30/05/2014

||| das reuniões, em breve...

 
||| ... na sala dos professores reina um silêncio absorvente. só canetas a escrever. pouca gente. eu estava sentado numa mesa a fingir que o tempo passava entre blocos de aulas. ó colega, importa-se que o senhor inspector josé assista a uma aula sua? e a directora sorriu. o senhor, inspector, tinha aqueles ares de quem não sorri há uns bons anos mesmo que o design da sua cara tenha sido feito para isso. acho sempre que o fato e a gravata e a ausência de sorriso são sempre sinónimo de autoridade. a minha primeira palavra foi: bom dia aos dois. ah... desculpe colega, bom dia. bom dia disse o senhor de cinzento. claro que não, não me importo nada. é que, como sabe colega, estamos a ter este momento de inspecção e o senhor inspector pediu para assistir a uma aula no âmbito da avaliação que está a fazer. claro que sim. [nem me levantei, acho que fiz mal. perante a autoridade devemos sempre respeito, dizem]. a que horas quer assistir? para a semana, talvez, para o senhor professor ter tempo de preparar a aula. como disse?, interrompi. para o senhor professor ter tempo para preparar a aula pode ser quando lhe der mais jeito. ah... ok. então pode ser daqui a meia hora. na próxima aula. como assim? sim, agora, daqui a meia hora. vou só tomar um café, pode ser? o senhor de cinzento ficou assim sem saber muito bem o que dizer. a resposta, acho, que foi automática. está bem então se o senhor professor não se importa. claro que não. café tomado e lá fomos. o senhor tomou o lugar na última mesa. a turma era um nono ano que eu gostava muito. difíceis, mas gostava muito deles. na breve conversa que tive no corredor antes de entrar na sala fiquei a saber que o senhor de cinzento era da minha área de interesse principal. a história. e pouco mais. raramente uso powerpoints e por isso comecei a aula como sempre. mas logo no início pedi ao senhor de cinzento para vir para a frente se fosse tal o seu desejo. nada disso. lá ficou por instantes no final da sala. os miúdos entraram. estranham sempre a presença de alguém. é assim, sempre. lá expliquei. é o senhor inspector. silêncio. e lá comecei a aula. o desafio era recriar e valorizar a força de trabalho nos movimento sociais do século XIX e XX. logo por azar. mas lá comecei. foi ai que o senhor de cinzento se assustou. porque lhe disse que tinha que participar. e como era professor, tinha que ajudar e sendo inspector me podia ajudar a melhorar a actividade ao longo do decurso da mesma. a primeira reacção foi: só estou aqui para ver. mas passados dois ou três pedidos lá estava o senhor, de branco [porque o casaco já tinha sido pendurado] a fazer a organização do movimento sindical nos primórdios da revolução industrial. quem viesse espreitar à porta acharia que estava tudo doido. até um cartaz com os direitos a serem revindicados lá andou.  e distribuído o manifesto marxista... ó meus deuses. seria certo que seria chamado à direcção depois de tudo aquilo. no final da aula, feito o resumo do que foram os primeiros movimentos sociais em torno de uma sociedade industrializada o senhor inspector veio dizer qualquer coisa. primeiro que a aula estava muito bem preparada. expliquei que não preparo assim tão bem as aulas. e expliquei o processo. que parto de uma ideia e não de um plano. sorriu. acho que acreditou. pediu depois para outro colega assistir a uma aula. disse que sim, como sempre, que a minha porta está sempre aberta. a autoridade ganhou outra forma. de cooperação. e hoje recordei este episódio que tem já uns bons anos. porque recebi um email deste mesmo senhor de cinzento. passados vários anos. dizia que se ia reformar. e que queria saber de mim. que queria convidar-me para o seu "jantar de despedida" e na brincadeira rematou: se não puder vir terei todo o gosto em ir, uma vez mais, assistir a uma aula sua. o desafio foi lançado. assim seja...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| aprendemos a desistir...

 
||| ... aprendemos a desistir. como aprendemos a resistir. não é algo natural. é preciso ensinar. e hoje, cada vez mais se desiste na escola. desistimos de dizer não. não a mais uma reunião inútil. não a mais uma regra estapafúrdia. não a mais uma grelha para preencher. não a mais uma imposição vinda da tutela. não a mais uma ordem dada sem razão aparente e válida. e desistimos sem dar por isso. porque não resistimos. tem de ser. dizemos. é a lógica do sistema. é porque tem que ser assim. desistimos em silêncio. vencidos. e agora que vão começar as reuniões de final de ano lectivo vamos desistir ainda mais. aquela nota dada em justiça que é alterada pelo "conselho de turma". aquele miúdo que "passa" e a quem achamos que mais valia ter sido de outra forma. e calamos. vamos com o que nos dizem que tem de ser. porque é assim. porque é preciso para "o bem deles". deles ou da estatística. ou para nosso descanso porque é menos um papel e menos um nome numa acta. e menos uma justificação. houve um tempo em que não "abdicávamos". agora é uma decisão de todos. todos em que nós deixamos de valer porque abdicamos. porque desistimos. e aos poucos isso vai aparecendo em lugares onde nem imaginamos. na cedência do nosso tempo pessoal. da nossa vontade. da nossa visão. da escola que desejamos. do que somos. aprendemos a desistir porque é assim que tem de ser. mas não tem. custa sempre mais aprender a resistir. porque implica ser o "chato", o "louco", o "difícil". custa sempre mais porque implica a força da convicção. e a teimosia. o pior, de tudo, é que quando aprendemos a desistir ensinamos isso, mesmo sem o querer, aos nossos alunos. porque é um gesto que não se faz e que eles vão vendo. uma frase que não se diz mas eles ouvem. e deixamos de dar a mão. o exemplo. e desistimos, uma vez mais...

29/05/2014

||| que este seja o ano em que a escola nasce...

 
aos professores, como eu
com quem me cruzei
 
||| ... obrigado pelo caminho feito em conjunto. pelos dias que passaram e pelas saudades que vão ficar. que o ano lectivo que agora termina seja o último. o último em que a escola não existe. em que somos funcionários e não professores. que este seja o último ano deste reino da indiferença. que seja o fim deste sistema imperfeito demais para existir. que este seja o último lugar da ausência. que este seja o último espaço da indiferença. do espaço do "cada um por si". que seja o fim do "ser de matemática e ser de línguas". que seja o último momento desta coisa que já não tem nome. que seja o último instante da falta de esperança e da indisciplina marcada pela falta de uma educação que nasce fora e vem habitar a escola. que seja o último tempo do olhar para o outro sem o apoio de ninguém. e que a escola renasça contra a força bruta de um ministério incompetente e oculto. que a escola ganhe forma e vida. e liberdade. e verdade e justiça. que cada aula seja um momento. que cada aluno possa ser um estudante. que cada palavra dita seja ouvida. que cada saber ensinado possa ser explorado em curiosidade. que cada pergunta seja bela. que cada dia de aulas seja um dia de descoberta. que cada turma seja um grupo. que cada miúdo seja só uma criança e nada mais. que a escola abrace. acolha, respire. que cada outro professor seja uma pessoa. que cada grupo de professores seja uma equipa. que cada corredor seja povoado de um bom dia e de uma boa tarde. que cada ajuda seja sincera e cada partilha seja real. que se construa a escola, em conjunto, dia a dia. que cada pedra, cada tijolo seja a parede de um novo lugar que faça sentido. que tenha sentido. que cada dia possamos aprender algo novo. e ler. e ir a um museu. e ir a um centro de ciência. e ir dar só um passeio porque há tempo para isso. que nos seja restituído o tempo roubado. que acabem as grelhas e os tantos papéis ridículos, as coisas estúpidas e inúteis e fique o saber e o conhecimento em forma de aprendizagem para que possamos reclamar a vida na escola e a função de professor como encanto. que possamos ser, novamente, só professores. que a liberdade impere e os dias sejam mais limpos. e que o sorriso regresse ao nosso rosto. que imploda tudo o que tiver que implodir para que a escola volte só a ser uma escola. cada escola. escola, somente. que seja assim. ou não. mas que seja qualquer coisa. verdadeira. por nós e pelos nossos alunos. que seja. somente. tudo.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| para cada um daqueles que foram meus alunos...

 
«não te esqueças sobretudo a armadura
da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.»
vasco gato
 
