||| ... a escola ensina. a família, educa. de tempos a tempos oiço esta lengalenga. e quando a escola não ensina e a família não educa? ou quando é pedido à escola para educar e ensinar? e porque se persiste nesta coisa como se fosse uma regra. que cabe à família educar e à escola ensinar. porque o exemplo tem que vir de casa. é mais uma lengalenga a somar à anterior. são verdades presentes, estas. mas também o seu contrário. porque o professor educa pelo exemplo. mesmo sem ter que educar. o exemplo do que é, de como actua, de como ensina. e para muitos miúdos esse é o único exemplo de referencia que vão ter até à sua idade adulta. e mais uma lengalenga surge: mas não pode ser. não compete à escola substituir a educação que os alunos deviam ter, nem as responsabilidades que cabem a outras instituições. pois é. é verdade. mudemos o mundo, então. porque na minha sala de aula há miúdos que precisam de mais respostas sociais do que aquelas previstas no regulamento da escola. e o meu trabalho é ser professor. ou não? é ser cidadão. ou é mais do que isso. ser humano. e nas coisas que posso, naquelas que estão dentro do poder do meu gesto e da minha mão, eu faço. eu sei. podia esperar pelas comissões, pelas reuniões, por descartar aquilo que não são tarefas minhas. porque eu sou professor e no meu contrato diz: leccionar. não diz: educar. e repenso tudo. antes de ser professor sou habitante desta terra e deste tempo. e eles são miúdos. e se todos descartamos tudo para os outros e os outros não tiverem resposta ou descartarem para outros tantos aqueles miúdos serão adultos sem ninguém que os ensine e eduque. senta-te direito. pede, se faz favor. diz, obrigado. não se fala alto. podes argumentar sem discutir. não cai o carmo e a trindade se em simples gestos eu der as palavras e as coisas que lhes faltam quando todos achamos que o sistema vai encontrar uma solução e nada é da nossa responsabilidade. há limites, sim. mas não estes. estes das coisas simples, imediatas que estão na minha mão como ser humano e professor. eu sei. estou errado. não importa. eu vou continuar a ensinar e a educar dentro dos limites do que me é possível. podem continuar. a festa segue dentro de momentos num futuro qualquer.
