31/03/2014

||| não vou estar por aqui, mas estarei...

 
||| ... esta semana é [im]possível. por estar dedicado exclusivamente a uma utopia não estarei por aqui. estarei aqui de passagem, entre passagem e onde começa o escuro da cortina do palco pois sempre fui e serei alguém que gosta muito mais dos bastidores. talvez nos encontremos um dia numa utopia qualquer. para a semana, cá estarei com mais coisas [im]perfeitas...

28/03/2014

||| do telefone que não fala...

 

||| ... esta foi uma conversa de cinco minutos. ó professor que marca é o seu telemóvel? olha, nem sei. só uso para falar e pouco mais. para quê? para falar. ah... 'tá bem. não usa a net? uso. no computador. ya, professor mas no telemóvel também dá. o pá! até ai eu sei. e uso. ah... 'tava a ver que era só para falar. já ninguém fala ao telemóvel. não? não. há uma cena que é o whatsapp. ok. isso também sei. tipo, as sms já não se usa. não? não. falar também não. ok. então não seria bom mudar o nome do telemóvel para outra coisa. ya, professor: smartphone. pois... está certo. quer dizer que para falar agora não se fala, escreve-se. e não pelas sms. ok. percebi. então o telemóvel serve para quê? para falar. ai... não estou a perceber. falar mas sem falar. é tipo escrever e dizer as coisas. então não seria melhor falar. não, isso dá muito trabalho. falar? ya. ok. está tudo dito...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...

 

||| do impossível se fez algo...

 
||| ... apetece dizer só isto no quase final de mais um período lectivo. do impossível se fez algo. e a palavra que se ouviu mais foi: sobrevivi. o cansaço é maior do que alguma vez foi. somos pessoas. todos nós, na escola. somos pessoas. e por o sermos é que ainda não desistimos. estamos perto. acho que é mesmo só pelos miúdos que não desistimos. tudo o resto é inútil, impossível, destruidor. falta já a vontade. apetece mandar tudo à fava e não cumprir mais uma ordem inútil que chega em forma de grelha de excel. excrever: deixem-me ensinar. hoje só apetece dizer isto. nada mais.

 

27/03/2014

||| uma nota só...

 
||| ... ó professor que nota é que me vai dar? o josé tem destas perguntas. miúdo preocupado, ainda. eu não te vou dar nota nenhuma. não dou nada. ó professor, fogo, diga lá. olha, fazemos uma coisa. vais pensar em como deves fazer essa pergunta e eu digo-te. os colegas dele olharam para mim com aquele ar de que eu era aquele feiticeiro que na encruzilhada pergunta um enigma complexo para indicar um caminho a seguir. para dizer a verdade só me falta o chapéu. há nos alunos um conceito que o seu trabalho não tem um valor em si mesmo. que é o professor, por algum capricho, sapiência infinita ou coisa parecida que determina [e ainda por cima numa grelha qualquer de que ouvem falar] que define o valor do seu trabalho sem que eles próprios o consigam definir. pode parecer estranho mas esta omnipotência da avaliação feita pelo professor sempre foi coisa que achei estranha. há uma coisa sagrada. o professor avalia, sim. e a sua decisão deve ser válida sem justificação. sempre combati e nunca concordei com a não soberania do professor nesta matéria. nos chamados conselhos de turma muitas vezes oiço: ó colega, mas tem que justificar a nota. justificar uma nota é como dizer a um médico que tem que justificar todas as escolhas de um procedimento ou intervenção. não faz sentido. há uma soberania na decisão que é imensamente relevante para a valorização do papel do professor junto dos seus alunos. tanto como o desafio de colocar nas mãos dos alunos a determinação do valor do seu trabalho. ó professor, acho que me vai dar um quatro. é assim que devo perguntar? não, josé. isso é esperteza argumentativa. eu explico. deves perguntar assim: ó professor, eu estudei, apresentei os trabalhos, fiz isto e aquilo, aprendi isto e aquilo. acha que isso merece um quatro como eu penso que mereço? precisamos tanto do valor do mérito na escola. e não é colocar no professor o direito de conceder nada. é colocar no aluno o papel reflexivo do valor do seu trabalho. fogo professor, isso é complicado. pois é. e lá foi ele sem saber a nota. talvez volte com a pergunta certa numa próxima aula...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| desta gaiola onde se passa tudo...

 
||| ... gosto muito da ideia de "fecharem a internet" em determinadas horas na escola. gosto mesmo. tudo por causa das redes sociais. ora bem. acho bem. proponho mais. que isolem a escola com uma torre de bloqueio de sinal de telemóvel. pronto. mais uma ideia. outra ideia simples. limitem o acesso à biblioteca da escola e fixem o horário das nove às dez da manhã para aceder a livros. não todos. só alguns. os verdadeiramente úteis. ah... outra ideia. os funcionários da escola devem impedir ajuntamentos de mais de dois alunos nos corredores. e pronto. é isto. ah... bem, já agora, alterem as cercas que vedam a escola e em vez daquelas barras coloquem mesmo tapumes. pronto. é mesmo só isto que tenho como sugestão para melhorar a ideia de "fechar a internet" em determinadas horas na escola. não sou um adepto por aí além da coisa e mais do que isso acho um elemento perverso que deturpa as mentes dos alunos. é um instrumento estranho esse de partilhar coisas ou consultar coisas no espaço escolar. mais do que isso, é um gasto. um desperdício. acho mesmo que deviam voltar as fotocópias. isso sim! a reprografia ser o centro de tudo. o professor [vou mais longe - o ministério] enviava os textos, artigos, trabalhos, etc que quer que os alunos vejam, consultem e leiam e tudo a tirar fotocópias. para mim que sou de história é um sonho tornado realidade. assim, sim. temos uma escola de futuro. sem ironia nenhuma. acho mesmo que deve ser assim. acho que deve ser assim num país onde não há liberdade. e onde não se ensina. onde se manda. deve ser assim num país onde a tecnologia é vista como um bem que o estado controla. e tudo isto tem uma razão. um ministério que em tudo se mete e que não deixa tempo para a escola ensinar a usar o que hoje são ferramentas úteis e necessárias [em muitos casos essenciais] para cada aprendizagem. sintomas de tempos estranhos. mais do que uma medida de contenção como querem dizer é um espaço de reconhecimento do falhanço que tem sido a política educativa para o ensino da cidadania digital. isto tudo porque tirar é sempre mais fácil do que ensinar a usar...

26/03/2014

||| dezanove em cada cem...

 
||| ... acho que foi ontem que escrevi aqui que a adolescência é um luxo moderno. hoje, ao passar os olhos por esta notícia e limpando os clichés que querem sempre que sejam lidos reparei numa coisa [e cito]: "os jovens andam também preocupados [...] com o facto de não terem amigos (dezanove %)." parei um pouco para pensar. relembrei o rosto de cada um dos meus alunos. e pensei no que oiço e vejo quando falam comigo. fazer as contas é fácil. em cem alunos, dezanove pensam nisto. mas quero mesmo ler este estudo. e parar um pouco neste ponto. sempre houve a questão da popularidade e coisas que tais. houve a haverá pois há esse luxo de ser adolescente e poder pensar nisso. agora o conceito apresentado é diferente. é o medo de não ter amigos. e regressei ao pensamento destes tempos de isolamento. miúdos que vão de um lado para o outro. levados. dentro de um carro ou num transporte. a escola é o local onde passam mais tempo. findo esse tempo passam a circular novamente. chega o fim de tarde e a noite. estar na rua é coisa impossível. vão de um lado para o outro. de casa para casa. de local para local onde o cerco da sua presença é controlada. pelos outros ou pelos educadores. e sinto-me um privilegiado. no meu tempo já havia essa coisa da adolescência mas estava a começar. por isso ainda andei na rua. e estive com os meus amigos sem nada para fazer. sem precisar de me iludir para gostar da realidade. de um bom fim de tarde sem nada para fazer. ou simplesmente numa brincadeira qualquer. na altura típica de uma adolescência que começava a dar os primeiros passos. hoje estes miúdos são sequestrados. raptados desse lugar de partilha. e o medo de não ter amigos penso que passará muito pelo medo de estar só. ou da insignificância, como diz carlo strenger no livro the fear of insignificance [obrigatório ler]. e regresso ao simples gesto de olhar para uma turma minha. dos trinta, sete ou oito, pensam nisto. os outros podem não dizer, mas pensar. e apetecia-me mesmo saber mais sobre isto. corremos sempre o risco de só olhar para as grandes percentagens destes estudos e esquecer estas pequenas. muitas vezes muito mais significativas. que medo é este? o da desumanização? o do isolamento? o da popularidade? basta olhar para eles. como faço. e como recordo agora. penso que será o medo da solidão. coisa que nenhum de nós lhes ensinou. não a solidão crua mas o de estar só. eles nunca estão sós. não sabem o que isso é. ou talvez estejam muito mais sós do que nós pensamos. e vale mesmo a pena, pensar a sério, nisto. por eles e por nós que os ensinamos e educamos.
 

