||| ... cito: "não vão surfar porque jogaram à bola com a tupperware?". sempre que vejo e oiço falar destas coisas procuro sempre a fonte. mais do que isso, o uso das palavras. as palavras revelam muito sobre o pensamento e a ideologia. este era um exemplo de castigo pelo comportamento dito de "má educação". já uma vez escrevi aqui como vejo a coisa. há que diferenciar factores pois a visão de uma certa burguesia intelectual tem tendência a misturar tudo e nós na sala de aula sabemos bem que há coisas diferentes em momentos e realidades diferentes. uma coisa é má educação. outra é falta de educação. outra, e mais grave, a educação personalizada [porque não tenho melhor termo mas um dia invento um já que está na moda inventar coisas]. começo pela mais "simples. a falta de educação. a falta é mesmo falta. ausência. inexistência. os comportamentos são claros, simples, intuitivos mais do que racionalizados. não estão adquiridos. o pior é que, com turmas de trinta miúdos é impossível dar o mínimo de regras, normas e ética para a civilidade a estes miúdos. era preciso uma estrutura de articulação e em articulação com a escola ou na escola para tal. a educação para a cidadania tinha aí um papel fundamental. desapareceu. outra é a má educação. se é discutível que há "más" educações, há no entanto uma realidade clara. há princípios de educação que são transmitidos de educadores para educandos que não se coadunam com a escola e sala de aula enquanto espaço comunitário. é tão simples quanto isso. uma coisa são as regras de vivência na comunidade familiar e outra as das regras da comunidade escolar. umas não são transferíveis para as outras em sentido estrito. até acredito que o miúdo jogue à bola com o tupperware em casa mas na escola e no espaço de sala de aula não o pode fazer. é má educação de um lado da realidade. essa é uma necessidade premente da escola. definir o que é o modelo e a identidade educativa daquela escola. falta, em muitos locais, fazer esse trabalho e daí a mistura explosiva e a geração de conflitos desnecessários. houve um tempo em que eram mais similares os comportamentos numa e noutra esfera. agora não é bem assim. e isso dificulta, em muito, o trabalho de educação em ambos os universos. por fim, a educação personalizada. não tenho melhor nome para a coisa. apanho cada vez mais miúdos assim, principalmente em escolas ditas "boas". são aqueles cuja linha de educação marca a personalidade. eu sou como me comporto. e não está relacionado com a identidade. está relacionado com a relação cívica com os outros. falo dos miúdos com atitudes xenófobas. racistas. homofóbicas. classistas. cheguei a ouvir que "esta turma não é para os pobres". são as coisas ouvidas em surdina ou em voz bem alta em casa que ganham forma em forma de gente. isto numa escola pública. e por incrível que pareça a esta "péssima educação" não ligamos porque as regras de etiqueta e sentido de cortesia são cumpridos na integra. falamos de carácter. de atitudes. e essa é a mais grave de todas as "más educações" que grassam por aí na escola. hoje deu-me para pensar nisto não vá o miúdo ficar sem ir surfar...