||| ... que a vida vos seja simples. que não procurem a felicidade mas encontrem, no caminho, um momento feliz. que vos cerce sempre a alegria. e que ela seja a vossa força. que sorriam e riam sempre que vos apetecer. e chorem quando for preciso. que o que vos tentei ensinar vos seja útil. que esqueçam tudo o que vos disse. que descubram tudo outra vez por vocês. que leiam muito. que descubram, nem que seja por um breve instante, a poesia. um poema de vinicius. outro de ary. e outro dos poetas novos que nascem da beleza do tempo que existe agora. um de vasco gato. que cada aula que vos dei seja uma lição. do que não consegui, desculpem. sou apenas um ser humano. nunca se esqueçam que somos seres humanos. todos. erramos mais do que acertamos. mas tentem. tentem sempre. mesmo quando vos dizem que não. sejam irreverentes. lembrem-se da regra que um dia escrevi no quadro: podem quebrar as regras mas tentem não quebrar a ordem. só quebrem a ordem quando a injustiça foi maior do que a realidade. sejam leves. não encham a vossa vida de coisas. encham a vossa vida de pessoas. que vejam sempre animais fantásticos e coisas que tais. que se embebedem de fantasia. lembrem-se das aulas em que viemos para a rua. terão sempre as ruas largas para passear e um estranho para conhecer. nunca se calem. falem. contem. cantem. dancem. que ninguém vos ache ridículos e se o acharem que fique isso com eles. os outros. peçam mais. exijam mais. a história ensina-nos. vão ao teatro. nunca achem que o passado é coisa sem valor. espero ter ensinado isso. o passado é o que somos. o nosso e o dos outros. o que se passou há séculos e o que se passou ontem. peçam sempre uma nova oportunidade. nem sempre vos vai ser dada. mas peçam. não desistam. o caminho é sempre mais difícil do que pensam. cresçam, mas não muito. não percam nunca a juventude que vi em cada aula. seja qual for o vosso trabalho no futuro é importante. mesmo que julguem que não. e a minha porta, da sala e da alma estará sempre aberta para vocês. voltem onde sabem que vos acolhem. e não tenham medo de quem vão perder pela vida fora. todas as pessoas são importantes e nenhuma é substituível. mesmo que todos vos digam o contrário. as pessoas são insubstituíveis. serei sempre o vosso professor. tentei ensinar-vos história e histórias. saberei sempre menos e vocês cada vez mais. ainda bem. um dia será o meu dia de sair de onde estou e quem sabe ser este o vosso lugar. ensinem sempre o que sabem. nunca se esqueçam disso. podem tirar-vos tudo menos o que sabem. sejam curiosos. perguntem a razão das coisas quando elas parecerem não ter razão. sorriam. digam, bom dia e boa tarde. ajudem. deixem que vos ajudem. sejam pessoas. e que seja vosso o futuro. terão que o reclamar e lutar por ele. por isso que seja breve a luta e rica a vitória. que seja melhor o amanhã que é vosso para conquistar. que seja o que quiserem e os deuses deixarem. confiarei sempre em vocês. a minha sala de aula será sempre a vossa casa também. voltem quando quiserem. obrigado por tudo. e tudo de bom. sorte, sucesso e fortuna é o que vos desejo. sempre. e lembrem-se sempre, sejam pessoas. imensas.


28/05/2014

||| dos comportamentos dos outros que somos nós...


||| ... vi esta entrevista há uns bons tempos. ver [aqui]. sempre me foi cara esta questão da cidadania. que se não se ensinar só se podem esperar comportamentos de acordo com aquilo que não se ensinou. e pensava isto para os miúdos. infelizmente este é agora um campo de urgência para todos os elementos das comunidades escolares. o sistema criado gerou barricadas. criou ou fez sobressair, individualismos. transformou a escola num espaço do "salve-se quem puder". tudo é hoje mais bruto. mais técnico. mais eficaz. mais desumano. infelizmente. fica a matemática. e o português. reis e rainhas de uma escola para fazer. nunca para pensar. e no fecho deste dia, neste pedacinho de tempo aqui sentado desejo profundamente estar errado. mas regresso às palavras que ouvi e vi e que a acima partilhei no vídeo. enquanto não ensinarmos a decência não podemos esperar que todos saibam o que é. principalmente quem, acima de nós, já a esqueceu há muito...

||| da má educação...

 
||| ... cito: "não vão surfar porque jogaram à bola com a tupperware?". sempre que vejo e oiço falar destas coisas procuro sempre a fonte. mais do que isso, o uso das palavras. as palavras revelam muito sobre o pensamento e a ideologia. este era um exemplo de castigo pelo comportamento dito de "má educação". já uma vez escrevi aqui como vejo a coisa. há que diferenciar factores pois a visão de uma certa burguesia intelectual tem tendência a misturar tudo e nós na sala de aula sabemos bem que há coisas diferentes em momentos e realidades diferentes. uma coisa é má educação. outra é falta de educação. outra, e mais grave, a educação personalizada [porque não tenho melhor termo mas um dia invento um já que está na moda inventar coisas]. começo pela mais "simples. a falta de educação. a falta é mesmo falta. ausência. inexistência. os comportamentos são claros, simples, intuitivos mais do que racionalizados. não estão adquiridos. o pior é que, com turmas de trinta miúdos é impossível dar o mínimo de regras, normas e ética para a civilidade a estes miúdos. era preciso uma estrutura de articulação e em articulação com a escola ou na escola para tal. a educação para a cidadania tinha aí um papel fundamental. desapareceu. outra é a má educação. se é discutível que há "más" educações, há no entanto uma realidade clara. há princípios de educação que são transmitidos de educadores para educandos que não se coadunam com a escola e sala de aula enquanto espaço comunitário. é tão simples quanto isso. uma coisa são as regras de vivência na comunidade familiar e outra as das regras da comunidade escolar. umas não são transferíveis para as outras em sentido estrito. até acredito que o miúdo jogue à bola com o tupperware em casa mas na escola e no espaço de sala de aula não o pode fazer. é má educação de um lado da realidade. essa é uma necessidade premente da escola. definir o que é o modelo e a identidade educativa daquela escola. falta, em muitos locais, fazer esse trabalho e daí a mistura explosiva e a geração de conflitos desnecessários. houve um tempo em que eram mais similares os comportamentos numa e noutra esfera. agora não é bem assim. e isso dificulta, em muito, o trabalho de educação em ambos os universos. por fim, a educação personalizada. não tenho melhor nome para a coisa. apanho cada vez mais miúdos assim, principalmente em escolas ditas "boas". são aqueles cuja linha de educação marca a personalidade. eu sou como me comporto. e não está relacionado com a identidade. está relacionado com a relação cívica com os outros. falo dos miúdos com atitudes xenófobas. racistas. homofóbicas. classistas. cheguei a ouvir que "esta turma não é para os pobres". são as coisas ouvidas em surdina ou em voz bem alta em casa que ganham forma em forma de gente. isto numa escola pública. e por incrível que pareça a esta "péssima educação" não ligamos porque as regras de etiqueta e sentido de cortesia são cumpridos na integra. falamos de carácter. de atitudes. e essa é a mais grave de todas as "más educações" que grassam por aí na escola. hoje deu-me para pensar nisto não vá o miúdo ficar sem ir surfar...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| mais uma voltinha, outra vez...


||| ... em mil seiscentos e quarenta e quatro [mais coisa menos coisa] nascia em a moda da lotaria. vinha dos jogos de azar dos bancos italianos e foi transferida como moda para a corte de luís XIV. machado de assis sabia bem como colocar o pádua do seu dom casmurro a jogar com a sorte e o azar. quando vejo mais um anúncio de concurso para professores lembro-me sempre desta história. que sempre chamei ao concurso: lotaria. e vai ser assim mais um ano. ninguém sabe, porque só se fala disto entre nós, o que é todo este processo de concorrer para mais um ano de trabalho como professor. é a coisa mais maquiavélica que existe. nenhuma outra profissão passa por algo similar. e logo agora, no fim deste ano lectivo em que as coisas não podiam [todas] terem sido mais desgastantes ou estranhas. o cansaço e a vontade de mandar tudo isto "às favas" é maior do que nunca. isto, diga-se, o sistema. porque os miúdos, esses, estão sempre cá. é que o "concurso" é todo ele um profundo acto de desrespeito pelos professores e pelas pessoas que somos. fica o meu desenho desta epopeia para quem a vive ou para quem não a conhece. começa pelo anúncio. muitas vezes a comunicação não chega pela "tutela" [conceito horroroso que revela logo o estado de controlo desejado]. vem numa conversa de intervalo. sim, ontem. olha, amanhã abrem os concurso. como? amanhã. sim. são cinco dias. ou então visto num blog [pelo excelente trabalho de alguns professores ou dedicados caminhantes nesta coisa da educação]. então e quem, como, para onde? isso tem que se esperar pelos regulamentos, guias, normas e coisas que tais. cresce um aperto no peito. por duas razões. é o fim daquele ano lectivo. todos os anos, há dez, vinte ou até mais anos acaba sempre assim. abruptamente. com o concurso aquela casa que foi "a nossa" escola por um, dois, três ou mais anos pode não voltar a ser no ano seguinte. aquelas ligações que foram nascendo podem ter todas que vir a ser refeitas no ano seguinte a vinte, cem ou duzentos quilómetros dali. depois é preciso ver tudo. ler tudo. sai no site da "tutela". eles que dizem e ditam as regras. há estas vagas. para aqui, para ali e para acolá. só estas. não importa que saibas o que o teu lugar existe e é preciso. deixaste de o ser. agora é aqui e ali. e temos que seguir as regras porque somos só peças nesse jogo. nessa lotteria para gozo da corte que só vê números de candidatos. lidos os documentos que mais parecem um guia informático de um equipamento qualquer há que clicar. clicar numa aplicação. fazer cliques. preencher coisas. com os mesmos dados que estão no sistema desde que começámos a trabalhar. e o mapa do país perto. ali ao lado. dantes era de papel. agora no computador. vale só uma coisa. não ter que ir de terra em terra. ainda sou desse tempo. dos "mini-concursos". em que se ia, de mochila às costas de portalegre a évora, do porto a beja entregar uns papeis. mas que importa isso agora. naquele momento, neste momento é só mesmo aquela ideia sempre presente. que não seja muito longe. que a sorte e os deuses estejam presentes e não atirem a fortuna para longe. muitos quilómetros são muitas horas. isso misturado com o pensamento preso no trabalho. ter trabalho. não é um emprego como muitos anseiam que se joga nestes concursos. é trabalho. muito. porque ser professor é ter mesmo muito trabalho. e ter esse tempo ocupado por um desafio constante está preso nos dedos que vão clicando aqui e ali. centenas de vezes. depois, suspender tudo por uns instantes. guardar como diz lá num quadradinho verde [como se fosse essa a cor da esperança]. guardar por umas horas. andar pela sala sem saber bem para onde ir. pensar. pensar mais um pouco. voltar ao mapa. dizer: achas que matosinhos ainda é muito longe? ligar a um amigo na mesma situação. perguntar. o que colocaste aqui. e ali. leste isto e isto. sabes que tens que enviar a declaração. é pá, já me esquecia disso. voltar a ligar a outro. e mais um. quase como a pedir que alguém nos diga: sim, estás a fazer bem. sim, vai tudo correr bem. a tombola vai rodar e tu vais ter a tua sorte. podes confiar. mas nunca confiamos no sistema porque o sistema despreza-nos. sabemos isso. basta ver que um concurso nacional "extraordinário" é comunicado a quem tem que correr com menos de vinte e quatro horas. incrível. mas até esse desrespeito já ultrapassámos. já achamos natural que assim seja. e é esperar que o sistema não falhe. às vezes falha. e falha sempre. verificar tudo depois de uma ou mais noites a dormir mal. verificar outra vez. e mais uma vez. dizer: seja o que os deuses quiserem. clicar: submeter. sim, a palavra é mesmo essa: submeter. sim, submisso, eu submeto. submeto-me a um sistema cego, surdo e mudo. que contou comigo estes anos todos e todos os anos me faz passar por isto. em total desconsideração pelos dias que vivi a dar tudo o que sei e que possa à escola e à profissão que amo. em total desconsideração pelos miúdos que ajudei, pelas horas que retirei a mim e aos meus. pelos perigos de uma estrada feita à noite em dias de chuva onde só o seguro de trabalho e a vontade de ser professor me fazia sentir que era preciso fazer tudo isso no dia seguinte. submeter. mas desta vez, quando clicar mais uma vez no quadradinho verde de uma aplicação que não sabe quem eu sou desejo profundamente do que sistema "crache". que exploda. que rebente. que deixe de funcionar. como tudo o que se passou neste ano. para que possamos repensar tudo isto. para que o respeito volte e a vontade de ser e viver na escola possa renascer também. pode ser que sim. veremos... se tal não acontecer, sorte, sucesso e fortuna para todos os que hoje, são professores, e vão concorrer à lotteria nacional.

