02/01/2014

||| de que lado está a janela que dá para o mundo...


||| ... um bom ano para todos/as. devia começar por lhes explicar o que é o calendário gregoriano. ou dizer que sou daqueles que pensa que o tempo não existe. talvez como santo agostinho. se ninguém me perguntar eu sei, porém, se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei. assusta-me muitas vezes este lado de mim que não desliga. o que quer ensinar. o de tentar ensinar. o de explicar que as coisas nem sempre foram assim. que o tempo já foi outro. já foi medido de outra forma. assim como tudo o resto. que por cá as casas não estão nomeadas mas as ruas sim e no oriente é ao contrário. que a pintura e a escultura nem sempre foram públicas. e assusta-me que cada vez mais nos esquecemos de ensinar. replicamos. reproduzimos. "damos matéria". "cumprimos programa". e este acto de explicar se perde cada vez mais. que cada vez mais ensinamos o presente. o que está aqui e agora. o que é assim. como se tivesse sempre sido assim. ou então o empreendedorismo como se isso fosse mudar o que aqui e agora já está obsoleto. ainda recentemente fui dar uma aula convidado para ensinar a ler imagens a alunos. peguei no símbolo da nike. a percepção que nada de novo existe é assustadora quando olhamos atempadamente para uma coisa. as asas da deusa grega, lógica de vitória. as mesmas das asas de asterix. e as mesmas asas prometidas por uma bebida energética ou símbolo de uma companhia aérea. e nós já perdemos esse tempo para ensinar que nada disso está desligado. porque o programa e a matéria não permitem tais devaneios. porque deixamos cada vez mais de pensar. tudo se revela novo e óbvio. e somos enganados. deixamos que nos enganem. vamos com a ideia que nos vendem. a nós que devíamos ensinar. a nós que sabemos a razão das coisas. a história das coisas. e geramos alunos de agora. para agora. para consumo. para o momento imediato. reproduzimos quando devíamos ensinar. e depois esperamos por uma [r]evolução. alguém tem que mudar isto. mas nós não. nós reproduzimos para eles reproduzirem. e esperamos deles aquilo que já não fazemos. que rompam com a lógica. que criem uma nova ordem. nós não. nós temos que cumprir. reproduzir. ensinar é um acto perdido no meio de tudo isto. estamos envolvidos nesse, neste, naquele sistema. no sistema educativo. somos mais matéria do que saber. e ensinar precisa de saber mais do que matéria. saber pensar. saber ver. saber. e agora que o tempo corre sempre igual, ensinemos isso aos nossos alunos. talvez só isso. que eles vivem hoje num tempo que nunca foi contado assim. houve um tempo em que era o céu que ditava as regras. o tempo contado pelo nascer e morrer do sol em cada dia. sem horas. sem reproduções de matéria em minutos contados por um tempo que não existe. e hoje, porque tenho tempo, apeteceu-me pensar nisto...