16/01/2014

||| sou fruto de uma má educação...


||| ... o título do filme de almodôvar persegue-me. má educação. e recentemente vi uns filmes de qualidade muito duvidosa. americanos até mais não. num uma rapariga fica feliz [e o pai orgulhoso] porque depois de este ter salvo o mundo e ela ter gravado tudo com o telemóvel da sony tendo obtido setecentos milhões de visualizações no youtube. orgulho do pai. felicidade da filha. modelo social explicado em dois segundos de filme. e volto à má educação. como referência. porque me lembrei de outro filme. o substituto. desse retirei muito mais. faz um retrato de uma parte social e educativa nos tempos que correm. a parte nunca é o todo, mas é a parte que é um todo em si mesma. e vi aquilo que temo que em parte já existe em muitas salas de aula. não todas. só em parte. e que se alastre. lentamente. mas gostei do recado humano. da mensagem. eu tive uma má educação. esta é que é boa. no meu tempo havia furos entre aulas quando o professor faltava. dava tempo para saltar as grades e ir passear. fugir da escola era um exercício nobre. como era voltar a tempo da aula seguinte. e tive a sorte de ter tido uma professora que deu três aulas. sim, três. foi expulsa da escola depois. três aulas e recordo-as como quase nenhumas outras. havia nas suas regras de não haver regras algo de imensamente belo. uma aula foi dada com a turma deitada no chão da sala. outra na rua. outra em frente a um quadro de pollock e uma foto de marilyn monroe semi-nua. e não voltou. a professora. ainda me lembro que usava um daqueles casacos pretos de cabedal com fechos a lembrar os rebeldes sem causa. uma má educação, portanto. terá sido por isso que pollock se tornou para mim uma referência do experimentar com sentido. não sei. sei que foi uma má educação comparada com a que hoje é dada aos alunos. aos meus e aos nossos alunos. e isso assusta-me. o sistema produziu-me. o mesmo sistema que agora diz que ter tempo livre na escola é mau. que fazer visitas de estudo é um luxo. que ter uma bolsa de mérito é desperdício financeiro. que a educação artística é um complemento a descontinuar. má educação, a minha. erros meus, má fortuna, então. talvez seja por isso que tudo tenha agora a lógica que tem. e talvez seja por isso que eu, agora professor, não sei e não tenho forças para fazer a revolução que era precisa. má educação, portanto...