21/01/2014

||| do outro lado do muro fica a floresta...


||| ... às vezes pergunto-me que lugar tem o professor na escola neste tempo. que lugar tenho eu. e pergunto-me insistentemente. não acho que chegará o dia em que o professor não será preciso. pelo contrário. acho que ser professor é hoje e será no futuro uma das profissões mais necessárias. também não penso que o professor é hoje um agente ou funcionário que reproduz e produz alunos capazes apenas de cumprir as orientações do estado. mais do que nunca o professor é uma pessoa precisa no contexto social de um momento histórico único. e mais do que nunca o papel do professor passa por tudo menos por aquilo que esse mesmo estado pensa que deve ser o seu papel. vivemos num tempo de solidão. não daquela de estar só. da das ideias. da raiz das ideias. dessa solidão. quem cria, precisa hoje de trabalhar mais para sustentar cada casa. quem não trabalha dilacera os dias nesse lugar onde o medo existe e a procura de solução é uma necessidade constante. quem, por mérito ou herança recebeu um presente dourado vive muitas vezes num mundo desligado do real. numa reprodução social de um capitalismo desumano. temos de tudo dentro da escola. e temos de tudo no país. de escolas centrais onde a realidade social dignifica o conhecimento como ferramenta para o mercado a escolas escondidas no meio de uma aldeia, junto a uma igreja e perto do largo central onde as crianças não acedem a ofertas culturais tão ricas como outros mas vivem o espírito comunitário como já em muitas cidades não acontece. o que me prende na minha resposta à minha insistente pergunta é este tempo de solidão das ideias. das vidas não pensadas. e nunca como hoje a escola e o professor é para muitos alunos [ou devia/podia ser] um baluarte de esperança. qual é o maior problema de todos? é que não somos. tantas vezes somos também portadores dessa ausência de tempo, de conversa, de gestos, de segurança, de presença que os nossos alunos [que são pessoas em crescimento] apenas encontram, em quase tudo, ausência. e a minha resposta, insistente, é sempre essa. que eu seja professor e pessoa. que não seja em mim que eles encontram solidão. que os acolha em cada aula, em cada pedaço de tempo que tenho que construir para lhes dar. não serei eu, na escola que deve ser o lugar máximo da presença e pertença, a dar-lhes o que o mundo contemporâneo lhes nega e nos nega a todos nós. que eu, professor, seja em cada aula, em cada dia de trabalho, um porto seguro. um lugar de conhecimento onde beber o futuro. e com isso serem eles mais pessoas. mais ricos. mais alunos e mais amanhã sem solidão de ideias. e pergunto-me e respondo-me insistentemente sobre a razão de ainda ser professor. as ideias. juntas. fazem a escola. é sempre a minha resposta. as pessoas, juntas, fazem e farão sempre a escola. tudo o resto é ilusão...