27/05/2014

||| eles...

 
||| ... não sei a razão. habita estes dias uma espécie de nostalgia. e uma reflexão. os cheiros e sons da escola mudam. para mim, mudam sempre nesta altura. neste fecho. chegam as perguntas do costume: ó professor, vai ser nosso professor para o próximo ano não vai? não, infelizmente não vou. ó professor, fogo. vá lá. não sou eu que decido, é o sistema. vamos ter saudades suas. e depois a corrida. a corrida aos últimos conceitos, coisas para ensinar. coisas que ficaram por dizer. o exame que se aproxima e determina o futuro. as escolhas. vou para isto ou para aquilo. que me diz, professor? vai para o que gostares mais. o futuro não está escrito. e o café no bar sabe diferente. e entra pela sala uma luz mais clara. o fim do dia é mais lento. não sei a razão. mas é sempre assim. o ruído dos corredores soa de forma diferente. no natal é tudo mais cinzento. chove mais dentro e fora da escola. agora há um correr, os dias maiores. a pressa para pensar no que ficou por dizer ou fazer. as notas para "dar". os trabalhos para "ver". o miúdo que vem pedir para fazer mais uma coisinha para mudar a nota. aquele a quem fomos dizendo "eu bem te avisei que assim não ias lá". devias ter estudado mais. aquele que nos arreliou o ano todo mas que no final até vem dizer que foi bom. que nos quer para o ano lá. aquele. aquele que nos deu "água pelas barbas". e o outro, o do canto, que nunca dizia nada. e a miúda da primeira fila que tirava apontamentos coloridos com corações nos i. e quando se fecha a porta da última aula do dia, mesmo ainda faltando tanto para o fecho deste ano lectivo, tudo cheira, soa e parece diferente. estes dias já. e não sei a razão. mas é assim. é sempre assim. porque não somos só razão. somos aquilo que vamos sentido, na escola que é um lugar habitado. vai mais um café. este fumega. e até o "até amanhã, colega" tem outro som. curioso. mas é assim. sempre. e ainda bem...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


 

||| CAP=3xN+2x(M-NT)+EFI+AE+T+RA...

 
||| ... sim, leu bem o título. repito: cap=3xn+2x(m-nt)+efi+ae+t+ra. pronto, vou simplificar. é a fórmula para as escolas calcularem a componente para actividade pedagógica. ainda não é claro? então e se um dos factores for, e cito: "o indicador da eficácia educativa"? ainda não...? ok. então é mesmo melhor ler o despacho [adoro a dupla leitura desta palavra] para o próximo ano lectivo. esta é uma das pérolas que por lá estão. a organização de estruturas com elevado número de recursos humanos é sempre complexa. mas tornar absurdo tudo escondendo novas formas de "gerir" recursos humanos através de fórmulas matemáticas é coisa admirável. mais admirável é chamar a "dar aulas" componente para a actividade pedagógica. sim, a aula é uma coisa do passado. agora sempre que me perguntarem o que vou fazer digo: vou ali cumprir a minha percentagem da componente para a actividade pedagógica. tudo isto é de um absurdo tão grande que lembra o fim dos impérios e das civilizações em que até de deuses foi preciso mudar porque o sentido da coisa estava completamente perdido. uma escola não é uma empresa. nem uma indústria. que sentido faz um "factor de eficácia educativa"? eficácia????? por amor aos deuses. saberão eles, os deuses sentados algures, o que significa a palavra eficácia? e transformar cada pessoa, que é professor, num factor numa formula é do mais desumano possível. não é gestão. é outra coisa e tem um nome muito antigo. é admirável a imaginação desta gente que, sentada, acha que a aprendizagem é medida pela eficácia e que pode subjugar o abandono escolar a um instrumento de aliciamento corruptor da vontade de cada comunidade escolar como elemento de subversão e "compra" da vontade atribuindo "horas" a escolas que combatam este flagelo. com eficácia, claro está. estatística, mas eficácia. que lugar é este? que escola é esta? e tudo isto ainda no fim deste ano lectivo. no fim deste insano ano lectivo. desejo, sinceramente, que o sistema rebente. não o ministério porque esse já rebentou de tanto absurdo. e de uma vez por todas. talvez seja preciso uma fórmula para isso. cá vai: cdx6te+(gixct). que tal? serve?...

26/05/2014

||| das coisas simples se faz o real...

 
||| ... às vezes oiço as coisas como se fossem ecos. o miúdo estava bem era a trabalhar. a escola não é para estes miúdos. faço de conta que não ouvi aquilo na escola. que foi uma conversa ouvida num café rasca qualquer num outro país. é isso e as condições. não temos condições. os computadores são lentos. as mesas são pequenas, as cadeiras são tordas. as janelas abrem, as portas não fecham. as pessoas não colaboram. os livros não chegam. os materiais são poucos. o tempo é pouco. os alunos são muitos. etc. etc. e depois lembro-me sempre do que aprendi com um dos meus poucos mestres. dar uma aula é gerir o possível e desejar sempre mais. esta frase dita com um almoço regado com um bom vinho tinto numa terra perdida no meio do nada nunca me saiu da cabeça. rege um pouco cada aula que dou. e neste final de ano lectivo, num período caótico e mais do que imperfeitamente organizado penso nisto. porque é muito simples culpar tudo. eu até podia dizer que a maçaneta da porta da sala devia rodar ao contrário porque me dá mais jeito. mas a verdade é que entro para cada aula que me resta ou para cada ideia que me pedem ou lançam em jeito de desafio com essa premissa sempre: gerir o possível. desejar sempre mais. e quando fecho a porta, depois do dever cumprido [bem umas vezes, mal tantas outras] penso no que fiz. guardo o bom para repetir. repenso o mal para desejar melhor. e como o conseguir. não só por eles, os meus alunos. por mim. para que seja possível ainda me encantar com o dia seguinte. a aula seguinte. e regresso sempre às coisas simples. há muito que deixei os grandes modelos, correntes ou projectos. acho mesmo que é tempo do papel e da caneta. do lápis e do afia. do som, do olhar e das perguntas. da curiosidade e do conhecimento. o resto? o resto fica para aqueles para quem falta sempre tudo para fazerem qualquer coisa...

||| leituras [im]perfeitas...




||| música [im]perfeita...


||| quando chegar à sala de aula...

 
||| ... quando entrar na sala de aula nenhum miúdo me vai perguntar pelas eleições. nem pela europa. vão perguntar-me pelo jogo. pelo ronaldo. vão perguntar-me se fui ao rock in rio. talvez um, pergunte se votei. acho que nem isso. e a culpa será minha. e de todos nós, professores daqueles miúdos que achamos politicamente incorrecto falar de política [de polis]. ou que dizemos em surdina ou a bandeiras abertas que nada muda. que são todos iguais. e quando as elites falham, quando a cidadania morre, a culpa é nossa, também. porque queremos sempre tudo normal. sem grandes ondas. porque não se pode falar disso e influenciar as "criancinhas". porque é chato falar disso. não lhes "prende a atenção". porque morremos de horror que nos achem de uma cor ou de outra, ou simplesmente porque não sabemos que vão "dizer os pais" que lhes dizem basicamente o mesmo: são todos iguais. não vale a pena. e por isso, estamos a construir um futuro vazio desse bem comum chamado democracia. será fácil governar assim. quando entrar na sala de aula vou falar de ontem. e do novo dia que hoje é para a europa. do sonho de delors e de outros tantos que tão pouco resta. de napoleão e da adesão de portugal à união europeia. de como se queria uma europa de paz. de como, para mim, se começou pelo lado errado que era o da economia. aprendi que a ideia de europa era uma ideia bonita. de comunidade. depois mudaram para união e comecei a desconfiar do caminho que agora levou a que em mais de metade dos países as extremas [direita e esquerda] pudessem marcar uma posição. vou falar-lhes disso tudo. e do voto. de como fui votar. do que vi e do que se sente. de que nunca devem abdicar de um direito. que calar é deixar aos outros o que é nosso, mesmo que achemos que o sistema não presta. que se revoltem se assim acharem mas que não se calem. porque se se calarem vão ver como eu a europa que me disseram que podia ser minha a morrer às mãos de uns tipos que dizem que lidavam com a emigração lançando um vírus para erradicar esse mal maior. cresci a ver que era na educação que o ideial de europa mais valia. do intecâmbio passou-se a programas de mobilidade de estudantes que diziam: és europeu. enquanto muitos diziam: sou português e depois europeu eu ouvia alunos dizerem sou europeu e português. era esse o ideal. o risco do silêncio faz-me brandar aos céus. mesmo sabendo que quando se fere um ideal muito dificilmente este ganha o novo sentido e força inicial não deixarei de falar. e de dizer tudo isto aos meus alunos. mesmo que não me oiçam. que seja chato. calar-me é que não me calo. como professor, como cidadão, como exemplo que quero ser para eles. eles que são o futuro do presente que estou a tentar manter repetindo um simples gesto: ser cidadão, ainda...

