06/01/2014

||| quanto tempo somos alguém...


||| ... no retomar dos dias de aulas penso sempre em quanto tempo serei professor para os meus alunos. do facto de não haver uma cultura do professor enquanto figura tutorial. o professor dá aulas. ponto. final. não há espaço para receber os alunos. para conversar sobre as ideias que vão tento para o seu futuro ou para um futuro trabalho, projecto ou estudo. o tempo do professor hoje é roubado para reuniões, papeis e coisas que tais. esse tempo, esse espaço é roubado para a clausura da sala de professores onde os alunos não podem aceder. quando, a medo, pedem para falar com um professor é algo feito à porta ou num corredor. lembro-me que nos intervalos sempre ocupei o espaço público da escola. ou a biblioteca. os alunos podiam sempre encontrar-me lá. sempre num espaço público porque a minha reserva de tempo de trabalho era mesmo tempo de trabalho. e essa era uma função que não descartava. o de estar ali. ó professor, está aqui? sim, estou. e o que está aqui a fazer? ver testes? não. estou só a estar. por acaso, estou a ler. mas agora estou a conversar contigo. e em cinco, dez, ou quinze minutos lá vinham uns ou outros. ao fim de algum tempo sabiam sempre onde me encontrar. às vezes na véspera de um teste. outras depois do teste para saber notas. ou sentado no sofá da entrada onde me perguntavam: o que vamos fazer hoje? e dessa pergunta nasciam conversas. sobre os dias, os projectos, o presente e o futuro. o professor não é só uma pessoa. é e devia ser um lugar onde se volta. mesmo depois de deixar a escola. tenho pena de não poder voltar a falar com alguns dos meus antigos professores e perguntar-lhes coisas que me podiam, hoje, ajudar muito. essa cultura do professor como lugar de referência está longe de ser uma realidade. e tenho pena nisso. ao menos, enquanto estou pela escola os meus alunos sabem que sou um lugar onde podem sempre voltar para conversar...