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| sábio conselho para loucas palavras...

 
||| ... posso perguntar uma coisa? já reparou que utilizou dezassete vezes no seu discurso a palavra obediência. então farei uma pequena explicação que é uma pergunta. sabe que obedecer vem do conceito "saber escutar". mas fala de obedecer, como forma de trabalhar a indisciplina, como cumprir. deve ser lapso meu que não percebi o seu discurso. primeiro porque obedecer não é sinónimo de disciplina. é sinónimo de cumprimento. e porque o uso que quer dar a uma palavra que parece não conhecer deforma toda a linha do seu pensamento. obedecer é estar preparado para ouvir. escutar com atenção. não é estar quieto. nem cumprir o que lhe mandam. isso é outra coisa. e mesmo assim não estamos a falar de disciplina. estamos a falar de outra coisa. por isso pergunto, depois de a ouvir durante quase uma hora a sagrar a obediência se não queria dizer submissão ou subordinação. é que todo o seu discurso vai neste sentido. são coisas diferentes. muito diferentes. a senhora doutora agitou-se na cadeira. pensou dois muitos e disse: o que importa é que cumpram o que o professor manda. o resto é semântica. estava respondido: submissão. e isto, nestes encontros sobre educação é um perigo. não só pela linha de rumo deste pensamento que está a renascer como a forma como se ilude uma plateia com palavras erradas para sentidos errados. o pior? é que havia uma plateia de professores a tirar notas. e volto ao importante. saber escutar. fechei a porta ao sair e esqueci o que ouvi. não sou daqueles professores fáceis de doutrinar. nem de submeter.

25/03/2014

||| das cinzas ou das coisas que ninguém se lembra...

 
||| ... antigamente falava-se na política da terra queimada. hoje estamos todos tão encaixados [de caixas] que a terra e as coisas da terra só se revelam quando aparece um grão escuro numa alface comprada num qualquer hipermercado num qualquer dia da semana. talvez que ainda saiba o que quer dizer a expressão possa perceber o que se está a passar na escola, hoje. a rita é uma miúda gira. daquelas curiosas. que até anda com um livro debaixo do braço, de vez em quando, às escondidas dos colegas porque não é cool ler. cool é segurar as paredes com as costas, como lhes digo tantas vezes. e no final de uma aula lá vinha ela falar das coisas lidas. recomendei-lhe o senhor dos anéis. o filme professor? não. o livro. tenho uma edição complementada com as linguagens que o autor criou para cada tipo de personagem. e no final da aula lá o meteu na mochila às escondidas para ler em segredo. porque não é cool saber. ler. e finalmente fui eu que ganhei coragem e perguntei: ó rita, mas porque raio é que não é cool ler, saber, pensar e talvez arriscar perguntar coisas novas? ó professor, é que depois o pessoal não percebe e acha que me estou a armar. tive para lhe explicar de onde vem a expressão: estar a armar. talvez não fosse má ideia para não a usarem tanto pois é coisa que não fica bem a gente cool. ou seja, se leres e falares do que lês os teus colegas não acompanham. ya professor. é isso. e depois acham que sou "outsider". "outsider é bom. estas coisas de falar da língua dos outros melhor do que a nossa faria eça e herculano dar voltas no túmulo, pensei. mas percebi este problema existencial da rita. é que ela saber e os outros não torna tudo mais difícil. a integração. porque a adolescência é um privilégio desta geração. sim, há uns anos atrás não havia essa coisa da adolescência. a sério professor? sim. talvez estivessem por lá os problemas existenciais mas a adolescência é um luxo recente. fogo professor, devia ser fixe. porquê rita? porque assim podia ler e já era adulta... e soltei aquela gargalhada que a inteligência permite. ler. cool e uma conversa sem pés nem cabeça lá me fez perceber um pouco mais a política da terra queimada em que estamos...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| os peixes já não sabem falar...

 
||| ... hoje pensei numa frase dita por uma aluna. não percebo as palavras. foi uma coisa inocente no meio de uma conversa sobre qualquer coisa importante. e fiquei a pensar. ao vir a conduzir depois de mais um dia de trabalho fiquei mesmo a pensar nisto. sou professor. a minha alma está na palavra. sem ela nada faz sentido. e mais do que isso. sou um carpinteiro das palavras. trabalho com elas nas minhas aulas para criar as fundações onde assenta o conhecimento. e acredito mesmo no poder da palavra. o pior... o pior é que do outro lado não é assim. deles. neles. nos meus alunos. e faço uma retrospectiva mental. desapareceu a palavra de honra. desbaratámos as palavras e os seus significados ao ponto de ter agora nascido a moda de criar novas palavras para velhos sentidos. é tudo vintage ou é tudo um inconseguimento. ou coisas que tais. o representante desta república em cinzas fala da palavra como poder. e no entanto, na sala de aula, onde devia a palavra ser o centro, o princípio e o fim do sustentáculo do saber, esta está em declínio profundo. é que a palavra, na sala de aula, não deve ser um instrumento de poder. assim o foi usada nos últimos tempos. sem autoridade e como forma de poder. de uns para os outros. a força da palavra é outra. está na compreensão. não é na visão romântica da coisa. é na prática. dar valor à palavra neste momento é tornar compreensível cada uma delas em função do seu significado. a perda de vocabulário é hoje o pior e maior limite na escola e nos alunos. não saber como explicar o mundo. as coisas, dar o nome das coisas. e sem isso, não há força, poder ou elegia da palavra que a torne motor e centro da aprendizagem como deve ser. sou, por isso um carpinteiro sem madeiras para trabalhar. e o primeiro passo é transformar-me em madeireiro. ir para a floresta desconhecida das coisas sem nome e nomear cada uma delas. levar os meus alunos comigo. dizer: isto tem este nome. não é tipo, nem coiso, nem ya, nem assim. dar-lhes palavras para guardarem. um passo de cada vez. uma coisa de cada vez. para que possam, simplesmente, explicar e dar nomes ao mundo. nem que seja só ao seu.

24/03/2014

||| uma aula para falar de ética e estética...

 
||| ... pedagogia: esta é uma aula de quarenta e cinco minutos que é uma experiência imersiva que levará os alunos a reflectir sobre a construção de uma dialética entre estética e ética na evolução da linha clássica para a perspectiva medieval e posteriormente para uma linha moderna.
 
||| ... metodologia: esta aula é enquadrada num conjunto de três aulas, sendo a primeira que antecede esta uma aula teórica sobre os conceitos de ética e estética para os pensadores gregos clássicos e para a linha de pensamento dos pensadores medievais. será depois complementada por uma aula de reflexão e síntese teórica sobre a experiência vivida neste contexto. para a preparação da aula o professor deve escurecer totalmente a sala e precisa de um conjunto de trinta velas [uma por aluno] e uma vela para si. deve dispor a sala em U e retirar as cadeiras. nas paredes deve ter colocado uma folha de cartolina preta e a cada aluno deve ser dado um pau de giz branco. os alunos entram para a aula tendo apenas acesa, no centro da sala [ou na secretária do professor] uma vela. o professor fará uma introdução de dez minutos relembrando os conceitos de ética e estética. este tempo permite ao todos uma adaptação à luz [ou ausência dela]. terminada esta introdução o professor pede a um aluno para acender a sua vela indo buscar a chama à sua e que a coloque na mesa à sua frente. por questões de segurança devem os alunos usar copos de vidro de iogurte como suporte. quanto todos tiverem as velas acesas vão reparar que as suas sombras se projectam na cartolina preta nas suas costas. devem virar-te para as cartolinas deixando as velas acesas nas suas costas em cima da mesa. devem, a pedido do professor, desenhar a silhueta da sua sombra na cartolina contornando a sua cabeça e parte do seu tronco. a imagem torna-se similar ao mito da caverna de platão que pode ser explicado pelo professor enquanto os alunos realizam esta tarefa. finalizada a silhueta o professor pede aos alunos para traçarem uma linha que divida o seu rosto em duas partes. uma será a representação da estética e outra da ética. devem analisar os resultados numa lógica de que o rosto e formas do rosto são muitas vezes associadas à noção estética e as formas restantes à noção ética. pode o professor ainda provocar e perguntar a que poderiam os homens e mulheres da idade média associar ao espaço negro fora da forma humana falando os movimentos religiosos, do desconhecido, do mito e da relação com o divino.
 
||| ... esta aula tem como tema: a apropriação da noção de estética e ética de uma forma provocatória para a discussão e debate. é uma aula de nível complexo mas ao mesmo tempo que permite um debate alargado sobre a dimensão humana e divina, assim como, a racionalidade como elemento comum na organização mental das sociedade clássicas e medievais. poderá ainda associar-se a ideia de idade média ao período "negro" da história ou desconstruir esse mesmo elemento por via das relações entre o sagrado e o profano tão presentes no imaginário medieval e moderno.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| no meio de tanto barulho, um som...