23/05/2014

||| daquelas coisas sem nome...


||| ... ó professor, porque é que estão sempre a dizer que acreditam em mim? como assim, fernando? sim, quando faço uma coisa há professores que dizem isso. que acreditam que sou capaz. então pá, isso é uma coisa boa. quer dizer que sabem que és capaz de fazer as coisas bem. ya, mas não precisam dizer. podiam confiar. gostei da frase. um dia iam-me batendo quando disse em público que a esperança é a coisa mais difícil de ensinar aos miúdos. não porque seja complicado. simplesmente porque, como o fazemos, "cheira" a falso. é o mal do [já achincalhado] "reforço positivo". ou quando alguém vem falar de dinâmicas ou afectos. soa tudo a cor-de-rosa. por uma simples razão. aquilo que dá esperança, que "ensina" a ter esperança tem que ser baseado numa só coisa. na confiança. o fernando nisso tinha razão. atenção e confiança são dois ingredientes importantes nesta equação do ensinar a enfrentar o futuro. é que nele, nesse futuro, serão as duas coisas que mais vão faltar a estes miúdos. que mais lhes vão ser quebradas ou fechadas. e a escola é o único local onde a liberdade da esperança pode ter lugar pois cada professor pode ser o último reduto desses mesmos gestos. ó professor, o professor não diz que acredita em nós. não, não digo. porquê? porque confio em vocês. e sei que vão sempre fazer o melhor. como eu faço, para vocês. isto de estar aqui, na sala ou na escola, é sempre assim. tem dois sentidos. é uma autoestrada em que conduzimos juntos. se não confiarmos uns nos outros teremos, certamente, um grave acidente. ok professor. está bem. e é isto...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...




||| do que não se ensina mas se aprende...


||| ... há coisas que queremos ensinar. e há coisas que não queremos ensinar mas ensinamos. o medo é uma delas. qual figura clássica, das históricas épicas contadas em segredo de geração em geração através de milénios. o que não ensinamos mas eles aprendem. ó professor, diga-me uma coisa, a vida é má? desculpa? sim, estão sempre a dizer-me que quando eu acabar a escola é que eu vou saber o que é a vida. e fiquei a pensar nisto. que nas pequenas coisas que não dizemos ou dizemos com outra ordem de razão ensinamos coisas que pensamos que não ficam do outro lado como um registo vivo. se ensinamos o medo, reservamos e ensinamos muito menos a esperança. e cada frase com o peso imenso da vida que é a nossa passamos para eles, a quem pertence o futuro, guarda em si mesmo essa força e esse poder. andamos e caminhamos entre a banalidade das palavras, eu sei. dizemos as coisas "sem pensar" ou "no calor do momento". mas isso não desculpa que não reservemos o cuidado necessário para parar e pensar nesse espaço de memória que vamos construindo como um lugar de cuidado. andamos tão "atarefados" que nos esquecemos cada vez mais disto. infelizmente...

22/05/2014

||| carta aos deuses...


||| … aos deuses sentados algures. hoje dei uma má aula. não correu bem. estou cansado. acordei a pensar que não sei onde estarei a dar aulas para o ano. se as regras serão as mesmas. entrei na sala sem saber se as regras impostas ainda são as mesmas que vinte e quatro horas antes. estou cansado de tantas mudanças feitas em cima do joelho. de me atirarem com mais trabalho nesta altura em que o cansaço aperta num ano em que vi que somos menos e cada vez são mais as coisas inúteis que inundam os meus dias. vale o sorriso da maria sentada na primeira fila depois de eu ter pedido desculpa pela má aula que tinha acabado de dar. ó professor, mesmo dizendo que a sua aula foi má eu gostei. valem ainda estas palavras para acalmar o desâmino no sistema cada vez mais perdido dentro de si mesmo. é só um desabafo isto tudo. estou cansado de ver e sentir este estado que é o meu tratar-me como uma peça. convocado para isto e para aquilo, sem razão ou lógica. cansado das horas a ver centenas de testes. de me pedirem mais uma grelha. cansado de não ter tempo para ler um bom livro e chegar à aula e contar que tinha feito uma viagem pelas palavras para os maravilhar. cansado deste sistema que pede que os meus miúdos, aquele de cabelo aos caracóis ou aquela de lacinho na cabeça, sejam médios. uma média para uma estatística qualquer que todos vão esquecer em poucos dias. por isso, deuses sentados algures, vão-se embora. deixem-me ser professor novamente. deixem-me dar aulas que gosto. que os meus alunos gostam. lentamente. sem a pressa de chegar a um exame que os vai colocar numa pauta sem brilho ou encanto. ó deuses sentados algures, deixem-me ser professor…

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| desta coisa da disciplina...


||| … dei por mim a ir ler umas coisas. sobre discplina. a visão dos outros. e reparei em duas coisas concretas. que tudo se passa na sala de aula. que todo o “trabalho” de regulação e normalização está colocado no que se espera que o professor faça para “mudar” as coisas. principalmente, as “atitudes”. há, depois, as correntes. os “afectistas” [como lhes chamo], que colocam o afecto e a relação empática como centro do processo de resolução dos problemas. e os “regulistas” [como lhes chamo, também] que colocam o foco na autoridade e força do professor. mais até do que nas regras [ou tanto como]. é que esta coisa da disciplina desperta sempre esta outra coisa que é o lado da trincheira em que cada um se encontra. ou não. para mim que nem um nem outro fazem pleno sentido, que as teorias são boas para os teóricos, acho que o ponto ou ângulo de visão é que está a precisar de ser mudado. a escola recebe hoje miúdos cuja “educação” e o modelo de referência que lhes foi facultado se distorce na lógico do respeito claro pelas regras comuns. rapidamente oiço logo alguém dizer: a escola não educa! ensina! e pronto. lá vem mais uma lógica teórica assente no modelo social de uma burguesia que já não existe de per si. para mim a escola é para todos. o que me custa é ouvir cada vez mais nas sala de professores ou nos corredores: estes miúdos não deviam estar na escola. isto não é para eles. isto, que é a escola, foi feita e conquistada na liberdade de ser exactamente para eles. mas para todos. também. e a cerca que veda a escola do mundo deixou de permitir que se veja, muitas vezes, o óbvio. tudo mudou. de fora para dentro da escola. e não existem ilhas no universo humano. por isso, depois de ler mais um texto penso que há dois factores importantes a reclamar neste desafio da “disciplina”. o primeiro é que se nos centramos no “dentro da sala de aula” estamos a cometer o mesmo erro do que é transformar tudo em ilhas. é que muitas vezes o regular ou criar normas de convivência em sala de aula é determinado pelo que se passa fora daquelas quatro paredes. influi. determina. e é preciso pensar nisso antes de pensar em tudo o resto. e depois, no que é uma lógica integrada e transversal. não é “obrigar” a que os professores todos de um determinado aluno ajam da mesma forma. ou proibir tudo e mais alguma coisa por via de um regulamento ou coisa parecida. é envolver e criar uma lógica de actuação harmonizada. um dos mais importantes sentidos que os alunos procuram é a coerência. o outro: o significado. a razão. a lógica. combinados os dois, coerência e significado ganham os professores todos enquanto equipa uma força maior para criar novas formas de convivência. não se trata de igualar formas de ensinar ou personalidades entre professores. trata-se de tornar claro e preciso o modo de relação humana entre quem procura a disciplina para o bem comum e quem precisa de encontrar significado para o comportamento adequado para cada momento. hoje apeteceu-me pensar nisto. mesmo que, imensamente, utópico...

