||| ... estava um daqueles dias de sol que vão sendo raros. tenho o péssimo hábito de me sentar no chão. até dizem que faz mal a tudo. à coluna, às pernas, à cabeça, aos ossos, etc... mas sento-me. e cada vez mais. maus hábitos. e tinha uns quatro ou cinco miúdos sentados ao pé de mim. vieram-me perguntar o que deviam escolher para o futuro. a minha pergunta para os ajudar é sempre: como querem ser no futuro? não é o que querem ser. é como querem ser. raramente me dão uma resposta concreta. quero ser engenheiro, cozinheiro, economista, actor. nunca como querem ser. talvez ainda seja cedo demais para entenderem isso. o que me assusta? um sistema que deixa para os últimos trinta e poucos dias de um período em jeito de sprint final a decisão do que vão ser aqueles miúdos. ó professor, eu gostava de ser professor. parei e ia dizer aquela barbaridade que geralmente nos sai pela boca: tudo menos isso. pensei um segundo. disse. fazes muito bem. é uma profissão difícil mas fascinante. tal como muitas outras. e um dia vou reformar-me sem reforma e assim podes tomar o meu lugar. um mundo sem professores será um mundo muito mais pequeno. muito mais imperfeito. ó professor mas toda a gente me diz: tudo menos professor. pois mas eu não te posso dizer isso. não é verdade. se é difícil: é! muito. mas também as outras profissões o são. mas se fores para professor vai por vocação. dedicando-te a uma aventura que será muito maior do que tu pensas. mas lembra-te. no dia em que o mundo não precisar de professores ou ninguém quiser ser professor é porque deve fechar e atirar a chave para muito longe. e sabes, o futuro da educação será uma verdadeira aventura. acredito plenamente que será daqui que a próxima revolução sairá. terás nas mãos o futuro. e isso não há em quase nenhuma outra profissão. aproveita isso se é isso mesmo que queres. passou uma colega por nós. comentário: ó colega a reunião já começou. nem reparei que estava aí. [lá vem o reparo de estar sentado no chão]. levantei-me. sacudi as calças e lá fui. o sol aquecia o dia. e senti que disse o que sentia mais do que uma simples piada barata sobre a minha profissão que representa mesmo aquilo em que acredito...
