30/04/2014

||| por alguma razão...


||| ... por alguma razão foram os franceses que fizeram a revolução francesa [esta frase não saiu bem]. melhor, por alguma razão foi dessa agitação maior que saíram as ideias de igualdade, fraternidade e liberdade [dei a volta à ordem, eu sei]. também é verdade que a privacidade é uma realidade recente. pode parecer estranho mas é. a história explica-nos que as terras comunais eram uma realidade que se transferia para outros domínios. a república trouxe isso consigo. o direito ao privado. actualmente o desafio é maior. depois de terminar as horas de trabalho somos constantemente bombardeados com emails, mensagens nas redes sociais e/ou telefonemas. todos com assuntos de trabalho e quase todos a começar: esqueci-me de te pedir isto. os franceses disseram que não. ou melhor, estão a tentar dizer que não. que há um espaço de tempo para a privacidade. em que isso não tem lugar. em que não é possível prolongar o trabalho para a esfera pessoal e privada. e os tempos com as tecnologias actuais facilitam isso ao máximo. e há sempre uma espera do outro lado: não viste o email ou a mensagem que te enviei? não, não vi. eram vinte e três horas e quarenta minutos. estava a tratar de coisas que são pessoais. e nisto a escola tem quebrado todas as regras. quando devia ser exemplo. são emails e contactos a qualquer hora. a escola e o sistema do estado. num desrespeito profundo por esse domínio privado. pode parecer estranho falar nisto mas cada vez mais essa linha é quebrada. a linha do tempo para o trabalho e o tempo para a vida privada. e esse desequilibro reflecte-se nas duas esferas. é por isso que gosto desta luta francesa. que devia ser a nossa. o dia de trabalho, de exposição pública, de resposta imediata tem que ter um início e um fim. as oito, dez, doze horas que definimos em conformidade com aqueles para quem trabalhamos. mas depois, depois do fim do dia, desse dia público há uma crescente necessidade de reclamar, de novo, o direito e o dever de silêncio e privacidade. e ensinar isso aos nossos alunos, para que o futuro seja feito de equilíbrio, é uma lição ainda por fazer. urgente. e por fazer...

||| leituras [im]perfeitas...



||| música [im]perfeita...

||| não, não somos...


||| ... não somos todos macacos. raios partam esta coisa do marketing para as questões sociais. e quando isso chega à escola é assustador. isto tudo por causa de uma banana. ou melhor, de um gesto. a discussão com os miúdos começou ai. dizem que é um golpe publicitário. outros que é racismo. isto porque estamos a falar do universo do futebol. um adepto atira para o relvado uma banana para insultar um jogador. e desata tudo a tirar fotos com bananas para dizer que somos todos macacos. e depois fala-se de racismo. e eu penso. penso que na escola deixou de existir espaço para a educação para a cidadania. deixou mesmo de existir cidadania. penso que vejo gestos e atitudes bem piores, muitas vezes, do que um acto do chamado racismo. vejo indiferença. vejo exclusão. vejo distanciamento. vejo muitas vezes, mesmo que digam que não, uma segregação. isto acontece porque não há tempo, muitas vezes, para falar disso. para pensar nisso. para discutir isso. mas dizemos, de boca cheia, que se aceita muito melhor a diferença hoje, na escola. aceita? que erro brutal há nesta palavra! ela em si mesmo reserva esse lugar da normalização que tolera. e não temos tempo para falar disto com os nossos alunos. nem para criar um projecto. ou para discutir. e vamos achando que estamos mais civilizados. bananas, amendoins, bandeiras, chapéus ou qualquer outra coisa que façam disparar na escola este alarme são sempre bem vindos. cabe-nos parar para ver a urgência do que está por fazer, do que não estamos a fazer e do que é preciso fazer. a cidadania de futuro assim o exige. não nos podemos esquecer disso. sejamos sérios. e a sério enfrentemos estes desafios que são mais do que campanhas publicitárias. são alertas. importantes. para a escola, principalmente.

29/04/2014

||| do acreditar que ainda vale a pena...

 
||| ... passaram treze anos. a sara era uma miúda triste. lembro-me dela muito bem. tive o privilégio de ser seu professor. dos meus maus hábitos de me sentar em qualquer lugar para conversar lembro-me desse ano me ter sentado num muro. só me lembro disto. de uma conversa no fim de dia de aulas sobre o futuro. ela, por via das chamadas "redes sociais" mandou-me uma mensagem. cito: olá professor! lembra-se de mim? sou a sara. fui sua aluna. há treze anos. queria pedir-lhe ajuda. sou investigadora na unesco e o professor uma vez mostrou um vídeo sobre o primeiro papa que usou um garfo. como estou a trabalhar na questão da história da alimentação queria pedir-lhe ajuda. pode ajudar-me? obrigado por tanto que me ensinou." é por estas e por outras que ser professor é a melhor profissão do mundo. a sara não era a minha melhor aluna naquela altura. dos meus melhores alunos de todos os anos pouco sei. fiquei imensamente feliz por ela. respondi: "olá sara. lembro-me de ti, sim. lembro-me daquela conversa num fim de dia de aulas sobre ires estudar história quando toda a gente te dizia para ires para direito. estás diferente. é como eu. mais velhos. mas isso não importa. fico feliz por te saber num caminho que gostas e sempre foi o que desejavas para ti. claro que te ajudo. o filme era uma recriação italiana. não sei se o tenho ainda mas envio-te o nome e assim podes encontrar. vou procurar. entretanto posso enviar-te uns artigos que tenho. podem ser-te úteis. vamos falando. um dia quero saber tudo sobre esse teu estudo." é bom ser-se professor. ou melhor, para os nossos miúdos nunca o deixarmos de ser: o professor. eu até, passados treze anos podia já nem ser professor. mas para ela, para a sara, serei sempre. e o regressar a mim nessa condição faz-me acreditar que esta profissão é de uma imensidão maior do que imaginamos. a resposta chegou célere: "professor, obrigado! vamos falando sim. se puder gostava muito que me fosse dando opinião e orientando. confio em si. gostava mesmo. obrigado!". e aprendemos, com estes pequenos momentos que são a única eternidade que fica que o reconhecimento pelo nosso trabalho nunca vem de onde esperamos. vem daqueles a quem ensinamos. a quem damos, todos os dias, aquilo que faz ser quem somos: o que sabemos. e mesmo que me paguem para isso, ensinar é sempre dar mais do que se recebe. damos o que somos pelo que sabemos. e isso, como na sara, fica. fica lá, daquele lado, onde ficamos também. e isso faz acreditar que ainda vale a pena. que vale sempre a pena. dar. sem pensar nisso. ensinar. ser, verdadeiramente, professor.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| quando surge uma dúvida...

 
||| ... vou ser muito sincero. e isto é muito importante. li as cento e vinte e oito páginas, incluindo os nomes dos autores da norma zero dois/jne deste ano para os exames nacionais. são cento e vinte e oito páginas. e segundo a informação é a norma dois. a um, já lá vai e é adicionada a esta. estes tracinhos não são inocentes. evocam uma força de lei quase real. em subtítulo temos: instruções para a realização, classificação, reapreciação e reclamação. pronto. ler com atenção. sem letras pequenas. tudo letras grandes. para não enganar. mas eu li. com atenção. com muita atenção mesmo. e tenho uma dúvida. daquelas mesmo complexas. a minha dúvida é se devo cortar o saco que vai conter os exames da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. e se o devo fazer em duas ou mais tesouradas ou se posso deixar correr a tesoura. é que eu li tudo. e li quantas tesouras tenho que levar. os lápis. a cor da caneta. os passos todos tirando o dar os o bons-dias aos miúdos que creio que deve estar nas entrelinhas. desejar boa sorte já sei que não posso pois lembro-me bem que isso vem na folhinha que nos dão para saudar os examinados. diz-se: bom trabalho. sorte é para os afortunados. que não é o caso. por isso vou elaborar um pedido de esclarecimento. não arrisco ir para a sala sem que me respondam a estas duas questões. da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. e se posso deixar correr a tesoura no saco. quanto ao telemóvel dos miúdos já sei. pimba. anulado o exame. mais nada. e se não tiver identificação pimba. tipo identificação de emigrante ilegal. mas pronto. tirando isso a minha dúvida subsiste. não basta chamarem-me incompetente e incapaz em cento e vinte e oito páginas a verdade é que o que é realmente importante não respondem. acho que devia ser necessário pensar muito a sério sobre estre controlo absurdo do trabalho do professor. uma coisa são regras e normas nacionais para equidade. outra coisa é a determinação de tarefas básicas sob um manto de total desconfiança no trabalho dos profissionais que estão sobre tutela de um ministério surdo, mudo e cego que acha que mandar é melhor do que outra coisa qualquer. tudo isto assusta tanto que vou mesmo pedir esclarecimento. da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita posso cortar o mal pela raiz?...