21/05/2014

||| se paulo bento tivesse email...

 
||| ... vou tentar ser simples. falar a linguagem "transversal". é imaginar o paulo bento sentado ao computador. a ver quem vai e quem não vai. são dez da manhã. o anúncio público está marcado para as vinte horas. email enviado. moutinho tem o email no telefone. acede. olha... estou convocado. quaresma só vem a saber depois das vinte e uma horas que ficou pendurado. se paulo bento tivesse email e a selecção fosse uma escola seria mais ou menos isto. é que esta mania de "convocar" tudo e todos em cima da hora parece que veio para ficar. mais do que isso a ideia que estamos sempre todos contactáveis. mais do que contactáveis: disponíveis. e tudo começa num ministério que coloca os professores a aguardar por colocações e regulamento que vão saindo entre as vinte e três horas e um sábado ou domingo qualquer. e estende-se a escolas onde o tempo de trabalho é confundido com o tempo pessoal. um trabalhador não pertence ao empregador. trabalhar para. não é, de ou vive para o emprego. há cada vez mais esta confusão. e cada vez mais a permissividade de uns e de outros permite abusos. convocatórias em tempo record onde o comentário à sua não visualização ou leitura é sempre: não viste? foi ontem às vinte e duas e cinquenta por email. pois não. não vi. mesmo que visse não respondia. porque a essa hora estou no meu tempo pessoal. reservo-o para as urgências e para o meu tempo de convivência. a isto soma-se esta coisa estranha que circula em conversas do sigilo e da "lei da rolha". não se pode falar nisto. é calar e seguir as regras porque se assim não for... ui. ui, nada. ui que se ninguém disser que não, que não pode e não deve ser assim, vamos de perda em perda de um direito maior do que o tempo. este direito a ser individuo, como agora é moda dizer. individual. ter o tempo e espaço privado que é o que isso quer dizer. e tudo começa, novamente. mais uma regra criada em cima do joelho, num gabinete, altera as regras novamente. e aí vamos nós. mais uma notificação. mais uma convocatória. mais uma alteração. para serem respeitados, devem dar o exemplo. aqueles, lá em cima no gabinete no sétimo ou oitavo andar que olham para as pessoas pequeninas que andam pela rua cá em baixo ou longe, depois de uma serra que num mapa não existe. respeitem as regras. do público e do privado. se não sabem, leiam os princípios da república que os sustenta. e vejam que lá está esse velhinho direito. seja convocada a consciência cívica. para isto tudo. com quarenta e oito horas de antecedência. mas que seja, urgentemente, convocada a razão e a cidadania esclarecida que tanto falta nos tempos de hoje...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| sentados, num gesto único...

 
||| ... é aquele burburinho no corredor. alguns nervosos. outros de papeis nas mãos como miúdos "grandes". outros com o olhar perdido. um ou outro, com sono. e depois entrar. pelo nome. completo. das poucas vezes em que o sistema os chamará pelo nome. joana margarida silva ferreira. ah... sou eu. o sistema. a chamar pelo nome. curioso. nunca tinha pensado nisto. no futuro, na vida. será o número. de contribuinte. de identidade [conceito tão estranho haver um número de identidade]. sentados numa mesa. um a um. separados por um espaço que lhes diz que é impossível olhar para o lado. que ali vale cada um por si mesmo que lhes tenham dito que juntos são mais. o sistema relembra-lhes isso. cada um por si quando chega a hora da verdade para esse mesmo sistema que não admite o direito de um saber colectivo mais forte do que o saber individual. sentados. a olharem para a hora de começo e fim de uma prova que foi sacralizada durante um ano lectivo. não é o último passo. haverá aulas depois disso. eles sabem disso. é simples. mas quando vejo a sala cheia e o toque soa olho para eles. miúdos. pequeninos. sim, miúdos. e lembro-me de estar daquele lado. não, não me esqueci. e olho para mim do lado do sistema, agora. se por um lado, ser professor, sempre foi mais do que uma escolha uma coisa natural em mim, nunca imaginei que fosse assim. quando estava daquele lado nunca podia imaginar o caminho que a vida me iria dar para percorrer. nem os falhanços. nem as conquistas. os exames que fiz não me prepararam para a vida. o exemplo dos meus professores [e tive muitos e bons e muitos e maus] sim. dos exames só retive essa ideia que ali aparecia, naquela sala cheia de miúdos, como algo claro e limpo. o sistema olha para ti e apresenta-te essa ideia simples: vales por ti. não podes ajudar os outros. não contes com ninguém sem ser contigo. vales x, no final. que vale trinta por cento que fizeste durante um ano lectivo. não esperes nada. o sistema é maior do que tu. és só uma peça. vais perder o nome. ser um número. como ali. entre aquelas centenas naquela escola. em todas as escolas. desejo-lhes boa sorte. no papel para ser lido diz: diga - bom trabalho. eu digo, boa sorte. deve dar um processo disciplinar. não estou a desejar sorte para o exame. estou a desejar sorte para a vida. e que esqueçam aquele momento. e que voltem rapidamente para o corredor. que aquelas horas passem depressa. e venham as conversas e brincadeiras depois. em conjunto. porque aquilo que o sistema lhes nega ali na vida é mais fundamental do que qualquer outra coisa. juntos somos mais. melhores. sabemos mais, aprendemos melhor. mesmo que durante o tempo de um exame isso seja invertido. boa sorte, portanto. sorte. para a vida que é um futuro por revelar. sem exames. com provas e desafios. mas sem exames...

20/05/2014

||| do livro e do sentido das coisas...

 
||| ... ó professor! professor! parei. ia em passo largo no corredor. eram uns miúdos sentados no chão encostados à parede. digam. professor, podemos fazer-lhe uma pergunta. claro. digam. estamos aqui com uma dúvida. porque é que o ensaio sobre a cegueira é uma metáfora do autor sobre um certo modelo de sociedade? é pá, que raio de pergunta. ó professor... era o intervalo grande, como ainda lhe chamo. disse: posso sentar-me com vocês? sim, professor. ok. então mas é esse livro que vai sair no exame? não. mas era uma pergunta que vinha numa ficha. ok. então quem tem o livro aí. ninguém? eu tenho umas fichas de leitura. e eu um resumo. então e o livro? está em casa. já leram? uns bocados. uns bocados? sim. ok. então eu vou ali buscar o livro. e dei um salto à biblioteca. voltei de livro na mão. vamos ler? ó professor, e a pergunta? a resposta está aqui, vão ver. em primeiro lugar, sabem que saramago foi serralheiro mecânico? e que não avançou nos estudos por falta de possibilidades da vida? foi? foi. ó professor, mas o professor não é professor da nossa turma, não se importa de estar aqui connosco? vamos lá esclarecer isso. no papelinho que me deram com a licença para vos ensinar não dizia que só podia ser professor do décimo segundo, letra a. sou professor e ponto. esta mania de se ser professor só de alguns é uma coisa estranha para mim. e sou professor de história mas sei ler. e até umas coisinhas de outras áreas porque não somos só feitos de uma coisa. por isso, vamos lá. o ar não era de grande satisfação. comecei a ler. em voz alta e pausada. parei, ao fim de alguns parágrafos. expliquei as ideias de saramago. falei da visão política. das ideias. de como até a sua vida marcou cada pensamento. falei da ida para lisboa. da azinhaga. falei de pilar e da aventura da seara nova. voltei a ler mais um pouco. em voz alta e pausada. sentado no chão de um corredor da escola. foi assim, durante vários meses. até acabar o livro. passei a ouvir ler. os miúdos que eram quatro ou cinco passaram a quinze e vinte mais para o final. sempre sentados no chão, no intervalo, era quase, como me dizia uma miúda, como uma série daquelas da fox que não queremos perder um episódio mas aqui não dá para gravar ou ver na net. saramago habitou aqueles corredores e aquele chão durante uns meses. juntou-se mais tarde a professor de português da turma. eram só momentos em que se ia ler um livro, sem fichas de leitura, resumos ou leituras de outros formatadas para o que devia ser o pensamento único sobre uma obra imensa. queriam mais, quando acabou. podemos fazer isto com o finalmente há luar? não, as minhas costas já não aguentam. e vocês não são meus alunos, não é? quem passava pelo corredor achava aquilo estranho. não querem ir para uma sala? não. não queremos. estamos bem aqui. foi um hábito reconquistado. o de ler em voz alta. de se falar do livro sem as restrições das linhas de rumo e de leitura. era só um livro, lido. uma conversa que ia de futebol à história do convento. era só isso. nada mais. fechou-se o livro. e tudo voltou a ser como era. saramago deveria ter gostado de por ali ter passado. apetecia ter ali a oliveira. e aquilo ser um jardim. era só um corredor, um livro e o som das palavras em conversa.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| da ideia do "um para muitos"...

 
||| ... ó professor! venha aqui, tire aqui uma selfie connosco. [ok, lição número um: fotografia já não se diz]. que fixe. ó professor, tem que ir cortar o cabelo! pois tenho. olhem lá e se pedíssemos a alguém para nos tirar uma foto? como? pedindo. ó ricardo, chega aqui. tira aqui uma foto a nós todos. ok. já está. ficou bem? deixa ver. volto a concordar que tenho que cortar o cabelo. ó professor mas uma selfie é mais fixe. resumindo, é uma foto em modo de individualismo. lá está o professor com frases complicadas. não é isso maria, é um retrato do tempo. no meu tempo nós pedíamos a outras pessoas, muitas vezes sem as conhecermos de lado nenhum para nos tirar uma fotografia. geralmente ficavam mal. mas era giro. era giro ir pedir ao outro. a outro. falar com outros. hoje é tudo "self-made". acho que achamos que tudo é mais complicado ou que chateia os outros pedir para nos tirarem uma foto. deixamos de falar, ainda mais, com isso. depois publicamos aqui e ali. muitas vezes para "comentarem". olha, tive uma ideia. ó professor, que medo. quando diz isso vem trabalho para cima de nós. não, esta é gira. vamos criar um projecto aqui para a escola. como assim? até já tenho nome. já? fogo professor, não sei como faz isso. vais chamar-se: uns e os outros. do filme: les un et les autres. não viram, eu sei. ainda por cima em francês. ya, professor, cheira a seca. não, a ideia é simples. vão ter um período para a fazer. ai é? é. é o vosso próximo projecto para nota. eee... ó professor... porque é que fomos falar consigo... estava a brincar. mas vamos fazer. então é assim. vamos criar um site onde o pessoal coloque uma selfie e uma fotografia tirada por outra pessoa a quem vão ter que pedir para lhes tirarem a foto. depois fazemos um mural. para comparar. que acham? professor, que fixe. podemos começar? podem. ó rui, anda cá.... e lá foram. e lá se fez o mural. e lá se fez a leitura do mural. nós representados por nós. sem falar, sem pedir. e nós aos olhos dos outros. a quem foi preciso pedir para tirar o "retrato". a identidade também se constrói assim. e pelo menos falaram um pouco uns com os outros...

