uma estrutura em comprimento extenso. segundo - uma estrutura em altura. terceiro - uma estrutura que conjugue as duas componentes - altura e comprimento.  ao longo do desafio os alunos vão perceber que diferentes estruturas implicam diferentes estilos e tipos de construção. são sempre trabalhados pelo professor os conceitos. o conceito mais facilmente introduzido é o de contraforte. assim como, são facilmente explorados os conceitos de arco, ogiva, pilar, suporte, etc... a aula termina quando todos os grupos tiverem conseguido criar uma estrutura válida e analisado a evolução histórica da representação social e cultural da arquitectura em relação directa com o poder espiritual no contexto histórico.

 ||| ... esta aula tem como tema: a arquitectura/estilos arquitectónicos e a representação social e cultural do poder espiritual/religiões na construção de espaços de culto em diferentes épocas históricas.

22/01/2014

||| da beleza roubada ao discurso do rei...


||| ... peço muitas vezes aos meus alunos para fazerem apresentações orais dos trabalhos, temas ou projectos que desenvolvem. o discurso. a nitidez, clareza e beleza do discurso. peço, também. eu sei, sou um professor exigente. é por isso que não gostam de mim aqueles que querem coisas simples. o discurso é tão importante como o conteúdo. porque a ideia é tão importante como o argumento. solidifica-o. torna-o visível. e os meus alunos são pessoas com ideias. por vezes, estas perdem-se pelo caminho pela desconstrução do discurso que não chega a ter forma de mostrar a ideia. faltam aulas de oratória. ou tempo para ensinar a forma simples de apresentar um projecto. já nem digo oratória. como professores damos cada vez mais valor ao escrito. e menos ao dito. e depois quando pedimos para serem apresentadas ideias em forma de discurso ficamos surpreendidos com a dificuldade e grau de não-beleza do mesmo. nem sempre é assim. e ainda bem. deixar os meus alunos falar é uma regra de ouro que tenho. procurar o equilíbrio entre o dito e o escrito. porque o futuro será sempre da palavra. e esse é o nosso quinto império. mas é preciso cuidar dele ou morrerá um dia esquecido na tecnocracia das coisas que se querem evidentes...

||| cansa abrir um livro para ler...


||| ... estudar. estudo deriva do latim studĭum que entre outras coisas revela trabalho, cuidado, zelo; vontade e desejo de aprender. estudar implica sempre trabalho. e autonomia. e concentração. ou atenção. ou interesse. mas, acima de tudo, preciso de tempo. e hoje na escola o estudo é um lugar estranho. dizemos tantas vezes para os alunos estudarem. eu desisti de começar por aí. digo sempre: arranjem tempo para estudar e depois experimentem ler. depois, ao ler, coloquem anotações no que vão lendo. mas comecem por arranjar tempo. tempo para estarem sozinhos. sem telemóvel ou computador. e peguem num livro. comecem por ler. depois, quando tiverem dúvidas de uma palavra, ideia ou conceito liguem o computador e procurem. ou liguem-me. ou mandem um sms. ou email. e perguntem. eu indicarei outro livro, uma página na internet ou qualquer outra coisa para vos ajudar. mas não comecem por estudar. comecem pelo tempo. reclamem tempo. a vocês mesmos. porque estudar precisa de tempo. não é uma coisa que se compre feita. ou que tenha uma fórmula mágica. há cada vez mais livros com fórmulas mágicas para decorar. mas nada disso se torna útil ou verdadeiro se não for reclamado um tempo. porque saber e aprender requer tempo. e numa sociedade em que tudo se gere ao minuto são precisos muitos minutos para se aprender. e para se estudar. vejo cada vez mais a escola longe disto. e os alunos também. o resultado é um conceito imediato. e o saber não o é. é uma construção. precisa, como o estudo, de tempo reclamado. de observação, reflexão e edificação. talvez seja eu que estou errado. nunca lhes falei em estudar. falei em tempo. devo ser eu que não sei como estudar...

21/01/2014

||| do outro lado do muro fica a floresta...


||| ... às vezes pergunto-me que lugar tem o professor na escola neste tempo. que lugar tenho eu. e pergunto-me insistentemente. não acho que chegará o dia em que o professor não será preciso. pelo contrário. acho que ser professor é hoje e será no futuro uma das profissões mais necessárias. também não penso que o professor é hoje um agente ou funcionário que reproduz e produz alunos capazes apenas de cumprir as orientações do estado. mais do que nunca o professor é uma pessoa precisa no contexto social de um momento histórico único. e mais do que nunca o papel do professor passa por tudo menos por aquilo que esse mesmo estado pensa que deve ser o seu papel. vivemos num tempo de solidão. não daquela de estar só. da das ideias. da raiz das ideias. dessa solidão. quem cria, precisa hoje de trabalhar mais para sustentar cada casa. quem não trabalha dilacera os dias nesse lugar onde o medo existe e a procura de solução é uma necessidade constante. quem, por mérito ou herança recebeu um presente dourado vive muitas vezes num mundo desligado do real. numa reprodução social de um capitalismo desumano. temos de tudo dentro da escola. e temos de tudo no país. de escolas centrais onde a realidade social dignifica o conhecimento como ferramenta para o mercado a escolas escondidas no meio de uma aldeia, junto a uma igreja e perto do largo central onde as crianças não acedem a ofertas culturais tão ricas como outros mas vivem o espírito comunitário como já em muitas cidades não acontece. o que me prende na minha resposta à minha insistente pergunta é este tempo de solidão das ideias. das vidas não pensadas. e nunca como hoje a escola e o professor é para muitos alunos [ou devia/podia ser] um baluarte de esperança. qual é o maior problema de todos? é que não somos. tantas vezes somos também portadores dessa ausência de tempo, de conversa, de gestos, de segurança, de presença que os nossos alunos [que são pessoas em crescimento] apenas encontram, em quase tudo, ausência. e a minha resposta, insistente, é sempre essa. que eu seja professor e pessoa. que não seja em mim que eles encontram solidão. que os acolha em cada aula, em cada pedaço de tempo que tenho que construir para lhes dar. não serei eu, na escola que deve ser o lugar máximo da presença e pertença, a dar-lhes o que o mundo contemporâneo lhes nega e nos nega a todos nós. que eu, professor, seja em cada aula, em cada dia de trabalho, um porto seguro. um lugar de conhecimento onde beber o futuro. e com isso serem eles mais pessoas. mais ricos. mais alunos e mais amanhã sem solidão de ideias. e pergunto-me e respondo-me insistentemente sobre a razão de ainda ser professor. as ideias. juntas. fazem a escola. é sempre a minha resposta. as pessoas, juntas, fazem e farão sempre a escola. tudo o resto é ilusão...

||| o segredo está na experiência de quem amassa...


||| ... já referi aqui que vou, muitas vezes, consultar o programa oficial para me guiar. e não só o que dizem que tenho que cumprir. o dos outros. e recentemente li as alterações propostas para várias disciplinas. e também recentemente me desafiaram para orientar um momento de formação sobre metas curriculares de história. começo pela primeira coisa que me desorienta. alterar um programa não é actualizar. sempre achei necessário que os programas sejam actualizados. isto implica adequação, revisão e pertinência ponderada. alterar é outra coisa. e isto que está a ser feito nem alteração é. é não ter a mínima noção do que deve e pode ser um programa de uma disciplina [seja ela qual for] nos tempos que correm. não que o presente determine o programa, nem o interesse. falo da lógica. a lógica é o que dá razão a todo um percurso de aprendizagem. e é isso que é destruído com estas enxertias [não tenho outro nome] que estão a fazer. e depois, as metas. não sou pedagogo nem especialista em coisas que tais. sou um mero professor. que inventem tudo e mais alguma coisa, que mudem o nome das coisas, que achem que é válido chamar a uma coisa qualquer o nome de outra qualquer, acho tudo muito bem pois vende livros, dá para uns papers [como agora lhe chamam pois artigos já não serve] e pronto. mas é ver as metas [e este conceito não é destituído de visão político/educativa] para história e perceber o absurdo de tal coisa. não concordo, não compreendo, não aceito. e tal como o fiz com a avaliação, por muito que os tempos sejam complexos, não faz sentido orientar um momento de formação sobre uma coisa que não aceito como válida. ser professor não é nada disto. nem metas, nem enxertia de programas, nem descontinuidade. quem é professor sabe isso melhor do que ninguém. ser um professor actual num mundo de hoje não passa por aqui. passa até longe deste caminho. e é isso que me assusta. cada vez mais...