28/04/2014

||| destas coisas de testar e ensaiar...

 
||| ... nunca fui um adepto do senhor. do obama. desde o yes we can que achei que era produto de um excelente golpe publicitário. mas tirando isso achei piada. foi à ásia e jogou à bola com um robot. no final rematou que se assustou porque era "demasiado humano". está bem. se forem milhares de drones mas que não sejam "demasiado humanos" já pode ser. isso e a conversa de intervalo. ó professor, já viu o sistema inteligente da cantina. nunca funciona. sempre que me dizem que um sistema, produto ou coisa é inteligente penso sempre que vai saber mais de mim do que devia. e andamos na moda destas coisas inteligentes. na escola, por causa de um cartão, sabem tudo de mim. a que horas entrei, o que consumi, as cópias que tirei, a que horas saí. é o reflexo em miniatura da sociedade que estamos a construir. a minha sorte é que "perco" sempre o cartão. quando mudarem para aquela coisa do dedo é que estou tramado. acho que vou começar a dizer que tenho uma doença de pele e tenho que usar luvas... mas pronto, tudo isto por causa dos testes. quantos testes fazer em tão pequeno período de tempo. houve um ano em que isto me aconteceu. já faz um bom tempo. foi talvez no terceiro ano em que dei aulas que defini este modelo que uso ainda. passo a explicar. não é nada de novo e quem conheça o modelo "americano" percebe a lógica para além dos recursos. é o meu modelo inteligente, ou dois ponto zero. defino dois elementos de avaliação. testes e ensaios. testes são testes. só para avaliar "o que sabem". domínio de conteúdos. sim, é uma folha ou duas com escolha múltipla. sim, cruzinhas. a vantagem é só uma. ou sabem ou não sabem. não há hipóteses de "adocicar" a coisa ou haver benefícios de pontuação. e os ensaios. sempre gostei muito desta palavra. ensaio. tentativa. desconstrução. ensaio. ainda me lembro de ter comprado uma guerra com os pais e educadores na primeira vez que fiz isto num sétimo ano numa escola em coimbra. guerra que ganhei e tive o privilégio dos pais/educadores no final do ano me virem agradecer pelo que tinha feito. um ensaio é mesmo isso. uma reflexão. livre na argumentação mas condicionada pelo tema. geralmente dava duas imagens ou dois textos para os alunos compararem. começavam o ensaio na aula e terminavam depois como desafio mensal. havia sempre espaço para "apresentação e defesa oral" na turma. uma discussão. o tema, sendo igual para todos, permitia isso. adoptei esta prática que dá uma trabalheira muito maior do que aqueles testes com tudo misturado que acabam por não ser nada de concreto. este modelo também não é. é o meu. inteligente ou não, "demasiado humano" ou não, mas é o meu. tenho pensado sobre ele. tem-me ajudado com os meus alunos. é difícil. é exigente. é complexo. mas como obama se surpreende com os robot's dos outros eu ainda sou surpreendido com o resultado deste modelo no final do ano lectivo. quase sempre. e isso é bom.

||| música [im}perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| uma aula em forma de civilização...


||| ...pedagogia: a consciência global da universalidade do devir histórico, assim como, das organizações civilizacionais numa visão transversal é sempre complexa para qualquer aluno [diria mais, para qualquer ser humano]. ver a árvore e não ver a floresta é sempre uma realidade presente na demonstração explicativa de qualquer sistema ou organização. esta aula pretende dar aos alunos uma oportunidade única de ter uma visão global sobre a decisão política, social e global das sociedades.

||| ... metodologia: o professor deve ter consigo o seguinte material: lápis de carvão, moedas de chocolate [três por cada aluno], um boneco lego para cada aluno, uma esponja, um balde com água e sabão/produto de limpeza e borrachas. a aula começa com o professor a projectar a imagem de abertura do google earth [o mundo/planeta terra]. os alunos estão sentados dois a dois nas carteiras. o professor entrega a cada aluno um lápis, três moedas de chocolate e um boneco lego. previamente o professor desenhou uma linha em cada carteira que divide os dois lugares dos alunos. o professor explica o desafio aos alunos. devem criar, na superfície da carteira [sim, desenhando na mesma], um mundo/país. devem dar-lhe um nome, uma língua, uma bandeira e um sistema organizacional/produtivo. devem destacar deste sistema três produtos principais e três riquezas naturais. os alunos desenham o seu país/território até ao limite da linha traçada pelo professor [a fronteira]. deve esta actividade demorar o tempo máximo de quinze minutos. findo este tempo os alunos devem procurar criar alianças, estabelecer trocas comerciais, iniciar diplomacia ou mesmo entrar em conflito para conquista. tudo isto é feito com os bonecos lego e as moedas. por cada relação diplomática pacífica são trocados os bonecos. por cada troca comercial ou conflito armado são trocadas as moedas. haverá um aluno que, em conjunto com o professor, arbitra as relações registando-as. os alunos podem juntar as mesas/carteiras sempre que um território é anexado ou conquistado. alguns alunos ficarão sem moedas e sem bonecos lego, outros com muito mais do que inicialmente previam. a actividade termina quando os "árbitros" conseguirem identificar uma "tendência" de organização. geralmente, por experiência, um dos alunos consegue um monopólio/império. no final dos noventa minutos os alunos e o professor fazem uma análise da disposição final e das relações estabelecidas com ganhos, perdas, modelos implementados e relações sistémicas nascidas destas organizações. 

||| ... esta aula tem como tema: a visão global sobre os modelos de relações sociais, culturais, políticas e organizativas das sociedades. é um desafio de final de ano lectivo pois exige um grau de domínio da turma/alunos quer no que concerne à sua autonomia de decisão, quer na forma como se relacionam entre si para que o desafio seja bem sucedido. é uma forma simples de colocar os alunos a olharem para os sistemas globais para uma percepção sobre o todo e sobre as partes. no final os alunos limpam as carteiras/mesas [também pode ser utilizada cartolina caso o professor não queira arriscar o riscar as mesas]...

25/04/2014

||| um professor [im]perfeito em liberdade...

 
||| ... obrigado a salgueiro maia e aos homens que hoje estão no quartel do carmo a falar por hoje poder escrever aqui o que escrevo e como escrevo, em liberdade. obrigado. não conheci o novo, o estado, antes deste. acompanho em idade o abril, o vinte e cinco. nasci e cresci num estado democrático, conquistado à história. sou professor. sou um curioso da história e estudei o seu rio. sou professor de história. e a liberdade é-me algo muito caro. é talvez a única coisa que me forma como pessoa e como cidadão. não tenho a memória de outros tempos. tenho a memória deste tempo. e a responsabilidade de o viver. e hoje, abro a televisão. vejo um cisma na democracia como nunca vi. na casa que devia ser do povo falam aqueles que dele estão afastados. na praça que foi símbolo da conquista dos futuros dias claros e limpos que se desejavam, estão aqueles que fizeram este dia. o vinte e cinco de abril e os dias que me foram dados a viver. um cisma. e penso. penso que sou professor. que tenho o privilégio de viver estes dias que me concederam aqueles homens que resistiram. aqueles que lutaram. aqueles que morreram. e penso. os meus alunos vão olhar para este dia de liberdade como eu olho, com a distância do tempo, para a implantação da república ou qualquer outro dia histórico que a memória colectiva chama de celebração. e ganho força nas mãos. fecho o punho. guardo no sangue a força destes homens que abriram estes dias e digo: não será por mim que a memória do que hoje temos que guardar se vai perder. falarei sempre em liberdade. falarei sempre em povo. falarei sempre em revolução. falarei sempre em direitos. falarei sempre em cravos e no direito de falar. e com isso, só por isso, tentarei com os meus dias vividos entre estes valores, manter abril aberto para que eles, os meus miúdos, possam viver os dias claros e limpos. por eles, por mim, para eles e para mim, o vinte e cinco de abril viverá e renascerá, todos os dias, sempre!

