06/01/2014

||| da ilusão de que os pássaros voam...


||| ... ó professor, arranja-me isto. isto eram vinte e tal bonecos para um projecto. ó professor, o que acha disto. isto era um quadro pintado com a fúria da idade das coisas sem proibição. há muitos momentos assim. em que os alunos perguntam por algo que não está relacionado com a matéria. ou simplesmente fazem aquela pergunta inesperada. ó professor, porque é que os bispos não usam calcas brancas e só usam aqueles mantos esquisitos? e o tempo é nosso inimigo. e dizemos que isso não é para aqui chamado. ou então para irem ver e voltarem mais tarde. ainda me lembro de uma aluna me ter perguntado porque é que na música grândola, vila morena, a terra era da fraternidade e não da igualdade. e parei a aula. e fomos pensar em conjunto. havia tanta matéria em atraso. tanta coisa para dar [conceito estranho de matéria para dar]. e durante uma aula falou-se só dessas ideias. quando voltei a falar nisso mais tarde eram conceitos simples, claros. de onde vinha a ideia de igualdade. ou de privacidade. porque nem sempre houve lugar à propriedade privada. se os senhores medievais podiam usar toda a terra como sua a privacidade era um lugar distante. o mesmo que hoje questiona o universo virtual por não ter esses limites. e essas aulas, esses momentos, essas "perdas de tempo útil" tornam-se estranhos, cada vez mais. cada vez mais longe de serem reais. eles são muitos. o tempo é contado em minutos. eu tenho que gastar vinte e tal minutos de cinquenta a tal minutos para explicar o conceito de igualdade vs fraternidade. e isso não é tempo útil para o sistema. é tempo gasto. perdido. e já nem há tempo para eles me pedirem isto ou aquilo. há tempo para ser útil. a inutilidade está no pensamento. logo, fora do tempo. fora desse tempo controlado. e assim, todo o tempo útil se torna inútil. e ninguém dá por isso. só eu, professor, que sinto falta que os meus alunos façam aquelas perguntas para as quais não tenho resposta...