20/01/2014

||| não digam mais o nome daquela coisa...


||| ... as escolas são, dos espaços da administração pública os que concentram mais licenciados, mestrados e doutorados por metro quadrado. curioso. são, no entanto, os que menos resultados em termos científicos partilham no seu interior ou mesmo para fora do espaço da comunidade escolar. salvo algumas (crescentes, e ainda bem) excepções isto assusta-me. raramente se sabe o que se faz numa escola. de tempos a tempos uma notícia na comunicação social prova que há mais vida para além dos exames, testes e afins. mas uma visão estruturada da escola enquanto espaço de ciência, experimentação e conhecimento ainda está longe de se ver. a razão é simples. chama-se inutilidade. cercados pela inutilidade de procedimentos burocráticos cada vez mais temos vontade, tempo ou recursos para construir e partilhar a ciência que (obviamente) habita o espaço escolar. e isto empobrece a escola. empobrece os alunos. empobrece os professores. empobrece o futuro. e quando falo em ciência o que poderia dizer da arte e da cultura. tanto mais. contrariar isto é sempre um risco. porque partilhar experiências e conhecimento é também partilhar as falhas, o processo e o crescimento das ideias que podem gerar saberes novos. e para isso ainda não estamos verdadeiramente preparados. talvez o futuro nos traga essa necessidade em forma de qualquer coisa claramente definida. tornar a escola num lugar de conhecimento e aprendizagem partilhada para fora e dentro da comunidade escolar tende a tornar-se urgente sob o risco da escola deixar de o ser e passar simplesmente a ser uma instituição de reprodução do que outros dizem ser a realidade que deve ser conhecida. e já estivemos nesse lugar. lembrar isso é preciso. urgente, mesmo. para que a escola seja escola e não outra coisa qualquer em que se está a tornar...

||| das largas coisas que pequenas parecem...


||| ... recentemente numa visita a serralves a exposição de cildo meireles reparei numa pequena instalação de um boneco de papel articulado por dois fios de pesca transparente que simbolizava um vendedor de alfinetes. alfinetes. o desejo do artista era ter mil bonecos daqueles que venderiam cada um mil alfinetes. um milhão. no total. era o desejo. alfinetes. um milhão de alfinetes. não ocupa muito espaço. mas é um milhão. e isto tudo porque uma pauta é um objecto cada vez mais perigoso. fazer subir resultados. é esta hoje a função desejada pelas escolas e pedida quase em modelo de regra obrigatória para se ser bom professor. subir, crescer, aumentar. nem que seja com força. sem forma. sem brilho. sem valor. mas aumentar o resultado. um ponto percentual. um ponto, dois pontos, numa pauta. no ranking final. disso depende qualquer coisa. deve ser dinheiro. reconhecimento não é. numa lista a escola pode subir um ponto. e andamos nisto. nos pontos. nos valores. na pressão constante de resultados. em grelhas. em folhas para colocar cruzes. em relatórios. em testes e testes e testes e testes e testes e testes e testes. e recordo uma lição recebida de estatística. num estudo recente cinquenta por cento dos doentes de uma ala de hospital psiquiátrico tinha tido alta devido a um medicamento inovador. foram ver quantos doentes estavam na ala do hospital devido ao imenso sucesso do medicamento. eram dois. um tinha melhorado efectivamente. o que me assusta enquanto professor é mesmo a construção do edifício do conhecimento baseado neste exercício de aprofundamento da dimensão numérica do saber. o saber a ser medido. aposto que se segue a cultura. ainda teremos no final de uma peça de teatro alguém com um medidor qualquer para aferir o grau de satisfação e apreensão cultural. e estamos a transformar a escola nisto. mais uma vez, deixamos. vamos com a corrente. afinal o que somos nós, professores, do que números numa pauta, também...

17/01/2014

||| às vezes apetece fechar as janelas...


||| ... observo os meus alunos. passo muito tempo nisto. gosto de perceber que sociedade temos. e ali, entre eles, há uma representação total do que será o mundo daqui a uns anos. muito mais do que numa sala de professores onde estamos todos presos no presente e no passado e somos, na maioria, personagens de outra coisa qualquer. eles. em conversa. eles em trabalho. eles em movimento. e o que vejo ainda me assusta. a mim, anarquista racional. ainda há, em muitos comportamentos restos da história de um povo que esteve preso a razões que já no século dezanove se referiam como a causa da decadência dos povos peninsulares. restos de um ideal de sociedade ainda conservadora. patriarcal no sentido mais velho do comportamento associado à palavra. onde os outros são os outros e não parte da nossa representação no mundo. há, no entanto, uma abertura maior. à diferença. mas assumindo essa diferença como tal e não como registo pessoal de identidade. e há mais do que havia uma infinita individualidade para salvação das almas. se ainda se pudesse comprar um pedaço do céu certamente muitos se queriam salvar deixando muitos outros para a perdição. observo-os e vejo que quarenta anos depois do vinte cinco de abril a noção de democracia ainda é uma criança a dar os primeiros passos. oiço, às vezes, que não funciona. que alguém tem que tomar a iniciativa e controlar a coisa. sempre houve líderes presentes e ausentes nas comunidades escolares. mas a sua emergência com base na urgência de uma identidade explicativa nunca foi tão grande. há menos comunicação. mas mais formas de partilha. a utilidade substitui a pertinência. gosto de observar tudo isto. faz-me pensar no quando uma aula pode ser importante. porque pode, em noventa minutos [mais ou menos] haver lugares onde tudo o que se vive hoje pode ser repensado. e isso é tão urgente como tudo o resto.

||| e entretanto o tempo fez cinza da brasa...


||| ... ando a pensar numa aula sobre o tempo. sim, só sobre isso. o tempo como tema. explicar o tempo. explicar a sucessão das coisas. cada vez mais os meus alunos pensam que vivem no presente. tudo é agora. ou a antecipação de uma coisa nova. da última coisa nova. como se pode explicar a uma pessoa que tem cinco ou dez anos de memória activa que somos frutos de milénios de história. e que podemos antecipar o futuro pela percepção da construção do tempo. antecipar não é planear. é pensar antecipadamente. assusta-me cada vez mais quando falo com alunos e muitas vezes me dizem que ainda não sabem o que querem ser. não me assustam que não saibam. assusta-me que não pensem nisso. que será o que tiver que ser. ou o desenrascar para sobreviver. e pergunto-me se isso não será a noção do tempo que hoje não há. esse antes e esse depois que deixámos de pensar em conjunto. e uma aula pode ser isso. esse espaço de pensar. assusta-me cada vez mais ver uma geração presa no presente. como eu, professor. mas eu consigo pensar o presente, o passado e o futuro. e arrisco a correr o risco de lhes dizer isso. acho mesmo urgente ensinar o tempo. exista ele ou não. mas explicar. pensar. é urgente.

