16/01/2014

||| as sombras na parede da caverna...


||| ... deixámos de ver. li com alguma atenção a notícia da morte de um rapaz que podia ser meu aluno. quando comecei este espaço de reflexão pensei em limitar a sua lógica ao meu dia-a-dia como professor. e ontem deparei-me com a notícia na informação pública e publicada. matou-se. era uma criança. uma pessoa. um aluno. um filho. e logo surgem as respostas que é um caso isolado. não é. que vai ser aberto um inquérito. vai, mas não serve para nada. que estas situações são multifactorais. e nem mesmo as mais complexas palavras que se podem inventar conseguem dar razão a uma situação destas. foi só uma brincadeira, diz o director. não, não foi. o pior de tudo? que nós, professores, pessoas, deixámos de ver. de sentir. alguém vai resolver. não me posso meter nisso que é do foro da família. temos que reunir e com isso desculpar o não agir. deixámos de ver. é como a pobreza, ou a doença, ou a infelicidade ou o incómodo. evitamos. não podemos fazer nada. ou então são os outros que a quem cabe essa responsabilidade que devem fazer e não fizeram. e nós? nós que temos a oportunidade e não fazemos? dizemos que o nosso trabalho não contempla essas intervenções. que não temos preparação. formação. desculpas. somos humanos. adultos. vemos nos corredores esses comportamentos. vemos à saída da escola esses comportamentos. abrimos a porta do carro, colocamos o cinto, arrancamos para longe dali e não paramos se vemos qualquer coisa. é fora da escola. é pela mesma razão que quando alguém se sente mal na rua não vamos lá. ou ajudamos com a necessária distância de segurança. mas este miúdo podia ser meu aluno. se calhar até tenho um assim na minha sala de aula. foi só uma brincadeira. sim, no meu tempo de aluno também se faziam brincadeiras destas. a questão não está na brincadeira. está no propósito. eu sei, palavra velha esta. não é fazer de propósito. é o propósito com que hoje se fazem estas coisas entre pessoas. a razão. o que está por baixo de cada acto que fingimos não ver. e podemos erguer a voz num corredor. ou dizer que ali não há lugar para isso. ou fazer qualquer coisa que não seja deixar de ver. arranjar discursos, explicações é simples. podemos sempre explicar. não podemos é justificar. e a culpa é nossa. não é do sistema, dos pais, da sociedade. é nossa. quando deixamos de ver é nossa. nossa que podemos actuar e não o fazemos por conformidade ou preguiça ou desculpa. porque somos nós que fazemos a escola. porque ainda somos humanos e ainda existe humanidade por muito que esteja esquecida. o que me assusta? que estejamos todos cegos. a ver sombras que julgamos serem a realidade. como na caverna de platão. que o nosso tempo seja o dos bezerros de ouro [religiosa e não religiosamente] e que cada vez mais tudo seja algo que cabe aos outros. o pior é que os outros pensam como nós. e ninguém faz. e a vida corre implacável. e eles, os rapazes e raparigas [mais duas palavras velhas] estão cada vez mais sós para lidarem com estas coisas que não são brincadeira. e tudo isto porque nós, sim nós, deixámos de ver...