||| ... a mais dura das realidades. não tenho tempo para ensinar os meus alunos. não é para lhes dar aulas. é para os ensinar. imaginem o cenário simples: da crise de mil trezentos e oitenta e três/oitenta e cinco (século quatorze) até à crise de dois mil e oito. em nove meses (de tempo útil). três aulas de quarenta a cinco minutos por semana. turmas de trinta alunos. exames para os quais os alunos devem estar preparados. e mais tudo o resto. conclusão, não tenho tempo para ensinar. tenho tempo para outra coisa qualquer. que não é ensinar. é qualquer outra coisa. e penso que henry ford não ficou conhecido por ter inventado o ford t. ficou conhecido por criar a linha de produção. e só posso pensar que o professor é hoje aquele operador do filme dos tempos modernos de chaplin. o homem que aperta porcas. ou aquele que controlo o botão de velocidade da produção na linha que não pára de passar. o pior é que os miúdos não são produtos. nem iguais entre si. nem a minha sala de aula é uma máquina. nem eu sou um operador. mas a mais dura das realidades é que hoje os alunos na escola não aprendem. repetem. na melhor das hipóteses. reproduzem. lembra-me a frase do ministro da educação numa época em que as crianças ainda não tinham direitos: não são pessoas. são espelhos. só devem reflectir. e não era de reflexão. era de reprodução. mas a escola é o lugar onde se ensina. e ensinar é um exercício de liberdade. onde há tempo para parar uma aula e tirar dúvidas. onde há tempo para pensar. para perceber. para compreender. para entender. para repensar e pensar e repensar. por isso, hoje fazemos tudo menos ensinar. devolvam o tempo necessário para isso. para esse único acto nobre que resta a uma escola que se desfaz a olhos vistos. ensinar. devolvem-nos o tempo que nos roubaram para a a escola seja, simplesmente, uma escola novamente.