 
||| ... sou defensor que a experiência de aprender deve ser tão rica e interessante como o conhecimento adquirido o é, por inerência. isto é, numa balança, a forma como ensino tem que ser tão relevante e determinante como o conhecimento em si. é um equilíbrio difícil de conseguir. tendemos a cair num ou no outro lado "da barricada".  ou a ignorar o processo em si. isto tudo porque dei por mim a ler sobre teorias de aprendizagem. a certa altura tendemos a procurar formas pensadas de organizar o pensamento para que o nosso faça, nesse sentido, algum sentido. fiquei pior. ainda parei num texto sobre o eduquês. e num outro, sobre o seu oposto. dei por mim a pensar se alguma vez algum daqueles teóricos terá tido alunos como os meus, hoje. e lembrei-me do professor antónio nóvoa que conta sempre uma história. que um dia alguém disse a outro alguém que discursava sobre educação que tinha vinte anos de serviço e que saiba muito mais sobre educação do que quem estava a discursar. e quem ditava as suas sábias palavras perguntou: tem vinte anos de experiência ou tem um ano de experiência que repetiu vinte vezes? e vejo com atenção que o que digo não faz muito sentido no contexto de um processo de investigação. não sou por um ou pelos outros. não tenho e acho que nunca terei uma teoria de eleição. nem acho que nenhuma delas é completa. acho que a soma de todas faz algum sentido. não todo. porque da teoria à prática vai sempre uma imensidão de coisas que tudo alteram. vou, como muitos fazemos, jogando com o que faz mais sentido. o que, em oportunidade, coerência e adequação se revela mais importante e funcional. a verdade é que acho que falta, a muitos professores, fazerem esse exercício. eu digo muitas vezes na brincadeira [e falando muito a sério] que é preciso que cada professor faça a sua sopa juliana de teorias. que as conheça. que as pense e repense. que as deguste. que depois recrie. mas para ensinar é preciso não tomar partido. ou seremos sempre só metade, um terço ou um pedaço do que podemos ser. o caminho único é uma coisa do passado. assim como o lado de uma barricada. num mundo e numa sala de aula cada vez mais imensa na sua dimensão e integração os pensamentos únicos são meio caminho andado para a perdição. talvez um dia tomaremos consciência disto. e todos aqueles que agora são seres cheios das certezas que a teoria lhes dá poderão ver o admirável mundo novo que é a visão daqueles que procuram uma multiplicidade de linhas e perspectivas para a uma realidade que só se pode assemelhar a um caleidoscópio.

21/03/2014

||| eles são os melhores do mundo...

 
||| ... porque hoje se celebra a poesia.
 
eles, aprendizes
são gente
feita de sonho
e há luz
e gritos
e palavras
 
e há gente de costas
a correr
no espaço aberto
da imaginação.
 
eles, exploradores
são força
e luta
cansaço
e sorriso
e silêncio
e lágrimas
e nada mais.
 
e há palavras por dizer
todos os dias
num tempo
marcado
por horas
que não deixam
de passar.
 
e eles, são pessoas
como eu
ecos do futuro
por escrever.
 
eles.
que são só
todo o mundo
num só abraço
em cada
encontro.
 


professor [im]perfeito
para os meus alunos
sejam eles, quem forem

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| a única saída, o único caminho...

 
||| ... tenho defendido e penso muito nesta ideia que chegará o dia em que os professores serão chamados a salvar o que restará da escola. é evidente que um sistema não aguenta tantos experimentalismos. desde que sou professor já uma dezena ou mais de ministros "reformaram" o sistema. pior, "reformaram" os currículos. tiraram áreas, colocaram disciplinas, tiraram disciplinas, colocaram áreas. redesenharam objectivos para metas, competências para sei lá o quê... por muito que eu lute para que isso não afecte o que se passa na minha sala de aula a verdade é que as sombras e os ecos vão lá parar. entram pela porta sem a minha autorização. desfazem o que levei, às vezes, anos a conquistar com aqueles miúdos. o gosto por aprender. o aprender para saber e não para responder automaticamente. e penso. eu sou um fruto deste sistema que me gerou. aprendi duas coisas com a escola: que há sempre uma resposta única e correcta e que seguindo uma linha vamos ter a um destino. aprendi isto que desaprendi rapidamente. tive a sorte de ter excelentes professores que desconstruíram isso. e agora que está na moda os dias disto e daquilo e ontem [ou hoje, que isto está sempre tudo a mudar] falaram de dia da felicidade. se pensarmos bem, também ela é uma palavra solitária. como se fosse só um caminho. uma resposta certa. uma ideia e um roteiro único. infelizmente, felizmente, não é assim. aprendi com esses meus professores o que tento ensinar aos meus alunos. que a ciência tem cem anos. que ainda não sabemos nada. que temos mais dúvidas do que certezas. que quanto mais a ciência for social ou humana mais hipóteses em aberto existem. assim como nas outras que se dizem exactas. que não há uma resposta certa. certo é o caminho para novas respostas que lhes cabe descobrir. e tenho defendido que um dia os professores vão ser chamados a salvar a escola. que assim seja. mas que pensem em novos modelos, formas e organizações. que não seja uma resposta certa mas a certeza de um caminho que será preciso fazer. e já começa a ser urgente esse chamar dos que sabem. é preciso edificar a escola, novamente. disso já não tenho dúvida nenhuma. e se o poder político surdo e cego continua a caminhar no sentido de entrar pela minha porta da sala de aula farei o favor aos meus alunos de a fechar. ou isso, ou sair eu, com eles, pela janela. que isso não seja exemplo. nem resposta única. mas que ficarão à porta as ideias estúpidas de um poder estúpido, ficarão. não entram. não entram mais. já chega.

20/03/2014

||| mui nobre e sábio conhecimento...

 
||| ... entre a sala de aula e a sala de professores/biblioteca há um corredor. ao passar no corredor oiço os alunos a conversar. vejo beijos. risos. empurrões. vejo miúdos sentados de auscultadores nos ouvidos. na primeira aula digo sempre que só tenho uma regra: respeito. eles por mim, eu por eles. mas de que se reveste este respeito. não do cumprimento cego de regras, normas ou comportamentos. isso fica para outro tipo de professores que não eu. o respeito reveste-se da forma e da atitude do comportamento. vi alunos respeitarem regras com a maior falta de respeito que podia imaginar. e outros que as quebraram respeitando imensamente a minha relação pedagógica com eles. por isso é mesmo a forma e a atitude. isso diz-me muito. sinceramente. porque sou um professor. e não renego as duas vertentes da minha profissão. ensino e educo. sim. não sou daqueles que acha que há umas separação nestas duas coisas. há limites para ambas. a moral, a ética, a estética, a etiqueta, a determinação, a informação cívica não me cabe. cabe aos educadores. mas a mim, como professor, cabe parar no corredor e se vir alunos em comportamentos desadequados, dizer. falar com eles. explicar. educar. porque ninguém nasce ensinado. e a escola é um espaço onde as coisas que acontecem se regem por uma regra de identidade de escola. se ninguém lhes disser nada será consentido. e não é. o respeito é também o respeito pelo meu foro de intimidade e de exposição. tive esse exemplo dos meus professores. quando o professor passava parávamos, muitas vezes, de fazer algo que era uma brincadeira entre nós por respeito ao professor. hoje isso raramente acontece. uma das razões é simples. a nossa indiferença tornou-se tolerância ao intolerável. o cansaço, nisto, ajuda. já nem queremos saber. "que se matem". mas não. é mesmo por ai que tudo começa. à minha frente não. nem nas costas, por inerência. mas é preciso dizer. fazer sentir que não está bem. que não é adequado. o silêncio. o olhar para o lado, não funciona. não é "educar os filhos dos outros". é determinar e fazer por construir uma identidade de comportamentos na escola. na escola que queremos ter. dá trabalho? dá. cinco minutos a menos num intervalo. ouvir duas ou três vezes quando viramos costas que somos isto e aquilo, exigentes e mais umas coisas. mas com o hábito vem a certeza do certo e do errado. do que são os limites e da compreensão do comportamento em comunidade. são coisas simples que deixámos de fazer. e com isso, com o "quem cala, consente", inundaram-se os corredores e as salas daquilo que não cabe na escola. o desrespeito. a minha regra é de ouro. os meus alunos sabem. sentem. vão vendo em cada atitude. por vezes, em confronto. mas é uma conquista necessária na escola, na sala de aula, que eu quero para mim e para eles. respeito. só assim posso ter o espaço mental, a certeza simples, que posso ensinar.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| privatize-se a escola, toda...