19/05/2014

||| das referências...

 
||| ... li no público o artigo de daniel sampaio [aqui]. geralmente não gosto da visão mas desta vez gostei. e reli eduardo lourenço sobre a questão da identidade quando voltei a uma dúvida que tenho em mente há uns tempos. esta questão que chamam de identidade e que eu chamo de referência. mas antes de ir a esse campo apetece-me pensar a "substância do tempo". os estantes de hoje não gerem o conhecimento [ou melhor, a informação, como eu geria e vou gerindo] como nós, no tempo em que as coisas eram consultadas para guardar na memória como referência de conhecimento. a memória é hoje um espaço de acesso ao imediato "consumível" e de referência temporal curta. nisso concordo com daniel sampaio. o tempo imediato tem hoje um protagonismo muito superior à identidade de memória histórica que o precede. as coisas deixam de ter um antes. e também um depois. para serem um agora contínuo. na geração dos miúdos ainda mais. assusta. mas a verdade é que a informação tem hoje uma forma de acesso imediata e permanente que não existia quando, por exemplo, eu estudei na escola [pública] onde se ia à biblioteca ou recorrer ao saber dos outros. tudo demorava um certo tempo com que se contava. tudo tinha que ser guardado. conservado. e com isso se criava identidade e memória. ou como lhe chamo, referência. a minha dúvida é simples. o que fazemos então, nós, seres humanos, com esse espaço de memória a longo prazo? para o que usamos? a neurociência fala-me em neuroplasticidade. acredito. percebo, até. damásio já explicou e provou isso. fernando moura, foi mais longe. mostrou. comprovou. ok. mas então para que está hoje a ser usado isso. esses espaço que fica vazio na memória. cheio de memórias de curto prazo? de referências acríticas a instantes provocatórios? a determinar a forma como observamos o real? cheio de miley cyrus, selfies e autoproclamação do eu enquanto representação ideal da felicidade buscada em constância infinita? a perda da identidade, ou dos elementos de referência [a que associo a história e cultura colectiva, os "heróis" ou simplesmente a pertença local - sem qualquer espírito de nacionalismo mas como forma de identificação] torna-se assustadora numa geração do agora. é que não estamos a falar de uma geração com olhos postos no futuro. em que esse tempo do imediatismo prepara o caminho para o "amanhã" que se falava na geração pós vinte e cinco de abril. fala-se de um conjunto de imensas pessoas em construção que vivem no agora. presas nele. sem identidade. sem referência. a quem, a escola, ainda não sabe responder. a quem a sociedade deseja que sejam "clientes". tudo no agora. e hoje deu-me para pensar nisto. já me passa. mas agora estou a pensar nisto...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| desta coisa do preparar para a vida...

 
||| ... não sei. acho sempre estranho que alguém ache mesmo que os exames preparam para a vida. percebo isso dito em forma demagógica para um "público" que tem como memória, muitas vezes [e ainda] o exame da "quarta classe". do preparar para a vida. um batalhão de exames do quarto ano ao décimo segundo. com um ritual quase santificado. com professores a lerem regras ditadas por um gabinete que quer uniformizar o impossível. preparar para a vida, dizem eles de sua alta santidade. as televisões abrem as notícias com milhares de miúdos entre os nove e os doze/quinze ou mais anos a fazerem "o" exame. os jornalistas perguntam: sabes que vale para nota? sim, sim, responde a miúda. quem está dentro sabe que a pergunta é absurda. quase desde o primeiro dia em muitas salas se disse vezes sem conta: chegas aos exame e vais ver... ou depois quero ver no exame. tudo na sala, nos dias, nas horas, foram vividos com esta meta. mas o que não se diz é que hoje, como nos próximos tempos, muito menos professores estão nas escolas. o trabalho de organização, vigilância, correção e orientação coube a muitos menos. concentrou-se em muito menos pessoas. os mesmos para tudo. e mais do que isso, quase sem tempo para ensinar. sim, para ensinar. há quem diga que estiveram a treinar os miúdos. o que vi e vejo é mais do que isso. é operacionalizar. tornar operário. transformar os miúdos em operadores. para isto, respondes isto. pronto. ponto. final. nada mais. e depois há as diferenças. abismais. dos miúdos que querem a escola, dos que querem aprender. dos que estão lá por estar. dos que pagam a escola que os pais querem que eles tenham. e ainda aqueles em que a escola é, realmente, um treino mas para o futuro. aqueles que depois da escola pagam explicações e mais mil coisas. que são preparados para "mandar" nos outros, no futuro. é tão desigual tudo isto que um ministério permissivo e incoerente tenta dizer que é uniforme e igualitário. não é. é mentira. os miúdos que vão a exame não vão nas mesmas condições. a desigualdade social é um espelho forte demais que se reflete ainda mais neste momento. é preparar para a vida, dizem eles ainda. continuam a dizer. talvez os miúdos só venham a perceber que era mesmo preparar para vida, no futuro. quando virem que foram enganados. que a mobilidade social era uma ilusão desde o início. que as desigualdades eram maiores do que a mentira da oportunidade que lhes contaram. e talvez estejam a ser mais preparados para a vida do que até eu penso. talvez seja por, um dia perceberem tudo isso, que se podem e vão revoltar. e mudar isto. só não consigo ouvir, mais uma vez, dizerem aqueles que mentem que tudo isto é assim porque é melhor que assim seja. infelizmente é assim. resta-me acreditar que estes miúdos que vão fazer exames possam, no futuro que é o deles, mostrar que podem existir exames mas não como este fim. nem este princípio. é o meu desejo secreto, em silêncio. de vigilante...

16/05/2014

||| receita simples e qb...

 
||| ... o colega mas isso não está no regulamento. [raios partam o regulamento e esta mania das coisas reguladas]. sim, mas posso tentar? acho isso muito errado! não importa, posso tentar. o miúdo tinha saltado pela janela. nada mais, nada menos. e lá vem a razão debatida em reunião: família destruturada. não sei o que isso é. nunca percebi. nem me interessa que o rótulo seja esse. eu proponho fazer isto. importam-se? se não resultar metem-me um processo. pode ser? é pá, mas isso não está no regulamento! ok. então coloquem em acta que fica à minha responsabilidade. a minha proposta. durante uma semana o miúdo ia ficar comigo. um tempo lectivo por dia. uma semana. assim foi depois de muita luta e debate. tanta gente contra. até porque eu tenho o estatuto de louco e seria um perigo. durante uma semana. e lá ficou. uma semana. para se "curar" como dizia alguém. não, não era para nada disso. era para os meus colegas poderem dizer que se falhar a culpa era minha e o miúdo não tinha "cura". durante uma semana, todos os dias, lá estive com ele. a escola era no centro da cidade. tinha acesso a tudo. fomos ao cinema. a um museu. fomos ver o mar [que ele nunca tinha visto]. fomos a uma livraria. fomos ver um jogo de futebol ao fim da tarde. fomos falar com uns senhores que tinham andado na pesca. passou a semana. reunião. ó colega, diga lá o que fez ao miúdo que ele parece outro. não fiz nada. ou melhor, dei-lhe só duas coisas. como assim? despertei-lhe a curiosidade para o mundo e dei-lhe atenção. e fiz tudo da forma mais pedagogicamente incorrecta que conheço. é louco. pois sou. durante o resto do tempo até ao fim do ano lectivo nunca mais ouvi falar do miúdo. às vezes era ele que, com os amigos, que me ia desafiar para ir ver, outra vez, um jogo ao fim do dia. e lá ia eu colocar a pasta ao carro e ia com eles. percebi nesse ano que a destruturação não estava só na família. estava em todos nós que rotulamos tudo sem ver nada. correu bem. podia ter corrido mal. não importa. o que importa é sempre tentar. para conseguir ou falhar. mas tentar. o sistema não resolve nada se não for por via da mudança. não é receita para nada. até porque, tem apenas dez por cento de hipótese de sucesso. mas...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| já não é o limite...

 
||| ... a coisa começou assim: ó professor, posso falar consigo no final da aula? [e a aula ainda não tinha começado]. claro. eu e a tânia. sim, claro. sabem que podem sempre falar comigo. estou aqui para isso. a aula até nem correu tão bem como eu esperava. sinceramente, eu estava desinspirado. há dias assim. no final lá estavam eles. professor, tem cinco minutos? olha, deixa-me ver só se tenho aqui alguma chamada para atender e depois falamos. foi só espreitar o telefone [e ainda bem que nada, no entanto no email nem se fala]. mas podia tudo esperar. eles estavam ali e primeiro. professor, como lidava com o medo, no seu tempo? como assim? não estou a perceber. sabe, estas semanas tivemos montes de testes. e estão a chegar os exames. os meus pais e os da tânia estão sempre a dizer que temos que ter boas notas. que se matam a trabalhar para nos dar a possibilidade de estudar e mais umas coisas que não interessa. eu tenho medo de falhar. é que eu vejo mesmo o esforço que eles fazem. estão sempre cansados. sempre a discutir por causa do dinheiro que não chega. e nós só queríamos não falhar agora mas são tantos testes. tanta coisa. [parei suspenso]. sim, ainda há miúdos assim. e ainda bem. e não são poucos. muitos só não falam. e respondi: sabem, no tempo em que eu estudei as coisas estavam menos mal do que agora. mas sempre tive essa ideia que é a vossa. o querer corresponder ao que outros, que cuidam de nós, esperam de nós. mas tenho a dizer-vos que essa vossa preocupação me deixa muito feliz. por um lado não perderam o mais bonito que há. esse cuidado. depois porque ganharam outra coisa importante. a responsabilidade. e vocês são miúdos que estudam. não se preocupem. medo todos temos. e teremos sempre. esse medo de falhar ou errar é normal. mas peçam ajuda aos vossos professores. eles estão sempre aqui para vos ajudar. e mais do que isso, descansem. vai parecer estranho o que vos vou dizer. eu tinha um hábito que ainda tenho. quando vejo que estou a ficar cansado ao ponto de começar a falhar no que tenho para fazer tiro uma hora do meu dia, desligo tudo o que me faça distrair das coisas e vou dar um passeio a pé. ainda por cima vocês são namorados. vá. vão passear um pouco e esqueçam a escola por uma hora, meia hora qualquer coisa. [interrupção] ó professor!!! como é que sabe que somos namorados??? é fácil. sou mais velho que vocês... e com o sorriso, o riso e a coisa simples de ser humano e não operário lá foram eles. miúdos bonitos, aqueles. e ainda os há!