16/01/2014

||| sou fruto de uma má educação...


||| ... o título do filme de almodôvar persegue-me. má educação. e recentemente vi uns filmes de qualidade muito duvidosa. americanos até mais não. num uma rapariga fica feliz [e o pai orgulhoso] porque depois de este ter salvo o mundo e ela ter gravado tudo com o telemóvel da sony tendo obtido setecentos milhões de visualizações no youtube. orgulho do pai. felicidade da filha. modelo social explicado em dois segundos de filme. e volto à má educação. como referência. porque me lembrei de outro filme. o substituto. desse retirei muito mais. faz um retrato de uma parte social e educativa nos tempos que correm. a parte nunca é o todo, mas é a parte que é um todo em si mesma. e vi aquilo que temo que em parte já existe em muitas salas de aula. não todas. só em parte. e que se alastre. lentamente. mas gostei do recado humano. da mensagem. eu tive uma má educação. esta é que é boa. no meu tempo havia furos entre aulas quando o professor faltava. dava tempo para saltar as grades e ir passear. fugir da escola era um exercício nobre. como era voltar a tempo da aula seguinte. e tive a sorte de ter tido uma professora que deu três aulas. sim, três. foi expulsa da escola depois. três aulas e recordo-as como quase nenhumas outras. havia nas suas regras de não haver regras algo de imensamente belo. uma aula foi dada com a turma deitada no chão da sala. outra na rua. outra em frente a um quadro de pollock e uma foto de marilyn monroe semi-nua. e não voltou. a professora. ainda me lembro que usava um daqueles casacos pretos de cabedal com fechos a lembrar os rebeldes sem causa. uma má educação, portanto. terá sido por isso que pollock se tornou para mim uma referência do experimentar com sentido. não sei. sei que foi uma má educação comparada com a que hoje é dada aos alunos. aos meus e aos nossos alunos. e isso assusta-me. o sistema produziu-me. o mesmo sistema que agora diz que ter tempo livre na escola é mau. que fazer visitas de estudo é um luxo. que ter uma bolsa de mérito é desperdício financeiro. que a educação artística é um complemento a descontinuar. má educação, a minha. erros meus, má fortuna, então. talvez seja por isso que tudo tenha agora a lógica que tem. e talvez seja por isso que eu, agora professor, não sei e não tenho forças para fazer a revolução que era precisa. má educação, portanto...

||| as sombras na parede da caverna...


||| ... deixámos de ver. li com alguma atenção a notícia da morte de um rapaz que podia ser meu aluno. quando comecei este espaço de reflexão pensei em limitar a sua lógica ao meu dia-a-dia como professor. e ontem deparei-me com a notícia na informação pública e publicada. matou-se. era uma criança. uma pessoa. um aluno. um filho. e logo surgem as respostas que é um caso isolado. não é. que vai ser aberto um inquérito. vai, mas não serve para nada. que estas situações são multifactorais. e nem mesmo as mais complexas palavras que se podem inventar conseguem dar razão a uma situação destas. foi só uma brincadeira, diz o director. não, não foi. o pior de tudo? que nós, professores, pessoas, deixámos de ver. de sentir. alguém vai resolver. não me posso meter nisso que é do foro da família. temos que reunir e com isso desculpar o não agir. deixámos de ver. é como a pobreza, ou a doença, ou a infelicidade ou o incómodo. evitamos. não podemos fazer nada. ou então são os outros que a quem cabe essa responsabilidade que devem fazer e não fizeram. e nós? nós que temos a oportunidade e não fazemos? dizemos que o nosso trabalho não contempla essas intervenções. que não temos preparação. formação. desculpas. somos humanos. adultos. vemos nos corredores esses comportamentos. vemos à saída da escola esses comportamentos. abrimos a porta do carro, colocamos o cinto, arrancamos para longe dali e não paramos se vemos qualquer coisa. é fora da escola. é pela mesma razão que quando alguém se sente mal na rua não vamos lá. ou ajudamos com a necessária distância de segurança. mas este miúdo podia ser meu aluno. se calhar até tenho um assim na minha sala de aula. foi só uma brincadeira. sim, no meu tempo de aluno também se faziam brincadeiras destas. a questão não está na brincadeira. está no propósito. eu sei, palavra velha esta. não é fazer de propósito. é o propósito com que hoje se fazem estas coisas entre pessoas. a razão. o que está por baixo de cada acto que fingimos não ver. e podemos erguer a voz num corredor. ou dizer que ali não há lugar para isso. ou fazer qualquer coisa que não seja deixar de ver. arranjar discursos, explicações é simples. podemos sempre explicar. não podemos é justificar. e a culpa é nossa. não é do sistema, dos pais, da sociedade. é nossa. quando deixamos de ver é nossa. nossa que podemos actuar e não o fazemos por conformidade ou preguiça ou desculpa. porque somos nós que fazemos a escola. porque ainda somos humanos e ainda existe humanidade por muito que esteja esquecida. o que me assusta? que estejamos todos cegos. a ver sombras que julgamos serem a realidade. como na caverna de platão. que o nosso tempo seja o dos bezerros de ouro [religiosa e não religiosamente] e que cada vez mais tudo seja algo que cabe aos outros. o pior é que os outros pensam como nós. e ninguém faz. e a vida corre implacável. e eles, os rapazes e raparigas [mais duas palavras velhas] estão cada vez mais sós para lidarem com estas coisas que não são brincadeira. e tudo isto porque nós, sim nós, deixámos de ver...

15/01/2014

||| nunca percebi a diferença entre branco e cinzento...


||| ... eles olham para qualquer lado. trocam palavras. falam. esquecem-se que estão em aula. desenham uma coisa qualquer na folha de papel. que importam as invasões francesas num tempo em que não há invasões assim. é difícil explicar. não, não é. é a natureza humana. é por isso que os extraterrestres são seres vocacionados para a guerra ou o conflito. poucas são as imaginações que os colocam como seres pacíficos. fazer comparações assim é absurdo. sinto-me insultado na minha capacidade de reflexão. e as invasões francesas voltam. para explicar que fomos assim. ou que somos assim. não aqui. longe. mas isso não interessa. não pode interessar. roubámos o interesse pelo passado. são coisas que já foram. como todas as outras. importa o futuro. a tecnologia. a técnica. a explicação de como funciona é irrelevante. importa o que faz. o tempo de vida. o tempo de utilidade que substitui o tempo de vida. utilidade. sim, de utilização. o que faz, como faz. ah... já percebi. segue-se o desinteresse até novo objecto ser novamente o mais inovador. a solução para a atenção. mais um recurso. mais um invento. e o interesse, essa coisa estranha de se conquistar, fica esquecida. importam as coisas que ajudam. que superam esse instante de desatenção. e de tanta procura pela atenção, de tanto instrumento inovador criado, vamos de espectáculo em espectáculo. e perdemos a essência do interesse: a dúvida. o desafio de querer resolver um problema e não saber. e querer saber. mas isso não importa. importa estar atento. preferencialmente, em silêncio. e tudo será perfeito se assim for...

