08/01/2014

||| todos laboram em trabalhos úteis...


||| ... assusta-me sempre que tenho que pedir aos meus alunos para escrever. faço-o com alguma regularidade. folha branca e caneta. sem tema, assunto ou ponto de partida. escrevam. depois das invariáveis perguntas: sobre o quê? uma página inteira? a folha toda? letra grande? posso escrever sobre isto ou aquilo? depois disso, surge o verdadeiro desafio. escrever. qualquer coisa. com princípio, meio e fim. e o que parece um desafio de dificuldade reduzida transforma-se num desafio complexo. é hoje, para os nossos alunos, difícil escrever mais do que cento e quarenta caracteres. e isto não está relacionado com as tecnologias. está relacionado com as ideias. se o tema pedido for, simplesmente, descrevam uma ideia vossa, então é o caos. se as primeiras frases ainda podem sair, desenvolver o pensamento transforma-se num trabalho de hércules. é que o desenvolvimento de um texto, da construção de uma argumentação exige uma articulação baseada no tempo e na forma como podemos passar para o papel [esse monstro imenso e branco] aquilo que queremos dizer. a ideia até pode existir. a expressão e explicação da mesma é que se resume sempre a uma frase. a uma definição simples. a não ter desenvolvimento possível porque se explica em si mesma. e tenho pensado nisso sempre que faço este desafio simples com os meus alunos. repito que o faço regularmente. folha branca. escrevam. penso muito no facto de, em parte, a nossa "descomplicação" e "descodificação" de tudo, das perguntas aos problemas, leva cada vez mais aos alunos dependerem mais dessa explicação com que contam já do que da sua própria capacidade de reflexão sobre um problema. quantas vezes não ouvi: mas é para fazer o quê aqui? nunca respondo. está lá escrito. o esforço de perceber é também um processo de aprendizagem. só no caso de a complexidade do desafio não estar clara tendo a ajudar. mas no desafio difícil de uma folha em branco e uma caneta com a instrução: escrevam [uma ideia ou qualquer outra coisa] nada há a explicar. a não ser o próprio pensamento. mas isso não está na instrução. está em cada um deles, alunos em construção.