24/04/2014

||| sete, oito, nove...

 
||| ... ainda me lembro daquela reunião. ó colega, conte lá outra vez. ora, três, quatro, sete. sete negativas. o miúdo chumbava e era à grande. então mas quantos são no total da turma? conte lá, colega [um dia direi uns disparates sobre esta coisa do "colega"]. com o rodrigo eram dez. em vinte e oito, dez não passavam? espere. falta aqui a rita que também chumbava. onze. está bem. é uma boa média. um pouco mais de quarenta por cento. ainda falta um período. um conjunto de dias, diria eu. sempre defendi a ideia de semestre para avaliação mas ninguém me liga. o que é bom. são tantos os disparates que seria difícil sobreviver. então e agora. agora toda a preencher planos. planos? um plano para trinta e tal dias conseguir o que não se conseguiu em seis ou sete meses? sim. e vamos conseguir. pois vamos. daqui a um mês e pouco estaremos reunidos novamente. e estas negativas, agora planeadas, serão salvas. não pelo esforço dos miúdos que já o deviam ter feito desde o primeiro dia de aulas. mas do plano. ou do nosso esforço. ou da tentativa derradeira de dar a volta ao sistema. coisa em que somos cada vez melhores. cruzes colocadas. aulas na primeira semana. o esforço deles é o mesmo. o dos que planearam é o de sobreviver e fazer sobreviver aqueles que ainda precisam da escola para além do estar nela como em qualquer outro lugar. ajuda-se. verdadeiramente não se desiste. para além do cansaço. para além de ver que eles não fazem, muitas vezes, o mesmo esforço que lhes entregamos. mas fazemos. é o nosso trabalho. é o nosso dever. e no final, o sistema salvará uns e deixará outros para trás. sinceramente acredito que deixará para trás a nós. aqueles que fizeram mais de metade do esforço. mas veremos. tenho sempre fé no futuro. no sistema, nem por isso. voltarei aqui, mais uma vez para falar disto. do que é preciso ver. mesmo que dito, tantas vezes, num lento silenciar as palavras que precisavam ser ditas...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| do direito a resistir...

 
||| ... há um tempo escrevi aqui uma coisa. daquelas [im]perfeitas. que cada aluno e cada professor devia lutar pelo direito à alegria. vou um pouco mais longe. nenhum ser humano tem o direito de roubar a alegria a outro. seja adulto ou criança. mas o que acontece é exactamente o contrário. cedo aprendemos que o não pode ser dito de formas brutas e desconcertadas, a insensibilidade dos gestos, o não cuidar do outro enquanto pessoa, a agressão simples e desproporcionada, a desconfiança e o desamor são constantes, factores presentes, cada vez mais e em mais quantidade nas relações humanas. e na escola, em particular. mas fingimos bem que este não é o problema. fazemos de conta que temos que regras para cumprir. fazemos de conta que o nosso olhar cinzento e decepcionado sobre o mundo não afecta os outros. não se transporta para os nossos alunos. não se transporta para quem está perto numa comunidade cada vez mais dilacerada pelas coisas inúteis. é por isso que urge reclamar este direito à resistência. o direito a resistir a todos [sejam eles quem forem] os que nos querem roubar a alegria. tudo isto parece um daqueles panfletos românticos que por ai abundam. mas não é. é um olhar simples sobre a realidade que já não conseguimos ver. nada tem que cor-de-rosa. pelo contrário. é uma constatação do mais brutal facto da vida quotidiana. e por isso reclame-se o direito a resistir. por nós e por eles. mas principalmente, por aquilo que queremos recuperar para viver.

23/04/2014

||| daquelas coisas que não importam...

 
||| ... ó professor porque é que não stressa com os telemóveis? porque me preocupo mais com as atitudes. professor mas sempre que vamos ter aula na rua o professor diz para levarmos o telemóvel mas isso não é proibido? vou-te explicar uma coisa. vivemos no século vinte e um. eu e vocês. lembram-se daquela aula em que vos coloquei a fazer as tintas usadas pelos monges copistas e perceberam que sem isso não havia as iluminuras que hoje admiramos? lembram-se do pincel que fizeram e do desenho que criaram? lembram-se da dificuldade que isso foi? se hoje vos levo para a rua para um desafio que pode implicar o registo do mesmo porque vou negar uma técnica, uma tecnologia que existe simplesmente porque nunca ninguém vos ensinou como usar e por isso se tornou o mal de todas as coisas que acontecem na escola? ó professor, pois. mas nem todos pensam assim. pois é, tens razão. também houve quem sempre foi dizendo que o telescópio de galileu era um objecto diabólico. ou hoje o use para espiar os outros. o problema não está no objecto. está nos desafios de cidadania que nos coloca. qualquer um de vocês pode ser muito mais ofensivo com uma caneta e um papel do que com um telemóvel se o quiser fazer. andamos todos é esquecidos isso. e culpamos o objecto por nos esquecermos do que realmente importa. ensinar a utilizar. e é isso que faço de cada vez que preciso que usem esse objecto que é o telemóvel. pronto professor, numa mais pergunto mais nada. não, deves perguntar. só assim perceberás que é mais importante aprender do que proibir. e não te esqueças disto em tudo na tua vida. será sempre essa dicotomia que te vão apresentar como solução dos teus problemas. e pensa mesmo a sério nisto. porque um dia vais estar no meu lugar. não sei se como professor mas como profissional de qualquer área. e é teu dever como cidadão instruído teres parte do teu tempo disponível para esclarecer os outros. iluminar, como um dia falámos numa aula. não te esqueças disso e terás aprendido algo verdadeiramente importante. mais importante do que a pintura de uma tela como a que iremos fazer um dia, na rua, para ser fotografada ou qualquer outra coisa com o telemóvel. e foi esta a mais improvável das conversas numa improvável escola...

||| leituras [im]perfeitas...

 

||| música [im]perfeita...


||| dos outros, nos outros, com os outros...

 
||| ... não somos professores. não, não somos. numa escola, em algumas escolas [e ainda bem que são ainda poucos os casos] já não somos professores. somos outra coisa qualquer. e somos, muitas vezes outra coisa qualquer uns contra os outros. e a culpa não é só nossa. é da estratégia. da coisa. do sistema [como eu adoro cada vez mais a palavra sistema]. e não é por mal [embora eu seja um "hobbesiano"] nem por mau feitio. é pela lógica da coisa. a criada. a existente. a que nos leva a não ver a escola, a não ver a comunidade, a não ver o sistema em si em que nos movimentamos mesmo quando não queremos estar no sistema. pode parecer estranho mas é assim. tudo isto porque ainda me lembro de uma reunião onde deixei "em acta" que não mando para os meus alunos os chamados trabalhos para casa. todos os anos entrego, no inicio do ano, um texto. é uma folha a4 que envio para os pais [educadores] com o seguinte título: dicas para apoiar o trabalho do professor e ajudar o seu filho a estudar história. depois de uma breve consideração sobre a razão pela qual não enviarei trabalhos para casa elenco, com exemplos, cinco pontos. dois deles são verdadeiramente fundamentais. digo aqui quais são. o primeiro é que os pais [educadores] escolham um livro que seja uma biografia de uma das personagens históricas que os seus filhos [educandos] vão conhecer no ano lectivo em causa. um livro, uma personagem, uma história. vão, claro, recomendações de nomes e livros, muitos deles presentes na biblioteca da escola. o desafio é que ao longo de um ano lectivo leiam com os seus filhos partes do livro ou o livro todo. não há trabalho mais nenhum para além desse. o segundo ponto é que, num ano lectivo visitem dois locais dos dez que indico, fazendo-o em família ou em grupo. e caso não possam por algum motivo que me peçam que vou com eles. locais do património local, mesmo à porta da escola muitas vezes, mas fora o horário escolar. todos os anos lá entrego o documento no "departamento" [conceito estranho numa escola] e lá recebo as críticas do costume, principalmente sobre a questão dos "parâmetros da avaliação definidos no tal "departamento"]. perceber a escola é perceber que somos professores. não funcionários. não outra coisa qualquer. o nosso dever é cívico antes de mais nada. cívico. e lembrar isto é tão difícil...