 
||| ... a nasa encomendou um estudo a uns investigadores matemáticos e estes perceberam que a civilização, tal como a conhecemos, está a chegar ao fim. nada de estranho aqui. carlos fiolhais, homem e pensador que tive já o prazer de acompanhar em conversas e reflexões, declarou num artigo ao público o colapso da escola. e a culpa é de maria filomena mónica. não do fim da civilização mas do colapso identificado no artigo de fiolhais. gosto muito da forma bruta como filomena mónica sempre escreveu e tocou nos assuntos. tal como francisco louçã. isto para explicar que não é pelo quadrante político que leio as suas reflexões. é como cidadão. sinceramente há coisas no pensamento de filomena mónica com o qual me identifico enquanto provocador. este seu último devaneio de criar um diário deu nisto. de colocar a nú uma parte do que se passa na escola. estando dentro do sistema tenho a completa noção que se trata de uma parte. mas as partes fazem o todo. e gosto imenso desta brutalidade que está a ser feita das palavras recolhidas deste trabalho. é um colocar em público uma coisa privada. é como tirar uma fotografia de uma cena de viagem e dizer que a viagem toda se resume a, apenas, aquela fotografia ou conjunto de fotografias. mas não deixa de ser um registo. é interessante por isso. é um exercício importante por isso. coloca em discussão. sou e serei um professor que defende que a escola, sendo pública, é um espaço privado. de relações próximas, de esferas de registos pessoais e únicos. é quase como quando passo num corredor e vejo dois alunos a namorar enquanto passo. paro sempre. não para dar  um sermão mas para explicar o que é a privacidade ou intimidade que não é um exercício público. é por isso que defendo que se deve privatizar a escola. tornar privado. eu sei, temos pouco tempo desta noção. do que é privado e público. é coisa moderna, com cerca de cem anos. o pior é que professores e alunos deixaram de ter a educação como uma reserva de intimidade e tornaram este lugar de divisão entre educar e ensinar como se tal fosse possível. maria filomena mónica não faz mais do que levar esta linha para além do limite colocando em público o que devia ser privado. e com isso revela aquilo que todos dizemos em surdina. o fim do modelo civilizacional está perto e a escola é um espelho isso. a escolaridade obrigatória aumentada até aos doze anos sem qualquer preparação da escola, dos professores e do contexto; a ausência dos educadores no seu papel de educação dos filhos ou educandos. a falta de respeito social do espaço de educação e ensino; a desvalorização do conhecimento como elemento de referência; o declínio da estruturação social enquanto organização para a cidadania; a massificação do ensino sem suporte académico, técnico e material, etc... não é nada que todos não vejamos tudo isto. mas quebrando esta linha simples do privado para o público somos confrontados com as imagens que são construídas de uns e de outros. não são os professores que ficam bem ou mal na fotografia. nem os alunos. nem a escola. somos nós. todos. enquanto civilização. talvez seja da fase do tal declínio em que estamos. ou simplesmente porque deixámos chegar isto aqui. mas a provocação de maria filomena mónica vai passar. vão chover críticas. palavras azedas. ofensas. e o declínio vai continuar. saberiam os homens e mulheres no fim do império romano que a sua civilização estaria a chegar ao fim? creio que não. talvez privatizando novamente este debate naqueles que podem encontrar a solução a coisa mude. que se cale um ministério que só atrapalha e deixe, aqueles que sabem como mudar isto, falar. que se dê a voz aos professores e às escolas. e que se faça a mudança urgente. a culpa não é de quem revela o que se passa numa parte da escola. é de todos. é da imobilidade. é de não percebermos que podemos estar nesse momento de fim sem saber o que fazer a seguir. vale a pena pensar nisto. e mais do que pensar. fazer qualquer coisa. a sério.
 
 

19/03/2014

||| sim, o mundo é quadrado e a terra é o centro...

 
||| ... tudo para a rua. está sol. somos nós que andamos à volta do sol ou o sol que anda à volta da terra. e houve respostas: é o sol que anda à nossa volta. desculpem? a sério. não estou a brincar. lembro-me perfeitamente. ó professor, mas o que é que isso importa. nada, claro. depois seguiu-se uma conversa sobre o futuro. que não era preciso saber para ganhar dinheiro. era preciso ser desenrascado. esperto. ou então ser tudo dado. ser-lhes tudo dado. porque o amigo conhece outro amigo que arranja um trabalho. isto no fim de um ciclo chamado de secundário. primário, diria eu. se há coisa que me assusta profundamente é a ignorância. pior, o triunfo dos medíocres. aqueles que dizem que ajudam, fazem, conseguem. por via desse caminho abjecto que é sempre feito calcando sobre um terreno de gente que não sabe e não pensa para além do óbvio. mas diga-me lá professor, o que é que isso importa. ainda não tinha resposta para dar. lembrava-me que acreditam que basta parecer bem para aparecer num qualquer programa e ganhar uns trocos. que toda a vida deles se resumia a isso. o dinheiro que era preciso ter para ter qualquer coisa e assim ser alguém. continuar a ignorar. a não saber. porque não interessa. porque isso não tem valor. valor, dito, orçamento. que importa se a terra gira à volta do sol ou o sol à volta da terra. isso são coisas que não interessam. sem valor. coisas da ciência que é uma senhora distante que nada lhes diz a não ser as fórmulas estranhas que devem decorar. esqueçam galileu. de volta à sala, um mapa. pior ainda. a rússia, os estados unidos, o porto e lisboa. não importa onde são. coloca-se no google maps. até está no telemóvel. norte e sul é tudo a mesma coisa. importa sim aquele amigo que diz que arranja uma forma de encontrar emprego, mesmo que não seja emprego mas sim trabalho. continuar a estudar, sem razão. a terra continuará a rodar sobre si mesma pois é, para muitos, o centro do universo. e nada mais...
 

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| quando só já resta uma razão...

 
||| ... a história ouvi-a pela boca de um amigo. homem bom do museu do brincar. reza assim: um rapaz, um dia, queria contar histórias ao mundo para fazer os outros felizes e despertar a vontade de estar vivo e continuar a acreditar nos sonhos. um dia pegou num banquinho e foi para o meio da praça de uma pequena aldeia. subia para o banco e começou a contar as suas histórias. cem pessoas vieram para o ouvir. no dia seguinte voltou com o seu banquinho, subiu e começou a contar as suas histórias. cinquenta pessoas vieram para o ouvir. no dia seguinte voltou. subiu ao seu banquinho e contou as suas histórias. dez pessoas vieram para o ouvir. mais um dia e voltou, subiu ao seu banquinho, contou as suas histórias e só cinco pessoas vieram para o ouvir. voltou no dia seguinte, subiu ao seu banquinho e só uma pessoa foi ouvir as suas histórias. voltou no dia seguinte, subiu ao seu banquinho e ninguém o ouviu mas ele contou as suas histórias. estes dias repetiram-se muitas vezes sem ninguém para o ouvir. um dia um outro rapaz parou junto do rapaz que contava as suas histórias para ninguém o ouvir e no final perguntou: desculpa, mas porque vens tu para aqui contar histórias se ninguém te ouve. a resposta foi esta: sabes, comecei por querer que as minhas histórias fizessem os outros felizes e fossem o despertar da vontade de estar vivo e acreditar nos sonhos. agora, todos os dias subo ao meu banquinho e conto as minhas histórias para que eu continue a acreditar que é possível ser feliz, para ter vontade de estar vivo e para não deixar morrer os meus sonhos. e no final da história, eu, olhei para mim hoje. de tanto querer uma outra escola, um outro caminho, de tanto ter feito nos últimos anos por isso, mesmo sem ninguém perceber, sinto que agora continuar é mesmo só o acto simples de não deixar eu de ter a capacidade de sonhar. há quem me pergunte porque raio me meto a tentar mudar as coisas. outros acusam-me de tentar e falhar. dou a cara por coisas que não me dizem respeito. faço mais do que posso ou devo. tento empurrar o mundo. falho muitas vezes. vejo que as pessoas à minha volta desistem. aquelas a quem digo para não o fazerem porque o mundo e a escola precisam delas. resta-me só uma razão para continuar. só uma. eles. os meus alunos. por eles. porque este não pode ser a escola do futuro, deles. e por isso vou continuar a pegar no meu banquinho, ir para o meio da praça e contar as minhas histórias. mesmo que ninguém vá ouvir ou só vão lá dizer mal de mim. por eles. por nós. pela escola. mesmo estando longe das forças de outros tempos ou da forma simples da vontade de mudar tudo. talvez só reste mesmo isso. um única razão...

18/03/2014

||| dois dedos de conversa...

