03/01/2014

||| onde é que fica o fim do mundo...


||| ... passei estes dias com um pensamento na mente. vinha na forma de uma frase. o sebastião [nome que me apeteceu usar e não existe] não vai seguir isto. e pensei. tenho pensado. que me recordo aquelas frases ditas por alguns professores meus no tempo em que estava eu do lado de lá e eles do lado de cá. tu não vais ser ninguém na vida assim... e fui. pouco, mas fui. e até já tive professores meus como meus aprendizes em cursos que fui dando por ai. e apeteceu-me dizer que afinal, mesmo sem futuro, lá o consegui construir. bem ou mal, assim foi. e vejo que depois de todos estes anos ainda achamos que sabemos o futuro deles só porque são bons a matemática ou em história. o sebastião só pode ir para ciências. dará um bom médico. e no entanto o sebastião o que gosta é de teatro e de escrever. e vim a encontrar o sebastião anos mais tarde. era actor depois de ter tirado um curso de bioquímica com esforço e falta de dedicação que o levou a cumprir os mínimos. depois saiu do país. voltou com um curso profissional de teatro. e é actor. ganha menos. mas é actor. e eu nunca pensei que assim fosse. eu talvez tivesse essa esperança. mas nós, no conjunto da sapiência das reuniões dizíamos que ele só podia ser cientista. e foi. por breves momentos. esse é o privilégio de se ser professor e dos nossos antigos alunos virem contar quem são agora. e eu fechar por momentos os olhos e saber que afinal, naquela reunião há tantos anos, eu até pensei que ele podia ser o que é agora. ou o contrário. aconteceu-me um dia. um aluno que tinha todo o mundo pela frente. era um miúdo cheio de arte em si. hoje trabalha como técnico num metro de uma grande cidade europeia depois de muito se ter perdido em tentativas frustradas de procurar sempre o impossível. e nós, no alto da nossa sabedoria ainda pensamos que podemos adivinhar o futuro. e não é um futuro qualquer. é o deles. e perdemos o melhor que lhes podemos dar. a mão. as mãos. dizer que somos professores por um ano, um período de tempo, mas estaremos sempre ali, naquele local que é a escola, sempre que precisarem. venham a ser cientistas, actores ou técnicos. que não é nosso dever adivinhar o seu futuro. é nosso dever estar lá, para o que for preciso, para ensinar ou simplesmente para trocar umas ideias. e isso faz de um professor um ser humano aberto ao futuro. não vidente. mas porto de abrigo para a incerteza da vida que um dia cruzaram com outro ser humano. nada há de mais simples. nada há de mais perfeito neste desafio de ser professor.