05/02/2014

||| ó professor o que é ser virgem...


||| ... quando eu era estudante achava que as pessoas [os meus professores principalmente] e os livros tinham todo o conhecimento. agora os meus alunos acham que está tudo no google. perguntam insistentemente quando lhes digo qualquer coisa: como é o professor sabe isso? durante um tempo respondi que li num livro qualquer. ainda o faço levando para a sala de aula vários livros. mas de tempos a tempos respondo: li na net. a expressão é de conforto: ah... então está bem. se não está no google não existe como diria uma amiga em conversa de comboio entre risos. mas o professor lida hoje com uma gestão do conhecimento muito para além do óbvio. as perguntas que ganham forma são mais complexas. são humanas. do ser humano. da vida. lembro-me que no meu primeiro ano de trabalho como professor, era eu um jovem cheio de dúvidas [agora sou adulto com mais ainda] uma aluna no meio de uma aula de história em que eu falava das vestais me perguntou o que era ser virgem. durante uns segundos fiquei naquele limbo que antecede o pânico. não sei onde fui buscar a resposta mas lá expliquei. sem reservas mentais. tomando o caso dos oráculos gregos e romanos e fazendo o paralelo com outras histórias. e a realidade. e hoje os meus alunos fazem-me perguntas assim. não destas mas outras. recordo com frequência um pedido de uma aluna recente. queria visitar uma prisão. desconhecia o lado marginal da sociedade e isso levantava nela uma curiosidade que era dúvida. perguntou-me se já tinha visitado alguma. falei-lhe de tudo abertamente. de que até tinha ido dar uma aula a uma prisão em leiria há uns anos. que eram pessoas. que um dia tinham cometido um crime. ou simplesmente errado nas companhias. e ela reparou que lhe falei sem as reservas ou as máscaras que usamos para tornar as coisas no que não são. o efeito disney que as histórias dos irmãos grimm sofreram. é o que fazemos ao real. muitas vezes. mas um professor nunca pode deixar de responder. a razão? é que se não responder os alunos vão ao google e o google não vê pessoas. vê códigos de informação. e mostra tudo. com a brutalidade das máquinas e sem a reserva da inteligência e sensibilidade necessária que nos torna seres humanos. tudo isto é tão simples.