 
 
||| ... sou sincero. nunca gostei de estar nas salas de professores. sempre que me sento lá vem alguém falar dos miúdos que fazem isto, aquilo e mais isto e mais aquilo. e da reunião x e y. e coisas que tais das quais fugo a sete pés. ah... e as grelhas. manda-me as grelhas. não sei trabalhar com excel. pode ser em papel e caneta, digo para ver se afasto a coisa. mas não... até sabem que sei, por isso, nem isso dá. e com a chegada do sol nada como me sentar algures pela escola com a minha mala e um livro ou simplesmente sem nada. foi num desses momentos que a rita e o Manuel vieram ter comigo. era um daqueles intervalos da tarde que são um pouco maiores. chamar intervalos a coisas com cinco minutos é como chamar a um queque, bolo. por isso, era daqueles grandes. e o sol estava bom, quente sem ser demais. e os miúdos lá vieram. ó professor, podemos estar aqui. pergunta estranha. podem, claro. é que o professor podia querer estar sozinho. não, estava só a apanhar sol um bocadinho. e vocês? nada. não estávamos a fazer nada. aqui não há nada para fazer. não, perguntei eu com aquele ar reprovador. não. é sempre a mesma seca. ok. e que tal conversarem. o quê professor? sim, conversarem. ó professor, isso é seca. ah... está bem. sabem que temos o dever de falar. lá vem o professor com aquelas coisas que ninguém percebe. é verdade. há um poema de um poeta português, mário cesariny que termina com a frase: o nosso dever de falar. é um dever. porque nos foi dada essa faculdade. essa possibilidade. não é teclar no telemóvel. é falar. pois é verdade, professor, mas o pessoal agora não fala. e se fala é de coisas parvas. então vá. vamos falar de uma coisa que não é parva. já viram o sol hoje? ya, professor. está bom. pois está. que horas são? e o gesto foi imediato: ir buscar o telemóvel para ver as horas. não, guardem lá isso. digam lá que horas são. a rita tentou adivinhar. eram, quatro e pouco. já pensaram que antes de haver relógio as pessoas mediam o tempo pelo sol? ya professor, no sexto-ano até fizemos um relógio de sol. a sério, perguntei eu. sim, está ali atrás do pavilhão. quer ir ver. quero, claro. e lá fomos. e lá estava. o relógio de sol, esquecido. ó pá rita, são mesmo quatro e pouco. fixe. por acaso até foi. e agora se pensarem que não existe tempo. ou que este calendário que nós usamos nem sempre existiu. é verdade, professor? é. as horas, minutos, meses, anos e etc nem sempre foram contados da mesma maneira. ya, professor, tipo os chineses andam no ano três mil e tal. não é bem assim, manuel mas estás perto. que confusão. não importa. está quase a tocar para entrar. nem demos pelo tempo. estás a ver, é porque não existe. fogo professor lá está você com teorias maradas. então e que tal? o quê professor? conversar. não estamos a perceber. vocês diziam que conversar era uma seca. foi o que estivemos a fazer nos últimos quinze minutos. ya, mas com o professor é fixe. não. experimentem. mas vá. para a próxima encontramo-nos aqui para brincar. ó professor não goze connosco. a sério. e lá ficou só o sol no recreio. e uma conversa feita. se ninguém os ensina, eles não sabem o que existe para além do que lhes é dado. simples, pensei. é o nosso dever de falar. imenso cesariny. sempre.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| ensinar... que palavra tão estranha...

 
||| ... acabaram com as competências. agora é metas. e coisas assim. como se fosse possível, matematicamente ensinar tudo de cinco em cinco minutos. desapareceu a palavra didáctica. era do grego e deve ser por eles terem ido à falência. o pior é que está a desaparecer a palavra: ensinar. ou então é usado no contexto: eu já não consigo ensinar nada a estes miúdos. geralmente acompanhado por: eles não querem aprender. pior. o que se ouve é mesmo: isto agora é preparar para os testes. ou para os exames. é esse o objectivo. desculpem. a meta. objectivo também já não se usa pois não vá despertar a vontade própria de ter objectivos. são metas. tudo. ensinar é que não. treinar. treinar é que é preciso. como se a sala de aula fosse esse forno das almas para um resultado comum que desafia a lógica de qualquer coisa e qualquer lugar chamado escola. é basicamente como a fruta nos hipermercados. toda igual. com um selo. uma marca. no final, pimba. levam os miúdos com um selo: a nota. e pronto. estão prontos para enfrentar a universidade. melhor, a universalidade da vida se não forem para estudos superiores. se forem, vão encontrar a universalidade. ou não. ou simplesmente continuar a repetir procedimentos. é mais simples que ensinar e aprender. é treinar. sou só eu que acho que isto mais parece um sistema de fazer presuntos mecanicamente ou simplesmente não percebo nada disto? devo ser eu... certamente, sou eu que estou a pensar mal e estou do lado errado da estrada. deve ser mesmo isso. é que eu não acho piada nenhuma a isto tudo. nenhuma, mesmo.
 

17/03/2014

||| a direito e em frente é que é...

 
 
||| ... uma pedra no sapato. uma revolta. uma questão apaixonante. um tabu. uma coisa qualquer. vamos lá falar de indisciplina. não é a primeira vez, nem será a última, mas esta é brutalmente politicamente incorrecta. li com atenção, como leio sempre, qualquer artigo, opinião, consideração ou disparate sobre esta questão. li este. li já muitos outros. há uma coisa comum. quase nunca se dissociam dois conceitos: autoridade e disciplina. vamos lá ser incorrectos. primeira incorrecção: a autoridade não é algo concedido. é preciso conquistar. já houve o tempo do contrário. e funcionou muito bem. basta pensar que nesse tempo as figuras de referência eram o padre, o médico e o professor. em terra de cego, quem tem olho é rei. num país dos anos trinta a sessenta ou setenta uma imensa parte da população não saiba ler nem escrever. a história tem destas coisas. lembra que as elites são sempre aqueles detentores de qualquer coisa que os outros não possuem. conhecimento, dinheiro ou fortuna. depois, dizem, lá veio a liberdade e com ela tudo o que se podia fazer. ou não. de fora da escola, do sistema, nos últimos anos vem um profundo desconhecimento do que se passa no terreno. pior do que mexer no sistema é mexer sem saber o que se passa. cegamente. ou não querendo ver. ou pior, mandando. desenhando um propósito que contraria a realidade. afunilando. tentando dar cabo da estrutura para provar que a ideia de outros é melhor do que a daqueles que todos os dias ensinam e criam a escola. não há artigo nenhum que dê autoridade ao professor. nem lei. nem regulamento. nem estatuto. mas há linhas de rumo, acções, modelos e pensamentos que atrapalham. e disso estamos cheios nos últimos anos. ter que conquistar a autoridade é uma coisa da escola. enquanto um todo. enquanto comunidade. para ajudar o professor nessa mesma conquista que tem que fazer junto dos seus alunos. o poder absoluto de origem divina teve o seu século e este é o tempo do global acesso à informação. não ao conhecimento. mas à informação. sem liberdade que ainda está por conquistar. mas com acesso. e isso muda tudo. e que do outro lado, do lado dos alunos e dos educadores destes, tudo mudou também. a literacia não é sinónimo de cidadania esclarecida. e isso facilmente se confunde. e isso sim, tal como esta lógica de contraciclo do poder do sistema sobre o poder da acção na escola é determinante para esta questão da disciplina. para mim, como professor, fundamental. mesmo com imensa baixa de qualificações de uma população ainda em escolarização a verdade é que o acesso à informação é maior do lado dos alunos e educadores destes. mas isso não é mesmo sinónimo de uma cidadania educada e esclarecida. pelo contrário, em muitos casos. por isso raramente faço esta linha de pensamento: pouca autoridade da escola e do professor é igual a indisciplina. é que assim estamos focados num círculo que nunca se vai quebrar. porque estamos, novamente a um passo de dizer coisas como esta: "não consta que pessoas educadas em ambientes mais disciplinadores (não confundamos com repressores) sejam pessoas piores, com menos sentido crítico, menos educadas e menos sensíveis." e este passo é o mesmo que levará a que a sociedade que conhecemos se transforme naquilo que muitos que conhecem os caminhos da história já sabem em que vão dar. mesmo que as palavras sejam cuidadosamente escolhidas. não é o professor que tem, sozinho, que reconquistar a autoridade. é a escola enquanto um todo e enquanto organização social. e o professor também. e o professor também tem que educar. ensinar a dizer obrigado, com licença, se faz favor não é uma tarefa assim tão imensamente de super-herói. é de cidadania. não pode ter depois todas as funções, essas sim, fora do seu limite de capacidades (ser assistente social, educador sexual, educador moral, educador técnico, burocrata...). e mais do que isso. pode e deve exigir ao poder central e dos sistema que não atrapalhe. não se meta sem saber o que se está a passar no terreno. não emane estatutos e coisas que tais sem perceber que a autoridade e a disciplina não são coisas que se regulamentem. são coisas de cidadania. que se aprendem, trabalham e conquistam pelo exemplo. exemplo esse que muitas vezes esse mesmo sistema não apresenta. falemos de indisciplina sim. porque a há nas escolas. falemos de tudo isso mas olhando para o cenário todo e não saudosistas de modelos controladores que reprimem mesmo que a palavra seja alindada para servir os moderados observadores de esquerda ou de direita. comecemos por falar de cidadania esclarecida. de sistemas que apoiam a autoridade pelo valor conquistado e não concedido [porque se a autoridade é concedida também pode ser tirada como se está a ver hoje]. falemos da disciplina como regra ou norma de conduta e não como representação de modelos de comportamento. talvez assim, de uma vez por todas, possamos fazer a discussão que é tão importante e pertinente ser feita. sem tabus, dissimulações  ou ideias préconcebidas. vá... vamos lá ser [in]disciplinados nesta discussão que urge ser feita..

||| música [im]perfeita...


||| da gente roubada ou do silêncio dos não inocentes...