||| no fundo do poço há qualquer coisa...


||| ... as regras de um sistema são estranhas. são regras. normas. emanadas muitas vezes por confronto com uma realidade. muitas vezes, após. muitas vezes, sem suporte. ser professor neste sistema é algo estranho. porque há uma contradição clara. entre a escola ser um lugar de desenho do futuro e o sistema ser um estranho lugar do presente. e somos apanhados neste emaranhado de realidades. eu professor e eles alunos. trinta alunos numa sala. vezes um número de turmas cada vez maior. e metas. a atingir. e um sistema que se alimenta de falta de confiança e por isso de papeis para justificar cada passo dado, cada palavra dita. e uma escola transforma-se numa representação do que será o tempo depois do tempo passado naquele lugar. é mais uma etapa. o objectivo não é aprender. o objectivo é terminar a escolaridade. aprender é um acessório no meio de tudo isto. o conhecimento, que tanto se fala como se a palavra em si fosse oca, representa uma construção ideal e idealizada da competitividade que o mercado procura e precisa. nesta dualidade de representações nasce uma constatação de facto. na escola e para a escola a cultura é um acessório. uma coisa para entreter. um momento ou um instante. e faz sentido que neste sistema seja assim. impõem-se a lógica do cumprir. e isso sim é simples. faz sentido. as coisas que não fazem sentido só encontram lógica nesta escola se forem pontuais. e não incomodarem. é importante que não incomodem. são autorizadas se forem naquela sala lá ao fundo do corredor ou no espaço para exposições mas não podem incomodar. não podem provocar alterações, soluções, comichão ao sistema. e é tudo tão simples, tão evidente, que seria tão fácil mudar.

14/01/2014

||| o meu avô tem um carro enorme...


||| ... há este lugar da competição entre alunos enquanto ideia de que o mercado de trabalho será assim. a selva do "mundo lá fora". os melhores. os poucos que serão os melhores vão sobreviver [ou viver e os outros sobreviver] para além do correr dos dias. para isso é preciso trabalhar. muito. ser melhor do que o vizinho que nos olha por cima do ombro, sempre. e ainda, superar o que já temos. não é superar. é ultrapassar. para poder olhar de onde partiram para saberem onde chegar. ao lugar ideal que é ser o melhor. pelo número. aquele número na pauta. e disse a uma aluna minha que me arrependo de não lhe ter dado um vinte. sou sincero, nunca dei nenhum. não sei a razão. nunca pensei nisso. não tenho nenhum tabu quanto a isso, nem qualquer razão superior. simplesmente nunca dei nenhum vinte. a resposta da minha aula foi desconcertante para mim: é só um número professor e esse número não define nenhuma pessoa. gostei tanto da resposta que ainda mais me arrependi de não ter colocado aquele número na pauta. se pudesse, vinte e um. ou vinte e cinco. mas, de facto, cada vez mais o número faz menos sentido. ou fará mais para a "selva". o que me custa é que eu, que também habito essa "selva" para além da parede da escola, sei que cada vez mais o individual se dilui no trabalho de equipa. hoje as empresas trabalham com equipas. por equipas. por projecto. muitas. não todas, é certo. mas muitas. e isso não ensinamos. não trabalhamos. ou pouco. é muito mais fácil apostar nesse desafio de superação individual do que construir equipas de trabalho para o sucesso. e hoje, como sempre, os outros, trabalhar com os outros é o maior dos desafio de todos. aquele que não se ensina. treina-se. aquele que não se supera. é preciso conquistar. e isso começa em nós, professores. que não sabemos fazer isso e por isso não sabemos como o ensinar. talvez o futuro, o tempo [esse mestre superior que tudo permite desculpar] nos vá ensinar isso. precisamos disso. para ensinar que competir não é ganhar. é construir. falta isso. falta tanto disso para que os deuses de hoje se resumam a conquistas de futuro e não a vã glória do presente. assim seja...

||| do que não vemos sempre...


||| ... trinta pessoas. cada uma dessas pessoas tem um processo de pensamento. e cada um, enquanto aluno, tem um processo de aprendizagem. uma forma. um processo pelo qual, apreendem. aprendem. consciente ou inconsciente. não são uma massa de seres dispostos a aprender. nem uma massa de seres que aprendem da mesma maneira as mesmas coisas. e não estou a falar do interesse. estou a falar do processo de aprendizagem. e o teste é muito simples. observem uma estrutura complexa. esta, por exemplo. recriem, depois. um teste. há os que fazem perguntas. os que observam. os que copiam os outros. os que pedem opinião. o que perguntam como fazer. os que pegam nas coisas e começam a tentar. e reparamos nesse momento que não temos uma turma. temos trinta pessoas a pensar de forma diferente. a apreender a realidade de forma diferente. então porque imaginamos sempre que a mesma fórmula serve a todos? porque tem que ser assim. o sistema está pensado para ser assim. não há tempo nem espaço para isto. ou há? e preferimos não ver. não ver que há formas e fórmulas diferentes de aprender entre os nossos alunos? é tão mais fácil, neste modelo actual, dar uma aula à turma x, y ou z. e não aos alunos a,b,c,d,e,f,g,h... e isso traduz-se na linguagem. damos aulas ao oitavo a, b,c... e não damos aulas ao joão, à maria e ao fernando. e assim vamos. e assim nos iludimos que ensinamos. ou melhor, ensinar, talvez. talvez, somente...

13/01/2014

||| as respostas é que são obscenas...


||| ... sobre o equilíbrio e a estética do ferro muito a dizer. mas a dúvida não era essa. era outra. ó professor, não é mais fácil construir um barco do que uma ponte? não percebo então. na sequência do discurso a pergunta fazia todo o sentido. e não a pensei possível. acho que este vício de ser professor me afecta sempre essa capacidade de não conseguir prever todas as perguntas. esta era simples. fora do contexto, mas simples. a tendência é sempre não responder ou dar uma resposta rápida porque há tanto mais para dizer. e logo ali, onde soult combateu e as tropas circularam. e isso para contar. e a resposta. a resposta foi simples. hoje somos sete biliões de outros [e a recomendação para ir ver o site do projecto]. e num barco cabem poucos. num comboio, mais. locomotiva chamou-se a revolução da circulação. iam coisas, pessoas e ideias. de comboio. de barco iam pessoas e coisas e ideias. mas menos. menos pessoas. mais devagar. então eram mais felizes? e a história não ensina isso. se eram mais ou menos felizes. eles, nesse tempo, dos barcos que passavam de uma margem para a outra antes da ponte lhes passar por cima levando muito mais depressa, para longe [para muito mais longe], muito do que era seu. e a ciência não ensina isso. não há resposta para isso. sabemos que a vida era dura. ó professor, mas hoje também. debaixo da ponte todas as perguntas se tornam muito mais claras. assim como as respostas. e transforma-se a aula numa conversa. e vamos passando de pensamento em pensamento. a ciência serve-nos de ponto de retorno. nada mais. porque em mil oitocentos e nove, naquele local, ali, aconteceu isto e aquilo. mas se eram mais felizes porque tinham mais tempo, não sei. o mundo era mais pequeno. mas para tantos, ainda hoje, o é. mesmo podendo viajar sem sair do local. nós, pelo menos, nós, fomos ali. e terminámos a falar do ferro. daquela beleza estranha que nos observou em silêncio sem nos dar as respostas que, afinal, nem eram precisas para haver uma conversa feita de pensamentos. é por isso que um professor nunca deve deixar de responder a todas as perguntas. ter esse tempo e esse cuidado. mesmo que não estejam previstas no guião da sua lógica. a conversa é mais importante do que pergunta. mas a resposta é sempre mais rica quando criada em conjunto. em conversa...