22/04/2014

||| do saber que não se sabe...

 
 
||| ... sentado num degrau de acesso ao pavilhão central. o hábito de me sentar no chão é, muitas vezes, estranho a colegas e alunos. ou no chão ou num muro qualquer onde encosto o corpo para descansar um pouco. ou simplesmente para aproveitar um bocadinho de sol e silêncio. o sol dura sempre mais do que o silêncio. lá vem sempre alguém dizer qualquer coisa. ó professor que está aqui a fazer? olha, estou a aproveitar o sol. ah... está bem. foi boa a páscoa? ya. fui como os meus pais até viseu. a minha mãe é de lá. olha, já dei aulas lá perto. então e agora estão perto os exames. já sabes como queres ser quando fores grande? ó professor, eu já sou mais alto do que o professor. olha, também não é difícil. e lá vem o professor com essa pergunta. [e vão se juntando mais uns quantos à conversa e lá se foi o silêncio. uns sentados, outros de pé.] acho que vou para economia. é pá, vais para ministro. nada disso. gosto é só isso. temos é pouco tempo para estudar. são trinta e tal dias. depois exames. o professor vai fazer preparação? já estou a fazer, desde a primeira aula que vos dei. não precisam de mais. ó professor, fogo, tem que dar aulas suplementares. não estamos preparados. isso é porque ainda não estudaram. eu estudei. eu também. eu sei. mas estudar não é decorar. é saber. lá vem o professor com essas teorias. o que eu queria era saber o que responder em cada pergunta. tipo truques de resposta. pois... vens bater à porta errada. truques é como os mágicos. eu sou professor. para ilusionista não tenho jeito nenhum. fogo professor, mas podia dar umas dicas. dou-te uma: pensa, depois estuda. e estuda e depois pensa. faz isto várias vezes ao dia que vais ver que resulta. ó professor mas a minha explicadora diz que eu tenho que colocar sempre quem, onde e como em cada resposta. e que cortam por isto e por aquilo. ora então eu vou contradizer a tua explicadora [palavra que adoro - explicadora. é que o professor não explica, deve ser isso.] um exame é uma prova. não é um teste. um teste é uma coisa, uma prova é outra. na prova tu conheces todas as regras. eu como professor conheço todas as regras que vos disse logo na primeira aula e que temos aplicado. é pensares num atleta. o atleta tem que conhecer as regras da prova que vai fazer. prepara-se, ao longo de um período de tempo, para a prova. se as regras se mantiveram supera a prova sem precisar de mais nada do que confiar no seu trabalho feito e no seu treinador. eu para treinador e atleta não sirvo que desporto não é comigo. mas preparar para uma prova foi o que estivemos a fazer este tempo todo. mesmo que saibam o quanto sou contra isso e este modelo absurdo de pensar e fazer igual aquilo que é sempre diferente e mutável. por isso não são receitas para testes que são úteis em provas. fogo professor é teimoso. é do sol, digo a sorrir. a conversa terminou com a confiança que tenho neles. e eles em mim. fechei os olhos, aproveitei os últimos momentos de sol. segui o caminho até à sala. ali, naquele reino do meu tempo, falámos de coisas que vão ser examinadas. nesse tempo depois das receitas. e o que importa é mesmo isso. nada mais.

||| leituras [im]possíveis...


||| música [im]perfeita...


||| falar de liberdade mas só assim-assim...

 
||| ... no corredor. uma exposição. uns cravos feitos pelos miúdos mais pequenos. um senhor que vai falar na biblioteca. capitão, diz um miúdo. capitão. daqueles dos barcos. isso não é capitão. é pirata. não os piratas são os maus e este é bom. o senhor que vai falar. é que o vinte e cinco de abril é o dia da liberdade. repetido assim. mas sem a primeira parte. foi o salazar que morreu. quem? o salazar. não era capitão. os capitães são os bons. o salazar era o mau. uma fotografia colada na parede. a de sempre. a de salazar a ser "des"pendurado. sempre gostei muito mais da imagem que alfredo cunha criou num momento igualmente único. aquela de caetano arrumado entre caixotes. mas essa ninguém usa, pensei. ó professor, sexta-feira não há aulas. pois, é a liberdade, digo. quem? não é quem, é o quê. a liberdade. o tal dia. pois... o professor não vai ouvir o senhor que vem falar? vou. que fixe. podemos ficar perto de si. podem. é um capitão. é? sim. daqueles que estiveram na guerra e na revolução. qual revolução? a do vinte e cinco de abril. então mas isso não é só um dia, o vinte e cinco de abril. não professor é o dia da liberdade. ai é? é. foi o que disse a professora no outro dia. e que o salazar perdeu. então e quem era o salgueiro maia? lá está o professor com perguntas difíceis. ó rui, o professor perguntou quem era o salgueiro maia! diz aí... era aquele do taque, no filme. ah...! já me lembro. fogo professor aquele filme era só palavrões. mas até era fixe. a professora mostrou-nos. o professor não mostrou o filme aos seus alunos? ó rita, viram o filme com o professor. não? a sério? pois não. não viram. esse não viram. então? então, leram uma carta. e que seca... talvez tenha sido. mas sabes, era uma carta de um militar, um desses a quem vocês chamam de capitães, que estava na guerra longe e via como o seu pais estava. e para quem o vinte cinco de abril não foi um filme, uma exposição ou o dia da liberdade. foi o regresso e a libertação. e muito mais do que isso. muito mais até do que a liberdade. e pensei isto num silêncio que me assustou. não respondi nada. não viram o filme. vão ver, devo ter dito. apeteceu-me dizer que dessa liberdade nestes dias resta pouco de memória nas escolas. é que podem passar os filmes todos, encher os corredores de exposições e chamar todos os capitães que a liberdade, essa que se quer ensinar que foi conquistada naquele dia em que não haverá aulas não anda a passar por ali. por aqueles corredores. pela escola. e por nós. e isso é que falta ensinar. para que a memória não se apague. e o vinte cinco de abril não seja só o dia da liberdade como qualquer coisa de distante, invisível e histórico. que seja abril, verdadeiramente, em cada professor e em cada aluno. em cada sala e em cada momento em que se aprende que ser livre é o maior bem que um dia conseguimos [re]conquistar. que seja abril. somente. sempre.

21/04/2014

||| é preciso medir tudo...

 
||| ... somos muitos. os seres humanos. é pensar que somos sete biliões de outros. e por isso há a estranha vontade de nos classificar. não é bem uma vontade. é um reflexo. talvez pela ciência que nos diz que sendo um grupo visto como uma classe será mais fácil de catalogar as respostas válidas e universais. acontece que isso tem uma dupla resposta. ao agrupar, desconsidera. lá vem o pessoal das ciências sociais dar cabo da ciência. dizem. desconsiderar é margem de erro. e fica resolvido. tudo isto para dizer que sou e serei contra os rankings de escolas. e porque este ano, mais do que no passado até, este tempo que nos resta na escola será construído em função desses números. mesmo que nos digam que não. esses números a que se quer chegar, manter ou superar. mas esses números são classificadores. não no sentido simples da palavra mas no seu sentido mais complexo. agrupam. anonimizam. e é isto que é assustador. é contra isto que digo que não concordo nem concordarei com os rankings. a escola é uma. diferenciada em função de muitos factores. mas uma. a escola, no sentido abrangente. não são empresas que competem entre si. são comunidades que deviam formar uma só entidade maior do que a sua multiplicidade geográfica, humana ou organizativa. dizer que uma escola é melhor do que a outra é, antes de tudo o resto, um erro. depois de tudo o resto uma destruição avassaladora do que é a escola em si mesmo. ou devia ser. se o mérito tem função, a competição avaliativa tendo como base os resultados anónimos de grupos que se comparam entre si numa mesma função já é completa idiotice. por muito que me digam que não. que ajuda a melhorar. que não sei que mais... não. não ajuda, não. não, a escola não produz. cria. não, a escola não é uma fábrica ou empresa para competir no mercado com outras. a escola prepara o futuro da sociedade que somos e seremos. e a sociedade, por muito que queiram, não é feita de anónimos. é feita de pessoas. não é feita de grupos. é feita de famílias e gente que existe para além das tendências. andamos tão esquecidos disto que tudo o resto parece normal. parece normal uma escola, a escola, inteira, nacional e organizativa, ir gastar os últimos momentos de um ano lectivo a correr para um número. para subir, manter ou superar o seu lugar numa lista. que estranho que tudo isto me soa. mas deve ser só a mim...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...