 
 
||| ... estamos a ensinar uma geração roubada. gente roubada. pessoas em construção todos os dias roubadas. é estranho dizer isto no ano em que se comemoram os quarenta anos de uma revolução que dita em seu nome a palavra liberdade. os meus estudantes, alunos, pessoas estão feitas em gente sem nada. com tudo, mas sem nada. entro na escola e vejo que há tudo o que é preciso ali. espaço. cadeiras e mesas. também não é preciso muito mais para se ensinar e aprender. mas olho para os meus alunos e não vejo nada. vejo rostos perdidos. ideias vagas. saberes incertos. futuros roubados. a razão? simples. o tempo. deixou de haver tempo. há coisas para fazer. umas a seguir às outras. incessantemente. a escola tornou-se numa sequência de aulas, umas após outras. sem lógica ou razão. aprender tornou-se um simples acto de agradar. agradar a quem pergunta no fim do ano numa folha de papel coisas que basta decorar durante um pouco de tempo de atenção e treino. não, não é estudo. é treino. acaba a escola e tudo começa novamente. explicações para uns. inglês, ginásio ou o trabalho do campo para muitos que ainda é uma realidade. para outros, os irmãos em casa para cuidar. alguns ainda os mais velhos que habitam os espaços comuns. a ausência dos pais. dos educadores. que chegam ao fim do dia para comer qualquer coisa. às vezes, nem isso. é preciso trabalhar para pagar as contas. quanto há trabalho. quando não há é a rotina imensa do não saber como fazer as coisas continuarem. partir, para alguns. ficar e ir procurando um desenrasque aqui e ali. ouvir falar de crise, todos os dias. do dinheiro. todos os dias. com o cair da noite, a televisão ou o computador isolam cada um do outro. desapareceu a conversa. há pouco para contar. na escola só se for um namorico novo que não se revela ou uma coisa parecida sobre a vida de outros que a que vivem é sempre igual, julgam. no ano passado ainda havia aquela visita de estudo para contar. este ano, quase que já nem isso há para dizer. e os exames estão aí. as notas dos testes, mostradas ou escondidas. mas isso sempre foi assim. cai a noite. mais uns quantos sms para amigos que estão todos os dias com cada um e sem estarem ali são a companhia e as conversas que, dizem, são lidas pelo cérebro como quase reais. cai a noite. não houve tempo para brincar. mesmo que se tenha dez, onze ou mais ou menos anos. nem para ler um livro. se houver tempo é para fazer a imensidão de trabalhos de casa que uma multiplicidade imensa de disciplinas exige. mais uma sms antes do sono vencer mais um dia. isto é uma geração roubada. da vida. à vida. cansados antes de serem adultos. sem forma, força ou vontade de construírem um amanhã diferente. vencidos da vida antes de lutarem pelos sonhos que são a força de ser jovem. roubados na juventude. em serem crianças, até. e nós, aqueles que ainda habitam este espaço de responsabilidade, deixamos que tudo seja assim. até um dia. que seja breve esse dia porque tudo isto está, imensamente, do lado errado da vida.

14/03/2014

||| perceber que rir não é estúpido...

 
||| ... gosto de alunos que fazem travessuras. eu sei. já ninguém fala assim. não me importa. travessuras é uma das expressões mais belas que restam em mim da minha idade da inocência. de quando faltava às aulas para ir passear ou estar sem nada para fazer como os amigos. ou coisas simples que eram brincadeiras em que a liberdade era a única coisa que havia para transformar os dias de aulas numa outra coisa qualquer. hoje não há liberdade pura na escola. o nosso constante desejo de controlo e uniformizar tudo fez desaparecer a travessura [que rima com doçura] e fez nascer abruptamente a indisciplina. talvez simplesmente porque os limites deixaram de ser ensinados. passámos a ensinar o que se não podia fazer sem dizer o que se podia fazer e com isso destruiu-se a ideia de limite. e com isto morreu o riso. o rir. aquela gargalhada dada do fundo da alma que não se consegue controlar. que nos torna, transforma, em tolos por um segundo. um limite de tempo em que as regras não se aplicam. em que o limite é mesmo aquele do humor como elemento puro do bem estar. afastámos o humor das salas de aula. dos corredores. somos todos pessoas sérias que não permitem a indisciplina. fabricantes de gente. cada sala uma sala de operações na linha de montagem. cada incumprimento um acto de desrespeito. tudo levado a sério. demasiado. regulámos. ordenámos. punimos. as travessuras são para o carnaval que já nem as tem. ainda sou do tempo da minha mãe me ir buscar à escola na altura do fim das aulas e nos bebedouros espalhados pela escola existirem fontes que nos molhavam todos parecendo que o mundo inteiro podia ser aquilo, aquela brincadeira que, a fazer mal, só uma gripe ou qualquer coisa que tal. hoje não se brinca. hoje não se ri. de tempos a tempos lá sorrimos. mas a medo. com vergonha. porque nada mais há para além de cumprir as coisas que são para cumprir sem vontade. serei talvez dos poucos que restam que provoca os alunos para serem travessos. eles nem sabem o que isso é. mas fazem. e fogem de tocar às campainhas. e colam papeis nos vidros a dizer para os outros terem dias felizes. ou riem com a coisa simples de um professor que diz que não lhe apetece dar aulas mas sim conversar sobre coisas que não interessam a ninguém. resta-me este ponto vivo de loucura para preservar o resto de [in]sanidade em mim e neles que precisam cada vez mais de serem ridículos por um segundo que seja. talvez só humanos. um pouco. por um segundo apenas. mas que faça a diferença. que lhes faça sentido. que não sejam só produtos desta fábrica de pessoas anónimas e uniformes em que querem transformar a escola.

||| música [im]perfeita...


||| não há corpo que aguente...

 
||| ... alunos desmotivados. professores desmotivados. motivação. sinceramente tudo isto um absurdo. nunca como neste momento, neste espaço de tempo que antecede o fim de mais um período escolar tanto cansaço foi representativo do estado geral da escola. é o cansaço. a sobrecarga. a dimensão imensa do constante. ontem ouvi uma frase que me ficou na cabeça. a globalização da indiferença levou-nos a já nem saber chorar. fixei a primeira parte. globalização da indiferença. acho que é mesmo isto. já nem é desmotivação. é mesmo o grau extremo da indiferença que começa a alastrar na escola. e o desgaste do trabalho errado da concentração para a motivação. os professores fazem tudo para criar motivação nos alunos que estão indiferentes, muitos deles, muitas vezes, a esse esforço. esse esforço sai do corpo já cansado das lutas dentro e fora da escola daqueles que são mais do que professores. são pessoas, pais, responsáveis. alastra como um nevoeiro silencioso e transforma-se num cansaço constante. estrutural como agora dizem. e esse cansaço, a certa altura, em certa medida, nesta medida, gera indiferença. e o pior que pode haver na escola é este sentimento de indiferença. esta globalização do deixar andar. cumprir por cumprir. fazer por fazer. sobreviver a mais uma semana. mais um dia. mais uma aula. é um perigoso elemento de contágio este. que se transporta pelo ar e pelas atitudes. contagioso. é certo que muitos lutam afincadamente contra este estado das coisas da escola. mas também a esses o cansaço pesa. perdem forças. e hoje este lastro imenso de indiferença torna a escola num lugar desabitado. de passagem. onde o que se espera é o fim. o fim de mais um dia. o fim de mais uma semana. o fim de mais um período. só para descansar um pouco e saber que mais um mês, dois, três nos esperam no último e derradeiro período escolar. mas que escola é esta? não é uma escola. não é nada. é a indiferença em forma de organização. resta só aquela esperança que o sistema rebente e com ele aqueles que nos colocaram aqui. e que venha, depois disso, aquilo que todos desejamos em segredo no fim do dia. uma nova escola onde possamos construir novos dias. claros, limpos e diferentes.

13/03/2014

||| uma ponta do fio para explicar o novelo...

 
||| ... se partilhei aqui duas propostas para "treinar" a atenção, partilho agora uma proposta para o trabalho de desenvolvimento da curiosidade que faz já a ponte com o trabalho centrado no conhecimento. sem curiosidade não há estudantes nem escola.
 
||| ... proposta: num espaço reservado da sala o professor coloca um espaço [placar, folha de papel, etc...] onde escreve três coisas: o que sei. o que quero saber. o que aprendi. estes espaços, em forma de placard servem para os alunos, no início da aula serem desafiados a preencher os dois primeiros campos. numa primeira fase com orientação do professor sendo que ao longo do tempo será útil trabalhar a autonomia. o que sei é o espaço em que o aluno escreve o que sabe [mesmo que sejam ideias pré-concebidas sem relação com o conhecimento científico] sobre o assunto. o que já sabe. no espaço: o que quero saber o aluno deve colocar o lhe desperta a curiosidade, que perguntas tem. que coisas quer saber. no final da aula ou ciclo de aulas sobre o assunto os alunos devem colocar no espaço: o que aprendi aquilo que julgaram interessante ou importante terem aprendido sobre aquele assunto. este registo pode ser feito com materiais simples como pedaços de papel recortados ou simplesmente post-it's.

||| sei que vou ou não vou para ali...

