25/03/2014

||| os peixes já não sabem falar...

 
||| ... hoje pensei numa frase dita por uma aluna. não percebo as palavras. foi uma coisa inocente no meio de uma conversa sobre qualquer coisa importante. e fiquei a pensar. ao vir a conduzir depois de mais um dia de trabalho fiquei mesmo a pensar nisto. sou professor. a minha alma está na palavra. sem ela nada faz sentido. e mais do que isso. sou um carpinteiro das palavras. trabalho com elas nas minhas aulas para criar as fundações onde assenta o conhecimento. e acredito mesmo no poder da palavra. o pior... o pior é que do outro lado não é assim. deles. neles. nos meus alunos. e faço uma retrospectiva mental. desapareceu a palavra de honra. desbaratámos as palavras e os seus significados ao ponto de ter agora nascido a moda de criar novas palavras para velhos sentidos. é tudo vintage ou é tudo um inconseguimento. ou coisas que tais. o representante desta república em cinzas fala da palavra como poder. e no entanto, na sala de aula, onde devia a palavra ser o centro, o princípio e o fim do sustentáculo do saber, esta está em declínio profundo. é que a palavra, na sala de aula, não deve ser um instrumento de poder. assim o foi usada nos últimos tempos. sem autoridade e como forma de poder. de uns para os outros. a força da palavra é outra. está na compreensão. não é na visão romântica da coisa. é na prática. dar valor à palavra neste momento é tornar compreensível cada uma delas em função do seu significado. a perda de vocabulário é hoje o pior e maior limite na escola e nos alunos. não saber como explicar o mundo. as coisas, dar o nome das coisas. e sem isso, não há força, poder ou elegia da palavra que a torne motor e centro da aprendizagem como deve ser. sou, por isso um carpinteiro sem madeiras para trabalhar. e o primeiro passo é transformar-me em madeireiro. ir para a floresta desconhecida das coisas sem nome e nomear cada uma delas. levar os meus alunos comigo. dizer: isto tem este nome. não é tipo, nem coiso, nem ya, nem assim. dar-lhes palavras para guardarem. um passo de cada vez. uma coisa de cada vez. para que possam, simplesmente, explicar e dar nomes ao mundo. nem que seja só ao seu.