||| dos tempos dos outros e do nosso...

 
||| ... quase no fim de um ciclo. mais um ano lectivo. quase no fim. estranho estar a dizer isto quando ainda falta o terceiro período. mas é que este não existe. verdadeiramente são trinta e poucos dias. e verdadeiramente não existe. deixou de existir. é o tempo dos exames. às dezenas. centenas. milhares. em todos os anos. para quase todos os alunos. tempo de "preparar" para aquilo que é só um dia, duas horas e pouco e mais mil trabalhos. o terceiro período não existe. é só isso. resume-se a isso. porque estava a pensar na preparação de uma aula e pensei nos três passos que tenho sempre que fazer. ver o programa [nunca vejo manuais ou coisas parecidas]. procurar. procurar nos livros, na memória, nos locais o que ensinar. o que quero dar-lhes. oferecer-lhes naquela aula. e depois o como. como o fazer. como transformar algo complexo em algo válido. para ser percebido, apropriado e compreendido. e no fim, transformado. mas dou por mim a pensar que o tempo, este tempo que me é roubado porque é preciso preparar para o exame me limita profundamente o acto mais simples e nobre que tenho. o de preparar uma aula. não, não é um tempo de noventa ou quarenta e cinco ou cinquenta minutos para preparar para qualquer coisa que não fui eu que pedi. é para uma aula. aula, mesmo. um daqueles momentos em que posso pensar com os meus estudantes o que podemos estudar em conjunto. e pensar em conjunto. isso já fica quase eliminado de muitas salas de aula neste período que não existe. e estranho isso. agora. sentado a pensar no quanto é imenso esse espaço de tempo que já tenho que roubar aos dias para preparar uma aula que não seja uma preparação para um exame. e até estranho estas palavras. não devia ser assim. não precisa ser assim. não pode ser assim. mas é...

15/04/2014

||| santa páscoa...

 
||| ... quando o cansaço é maior do que a vida. a pausa, mais do que necessária, é precisa. uma santa páscoa para todos/as. que este seja o tempo que o tempo precisa para parar tudo e suspender por um só breve instante a vida que corre para além dos dia. sejamos a substância do tempo. neste tempo. só por um breve instante que seja...

||| dos bons rezam os dias que passam...

 
 
||| ... premissa: há bons e maus professores. mas há professores mesmo muito bons. ainda os há. e são silenciosamente bons. todos os dias ensinam. todos os dias lutam. todos os dias conquistam miúdos perdidos. todos os dias abrem janelas onde havia paredes. todos os dias se cansam para além do possível para conseguir que aquele miúdo ou miúda tenha um futuro com mais formas de o conquistar do que o óbvio conhecimento decorado que o sistema obriga. há professores assim. estão calados. e ainda bem, por um lado. o seu reino é a sala de aula. lutam com as forças e ferramentas que vão tendo para que eles, os miúdos, aprendam. sejam estudantes. fazem tudo isto com a nobreza dos gestos simples. com as coisas que há na escola. papel, caneta, lápis e pouco mais. não importa. importa não desistir deles, os miúdos. e deles, professores. são pessoas imensas. de rosto cansado mas sereno. que dizem sempre que não desistiram ainda. que abraçam os seus alunos. que lhes dão aquilo que o sistema quer retirar: oportunidades. há professores muito bons. mestres, diria eu. que remam contra o sistema quebrando as suas regras dentro desse mesmo sistema. ninguém os ouve. ninguém os vê. não gritam nas ruas. mudam as coisas na sala de aula. não brandam aos céus por condições melhores porque sabem que o que é preciso está tudo lá. eles e os miúdos. há professores extraordinários. e ainda bem. valha-nos isso. 

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| não percebi, não importa...

 
||| ... o simples acto de não perceber uma coisa. e aquela vontade de perguntar. mas o medo de o fazer. isto é o que a escola ainda não conseguiu desconstruir. e arrasta-se ao longo da vida. e quem sabe não fala. há uma cultura profunda da ignorância. ou do saber sem saber nada. aquilo que se ouviu num vídeo visto em cinco minutos vale mais do que o livro lido, muitas vezes em segredo. saber não é um lugar de mérito. infelizmente. mas aquele saber esperto já vale muito. isto é óbvio numa conversa ouvida entre miúdos. vi num vídeo que um sapo pode saltar dez metros. está bem. pode ser que sim. até acredito. e aquele miúdo caladinho que até sabe a razão deste prodígio está calado. leu algures como tudo isso se passa. mas não fala. porque sabe. é acusado de graxa ou tótó. nerd, como lhe chamam agora. cultiva-se esse chico-espertismo assustador. e aquele que sabe só serve para uma coisa. para copiar no teste. ou para explicar uma coisa antes de entrar na aula sem um tpc feito. a escola devia legitimar o conhecimento. não o faz. como todo o resto da sociedade não o faz. e depois culpamos o sistema. este modelo tem a falácia que começa na sala de aula. pelo simples acto de pensar que saber é decorar. é saber de na ponta da língua ou da caneta a resposta a uma pergunta pré-programada. não é. nunca foi. nunca será. mas andamos a fingir o contrário. infelizmente.

14/04/2014

||| das coisas que sendo simples...

 
||| ... aquilino ribeiro escreveu o romance da raposa para uma criança. para contar uma história. virtuosamente escrita. difícil, hoje, dizem. por isso, pimba. banda desenhada. simplifica-se a linguagem e já está. um mestre da língua portuguesa pensaria disto que lhe assaltaram a obra. o que queria ensinar era mesmo a complexidade da palavra. tive o privilégio de andar por terras do demo e visitar a casa de aquilino. e esta história é por lá contada. como perfeição do simples acto de ensinar. que não é por ser simples que é mais fácil perceber. e penso nisso sempre que me encontro nesse lugar do pensar uma aula. simples? não. a desconstrução do raciocínio é importante porque os miúdos estão em construção da sua lógica. mas experimentar o pensamento é um exercício necessário. ah... então será necessário cativar. mas isso é o lugar do espectáculo. e o espectáculo aposta no deslumbre. no lugar da surpresa. e nisto vivemos nos últimos anos. é por isso que as coisas simples, as verdadeiramente simples já não nos prendem a atenção. tem que se interactivo. mexer. ou ser em inglês para lhe dar uma contemporaneidade que não existe para além de uma bacoca modernice. é active inter multi plus. pois é, é. isso e mais mil coisas inúteis em que caímos com uma réstia de esperança de nos entretermos um pouco mais. mas passado poucos minutos o tempo de atenção gasta-se. é seca. diz-se logo. já vi. já conheço. já percebi. um homem com uma guitarra que toca uma música não basta. é preciso a maior orquestra do mundo. interactiva, de preferência. mas há um limite para tudo isto. e ainda bem. o limite é a nossa própria capacidade. os nossos próprios limites. o tempo agora contado em minutos vai morrendo lentamente. venham as horas. e venha a guitarra de uma só corda para durante meia hora sermos capazes de gastar o tempo sem perceber se ele passa ou não. temos que ensinar para isto. para a paciência. para o escutar. para o entender. em cinco minutos não se pode apresentar uma ideia. pode apresentar-se uma premissa. nada mais. não nos enganemos. mais. já chega. voltemos ao lugar da percepção para percebermos que aprender exige tempo, dificuldade e compreensão. por muito que isto nos custe admitir.

||| leituras [im]perfeitas...