15/05/2014

||| do que faz falta...

 
||| ... tenho uma única regra inquebrável com os meus alunos. resume-se a uma palavra: respeito. geralmente no início do ano, na primeira aula, digo isso. em vez de dez, quinze ou mais regras. tenho uma. mas é inquebrável. deles por mim. de mim por eles. pode parecer estranho. mas eu tenho o mesmo respeito por eles que exijo que tenham por mim. mas a base desse respeito não é a autoridade. é o respeito em si mesmo. não é fácil. nunca é. eu tenho a mesma autoridade do que eles [quando a razão está presente]. este é um gesto insano para muitos. partilhar a autoridade. pode mesmo parecer estranho. mas como já o fiz em todas as circunstâncias possíveis [de turmas de nível a turmas em escolas teip] sei que a sua lógica é muito difícil de conquistar mas uma vez conseguido torna-se sólida e transformadora. isto é, a regra é só uma. e aplica-se a tudo. houve uma vez, só uma, na minha vida como professor que essa regra foi quebrada. já foi há uns bons anos. lembro-me como se fosse hoje. terminei a aula como se nada fosse. na aula seguinte eu não era o mesmo para eles. perceberam. sentiram. no final da aula perguntaram-me: ó professor, não estava bem hoje? não. eu é que já não sou o mesmo professor. porque quebraram a única regra que tinha. perderam a minha confiança, o meu respeito e agora terão aquilo que não pensavam que podia ser cada uma das aulas. serão simplesmente lições. umas atrás das outras. e não foi preciso mais nada. acho que andaram o resto do ano a pedir desculpa. e hoje falta muito essa cultura do respeito mútuo na escola. não se trata de respeito "automático" pelo professor. é de uns e de outros. algo construído. conquistado. dá muito trabalho. ui... se dá. mesmo muito. pode levar um ano inteiro a conseguir, mas é urgente. é o que faz com que quando passo num corredor cheio de miúdos, sem ser preciso algum diz: deixem passar o professor. ou que pensem as aulas como desafios e no final me perguntem, com consideração: que achou professor? ou que não entrem na sala desordenadamente. é um hábito. uma rotina. um costume que se interioriza e não se conquista. demora muito tempo. é muito cansativo. mas no final é uma reserva única de convivência entre pessoas num espaço comum. e isso falta. falta cada vez mais. porque achamos sempre que não temos que educar. mas o respeito ensina-se. educa-se. treina-se. conquista-se. só assim podemos ter espaços únicos reservados à educação. e é um respeito profundo. de mim, como professor, para eles como estudantes e deles como estudantes para mim como professor e como pessoa. e isto importa. mesmo que digam que não.

||| leituras [im]perfeitas...


 

||| música [im]perfeita...


||| esse lugar, este lugar...

 
"...parecia talvez haver nesta sala atulhada de móveis, coberturas, porcelanas e fotografias,
mais espaço do que era habitual..."
kafka, o processo
 
||| ... entrem comigo. raramente lá vou. sem razão mas talvez só pelo espaço. a porta está aberta. entrem comigo. a sala dos professores. se um dia tivesse uma escola era o primeiro local que eliminava. mas entrem comigo. entro em passo corrido. há uma mesa livre. daquelas redondas, grandes. com cinco lugares. coloco a mala no chão. olho em volta. acabou de tocar e chegam pessoas em passo corrido também. é um intervalo um pouco maior. sento-me. tiro um livro para disfarçar. olho em volta. uma mulher, sentada do lado oposto ao meu, está cercada de papeis. testes vistos e revistos. está a assinar as folhas num gesto mecânico e impensado. chegam. há um ruído constante quando chegam. muitos em silêncio. mas tudo feito em gesto acelerado. pousam as malas e materiais. ouve-se um ai.... ufa. bom dia, colega. já está mais uma feita. a aula, refere-se. sentam-se por uns segundos. a sala enche. o ruído aumenta. olha, trouxeram-te as autorizações? é pá, o miúdo não pode ir. como faço agora? um homem de costas olha pela janela. como se quisesse estar em todos os lugares menos ali. o ar cansado mostra tudo isso. é pá hoje o ricardo está insuportável. olha que o miúdo fez isto... ó colega, pode assinar isto? interrompem-me a observação da cena. claro que sim. não uso caneta. tem uma? tenho, obrigado. já está. regresso ao olhar. duas pessoas, um homem e uma mulher sentam-se em silêncio. sinto que precisam daquele pedaço pequeno de descanso. procuram qualquer coisa que não precisam nas suas pastas. estão desconfortáveis. um deles coloca as mãos no rosto. é pá, bom dia! é que o benfica não ganha e nós não nos livramos do crato! entra alguém a dizer alto. soam umas risadas que não são gargalhadas. só mesmo tu ó eduardo. é um homem de meia idade que tenta mostrar a alegria que falta a tantos. por uns segundo consegue. o burburinho acaba por abafar a alegria. nem sabes, no sábado faltei à prova de natação do meu filho, diz uma mulher quase em surdina a outra. tinha testes para ver. não dá para tudo. eu fui a uma sessão de yoga. faz-me tão bem. preciso mesmo de desligar disto tudo. não aguento sem ser assim. e o colega de matemática, já foi a operação? não, ainda não há é substituto e os miúdos estão a ficar atrasados na matéria. cruzam-se conversas destas. às dezenas. centenas, mesmo. e observo tudo. há uma tristeza transparente naquele espaço. é pá, vamos lá animar que ainda falta a taça! e as europeias e os tipos vão-se embora! haja esperança. últimos sorrisos. há um tentar romper da falta de força uma vez mais. toca. terminou aquele tempo. não vens? agora não tenho aula. oiço, fico aqui. tenho estes testes para assinar. não há tempo em casa para tudo. levanto-me. não abri a boca. apenas estive a olhar para tudo aquilo. falta alegria. falta vontade de ali estar. falta ligar e não desligar a escola. da escola. vai-se arrastando o ir para a sala. mais dois dedos de conversa. uma pausa para tratar de uma coisa. o ritmo acelera novamente. está tudo por cumprir. está tudo por fazer. funciona. do verbo funcionar. não encanta. do verbo encantar. fecho os olhos. respiro fundo. ó professor, o que vamos fazer hoje? espera-me uma miúda logo à saída da sala de professores. não sei. nunca sei. ainda bem.

14/05/2014

||| plataformas sem ponto zero...

 
||| ... moodle. ehehehehehehhehe [gargalhada]. pronto, está dito. ó professor, onde é que tirou aquilo? não tirei. coloquei. ó professor, fogo, diga lá. a sério, criei e coloquei lá. não aceito partilhas copiadas a não ser como referência. ó professor, tirei isto da net, que acha? e o que deixaste lá? como? sim, em troca. nada, fiz só copy/paste. ok, mas deixaste um comentário a dizer isso? que fizeste uma cópia? não. para quê? porque não é teu. é de acesso livre mas não é teu. ya, professor, mas era interessante. ok, então deixavas um comentário. era o mínimo. e o que tens tu colocado na net sem ser os vídeos gravados num concerto ou as fotos tiradas em todo o lado com os amigos? imagina que a net era uma biblioteca. por cada livro que consultavas tinhas que deixar lá outro. já viste que no prazo de pouco tempo a biblioteca aumentava, em muito, o seu espólio? ó professor, nunca tinha pensado nisso. pois... a verdade é que a maioria do que se partilha, no moodle de uma escola ou em muitos espaços que usamos são cópias, de cópias, de cópias. mas tem valor o primeiro que as colocou acessível a todos. pensem nisso. é por isso que uma plataforma que serve de apoio às aulas, para trabalhos e afins, se tiver só informação copiada daqui e dali tem o mesmo valor que uma qualquer pesquisa feita em cima do joelho por qualquer um de nós: eu ou tu. a escola, sempre defendi, deve ser um lugar onde o conhecimento ganha a imensa forma de ser o elemento central do processo de aprendizagem. como posso eu dar o exemplo disso se, no meu espaço que criei para vocês me limito a partilhar coisas que encontro por ai na net. também o devo fazer, claro. mas devo exigir a mim e a vocês o mesmo que exijo na sala de aula. que criem. que sejam autores. que sejam e partilhem reflexões. que vão mais longe. e o que me assusta é que só vejo cópias. cópias de cópias de cópias. será que não está na altura de todos serem originais? ó professor, fogo, não se pode falar consigo. é mesmo exigente. pois sou. para mal dos vossos pecados. mas vamos lá ver à net quais são eles. os pecados. podemos sempre fazer: copy/paste...
 

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...

