20/01/2014

||| das largas coisas que pequenas parecem...


||| ... recentemente numa visita a serralves a exposição de cildo meireles reparei numa pequena instalação de um boneco de papel articulado por dois fios de pesca transparente que simbolizava um vendedor de alfinetes. alfinetes. o desejo do artista era ter mil bonecos daqueles que venderiam cada um mil alfinetes. um milhão. no total. era o desejo. alfinetes. um milhão de alfinetes. não ocupa muito espaço. mas é um milhão. e isto tudo porque uma pauta é um objecto cada vez mais perigoso. fazer subir resultados. é esta hoje a função desejada pelas escolas e pedida quase em modelo de regra obrigatória para se ser bom professor. subir, crescer, aumentar. nem que seja com força. sem forma. sem brilho. sem valor. mas aumentar o resultado. um ponto percentual. um ponto, dois pontos, numa pauta. no ranking final. disso depende qualquer coisa. deve ser dinheiro. reconhecimento não é. numa lista a escola pode subir um ponto. e andamos nisto. nos pontos. nos valores. na pressão constante de resultados. em grelhas. em folhas para colocar cruzes. em relatórios. em testes e testes e testes e testes e testes e testes e testes. e recordo uma lição recebida de estatística. num estudo recente cinquenta por cento dos doentes de uma ala de hospital psiquiátrico tinha tido alta devido a um medicamento inovador. foram ver quantos doentes estavam na ala do hospital devido ao imenso sucesso do medicamento. eram dois. um tinha melhorado efectivamente. o que me assusta enquanto professor é mesmo a construção do edifício do conhecimento baseado neste exercício de aprofundamento da dimensão numérica do saber. o saber a ser medido. aposto que se segue a cultura. ainda teremos no final de uma peça de teatro alguém com um medidor qualquer para aferir o grau de satisfação e apreensão cultural. e estamos a transformar a escola nisto. mais uma vez, deixamos. vamos com a corrente. afinal o que somos nós, professores, do que números numa pauta, também...