 
 
||| ... hoje uma turma de ex-alunos meus vão ter um espectáculo. o que desejo? que seja o primeiro de muitos da vida deles. que mesmo que alguém lhes diga que não devem continuar, que continuem. e que todos tenham o sucesso que os deuses lhes devem dar. não estando presente, estarei com eles. com cada um deles e com eles todos. que nunca se esqueçam que são mais, melhores, maiores quando são, todos juntos, um só. sucesso e fortuna é o que lhes desejo.
... tirando este desejo, penso sempre numa frase que ouvi: ó professor, acha mesmo que a d. inês era bonita? bonita é a teresa do oitavo b. miúdos serão sempre miúdos. e não há paixão como a primeira, dizem. isto porque estive a discutir a noção de beleza. lá veio a rihanna e mais umas quantas. umas que nem sei o nome. mas lá as vi. plasticamente perfeitas. a noção da beleza é aquela. estranha para mim. estranha talvez não. a precisar de se decifrada. desconstruída. expliquei que sou do tempo em que a beleza era associada à noção do bem. e não de um tempo em que a beleza é erotismo provocante. melhor, chocante. provocatório. comercial. ficaram a olhar para mim. expliquei mais um pouco. a construção dos ídolos é uma coisa muito antiga. assim como da beleza. não foi isso que mudou nos tempos que correm. foi a dimensão verdadeira da beleza enquanto instrumento de promoção dos valores. claro que não expliquei assim. disse somente que achava que belo seria ver estas personagens fora deste cenário criado para o efeito. e lá fomos falando de erotismo. ó professor, fogo... fala de tudo como se não fosse nada. os professores não falam disso connosco. do erotismo? não. de tudo. eles não sabiam o que era o erotismo. nem a sua origem. nem a sua história. no final da conversa agradeceram. muita coisa aparecia agora como clara para eles. desafiei-os a pensar se o david, obra clássica, teria ou não pendor erótico. e ainda os desafiei mais. tragam para hoje aquela obra e transformem a imagem como hoje vos são "vendidos" os ídolos. assim podem perceber o valor de um culto da beleza para além do óbvio. lá foram. e eu fiquei a pensar nisto do falar sobre tudo. se há lugar no mundo onde não pode haver coisas em que não se fala é na escola. e é com os professores. para isso, para a censura, basta o resto da vida em sociedade... pensei.

||| música [im]perfeita...

)

||| das coisas breves em que tudo importa...

 
||| ... ao passar os portões da escola observo o que se passa à minha volta. gente a mais. tempo a menos. o tempo dos deuses terminou. o tempo dos justos, também. santo agostinho iria ter dificuldade em compreender isto. kant, também. ou talvez mesmo eu tenha agora dificuldade em perceber que aquilo que aparece em frente aos meus olhos ainda tem o nome de escola. não tem. já nem isso tem. agrupamento. sede de agrupamento. e eu que sou muito dado à importância das palavras reparo nisso. ainda há na boca dos professores " a minha escola". fui à minha escola levar isto ou aquilo. no entanto esse nome, essa coisa simples de chamar as coisas pelos nomes, muda a forma como comunicamos. a reunião é na sede do agrupamento. agrupamento. lembra aqueles batalhões preparados em acampamento antes de uma batalha na idade média. um agrupamento de gente não é uma escola. é mesmo só um agrupamento. gente junta. coisas juntas. escolas juntas numa coisa que nem nome tem. é só um grupo. um agrupar. e tudo na palavra importa. até ao ponto de se ver claramente a falta de estratégia ou visão. agrupar é juntar sem ordem. estar contido é diferente. ser similar. a escola é palavra em desuso. de cima para baixo. é. guardemos nós, guardiões dos deuses, as palavras como tesouros. como resistência e luta. vou-me embora. vou para a escola...

12/03/2014

||| a atenção para ouvir ler...

 
||| ... ainda sobre a questão da atenção. uma estratégia um pouco abandonada e que valia como determinante no factor da atenção para os alunos era a leitura em voz alta. george steiner chega a afirmar a importância do "saber de cor". e damásio recentemente desvendou que para a criatividade e imaginação é determinante o poder a memória. a leitura em voz alta tem esse "poder" escondido de potenciar tudo isso e a atenção. a forma como é feito é que pode variar. aqui fica uma proposta.
 
||| ... proposta: muitas vezes peço aos meus alunos para fecharem os olhos, colocarem a cabeça sobre a secretária e ouvirem. faço leituras pequenas. de contos contemporâneos ou nem por isso. sem pedir mais nada. nem comentário. nem análise. nem nada. que oiçam só. começo por textos com a duração de menos de um minuto e vou estendendo o tempo ao longo do ano lectivo. a posição deles varia também um pouco. posso pedir ainda para, de olhos fechados irem descrevendo com gestos o que estão a ouvir. movimentando-se na sala ou movimentando apenas os braços e criando as expressões como se fosse um exercício de teatro mudo. a concentração e atenção são aqui trabalhadas de forma contínua e continuada. ninguém nasce ensinado e treinar a competência da atenção pela escuta atenta é uma necessidade cada vez maior.

||| estou a naufragar...

 
||| ... esta coisa de encomendar trabalhos tem que acabar. zero. nem leio. mania do raio dos miúdos pensarem que eu não tenho internet ou que não sei ler. copiar e colar. entregar. zero. pronto. desabafei. passemos ao assunto do dia. coisas. tipo. cenas. ya. swag. tão a ver? ó professor é aquela coisa, tipo, a cena coiso da maria, está a ver? não. não estou. perdi-me algures no coiso tipo cena. e eu sou da geração que inventou o bué. imaginem. já não se usa. agora é tudo estrangeiro. inglês. americanado para não lhe chamar outra coisa. ó professor, fogo. é aquela coisa tipo assim. alexandre o'neill tinha um livro que se chamava: uma coisa em forma de assim. bonito. mas era poeta. uma coisa tipo assim não sei. e vem acompanhado com o gesto e tudo. tipo uma cena coiso assim que serve para... está a ver. não. continuo sem conseguir ver nada a não ser o coiso em forma de assim que é um livro do poeta escritor. ó stor, fogo. não o estou a perceber. nem eu a ti. vês. é o que dá eu ter mais palavras para explicar as coisas do que tu. 'pere. vou explicar outra vez. ok. eu precisava de uma coisa como aquilo que deu à maria para o trabalho. um escópio. um quê? era uma cena que o stor chamou de escópio qualquer coisa, está a ver. estava. já estava a ver o que era. a cena. e via a cena toda. passei de professor a stor. e de esperar a 'pere. e a coisa de caleidoscópio a escópio. estamos bem. ok. vai ali ao quadro. ó stor, fogo. pois é... tem de ser. escreve lá o nome da coisa para ver ser é o mesmo que eu estou a pensar. ok, stor. iscópio, a giz. e fiquei a olhar para aquilo. ok. essa cena não sei o que é. sei o que é um caleidoscópio. será isso. yaaaaaa!!!! é isso. e só estava a ver quando é que o kusturica entrava pela minha sala com um anão a dobrar colheres com a mente. que rio de conversa é esta? é uma cena tipo assim coiso, marada. pois é. mesmo. e lá disse que tinha que escrever vinte vezes caleidoscópio. e que cena, coiso, tipo não explica a realidade. não são nomes de coisas. para as coisas. pode ser swag mas não é bonito. assusta. simplesmente, assusta. e combater isto é um esforço acrescido para um professor. porque tenho medo que um dia estes miúdos precisem mesmo de explicar qualquer coisa e as únicas palavras que possuem são aquelas que nada explicam.

||| música [im]perfeita...

)

||| as cinco coisas que faltam na escola...

 
||| ... está na moda fazer listas. e indicar coisas como se fosse fácil cumprir os itens e criar algo novo. por isso, para embarcar na onda, cá vão, deste professor [im]perfeito as cinco coisas que acho que faltam na escola, hoje...
 
||| ... um: identidade.
... tal como cada aluno é um aluno e cada professor é um professor, também: cada escola é uma escola. nivelar ou querer uniformizar a nível nacional uma coisa que tem implementação local, comunitária e diferenciada é um erro. o que falta é a prática de construção de identidade. como se a escola fosse um todo e esse todo tivesse a sua linha de rumo, característica e determinação própria. uma identidade organizacional que fosse diferenciadora e elemento de acolhimento de todos ao qual todos se identificavam. tentou-se isso com os planos pedagógicos de escola mas sem alma ou força. pode ser uma identidade artística, técnica, cientifica, desportiva mas algo que determine a natureza da escola enquanto organização e que faça disso o seu rumo e força para mobilização de competências e interesse de todos.
 
||| ... dois: estratégia.
... não é com regulamentos, regras e directivas gerais, emanadas de cima para baixo que as escolas ganham competências e capacidades estratégicas para lidar com o contexto e desafios em que estão integradas. se deve existir um plano geral mais ainda deve existir uma estratégia de escola. comum e comunitariamente definida. uma estratégia que adeque globalmente o que se quer da escola enquanto agente de mudança e conhecimento. esta estratégia passa pela questão da identidade acima descrita, assim como, da variação entre a linha de rumo e as práticas pedagógicas a implementar. o convite à discussão do tipo de caminho a fazer é um papel fundamental para os professores se mobilizarem para a mudança. e isso é ter visão e relação estratégica da escola e para a escola enquanto agente de promoção do crescimento individual e colectivo da comunidade onde está inserida.
 