 

||| madalena ou a tábua rasa...

 
||| ... a imagem era esta. completa. maria madalena. não. era uma personagem de um filme que não vi. dizia um aluno. que comparada isso com uma cena de um filme que eu não vi. era a mim que faltava a referência para o entender. eu sabia a história e a arquitectura deste quadro. mas ó professor, é mesmo igual. mas no filme era sofrimento. quase morte. aqui, talvez. êxtase. palavra complexa. isto tudo por causa de uma aula. no final de uma aula voltei a pensar nisto. naquelas trinta almas. naquelas trinta pessoas com graus tão diferentes de experiências e conhecimento. e de como ainda vejo que muitos os consideram uma tábua rasa onde podem escrever tudo o que sabem sem considerar as referências que aqueles miúdos, pessoas em construção, vão tendo. é a posição professor. ou a expressão. e contou-me a história do filme que eu não vi. disse-lhe mesmo isso. não vi, vou ver. pedi o nome. aluguei. vi. e lá estava. não madalena mas outra personagem. era um daqueles filmes de acção que transpiram americanismo e "bravura" americana por todos os lados. mas reconheci a cena. e percebi a influência do realizador. e fomos falar disso numa aula posterior. das referências na arte. das influências. de que nenhum de nós é um ser feito tábua rasa. ó professor, só mesmo você. todos acham que nós saímos de casa para a escola e da escola para casa e que não vemos mais nada. este é o tempo do acesso à informação. menos ao conhecimento. mais à informação. não posso negar isso. nem que, mesmo em tempos difíceis, os meus alunos experimentam coisas para além das paredes da sala de aula. e ainda bem. e quando essas experiências são válidas, oportunas e coerentes não as posso negar. posso incluir. e mais do que isso, posso e devo aprender. para que a referência seja ponte e não pedra para arremessar contra a tábua. madalena, deitada, fez-me pensar nisto.

13/05/2014

||| mais um e pum...

 
||| ... no final de um ano lectivo devo ter visto quase [ou mais] de dois mil testes. sim. e o que ganhei eu ao "ver" dois mil testes. nada. trezentos e tal alunos sem eu poder dizer, de quase nenhum, que lhe fiz algum bem ao ver os seus testes. anotações, correcções, nota. e depois os exames no final que se aproximam. nunca fui contra exames. sou-o contra este modelo e esta avalanche que transformou a escola numa fábrica e os estudantes em operários. um teste tem que ser um instrumento pedagógico em si mesmo. mas não há tempo para isso. há tempo para testes de correcção simples. são dois mil num ano. é tempo que não é dado. é roubado. aos outros. ao meu próprio tempo para aprender. ao meu próprio tempo para pensar e preparar o que ensinar. um teste devia ser isso mesmo. teste. vamos ver. vamos desafiar. vamos aprimorar o conhecimento. não é. é um momento de repetição. ver se são capazes de repetir o que vem num livro, o que eu disse numa aula, uma definição que debitei quando queria ter ensinado. e são quase dez mil folhas de papel. num ano. só um professor. dez mil folhas de papel. uma por aluno. e tempo, nem consigo contar as horas com os olhos em escalas, cotações e coisas que tais. avaliamos o que queremos que eles tenham aprendido. e serve tudo uma lógica pérfida de inutilidade. porque os testes não servem para nada se forem feitos assim. se fossem, testes, desafios, isso sim. mas não há tempo. há tempo para a inutilidade de apurar resultados para colocar numa folhinha e enviar pela estúpida cadeia de "comando" para ficar lá, pendurada e misturada, numa estatística final qualquer que alguém um dia irá dizer na televisão: estão a ver, subiu. e com isto perco eu o meu tempo. pior, perco o tempo para os meus estudantes transformados em copistas. e era tão simples que tudo não fosse assim. mas infelizmente não temos tempo para pensar nisso. há testes para corrigir...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| ensinar uma coisa básica...

 
||| ... escrevo este texto depois de ter tido cinco minutos a ver televisão enquanto terminava um café. o único do dia, verdade seja dita. não ouvi a notícia. era mesmo só a imagem a passar. um rapaz dizia qualquer coisa a uma jornalista. era sobre um jogo qualquer de futebol. o rapaz, miúdo, falava como adulto. e não sorria. o homem ao lado, certamente seu pai, igualava em tudo o rapaz. e dei por mim a lembrar-me de uma saída da escola ao fim de um dia. as conversas dos miúdos pareciam as dos adultos. há, tenho que ir fazer isto e depois isto. tenho isto para tratar e amanhã ligo-te. etc... [sempre adorei isto do: etc...] adultos em ponto pequeno. ou rapaziada com o presente roubado. são todos adultos antes de tempo. não riem. não sorriem. custa-me tanto ver isto. falam de "relações" em vez de namoros. falam de fazer coisas em vez de experimentar. seguem o traço da responsabilidade sem nunca terem feito uma asneira típica da idade e quando o fazem assume tudo um tamanho maior do que seria se fossem só traquinices da idade. e nós afundamos ainda mais a juventude que deve ser deles: pareces um miúdo! ó pá, já tinhas idade para ser responsável! já não és criança! e dizemos isto a miúdos de dez ou onze anos. e mais tarde a miúdos com dezasseis ou dezassete. queremos que sejam todos cinzentos como nós, mesmo quando nós dizemos que não estamos bem assim. ou do outro lado, dizemos: procura é ser feliz. é o outro lado. são miúdos. a felicidade está lá pela inocência. não os coloquemos a procurar uma coisa que fomos nós que perdemos. e nem foi a felicidade que perdemos. foi a alegria. e nem nisso acertamos. mantenham a alegria é algo que digo muitas vezes aos meus miúdos. conservem-na. façam com que viva sempre. e depois oiço: ó professor, nas suas aulas sinto-me como se fosse uma criança. e tenham eles dez, dezoito ou vinte anos. negamos cedo demais esse direito que é deles. queremos robots adultos em vez de miúdos. pássaros. pardais. à solta. enjaulados já eles estão. da escola para casa, de casa para as actividades [quando as há], das actividades para casa e no dia seguinte para a escola. enjaulados. ainda outro dia me dizia uma educadora: eles já nem correr sabem. eu digo mais, nem cair. e eu que tive tantos arranhões nas pernas e braços que nem tinham conta assusta-me. assusta-me cada vez mais ter adultos em miniatura de cor cinzenta e não miúdos. espero que o benfica ganhe. talvez assim, aquele miúdo na televisão cujo rosto sem sorrir guardo em mim, possa perceber o que é um sorriso, verdadeiro, de criança.

12/05/2014

||| uma aula na idade média...

 
||| ... pedagogia: dar sentido, significado, percepcionar um tempo que é tão longínquo como a memória colectiva histórica, assim como, desmistificar as visões contemporâneas mais "comerciais" do que foi a idade média é uma evidência pedagógica necessária central no papel do professor de história nos tempos que correm.
 
||| ... metodologia: esta aula foi experimentada numa turma do décimo ano, para noventa minutos, no máximo de trinta alunos. o professor começa por preparar a sala: tapa as janelas (deve obter na sala a maior escuridão possível). precisa de cinco ou seis velas pequenas, incenso com aroma de lavanda ou alecrim, papel de cenário e carvão para desenho. a sala deve ainda ser preparada colocando as cadeiras em cima das mesas com os pés para cima criando a ideia de uma "floresta" de cadeiras. os alunos são convidados a entrar na sala quando o cheiro do incenso se começa a espalhar pelo espaço e às escuras estando apenas uma vela acesa que está na posse do professor. o professor faz um enquadramento teórico e explicativo [o mais imersivo possível] partindo da descrição da vida quotidiana vs vida religiosa na idade média, numa aldeia exemplo. divide depois os alunos por grupos [quatro ou cinco] que serão habitantes de uma aldeia. cada grupo, uma aldeia. com cada elemento a ter um papel. senhor, trabalhador, monge, bruxa, etc... o professor pede depois aos alunos para imaginarem uma caminhada por uma floresta, sem luz, mostrando o imaginário medieval/clássico dos monstros e seres que eram descritos à época [ver liber monstrorum]. distribui uma vela a cada grupo e o carvão para desenho. previamente o professor colou o papel de cenário na parede cobrindo uma área que permita aos grupos desenharam os monstros ou seres imaginários que conseguem criar no espaço de tempo de vinte a vinte e cinco minutos. o alunos vão até esse "mural" e desenham, em grupos de três, iluminados apenas pela vela, os seres criados. no final deste tempo o professor convida os alunos a voltarem a sentar-se [no chão onde estão desde o início] e a criarem um mosteiro para a sua aldeia. este mosteiro terá que ter regras [que os alunos definem em grupo], assim como, devem ter hábitos próprios [que os alunos devem desenhar e criar]. estes hábitos podem respeitar trajes da altura ou serem criações imaginadas. o professor faz o enquadramento teórico sobre o clero regular para melhor compreensão pelos alunos. por fim, os alunos são convidados a desenhar os monges e sua forma de vestir no mesmo espaço onde desenharam os monstros ou seres imaginados. nota: tudo isto é feito apenas com a iluminação das velas. no final da aula o professor acende a luz da sala e revela o quadro/mural final. por comparação pode projectar uma imagem do liber monstrorum ou de bosch [tentações de santo antão ou outra] para pedir aos alunos para fazerem uma reflexão sobre esta nova ideia da idade média que acabaram de construir. ver exemplo de apresentação em powerpoint que pode ajuda na articulação entre a componente teórica e prática da aula, [clicar aqui].
 
||| ... esta aula tem como tema: a idade média. é uma aula de desconstrução do imaginário contemporâneo sobre a idade média enquanto "idade das trevas" e de apropriação imersiva dos alunos sobre o tempo histórico enquanto construção humana e temporalmente condicionada.