 

||| música [im]perfeita...

||| é a cultura, estúpido...


||| ... não sei. acho que esta semana de interrupção como lhe querem chamar, não me apetece escrever sobre a escola. apetece-me escrever sobre aprender. isto porque ontem jogou o benfica. e isto porque ontem fui a museu [não em trabalho] e as luzes tiveram que ser acesas porque ninguém por lá andava. nas ruas miúdos e pais "encarneciam" os espaços e ilustravam tudo com gritos de vitória. sou adepto das duas coisas. não do benfica pois sou verde. mas da cultura. vista em sentido lato. prefiro ver pais a levarem os filhos ao futebol do que não os levarem a lado nenhum. mas assusta-me que não vão também a um museu, um concerto, um teatro [nem que seja de rua]. e lá vem o preço. é caro ir a um museu. e não é ir ao futebol? o museu do domingo de manhã é gratuito. o futebol raramente o é. trata-se apenas de um hábito. um reflexo. passar pela porta e entrar. perguntar o que é. perguntar quem somos e de onde viemos nesta história que é a nossa. nesta cultura que é a nossa. e se o futebol foi jogado pela primeira vez em cascais, ali mesmo ao lado da casa das história paula rego e do museu do mar rei d. carlos, também essas e outras histórias fazem parte de nós. num tempo em que as escolas não levam os miúdos a lado nenhum cabe, mais do que nunca, aos educadores abrirem essa porta a novos hábitos. a todos os hábitos. somos aquilo que fomos. e só preservarmos aquilo que conhecemos. custa ver um país assim. correremos verdadeiros riscos de identidade e desaparecimento da cultura enquanto património se não mudar qualquer coisa. 

11/04/2014

||| dos miúdos com nome de traquinas...

 
||| ... tive, ao longo da minha vida como professor, dois alunos que não esqueço nunca. ambos me ensinaram a ser o professor que sou. ambos se chamavam rodrigo. por curioso que pareça. ambos foram os alunos mais traquinas que já tive até agora. acho mesmo que ainda me vou cruzar com mais um rodrigo até deixar esta profissão. deve ser sina. o primeiro foi logo no meu ano de estágio. aluno do sétimo ano. o rodrigo era um miúdo fantástico. imensamente inquieto. era impossível estar uma aula no mesmo lugar durante muito tempo. mas fazia tudo. contrariado, mas fazia. o pai era pedreiro. e esse era o seu sonho também. estudar não lhe fazia sentido nenhum. o que ele gostava era de construir. e aprendi com ele isso mesmo. a importância de construir coisas. de dar significado às coisas. foi com ele que aprendi a dar as primeiras aulas do sétimo ano, sobre a origem do homem, obrigado os meus alunos a estarem na aula com o polegar atado. para perceberem a importância dessa simples evolução. e de como as ferramentas são mais do que importantes obrigando-os a criar instrumentos partindo pedras. foi ele que ensinou isso porque tive que aprender que as coisas para fazerem sentido devem ter um significado. e foi ele que me ajudou, horas a fio, a montar "barracas" para um feira medieval quando todos os outros achavam que tudo nascia feito. eu e ele de martelo na mão a pregar pregos em tábuas para construir "barracas". adorou esse trabalho. no final pediu-me se lhe oferecia o martelo. ainda levei um raspanete por o ter feito porque era material da escola. mas lá foi ele a dizer obrigado. ele o martelo que lhe ofereci. o outro rodrigo era também um miúdo eléctrico. sexto ano. numa terra pequena longe dos olhares do mundo. reguila como poucos. brincalhão como poucos. logo: necessidade educativa especial. diziam. era daquelas coisas modernas que nós não tivemos direito de ter. qualquer coisa de atenção. não era nada disso. era só um miúdo. no sentido literal e exponencial da palavra miúdo. estava habituado a brincar nos campos abertos da imaginação e mesmo entre a relva e as árvores. estar numa sala fechado era uma seca. era só preciso ganhar-lhe a atenção. o gosto por descobrir aquilo que a imaginação lhe permitia em todos os lugares menos na escola onde tudo era repetição. tinha uma aula por semana comigo para apoio. para além de ser meu aluno em história e geografia de portugal. nessa aula de apoio eu devia ensinar-lhe a ler e escrever melhor por causa do "problema" que lhe tinham diagnosticado. foi ele que me ensinou. sempre usei a estratégia dos os colocar a contar histórias que eles próprios escreviam. depois era só corrigir os erros. era o primeiro a aparecer na sala. porque era para inventar coisas. aprendi com ele isso. que nada do que está nos livros é mais importante do que a imaginação que está com uma vontade imensa de se soltar no pensamento de um miúdo. aprendi a respeitar esse lugar livre. de fazer meio caminho para eles fazerem meio caminho também. aos dois rodrigos, obrigado. fizeram de mim melhor do que alguma vez pensei ser. obrigado.
 

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| do outro lado do eu...

 
«sinto um vazio e um silêncio tão grande que eu olho e não vejo,
oiço e não escuto, a língua move-se e não falo.»
madre teresa
 
 
||| ... uma dia ofereceram-me um livro. foi o livro mais importante e mais significante que algum dia me ofereceram. quando o li, mudei. perdi toda a alegria que tinha. nunca mais a recuperei. porque era um livro cheio de dúvidas de uma pessoa. não importava ser de quem era. eram as cartas de madre teresa de calcutá. ao ler imaginei-a a escrever tudo aquilo no fim de um dia numa solidão imensa. cartas. coisas que já ninguém escreve. numa crise de fé, como lhe chamou o autor que tentou fazer uma leitura de tudo aquilo. completamente dispensável, a leitura. importava sim, as palavras dela. tenho a sorte de ser um homem com fé. mas isso também não importa nada. importa aquela dúvida suprema de alguém que um dia se dedicou a uma causa. aquela dúvida a meio do caminho como poderia e escreveu dante na sua divina comédia. o estar perdido algures a meio da vida. cheio de um vazio imenso. esse vazio que é de uma tristeza profunda por ver o que se vê, por se ter o que se tem, por viver o que se vive nestes tempos tão estranhos. é que para além de se ser professor, somos pessoas. e mesmo que, com o esforço imenso de não o passar para os miúdos e para os outros, aquilo que se vê, sente e vive fique preso em nós como realidade a que não podemos escapar. e há alturas em que as forças falham. em que, por muito minimalista que a nossa vida seja [e eu sou um adepto profundo deste ter o mínimo - acho que um dia as minhas coisas todas vão caber numa caixa e nada mais] o roubar da alegria é maior do que tudo o resto e falhamos. faltamos. não somos mais o que devíamos ser. porque afinal, o que vamos fazendo, para os outros é tudo normal. graça lobo dizia isto numa entrevista e como concordo com ela. e porque estamos de pé, no dia seguinte, é porque aguentamos e temos que continuar. sem direito ao descanso. cercados de gente que nos rouba a alegria. e nada há de mais bruto do que alguém que rouba a alegria a outro alguém. por falta de cuidado, por um grito, por qualquer coisa absurda que não faz parte da natureza humana mais básica. e com isso rouba a alegria. e o direito ao descansar um pouco, só um pouco, da batalha. porque a guerra, essa tem sempre que continuar. aquela frase com que ilustrei este texto resumo tudo. porque se nos roubam a alegria é nosso dever único e simples de desistir. ou não. ou sair de onde estamos para encontrar essa alegria. alguma coisa que cuide de nós. que olhe para nós como pessoas. que veja, não alguém que tem sempre que continuar mas alguém a quem é preciso dar o braço para ajudar a sentar. que vê em nós não a força mas a fraqueza. e é isto que nos falta. na vida e na escola. um pedacinho pequeno de humanismo. e de pararem, de uma vez por todas, de nos roubarem a alegria...