||| ...três: plano.
... devia existir um plano de formação para professores em cada escola. um plano anual. que fosse criado pela escola e pelos professores em função as necessidades de desenvolvimento de competências e capacidades, assim como, de conhecimentos para o desenvolvimento de estratégias e da identidade da escola. um plano concreto, com metas e objectivos muito bem definidos e claros que fosse um instrumento de apoio ao professor na sua prática diária e não um recurso abstrato e teórico sem ligação ao contexto real de trabalho do professor. devia este plano ser pensado para ter espaços gerais e em grupo em formação, assim como, apoio directo e individual ao professor. um verdadeiro recurso de apoio de formação por formadores competentes e que fossem integrados enquanto elementos de inovação externa e interna para as práticas pedagógicas desenvolvidas em ambiente real.
 
||| ...quatro: projectos.
... muitas escolas viram morrer os clubes e actividades complementares ao percurso curricular nacional definido oficialmente. as escolas deviam apostar seriamente em criar projectos anuais ou plurianuais [por ciclo de estudo] como ofertas complementares. esta dinâmica que, associada à identidade podia estar aberta à comunidade permitia o envolvimento alargado e o reconhecimento externo. projectos de cariz científico, social, desportivo e/ou artístico que fossem promotores de integração e envolvimento dos encarregados de educação e outros elementos permitiam uma abertura da escola para além do cumprimento obrigatório dos programas oficiais.
 
||| ...cinco: conhecimento.
... a escola deve ser um lugar de ciência. mais do que isso, promotora e dinamizadora da investigação e do trabalho de difusão científica. e mais do que isso um lugar onde a gestão do conhecimento é uma regra. a não individualização de projectos numa só pessoa e a partilha em equipas de professores permitiria isso. mais, a construção de "bolsas" de investigação e partilhada/divulgação científica permitiria à escola ganhar um lugar de excelência junto da comunidade local, regional e nacional. permitiria ainda que, devido à mobilidade dos professores, que o trabalho de um professor feito num ano lectivo fosse continuado por outros no futuro.
 
...e pronto. é isto. ideias [im]perfeitas para uma escola ainda por construir...

11/03/2014

||| a cidade é um chão de palavras pisadas...

 
||| ... a minha primeira abordagem com os alunos é sempre baseada na "educação" para a atenção. ninguém nasce ensinado a estar atento. a redução do tempo que temos para ensinar coisas tão simples como estas está na razão de muitas das questões de aprendizagem, disciplina e gestão do conhecimento que actualmente imperam em alguns ambientes escolares. deixo aqui uma estratégia/proposta que utilizo:
 
||| ... proposta: trabalhar a atenção pode ser um exercício simples. o som faz parte de um dos mais importantes elementos da nossa percepção sobre o real. existem várias referências sobre isto em projectos actuais. do exemplo do porto sonoro [ver aqui] até ao trabalho da binaural [ver aqui]. a criação das paisagens sonoras implica duas coisas importantes no trabalho de "treino" da atenção: o silêncio e a escuta. o trabalho envolve muitas vezes a saída da sala de aula [para recolha de sons] e o trabalho em sala de aula [para escuta]. com qualquer telemóvel ou equipamento básico se pode fazer uma gravação sonora simples e comparar com os registos destes projectos. se a escola ou o professor tiver equipamento de registo sonoro mais avançado poderá criar um projecto de recolha que decorre ao longo do ano. outro registo/proposta simples é a da gravação de entrevistas. no início do ano o professor distribui a cada aluno um tema que será trabalhado nesse ano lectivo. pede então ao aluno, entregando um guião de entrevista que recolha junto de um familiar, amigo ou pessoa próxima um registo áudio. este trabalho desenvolve complementar e abertamente a questão da escuta activa com a vantagem de resultar em algo que pode ser analisado em contexto de sala de aula no momento de oportunidade de explicação de uma temática.

||| porém se alguém não foi ninguém...


||| ... desde o início do ano que achava que a margarida era uma miúda diferente. no canto, a meio da sala, naquelas mesas encostadas à parede. sempre de olhar suspenso. estando, não estando. era fácil de ver. o pior é que eu não tinha tempo só para ela. no final da aula pediu, desta vez, para falar comigo. diz margarida é por causa da nota do trabalho? não te importes. importa o que conseguiram fazer. disse com o meu ar de vidente. não professor. não é sobre isso. não sei como dizer isto. diz, disse eu, sem dizer nada. aprendi que se eles querem dizer dizem. empurrar aqui não funciona. forçar, muito menos. professor, tenho medo de vir para a escola. pensei que seria um daqueles exercícios que os miúdos fazem uma vez na adolescência. não. repetiu. tenho medo. sentei-me na cadeira e disse para ela se sentar também. o intervalo era grande. deixei-me estar. sabe, o rui e os amigos ameaçam-me. se não faço o que eles dizem tenho medo que me aconteça alguma coisa. e ouvi todas as coisas. tudo aquilo que me disse. lembrei-me dos nomes que dão modernamente a estas coisas. bulling dizem. falta de valores, digo eu. ó professor, não diga a ninguém. tenho medo. a margarida é um miúda no pleno da adolescência. o rui e os amigos já vão para o fim dela. se é que a tiveram. conheço-os bem. todos conhecemos. todos nós, professores, sabemos quem eles são. quer um, quer os outros. pensei no que tinham dito nestes casos. comunicar à direcção de turma. etc... formos interrompidos pelo bater na porta. ah... desculpe colega, não sabia que estava aqui. vamos já sair. tinha passado o intervalo. obrigado professor. de nada, margarida. vou ver o que posso fazer. não faça nada professor. é pior. e saímos pela porta da sala cada um com os seus pensamentos. eu a pensar que tinha que comunicar aquilo. ou não. no final do dia fui para a portaria. esperei o rui e os amigos. chamei os rapazes para falar sobre qualquer coisa. eram meus alunos, também. disse que a margarida era uma miúda fantástica. e que aquilo terminava ali. olhei-os. vi a reacção. percebi. nunca ninguém os tinha confrontado. iam sempre parar a processos e coisas que tais que em nada resultavam. a margarida, pensei na miúda que era e que podia ser, somente. expliquei que a vida é feita de escolhas. e que lhes dava três aulas sem porem os pés na minha sala para irem pensar no assunto. que na minha sala só entravam pessoas. quando eles fossem pessoas. seres humanos. podiam regressar. até lá, não entravam. iam ter coisas para fazer. tenho a sorte dos miúdos gostarem de ir às minhas aulas e tirar isso ser castigo. o que mais reparei foi na reacção. não esperavam o imediato da coisa. esperavam tudo menos isso. e disse-lhes apenas mais uma coisa: antes de ser professor, sou pessoa. e nenhuma pessoa pode permitir qualquer tipo de violência sobre outra pessoa. ou seremos tudo, menos seres humanos. se ninguém lhes ensinou isto, ensino eu. a margarida demorou a sorrir. levou meses. mas hoje voltei a ver o sorriso belo no seu rosto. e tudo ficou como uma má memória, somente. infelizmente, na escola...

||| música [im]perfeita...

||| e eles são tantos e tão diferentes...


||| ... vamos lá ver bem como isto anda. turmas do "ensino regular". ainda regulam. adoro estes conceitos. cef, pief, ensino vocacional. turmas de nível. niveladas, portanto. ensino profissional. isto no ensino básico e secundário. o dito ensino regular [o percurso mais académico dentro do sistema] são já em muitas escolas o menor número da oferta geral. primeiro vieram os cef [cursos de educação/formação]. muitos dos miúdos que não tinham "perfil" para o ensino académico foram enviados para estes percursos. depois, como alguns tinham necessidade de percursos ainda mais diferenciados... os pief. e agora, como bem se pode ver a sequência, o chamado ensino vocacional. sempre disse que a escola deve acolher antes de tudo o resto. problema: não o pode fazer a qualquer custo. pergunta: e quando os alunos no ensino vocacional não tiverem perfil ainda para este tipo de ensino? vamos de problema em problema criando na escola um emaranhado de nós e cordas que vamos, um dia, não conseguir desatar. e para "cima"? no "superior"? as licenciaturas que tinham 5 cinco anos passam a três. os mestrados são integrados. é-se mestre aos vinte e poucos anos. depois o doutoramento. depois o pós-doutoramento e aposto que já há qualquer coisa depois disto. mas então e os miúdos? aqueles do vocacional e tal... ah... há os cet e agora arranja-se aqui uma coisa que no meu tempo se chamava de bacharel mas agora fica como técnico superior. dois anos e já está. desculpem... mas é do meu cansaço deste sistema esquizofrénico ou estamos mesmo perante um sistema impossível de gerir e que se torna impossível criar valor cientifico para não falar em mais nenhum... devo ser eu que não me enquadro no sistema por ser professor...