||| caminante, no hay camino. se hace camino al andar


||| ... assusta-me como as coisas simples são, hoje, inovação. já o sabia para a tecnologia. a tecnologia só tem esse nome quando é nova. depois passa a ter nome de função. ou de coisa. de objecto. e assusta-me cada vez que os alunos estejam centrados num fazer por fazer que os afasta da observação directa da realidade. andar a pé, deambulando, é hoje um luxo de observação que perdemos. de que é composta hoje uma cidade. que espaços habitamos? como são compostos, organizados, habitados. que história existe nesse espaço comunitário que é preciso decifrar para nos entendermos no aqui e agora? parei por um momento, pensei e disse. hoje somos seres em circulação. em constante movimento. não estamos. passamos pelas coisas. levados por máquinas ou centrados nelas quando vemos caminhar ou ver a cidade e os espaços por um visor. mesmo estando perante a monumentalidade ou o património. parei por um segundo junto a este espaço abandonado. da janela espreitava um sol pintado. no google não há definição para o lugar. era preciso olhar. atravessar uma cerca aberta pela voragem do tempo. fábrica de massas. revolução industrial tardia. ultrapassada pela tecnologia. e voltamos ao conceito falado. e uma aula pode ser só isto. uma conversa a pé. porque nada conta melhor o testemunho do tempo do que qualquer lugar esquecido numa qualquer rua por onde todos os dias circulamos sem ver nada mais do que a nossa presença num espaço em movimento. como se pode ter alunos curiosos se não começamos pelo mais simples? observar. criar dúvida?

10/01/2014

||| ter uma ideia do que é a coisa...


||| ... há alunos que ganhamos. e alunos que perdemos. há turmas que ganhamos e turmas que perdemos. há pessoas que nos acompanham e pessoas que perdemos pelo caminho. o que importa é termo-nos cruzado. e eu, professor, cruzei-me com mais alunos [pessoas] num ano do que muita gente numa vida. e o que importa isso? nada. só que sou imensamente mais rico por isso.  apeteceu-me pensar nisso neste momento...

||| não me diga que não sabe...


|||... ó professor, não me diga que não sabe. não, não sei. não sabe mesmo? não. mas vou aprender. disse. e naquele momento passou-me pela cabeça a teoria de que o professor deve ser um general da autoridade. um mestre no exercício de gerir a sua alta competência no domínio dos outros. dos vinte e muitos outros. não era uma pergunta inocente. era uma pergunta de confronto. qualquer professor já teve uma situação destas. em que o confronto não é violento. é inteligente. é de descrebilização da autoridade pelo conhecimento. de todas as formas, a mais curiosa. mas vou aprender, disse eu. parei a aula, sentei-me ao lado do meu aluno. pedi que me fizesse aprender. e conversámos. no final disse para os restantes vinte e muitos: sabem há no exercício da argumentação para desconstrução da autoridade uma falácia [as minhas palavras não foram estas, estas são para aqui]. a falácia de quem sabe, sabe ensinar ou explicar. ou que o saber é uma arma. uma pedra. um objecto que se pode atirar para o outro tropeçar e com isso sorrirmos por breves instantes. é que o saber é o exercício máximo da liberdade. qualquer pessoa pode saber. aprender. basta querer. foi o que fiz. posso aprender com os outros, com os livros ou de qualquer outra forma. mas fica sempre imensamente mal usar o conhecimento como arma. porque é absolutamente estúpido pensar que outra pessoa não pode, num simples gesto de querer saber, perguntar. e deixei de lado aos arautos da autoridade tudo o que tinha pensado sobre isso. sou um professor que não acredita na autoridade concedida. acredita no respeito conquistado. e foi isso que fiz e consegui naquele momento.

09/01/2014

||| está o ar a passar entre as portas...


||| ... fui a uma escola. moderna, dizem. sempre dei, quando tal era possível pela logística da escola, aulas de porta aberta. e quando pediam outros alunos para assistir [quando havia furos nos horários] deixava. agora não há nada disso. primeiro passei pela porta com um quadrado de vidro a meio e pensei: aquário. só faltam as algas e as bolinhas de ar no meio. depois assustei-me. pensei em grades. em orwell. no observador. no fim da reserva. do público e do privado. dos espaços que não são continuação do espaço. e sempre vi a minha sala de aula assim. a minha sala de aula não é a continuação do espaço da escola. é um espaço. pode estar, ou não, integrada no espaço da escola. há dias em que não me apetece que esteja. em que quero levar os meus alunos para fora da escola sem saírem do lugar. e assusta-me que tudo seja, neste caso, um espaço público. não é preocupante. é um sintoma social. que se espelha na escola. este lugar onde já ninguém pode estar. tem que estar com outros. em permanência. como se fosse possível ou impossível o lugar ser transformado para além da lógica do processo em que alguém ensina e outro aprende. estranho tudo isto. porque me assusta muito este caminho que estamos a fazer na escola. conformado num presente não desenhamos o futuro. deixamos que nos observem em vez de criarmos. e tudo, da arquitectura aos espaços das escolas ditas modernas está pensado para isso. porque nada existe por acaso. e não sei se alguém já pensou nisto...

||| no meio da floresta existe uma árvore de costas...


||| ... de tempos a tempos vou navegar. navegar é preciso. dizia o poeta. e bem. vou procurar. gosto da palavra pesquisar que usamos com uma modernidade envelhecida. eu vou pesquisar. os meus alunos vão à net. como quem vai ali a um lugar. eu vou pesquisar. sou de outro tempo. do tempo das fichas em papel nas bibliotecas. ordenadas por nomes e alfabeticamente. por isso ainda penso que a informação estará assim. organizada. mas agora não é assim. é pelas minhas preferências, explica-me a política de utilização do google. eles sabem o que eu prefiro, dizem. o pior é que não sou uma pessoa coerente. nem consistente, diz o relatório de utilizador. não sei se é bom, se mau. eu não vou à net. vou pesquisar. e lá vou eu. primeiro em português. e surgem milhares de atalhos. não falo de ligações. falo de atalhos. caminhos curtos. coisas preparadas. como a comida pré-feita. mas aulas. recursos. coisas que fazem isto e aquilo. ou um ou outro "powerpoint" feito por um colega que partilhou num momento qualquer para o mundo. depois faço-o em inglês. e recursos há menos. mais artigos. mais reflexões. mais análises de resultados. guias de implementação passo a passo. é curioso. e faço uma última tentativa em francês. e lá vem uma ideia gira. um desafio feito. um projecto. é curioso. mesmo muito curioso. a língua determina a cultura de abordagem ao que se faz em sala de aula. partilhamos mais, sem dúvida. mas talvez partilhemos mais atalhos do que qualquer outra coisa. o nosso problema é de tempo. falta dele. procuramos coisas feitas. encontramos coisas feitas. noutras paragens encontramos caminhos. mas isso implica construir as estradas. e não temos tempo. foi-nos roubado esse tempo. daí os atalhos. mas o tempo que passo a ver atalhos, penso sempre, permite-me criar eu a solução. o recurso. a aula. deixo a pesquisa. não estou lá, como os meus alunos. vou lá. só. espreitar. pesquisar. obsoleto, eu, professor, pesquiso. e depois desligo. navegar é preciso. saio de casa. vou até ao pé do mar. ando um pouco. ali navega-se. ali, sim, os barcos navegam. e lá está, no horizonte a ideia para uma aula. aquela linha que vemos curva com o olhar. seria tão simples dizer que o mundo acabava ali. ainda é. e vamos de galileu até ao renascimento. e é tão simples. é só preciso navegar.