10/04/2014

||| dos maus hábitos...

 
||| ... estava um daqueles dias de sol que vão sendo raros. tenho o péssimo hábito de me sentar no chão. até dizem que faz mal a tudo. à coluna, às pernas, à cabeça, aos ossos, etc... mas sento-me. e cada vez mais. maus hábitos. e tinha uns quatro ou cinco miúdos sentados ao pé de mim. vieram-me perguntar o que deviam escolher para o futuro. a minha pergunta para os ajudar é sempre: como querem ser no futuro? não é o que querem ser. é como querem ser. raramente me dão uma resposta concreta. quero ser engenheiro, cozinheiro, economista, actor. nunca como querem ser. talvez ainda seja cedo demais para entenderem isso. o que me assusta? um sistema que deixa para os últimos trinta e poucos dias de um período em jeito de sprint final a decisão do que vão ser aqueles miúdos. ó professor, eu gostava de ser professor. parei e ia dizer aquela barbaridade que geralmente nos sai pela boca: tudo menos isso. pensei um segundo. disse. fazes muito bem. é uma profissão difícil mas fascinante. tal como muitas outras. e um dia vou reformar-me sem reforma e assim podes tomar o meu lugar. um mundo sem professores será um mundo muito mais pequeno. muito mais imperfeito. ó professor mas toda a gente me diz: tudo menos professor. pois mas eu não te posso dizer isso. não é verdade. se é difícil: é! muito. mas também as outras profissões o são. mas se fores para professor vai por vocação. dedicando-te a uma aventura que será muito maior do que tu pensas. mas lembra-te. no dia em que o mundo não precisar de professores ou ninguém quiser ser professor é porque deve fechar e atirar a chave para muito longe. e sabes, o futuro da educação será uma verdadeira aventura. acredito plenamente que será daqui que a próxima revolução sairá. terás nas mãos o futuro. e isso não há em quase nenhuma outra profissão. aproveita isso se é isso mesmo que queres. passou uma colega por nós. comentário: ó colega a reunião já começou. nem reparei que estava aí. [lá vem o reparo de estar sentado no chão]. levantei-me. sacudi as calças e lá fui. o sol aquecia o dia. e senti que disse o que sentia mais do que uma simples piada barata sobre a minha profissão que representa mesmo aquilo em que acredito...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| se isto não vos parece muito...

 
||| ... o pensamento rematou-se assim: se os professores ainda não perceberam que estão a ser cilindrados não sei o que será preciso mais. foi daquelas conversas de fim de dia depois das portas fechadas. levei aquela frase no bolso. e depois aqueles argumentos de classe. que não há uma classe docente. é um fado. como se fosse destino marcado na palma da mão. como se todos fossemos de ferro. como se fosse sempre possível aguentar mais. mas não é. e ninguém diz basta. vai-se cumprindo. e basta olhar para os rostos de todos e ver o que isso faz a cada um. pessoas. sim, os professores são pessoas. muitos com filhos pequenos. com vidas grandes. cheias de coisas que ficam por fazer. roubar um pouco mais de tempo a nós, pessoas e aos que nos estão perto. dizemos que tem que ser. por medo. medo da inspecção. de perder o emprego. de ser olhado pelo outro como imprudente ou insano. e em surdina dizer que já não se pode mais. precisar de ajuda e não a pedir. é o pior que pode acontecer a alguém. ficar feliz pelas coisas pequenas. aquele miúdo que no final de uma aula até respondeu a tudo e nos surpreende. mas essas coisas estão a perder a força de outros tempos. porque o que nos está a faltar é tempo para viver. porque contados os dias estamos a ser cilindrados. mesmo. e se não basta ver e sentir tudo isto o que será preciso para dizer basta?

09/04/2014

||| há dias assim...

 
||| ... professor esta é a minha mãe. o meu pai está ali no carro. vim só à escola ver se já tinham saído as notas. não rapariga, ainda estamos em reuniões. ok. é que a dt disse que era esta semana mas não fiquei com a data. a mãe, mulher atenta ouvia a conversa. ó miúda vai mas é brincar, disse eu. aproveita estes dias e deixa lá o estudo e vai brincar. ó professor fogo é sempre o mesmo. os outros professores estão sempre a dizer para eu estudar e o professor a dizer para eu ir brincar. pois, é o que tu precisas na tua idade. ó professor eu já tenho dezasseis anos. já não brinco. fazes mal. fazes muito mal. eu tenho muitos mais anos do que tu e ainda brinco. e muito! pronto, chama-lhe o que quiseres mas não vás estudar. vai passear, ao cinema, ver o mar ou a serra, andar pelas ruas. tudo menos estudar que faz mal. sabes que até isso nos querem roubar. no meu tempo andávamos o tempo todo à espera das férias da páscoa. agora já nem isso podemos dizer. é interrupção lectiva. inacreditável. como se a nossa função fosse interrompida. nada disso. para mim são férias. por isso descansa e brinca mesmo que digas que já não o fazes. a mãe olhava para mim com ar de espanto. ó professor, fogo, diga lá o que vamos estudar no último período. nada. não vamos estudar nada. por isso podes ir passear com os teus pais nestas férias. ou conversar com os amigos. ó miúda ganha juízo e não estudes! no final a mãe falou. por momentos pensei que me ia desancar. terminou: obrigado professor. porque esta gente nem sabe ser criança. é mesmo isso. nem já isso sabem ser. não são nada. nem uma coisa nem outra. eu cá, quando for interrupção lectiva farei o gosto ao tempo e tirarei, mesmo, férias de tudo. só assim posso ter paz e forças para não deixar nunca de brincar e de ser pessoa. mesmo que digam que é só uma interrupção no correr dos dias. esse gosto não lhes dou...

||| música [im]perfeita...


||| somos peças, nada mais...

 
||| ... sento-me. na sala há um borborinho onde um dia houve conversas. olho para aquele cenário e sinto somente isto. peças. transformaram-nos a todos em peças. retiraram o lugar do humanismo e colocaram, nesse espaço, a operação. o fazer constantemente repetido. um exercício estranho de mecanização do acto belo de educar. oiço: eu já nem consigo avaliar como deve ser. nem consigo ver se aquilo foi um pequeno esforço que o miúdo fez com grande valor ou simplesmente um golpe de sorte. faço contas. basicamente. na tabela. doze mais doze mais quinze a dividir por três mais uma coisa qualquer que coloco ali como factor de diferenciação. isto assusta. destrói. faz da escola esse lugar onde todos somos peças. lembramos aquelas caixas onde os operários de uma fábrica arrumam os materiais para produzir qualquer coisa. contados, controlado, pesados e substituídos se for preciso. há poucos rostos jovens na escola. reparo nisso agora. já nem falo de professores jovens. falo de rostos, jovens. descansados. há em todos uma exaustão para além do possível. qualquer coisa transforma-se num caso. numa luta pessoal para combater. numa resistência para fugir a mais uma coisa para fazer. e não é por não querer fazer. é por não aguentar mais nada. nem mais uma pequena coisa. não suportar mais que nos roubem a juventude que resta e que é força para continuar a respeitar os alunos. esses, no último reduto da nossa força, já. cenário estranho este. na escola. sim, estou a falar de escola. por mais estranho que possa parecer.

||| leituras [im]perfeitas...


08/04/2014

||| miúdo sentado num banco...

 
||| ... eram oito horas da manhã. quando são estas horas raramente reparo no que se passa à minha volta. vou numa espécie de meditação transcendental para ganhar forças para enfrentar os dias que correm. já não estamos em aulas. estamos em reuniões. reparei, ao entrar na escola, num miúdo. tirei a rápida conclusão que seria filho de uma das funcionárias da escola para estar ali naquela hora. tenho o mau hábito de falar com toda a gente e lá disse bom dia. bom dia professor. estranhei. ó pá, que estás aqui a fazer? os meus pais deixaram-me aqui. como? sim, deixaram-me aqui porque foram trabalhar. então mas não há nada para fazer na escola agora. pois, professor mas eles não tem onde me deixar. e eu não tenho para onde ir e aqui estou bem. pousei a pasta no chão e sentei-me ao lado dele. então, e porque não vais ter com os teus amigos? os pais deles não os deixam sair de casa assim professor. só se formos todos juntos. estou à espera deles mas antes das dez não aparecem. eram oito. e professor, até pode ser que não venham. nem sei. vou ficar por aqui. o miúdo olhava para o telemóvel que tinha na mão como desejando secretamente uma mensagem ou telefonema que o pudesse salvar daquilo. era só um miúdo, sozinho. não é, sequer, representativo de qualquer universo de estudo. era só um miúdo sozinho deixado ali por uma sociedade que esqueceu o valor da humanização. disse, já de pé porque me estava a atrasar: ok, se os teus colegas não vierem vais ter comigo à sala vinte e cinco no bloco a. e eu vou almoçar contigo, combinado? vamos ali ao shopping comer qualquer coisa. vens comigo e com outros professores. agora tenho que ir para reunião. combinado? sim professor. obrigado. ao meio dia e meia lá estava ele à porta, à espera. os "colegas" olharam para mim de lado. eu disse que era uma aposta que tinha feito. comemos um belo hanburger com montes de batatas fritas. vi-o sorrir por um breve instante. não era meu aluno. talvez nunca será. era só um miúdo sozinho deixado por nós que nos desumanizamos todos os dias num sistema que deixa crianças sozinhas numa escola que não as vê...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| do tempo perdido em buracos negros...

