||| ... no corredor. uma exposição. uns cravos feitos pelos miúdos mais pequenos. um senhor que vai falar na biblioteca. capitão, diz um miúdo. capitão. daqueles dos barcos. isso não é capitão. é pirata. não os piratas são os maus e este é bom. o senhor que vai falar. é que o vinte e cinco de abril é o dia da liberdade. repetido assim. mas sem a primeira parte. foi o salazar que morreu. quem? o salazar. não era capitão. os capitães são os bons. o salazar era o mau. uma fotografia colada na parede. a de sempre. a de salazar a ser "des"pendurado. sempre gostei muito mais da imagem que alfredo cunha criou num momento igualmente único. aquela de caetano arrumado entre caixotes. mas essa ninguém usa, pensei. ó professor, sexta-feira não há aulas. pois, é a liberdade, digo. quem? não é quem, é o quê. a liberdade. o tal dia. pois... o professor não vai ouvir o senhor que vem falar? vou. que fixe. podemos ficar perto de si. podem. é um capitão. é? sim. daqueles que estiveram na guerra e na revolução. qual revolução? a do vinte e cinco de abril. então mas isso não é só um dia, o vinte e cinco de abril. não professor é o dia da liberdade. ai é? é. foi o que disse a professora no outro dia. e que o salazar perdeu. então e quem era o salgueiro maia? lá está o professor com perguntas difíceis. ó rui, o professor perguntou quem era o salgueiro maia! diz aí... era aquele do taque, no filme. ah...! já me lembro. fogo professor aquele filme era só palavrões. mas até era fixe. a professora mostrou-nos. o professor não mostrou o filme aos seus alunos? ó rita, viram o filme com o professor. não? a sério? pois não. não viram. esse não viram. então? então, leram uma carta. e que seca... talvez tenha sido. mas sabes, era uma carta de um militar, um desses a quem vocês chamam de capitães, que estava na guerra longe e via como o seu pais estava. e para quem o vinte cinco de abril não foi um filme, uma exposição ou o dia da liberdade. foi o regresso e a libertação. e muito mais do que isso. muito mais até do que a liberdade. e pensei isto num silêncio que me assustou. não respondi nada. não viram o filme. vão ver, devo ter dito. apeteceu-me dizer que dessa liberdade nestes dias resta pouco de memória nas escolas. é que podem passar os filmes todos, encher os corredores de exposições e chamar todos os capitães que a liberdade, essa que se quer ensinar que foi conquistada naquele dia em que não haverá aulas não anda a passar por ali. por aqueles corredores. pela escola. e por nós. e isso é que falta ensinar. para que a memória não se apague. e o vinte cinco de abril não seja só o dia da liberdade como qualquer coisa de distante, invisível e histórico. que seja abril, verdadeiramente, em cada professor e em cada aluno. em cada sala e em cada momento em que se aprende que ser livre é o maior bem que um dia conseguimos [re]conquistar. que seja abril. somente. sempre.