08/01/2014

||| em tempo de guerra não...


||| ... há violência a mais na escola. não é uma reflexão. é um facto. e queria ter tempo para poder parar e lidar com isso. como professor, de todas as coisas que actualmente se passam na escola hoje, esta é a que mais me perturba. mas de que violência estou a falar é importante clarificar. a violência física, de corpo a corpo, também quando eu era aluno existia. muitas vezes controlada entre pares geria as regras entre comportamentos. sempre fui e serei, como pessoa, contra qualquer tipo de violência. condeno-a. abomino. essa demonstração do factor violência, embora cada vez mais raro no ambiente da escola é determinado por factores de momento. imediatos. um boom que leva a isso. controlar isso é controlar a essência da violência e determinar o que é permitido ou não. mas estou a falar de outro tipo de violência. da linguagem. do comportamento. dos gestos. do ambiente. estamos todos mais violentos uns com os outros. a compreensão, a comunicação, a relação está a perder-se para gestos bruscos ou cansados. e o que me assusta é ver isso traduzido em comportamentos entre os alunos. basta passar um pouco de tempo a olhar pela janela da sala de aula e ver os encontrões, as palmadas e ouvir as palavras. a forma como são ditas. as que são ditas. sim, sempre houve tal representação da violência na escola. essas brincadeiras. a diferença é que não eram uma forma de expressão. de comunicação. e agora são. talvez porque nós deixámos de ter tempo para ver estas coisas. estamos sempre em andamento. de sala para sala. de dentro para fora da escola. daqui para ali. de reunião em discussão. deixámos de ter tempo para ver. de ter tempo para falar. deixámos correr as coisas para essa natureza primitiva das relações no espaço da escola. e ficamos surpreendidos quando isso se vivifica no interior de uma sala de aula. trata-se de um prolongamento do que deixámos de ver. e vemos, nesse momento. e não sabemos com agir ou reagir. perdemos a lógica do todo para ver só aquela parte. aquele momento sobre o qual actuamos. devia ser tempo de pensar nisso. como se tal fosse possível. porque a escola tem que voltar a ser um lugar da palavra. e só assim podemos voltar a ter escola.

||| todos laboram em trabalhos úteis...


||| ... assusta-me sempre que tenho que pedir aos meus alunos para escrever. faço-o com alguma regularidade. folha branca e caneta. sem tema, assunto ou ponto de partida. escrevam. depois das invariáveis perguntas: sobre o quê? uma página inteira? a folha toda? letra grande? posso escrever sobre isto ou aquilo? depois disso, surge o verdadeiro desafio. escrever. qualquer coisa. com princípio, meio e fim. e o que parece um desafio de dificuldade reduzida transforma-se num desafio complexo. é hoje, para os nossos alunos, difícil escrever mais do que cento e quarenta caracteres. e isto não está relacionado com as tecnologias. está relacionado com as ideias. se o tema pedido for, simplesmente, descrevam uma ideia vossa, então é o caos. se as primeiras frases ainda podem sair, desenvolver o pensamento transforma-se num trabalho de hércules. é que o desenvolvimento de um texto, da construção de uma argumentação exige uma articulação baseada no tempo e na forma como podemos passar para o papel [esse monstro imenso e branco] aquilo que queremos dizer. a ideia até pode existir. a expressão e explicação da mesma é que se resume sempre a uma frase. a uma definição simples. a não ter desenvolvimento possível porque se explica em si mesma. e tenho pensado nisso sempre que faço este desafio simples com os meus alunos. repito que o faço regularmente. folha branca. escrevam. penso muito no facto de, em parte, a nossa "descomplicação" e "descodificação" de tudo, das perguntas aos problemas, leva cada vez mais aos alunos dependerem mais dessa explicação com que contam já do que da sua própria capacidade de reflexão sobre um problema. quantas vezes não ouvi: mas é para fazer o quê aqui? nunca respondo. está lá escrito. o esforço de perceber é também um processo de aprendizagem. só no caso de a complexidade do desafio não estar clara tendo a ajudar. mas no desafio difícil de uma folha em branco e uma caneta com a instrução: escrevam [uma ideia ou qualquer outra coisa] nada há a explicar. a não ser o próprio pensamento. mas isso não está na instrução. está em cada um deles, alunos em construção.

07/01/2014

||| do pedaço de papel de rascunho deitado fora...


«...o professor ensinou-nos a viver, a encarar a vida de várias perspectivas. ensinou-nos o que estava a fazer muita falta: trabalhar/cooperar em equipa. e por isso, agradeço-lhe. por me ter dado uma turma que se apoia, que trabalha junta.»

||| ... duas vezes, na minha vida como professor fui temporário. acho que é assim que se designa quem substitui outra pessoa. trabalhei, se bem me recordo, um período e meio de tempo do professor da disciplina. eu era substituto. esta definição é quase tão estranha como o ainda absurdo completo da relação entre professores de carreira e professores contratados. nisto sempre me inclui num lugar estranho. quando me perguntam digo que sou professor em viagem. ficam todos na dúvida e lá ganho o primeiro passo para ser apelidado de louco. nunca percebi nem posso perceber estas artificialidades do sistema que não sejam só uma razão de vã glória e vã cobiça. mas isso nada importa. a césar o que é de césar... importa o momento em que um professor é obrigado a quebrar uma relação com os seus alunos por um qualquer motivo. e falo dessas experiências de substituição como de qualquer outra, mesmo no fim de um ano lectivo, em que tudo isso se quebra. nunca os alunos saberão que os professores ficam com eles em presença durante muito tempo. mesmo não estando. pensam em como estarão. pensam se sentirão a falta que também o professor sente sempre que a relação entre todos cessa. porque estamos a falar de relações humanas. de confiança, partilha e dedicação. e quando por alguma razão isso tudo cessa não se termina uma função. termina-se um contacto humano que se cruzou num tempo único e definitivo. é por isso que todo o sistema [e este conceito de sistema cada vez é mais errado] está a levar a essa ideia [e pior, à prática] de que não importam as pessoas que fazem o trabalho. importa o trabalho e continuar a fazer. continuar tudo a funcionar. e com isto as pessoas são esquecidas. colocadas num plano de coisas. coisas que exercem funções. logo, qualquer coisa serve desde que a função seja completada. vejo isso nos concursos para colocações, nas escolas e na relação entre o ordem do sistema e cada um dos professores. e isso assusta-me. imenso. mais do que assustar, transtorna-me. há de chegar o dia em que vamos perceber [talvez à custa de nos faltar quem mais precisamos] que as pessoas estão primeiro do que as funções. que importa tanto que as coisas continuem como que a escola seja o exemplo social do humanismo que falta a uma sociedade que só sabe continuar sem olhar para quem acompanha o caminho. e a escola não pode ser esse lugar de funções e tarefas. não pode porque é o último refúgio do que queremos para uma sociedade de futuro. mas hoje estamos tão longe disso como nunca. e vamos ficar ainda mais longe nos próximos tempos. longe desse lugar onde as pessoas estão primeiro do que as coisas e as funcionalidades do sistema. estamos a caminhar para esse lugar de anonimato profundo da substituição das pessoas. os anónimos [e é já uma linguagem cada vez mais presente em toda a comunicação se estiverem atentos] fazem tudo funcionar. até um ponto. até ao ponto em que se lembram que são pessoas e tudo se transtorna. a escola neste campo devia ser o grito necessário. urgente. mas não é. nem será. por isso resta ao professor que entra e sai, entrar e sair deixando lembrança. é a sua arma maior contra este lugar de vazio em que o sistema o coloca. ser lembrança. porque nada alimenta mais este sistema do que o esquecimento. e por isso, professor é aquele que ensina. e pode ensinar ao correr dos dias que nada há de mais poderoso do que a memória e lembrança de se ser humano e recordado, recordando. esses dias chegarão. julgo eu, professor, que sim. desejo, eu, pessoa, que sim. mesmo que venham depois de mim...

