||| ... uma pedra no sapato. uma revolta. uma questão apaixonante. um tabu. uma coisa qualquer. vamos lá falar de indisciplina. não é a primeira vez, nem será a última, mas esta é brutalmente politicamente incorrecta. li com atenção, como leio sempre, qualquer artigo, opinião, consideração ou disparate sobre esta questão. li este. li já muitos outros. há uma coisa comum. quase nunca se dissociam dois conceitos: autoridade e disciplina. vamos lá ser incorrectos. primeira incorrecção: a autoridade não é algo concedido. é preciso conquistar. já houve o tempo do contrário. e funcionou muito bem. basta pensar que nesse tempo as figuras de referência eram o padre, o médico e o professor. em terra de cego, quem tem olho é rei. num país dos anos trinta a sessenta ou setenta uma imensa parte da população não saiba ler nem escrever. a história tem destas coisas. lembra que as elites são sempre aqueles detentores de qualquer coisa que os outros não possuem. conhecimento, dinheiro ou fortuna. depois, dizem, lá veio a liberdade e com ela tudo o que se podia fazer. ou não. de fora da escola, do sistema, nos últimos anos vem um profundo desconhecimento do que se passa no terreno. pior do que mexer no sistema é mexer sem saber o que se passa. cegamente. ou não querendo ver. ou pior, mandando. desenhando um propósito que contraria a realidade. afunilando. tentando dar cabo da estrutura para provar que a ideia de outros é melhor do que a daqueles que todos os dias ensinam e criam a escola. não há artigo nenhum que dê autoridade ao professor. nem lei. nem regulamento. nem estatuto. mas há linhas de rumo, acções, modelos e pensamentos que atrapalham. e disso estamos cheios nos últimos anos. ter que conquistar a autoridade é uma coisa da escola. enquanto um todo. enquanto comunidade. para ajudar o professor nessa mesma conquista que tem que fazer junto dos seus alunos. o poder absoluto de origem divina teve o seu século e este é o tempo do global acesso à informação. não ao conhecimento. mas à informação. sem liberdade que ainda está por conquistar. mas com acesso. e isso muda tudo. e que do outro lado, do lado dos alunos e dos educadores destes, tudo mudou também. a literacia não é sinónimo de cidadania esclarecida. e isso facilmente se confunde. e isso sim, tal como esta lógica de contraciclo do poder do sistema sobre o poder da acção na escola é determinante para esta questão da disciplina. para mim, como professor, fundamental. mesmo com imensa baixa de qualificações de uma população ainda em escolarização a verdade é que o acesso à informação é maior do lado dos alunos e educadores destes. mas isso não é mesmo sinónimo de uma cidadania educada e esclarecida. pelo contrário, em muitos casos. por isso raramente faço esta linha de pensamento: pouca autoridade da escola e do professor é igual a indisciplina. é que assim estamos focados num círculo que nunca se vai quebrar. porque estamos, novamente a um passo de dizer coisas como esta: "não consta que pessoas educadas em ambientes mais disciplinadores (não confundamos com repressores) sejam pessoas piores, com menos sentido crítico, menos educadas e menos sensíveis." e este passo é o mesmo que levará a que a sociedade que conhecemos se transforme naquilo que muitos que conhecem os caminhos da história já sabem em que vão dar. mesmo que as palavras sejam cuidadosamente escolhidas. não é o professor que tem, sozinho, que reconquistar a autoridade. é a escola enquanto um todo e enquanto organização social. e o professor também. e o professor também tem que educar. ensinar a dizer obrigado, com licença, se faz favor não é uma tarefa assim tão imensamente de super-herói. é de cidadania. não pode ter depois todas as funções, essas sim, fora do seu limite de capacidades (ser assistente social, educador sexual, educador moral, educador técnico, burocrata...). e mais do que isso. pode e deve exigir ao poder central e dos sistema que não atrapalhe. não se meta sem saber o que se está a passar no terreno. não emane estatutos e coisas que tais sem perceber que a autoridade e a disciplina não são coisas que se regulamentem. são coisas de cidadania. que se aprendem, trabalham e conquistam pelo exemplo. exemplo esse que muitas vezes esse mesmo sistema não apresenta. falemos de indisciplina sim. porque a há nas escolas. falemos de tudo isso mas olhando para o cenário todo e não saudosistas de modelos controladores que reprimem mesmo que a palavra seja alindada para servir os moderados observadores de esquerda ou de direita. comecemos por falar de cidadania esclarecida. de sistemas que apoiam a autoridade pelo valor conquistado e não concedido [porque se a autoridade é concedida também pode ser tirada como se está a ver hoje]. falemos da disciplina como regra ou norma de conduta e não como representação de modelos de comportamento. talvez assim, de uma vez por todas, possamos fazer a discussão que é tão importante e pertinente ser feita. sem tabus, dissimulações ou ideias préconcebidas. vá... vamos lá ser [in]disciplinados nesta discussão que urge ser feita..