 
||| ... é simples. dias de reuniões. são simples. das oito horas às vinte e uma horas. reuniões. sim, a sério. bom dia colega. colega? sempre me assustou quando me dizem isso. acho que devo ter visto aquela pessoa umas duas vezes num ano no percurso do corredor num cumprimento de segundos. nunca trabalhei com ele ou com ela. apenas estamos no mesmo local a que ainda chamam escola. respondo sempre educadamente: bom dia. olhe e já agora chama-se... rui. ok, obrigado. e pronto. tomado o lugar na cadeira ali fico. tiro o meu caderninho e uma folha de papel [porque mostrar o computador ou ipad é snobismo e porque é mais prático porque com a duração da coisa a bateria vai-se e depois é preciso aquele ritual todo de roubar electricidade]. fixo o olhar dos meus "colegas". há uma exaustão. profunda. quem coordenará a reunião olha para os outros quase a pedir ajuda. estendo o braço e digo que fico com um papel qualquer para verificação. ao menos estou entretido. calham-me umas fichas para registo de notas. um "colega" secretaria a reunião. a acta. a sacro-santa acta tem que ficar bem feita. cumprir aquelas coisas todas. vamos começar? sim porque se assim não for, atrasa. atrasa? penso? como é que uma reunião de duas horas e meia pode atrasar? mas pronto. ok. vai falando quem coordena aquela orquestra de gente desligada. e depois a cantilena começa. maria santos, número treze, português onze, história, dezassete. é lá colega, está generoso! comentário que ignoro. ou faço aquele sorriso de quem é completamente estúpido e novo na coisa. continuamos. trinta e tal vezes. depois as cruzes. ó colegas não se esqueçam de colocar cruzes porque depois vou ter que vos chatear para cá voltar. é pá, isso é que não. tudo verificado. não. ainda falta o papel. qual papel? o papel. aquele do plano não sei o quê. já perdi a noção das siglas. ah... desculpem. não faz mal. e entra quem devia estar a tomar caso dos alunos com necessidades educativas especiais. falar de uma miúda em dois minutos em que ninguém já ouve nada. alguém faz um comentário. pois, mas comigo ela até faz as coisas. pronto, está bem. tenho que ir para a outra reunião, pode ser? pode. lá vai o homem com os seus especiais desdobrar-se em mais não sei quantas informações para outra sala ao lado. é pá, até trouxe umas amêndoas mas ia-me esquecendo. o saquinho colorido é atirado para o centro da mesa. quer colega? não, não gosto de açúcar em cima disto tudo. já quase passaram duas horas. um professor levanta-se para ir à janela. está um dia bonito. olha lá para fora com aquele desejo secreto de estar em todo o lado menos ali. uma voz irrompe no meio das cabeças baixas a preencherem papeis. olhem lá, o mário está melhor nas vossas aulas? está, mas ainda provoca muitos os colegas. ele comigo até assentou. e está no fim da reunião. não se esqueçam das cruzes!!!! e de assinar a folha de rosto da acta. obrigado, diz quem coordenou aquilo tudo. aquilo que foi tudo menos uma reunião. foi um bando de operários a operar. dos miúdos, sobre os miúdos, nada. sobre ideias para aulas em conjunto, nada. sobre práticas pedagógicas, nada. um só remate de vez em quando: é pá este está cheio de negativas. o tempo é todo inútil. completamente e miseravelmente inútil. resta a certeza que isto se vai repetir cinco ou seis vezes num dia até às vinte e uma hora e trinta minutos. para depois tudo ir à inspecção. verificar tudo uma vez mais. dos miúdos, para os miúdos, nada. um  vazio assustador. que medo que me mete esta escola. que pavor sinto em cada parte do meu corpo ao ver no que nos transformaram. e todos fechamos a porta exaustos de tanta coisa estúpida e inútil. e assim vão os dias nas escolas. infelizmente.

07/04/2014

||| detesto a palavra indisciplina...

 
||| ... tenho quarenta e oito horas para criar um projecto que tem como mote a palavra: indisciplina. quarenta oito horas para um projecto de um ano lectivo. ok. tudo bem. o pior é que eu não gosto da palavra indisciplina. pior ainda, a minha perspectiva é muito diferente do que por ai anda. andei numa viagem sobre projectos, encontros, recursos e coisas que tais. daquelas viagens pelo mundo virtual e pela informação. vi já muita coisa. toda centrada numa coisa: controlo. como controlar. há uma coisa que já descobri: não vou por ai. se essa fosse a fórmula de sucesso já tinha resultado. depois há a chamada: gestão de conflitos. ora bem... quem sabe o que é uma sala de aula sabe estas coisas da gestão é muito mais complexa do que parece. e depois, o problema, o foco é em evitar o conflito e não em o gerir. talvez seja essa a porta a abrir. faço sempre o exercício de colocar no centro de uma folha de papel branca um ponto. o ponto de partida. será mesmo esse. como começar por evitar chegar à indisciplina e ao conflito. a comunicação ajuda. a criatividade também. o conhecimento é fundamental. a relação pedagógica, também. a inovação e a envolvência ajudam. agora como moldar tudo isto num projecto? simples. é colocar-me no lugar dos miúdos e dos professores. não como perspectivas mas como um só. sim. um só. os dois, um só. e pensar que não escolheram estar juntos. foi determinado que assim o seja. e como construir novas soluções para velhos problemas. esse é o mote. e agora, mãos na massa que já passaram cinco minutos a escrever este texto...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| daqueles lugares na vida...

 
||| ... dois dias. já passaram. hoje e amanhã estou fechado. para criar um projecto. sobre indisciplina. palavra que detesto. gosto de rebeldia. mas isso agora não importa. quero falar de uma senhora. na minha vida já tive muitos privilégios. sei mesmo que sou um homem afortunado por ter tido a oportunidade de privar com quase todas as pessoas que admiro. falta-me uma. mas lá chegarei. esta senhora é maior do que o mundo. chama-se teresa ricou. disse para uma plateia de gente a quem estão a tirar a esperança para não desistirem. que há sempre que continuar. trinta e três anos depois ela ainda continua. e foi ver isso quando chegou. ao conversar e pedir estágios para os seus miúdos. gosto tanto que a gente que gosta de ensinar chame miúdos aos miúdos. não é meninos ou alunos. é miúdos. e ao chegar lá estavam dois desses miúdos a correr atrás de uns patos que andavam pela relva. sorrimos os dois e fomos dizendo em voz alta que ali ainda se brincava. melhor recepção não lhe podia dar. gostei tanto do brilho dos olhos de quem se dizia exausta mas não zangada. sinto exactamente o mesmo. estou exausto. mas não estou zangado. sinto que falhei muitas vezes com muitos. comigo mesmo. estou exausto de lidar com coisas estranhas e faltas dos outros que muitas vezes passam a ser as minhas. mas não zangado. um professor não pode estar zangado porque tem a melhor profissão do mundo. ensina a ser futuro. e apeteceu-me partilhar este pequeno momento que ninguém viu mas eu vi. caminhei dois minutos e pouco ao lado da teresa, a tété, a falar de miúdos que brincam. e tudo o resto foi só mais uma memória que ficará até o tempo me fazer esquecer. mas que a vivi, vivi. e por isso estou imensamente grato.