||| do uso devido das palavras...


||| ... do brio. muitas vezes me pergunto, como professor, para onde foram tantas palavras. quiçá, para um lugar longe acompanhadas pelos comportamentos. tive a sorte de ver nos meus alunos um resto desse mesmo comportamento, quase sempre, presente. qualquer coisa nos serve, agora, pela falta de tempo. ou não serve mas fechamos os olhos. não arriscamos o conflito. o confronto. um trabalho escrito em cima do joelho leva uma nota qualquer mesmo que tenha sido feito em cima do joelho. não devia ser aceite. raramente os aceito. só por uma justificação extraordinária. baixámos as expectativas e com elas arrastámos os comportamentos. e com os comportamentos as palavras. como exigir brio num trabalho proposto se os nossos alunos não conhecem essa palavra e por lógica a sua referência transformada em acção? é simples. nós próprios perdemos essas palavras. deixámos de vestir o papel de professor para vestirmos o papel de funcionário. operários em desconstrução. servidores de um modelo acéfalo e desconfortante. onde esse lugar do resultado como exigência do processo deixou-se ficar vencido pelos números e tempos a cumprir. e se desafio os meus alunos, sempre, com um grau de exigência criativa elevado é por isso mesmo. porque não aceito os mínimos. nunca. voltam para serem recomeçados. refeitos. não me importam os prazos. importa-me o resultado. nem que seja um só trabalho feito num ano inteiro. mas que seja bem feito. justamente feito. não estou a ensinar só o conteúdo e conhecimento que emana do trabalho realizado. estou a ensinar a arte de fazer bem. da dedicação. e do brio. não é simples, nem é o caminho actual. mas é o meu. simplesmente.

06/01/2014

||| da ilusão de que os pássaros voam...


||| ... ó professor, arranja-me isto. isto eram vinte e tal bonecos para um projecto. ó professor, o que acha disto. isto era um quadro pintado com a fúria da idade das coisas sem proibição. há muitos momentos assim. em que os alunos perguntam por algo que não está relacionado com a matéria. ou simplesmente fazem aquela pergunta inesperada. ó professor, porque é que os bispos não usam calcas brancas e só usam aqueles mantos esquisitos? e o tempo é nosso inimigo. e dizemos que isso não é para aqui chamado. ou então para irem ver e voltarem mais tarde. ainda me lembro de uma aluna me ter perguntado porque é que na música grândola, vila morena, a terra era da fraternidade e não da igualdade. e parei a aula. e fomos pensar em conjunto. havia tanta matéria em atraso. tanta coisa para dar [conceito estranho de matéria para dar]. e durante uma aula falou-se só dessas ideias. quando voltei a falar nisso mais tarde eram conceitos simples, claros. de onde vinha a ideia de igualdade. ou de privacidade. porque nem sempre houve lugar à propriedade privada. se os senhores medievais podiam usar toda a terra como sua a privacidade era um lugar distante. o mesmo que hoje questiona o universo virtual por não ter esses limites. e essas aulas, esses momentos, essas "perdas de tempo útil" tornam-se estranhos, cada vez mais. cada vez mais longe de serem reais. eles são muitos. o tempo é contado em minutos. eu tenho que gastar vinte e tal minutos de cinquenta a tal minutos para explicar o conceito de igualdade vs fraternidade. e isso não é tempo útil para o sistema. é tempo gasto. perdido. e já nem há tempo para eles me pedirem isto ou aquilo. há tempo para ser útil. a inutilidade está no pensamento. logo, fora do tempo. fora desse tempo controlado. e assim, todo o tempo útil se torna inútil. e ninguém dá por isso. só eu, professor, que sinto falta que os meus alunos façam aquelas perguntas para as quais não tenho resposta...

||| quanto tempo somos alguém...


||| ... no retomar dos dias de aulas penso sempre em quanto tempo serei professor para os meus alunos. do facto de não haver uma cultura do professor enquanto figura tutorial. o professor dá aulas. ponto. final. não há espaço para receber os alunos. para conversar sobre as ideias que vão tento para o seu futuro ou para um futuro trabalho, projecto ou estudo. o tempo do professor hoje é roubado para reuniões, papeis e coisas que tais. esse tempo, esse espaço é roubado para a clausura da sala de professores onde os alunos não podem aceder. quando, a medo, pedem para falar com um professor é algo feito à porta ou num corredor. lembro-me que nos intervalos sempre ocupei o espaço público da escola. ou a biblioteca. os alunos podiam sempre encontrar-me lá. sempre num espaço público porque a minha reserva de tempo de trabalho era mesmo tempo de trabalho. e essa era uma função que não descartava. o de estar ali. ó professor, está aqui? sim, estou. e o que está aqui a fazer? ver testes? não. estou só a estar. por acaso, estou a ler. mas agora estou a conversar contigo. e em cinco, dez, ou quinze minutos lá vinham uns ou outros. ao fim de algum tempo sabiam sempre onde me encontrar. às vezes na véspera de um teste. outras depois do teste para saber notas. ou sentado no sofá da entrada onde me perguntavam: o que vamos fazer hoje? e dessa pergunta nasciam conversas. sobre os dias, os projectos, o presente e o futuro. o professor não é só uma pessoa. é e devia ser um lugar onde se volta. mesmo depois de deixar a escola. tenho pena de não poder voltar a falar com alguns dos meus antigos professores e perguntar-lhes coisas que me podiam, hoje, ajudar muito. essa cultura do professor como lugar de referência está longe de ser uma realidade. e tenho pena nisso. ao menos, enquanto estou pela escola os meus alunos sabem que sou um lugar onde podem sempre voltar para conversar...

03/01/2014

||| onde é que fica o fim do mundo...


||| ... passei estes dias com um pensamento na mente. vinha na forma de uma frase. o sebastião [nome que me apeteceu usar e não existe] não vai seguir isto. e pensei. tenho pensado. que me recordo aquelas frases ditas por alguns professores meus no tempo em que estava eu do lado de lá e eles do lado de cá. tu não vais ser ninguém na vida assim... e fui. pouco, mas fui. e até já tive professores meus como meus aprendizes em cursos que fui dando por ai. e apeteceu-me dizer que afinal, mesmo sem futuro, lá o consegui construir. bem ou mal, assim foi. e vejo que depois de todos estes anos ainda achamos que sabemos o futuro deles só porque são bons a matemática ou em história. o sebastião só pode ir para ciências. dará um bom médico. e no entanto o sebastião o que gosta é de teatro e de escrever. e vim a encontrar o sebastião anos mais tarde. era actor depois de ter tirado um curso de bioquímica com esforço e falta de dedicação que o levou a cumprir os mínimos. depois saiu do país. voltou com um curso profissional de teatro. e é actor. ganha menos. mas é actor. e eu nunca pensei que assim fosse. eu talvez tivesse essa esperança. mas nós, no conjunto da sapiência das reuniões dizíamos que ele só podia ser cientista. e foi. por breves momentos. esse é o privilégio de se ser professor e dos nossos antigos alunos virem contar quem são agora. e eu fechar por momentos os olhos e saber que afinal, naquela reunião há tantos anos, eu até pensei que ele podia ser o que é agora. ou o contrário. aconteceu-me um dia. um aluno que tinha todo o mundo pela frente. era um miúdo cheio de arte em si. hoje trabalha como técnico num metro de uma grande cidade europeia depois de muito se ter perdido em tentativas frustradas de procurar sempre o impossível. e nós, no alto da nossa sabedoria ainda pensamos que podemos adivinhar o futuro. e não é um futuro qualquer. é o deles. e perdemos o melhor que lhes podemos dar. a mão. as mãos. dizer que somos professores por um ano, um período de tempo, mas estaremos sempre ali, naquele local que é a escola, sempre que precisarem. venham a ser cientistas, actores ou técnicos. que não é nosso dever adivinhar o seu futuro. é nosso dever estar lá, para o que for preciso, para ensinar ou simplesmente para trocar umas ideias. e isso faz de um professor um ser humano aberto ao futuro. não vidente. mas porto de abrigo para a incerteza da vida que um dia cruzaram com outro ser humano. nada há de mais simples. nada há de mais perfeito neste desafio de ser professor.

||| de quem nos esquecemos que fomos...


||| ... às vezes penso que sou profissionalmente privilegiado. há quem lide com a morte, com a violência, com a fome ou mesmo com a solidão. há quem lide com as férias dos outros, com o dinheiro dos outros, com o tempo dos outros, com os pensamentos dos outros. eu, professor, lido com a esperança. nunca tinha pensado nisso. mas hoje ao ver umas fotos de uns alunos no seu primeiro dia de aulas algures num tempo em que não os conheci, com a mediação de uma rede social, percebi isso. que todos os dias lido com a esperança. porque o meu mundo de adulto não é o deles, ainda em construção. ideia que também não gosto muito porque se construir significa perder aos poucos aquele brilho no olhar então mais vale não construir nada partindo daquele momento. a ciência e o saber tira e dá brilho ao olhar. mas não este. este em que, também nós, professores ditos adultos vivemos um dia. em que os amigos eram amigos. em que cada momento era um momento. em que uma descoberta era partilhada. e regresso à esperança. eu, que nunca tinha pensado nisso, penso que nada há de mais perfeito neste desafio de ensinar. a esperança que todos temos que eles sejam muito melhores do que nós. a esperança do futuro que será deles. mas mais importante a esperança que há neles. que reside escondida na idade da inocência. e isso mais ninguém tem. e eu, sou mesmo privilegiado. por habitar esse espaço todos os dias. com eles. um lugar e tempo de esperança. 

02/01/2014

||| de que lado está a janela que dá para o mundo...


||| ... um bom ano para todos/as. devia começar por lhes explicar o que é o calendário gregoriano. ou dizer que sou daqueles que pensa que o tempo não existe. talvez como santo agostinho. se ninguém me perguntar eu sei, porém, se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei. assusta-me muitas vezes este lado de mim que não desliga. o que quer ensinar. o de tentar ensinar. o de explicar que as coisas nem sempre foram assim. que o tempo já foi outro. já foi medido de outra forma. assim como tudo o resto. que por cá as casas não estão nomeadas mas as ruas sim e no oriente é ao contrário. que a pintura e a escultura nem sempre foram públicas. e assusta-me que cada vez mais nos esquecemos de ensinar. replicamos. reproduzimos. "damos matéria". "cumprimos programa". e este acto de explicar se perde cada vez mais. que cada vez mais ensinamos o presente. o que está aqui e agora. o que é assim. como se tivesse sempre sido assim. ou então o empreendedorismo como se isso fosse mudar o que aqui e agora já está obsoleto. ainda recentemente fui dar uma aula convidado para ensinar a ler imagens a alunos. peguei no símbolo da nike. a percepção que nada de novo existe é assustadora quando olhamos atempadamente para uma coisa. as asas da deusa grega, lógica de vitória. as mesmas das asas de asterix. e as mesmas asas prometidas por uma bebida energética ou símbolo de uma companhia aérea. e nós já perdemos esse tempo para ensinar que nada disso está desligado. porque o programa e a matéria não permitem tais devaneios. porque deixamos cada vez mais de pensar. tudo se revela novo e óbvio. e somos enganados. deixamos que nos enganem. vamos com a ideia que nos vendem. a nós que devíamos ensinar. a nós que sabemos a razão das coisas. a história das coisas. e geramos alunos de agora. para agora. para consumo. para o momento imediato. reproduzimos quando devíamos ensinar. e depois esperamos por uma [r]evolução. alguém tem que mudar isto. mas nós não. nós reproduzimos para eles reproduzirem. e esperamos deles aquilo que já não fazemos. que rompam com a lógica. que criem uma nova ordem. nós não. nós temos que cumprir. reproduzir. ensinar é um acto perdido no meio de tudo isto. estamos envolvidos nesse, neste, naquele sistema. no sistema educativo. somos mais matéria do que saber. e ensinar precisa de saber mais do que matéria. saber pensar. saber ver. saber. e agora que o tempo corre sempre igual, ensinemos isso aos nossos alunos. talvez só isso. que eles vivem hoje num tempo que nunca foi contado assim. houve um tempo em que era o céu que ditava as regras. o tempo contado pelo nascer e morrer do sol em cada dia. sem horas. sem reproduções de matéria em minutos contados por um tempo que não existe. e hoje, porque tenho tempo, apeteceu-me pensar nisto...

||| nem sempre há algo de novo no tempo que corre...


||| ... neste tempo de pausa há sempre um estranho lugar habitados por mim, como professor e pelos meus alunos, enquanto pessoas. sempre pensei na importância deste tempo. é o lugar do desencontro. o lugar de regresso. eles às famílias, amigos, tempos e vivências fora da escola. ao seu lugar de guarda. de reserva. de desconhecimento para mim que sou só o seu professor e tenho só essa função. mas penso nisso. porque deste lado o mesmo acontece. habito conversas diferentes. não falo de aulas, nem de aprendizagens, nem de nada disso. um desligar lento. de tempos a tempos falo deles. em conversas de amigos ou família. daquele aluno que canta, daquela actividade que fizeram juntos, daquela aluna que quer ser grande antes de tempo ou que o tempo de hoje já é pequeno demais para ela. falo deles mas não habitamos esse espaço comum que a tudo dá sentido. é essa a importância da escola. o nosso lugar comum. o nosso espaço de sentido. de significado. e o regresso está para breve. renovo o pensamento que não serei o mesmo. nem eles. isso é muito bom. não poderemos recomeçar onde deixámos tudo. teremos que começar de novo. agarrar o que já é comum mas recomeçar. e recomeçar é mesmo começar outra vez. nenhum professor deve nunca dar como adquirido que tudo o que viveu num determinado tempo com os seus alunos está lá. pode não estar. pode ter sido perdido. ter sido transformado. ter sido esquecido ou relembrado. contado e recontado. é esse o poder do tempo. e dos lugares que somos...