28/05/2014

||| mais uma voltinha, outra vez...


||| ... em mil seiscentos e quarenta e quatro [mais coisa menos coisa] nascia em a moda da lotaria. vinha dos jogos de azar dos bancos italianos e foi transferida como moda para a corte de luís XIV. machado de assis sabia bem como colocar o pádua do seu dom casmurro a jogar com a sorte e o azar. quando vejo mais um anúncio de concurso para professores lembro-me sempre desta história. que sempre chamei ao concurso: lotaria. e vai ser assim mais um ano. ninguém sabe, porque só se fala disto entre nós, o que é todo este processo de concorrer para mais um ano de trabalho como professor. é a coisa mais maquiavélica que existe. nenhuma outra profissão passa por algo similar. e logo agora, no fim deste ano lectivo em que as coisas não podiam [todas] terem sido mais desgastantes ou estranhas. o cansaço e a vontade de mandar tudo isto "às favas" é maior do que nunca. isto, diga-se, o sistema. porque os miúdos, esses, estão sempre cá. é que o "concurso" é todo ele um profundo acto de desrespeito pelos professores e pelas pessoas que somos. fica o meu desenho desta epopeia para quem a vive ou para quem não a conhece. começa pelo anúncio. muitas vezes a comunicação não chega pela "tutela" [conceito horroroso que revela logo o estado de controlo desejado]. vem numa conversa de intervalo. sim, ontem. olha, amanhã abrem os concurso. como? amanhã. sim. são cinco dias. ou então visto num blog [pelo excelente trabalho de alguns professores ou dedicados caminhantes nesta coisa da educação]. então e quem, como, para onde? isso tem que se esperar pelos regulamentos, guias, normas e coisas que tais. cresce um aperto no peito. por duas razões. é o fim daquele ano lectivo. todos os anos, há dez, vinte ou até mais anos acaba sempre assim. abruptamente. com o concurso aquela casa que foi "a nossa" escola por um, dois, três ou mais anos pode não voltar a ser no ano seguinte. aquelas ligações que foram nascendo podem ter todas que vir a ser refeitas no ano seguinte a vinte, cem ou duzentos quilómetros dali. depois é preciso ver tudo. ler tudo. sai no site da "tutela". eles que dizem e ditam as regras. há estas vagas. para aqui, para ali e para acolá. só estas. não importa que saibas o que o teu lugar existe e é preciso. deixaste de o ser. agora é aqui e ali. e temos que seguir as regras porque somos só peças nesse jogo. nessa lotteria para gozo da corte que só vê números de candidatos. lidos os documentos que mais parecem um guia informático de um equipamento qualquer há que clicar. clicar numa aplicação. fazer cliques. preencher coisas. com os mesmos dados que estão no sistema desde que começámos a trabalhar. e o mapa do país perto. ali ao lado. dantes era de papel. agora no computador. vale só uma coisa. não ter que ir de terra em terra. ainda sou desse tempo. dos "mini-concursos". em que se ia, de mochila às costas de portalegre a évora, do porto a beja entregar uns papeis. mas que importa isso agora. naquele momento, neste momento é só mesmo aquela ideia sempre presente. que não seja muito longe. que a sorte e os deuses estejam presentes e não atirem a fortuna para longe. muitos quilómetros são muitas horas. isso misturado com o pensamento preso no trabalho. ter trabalho. não é um emprego como muitos anseiam que se joga nestes concursos. é trabalho. muito. porque ser professor é ter mesmo muito trabalho. e ter esse tempo ocupado por um desafio constante está preso nos dedos que vão clicando aqui e ali. centenas de vezes. depois, suspender tudo por uns instantes. guardar como diz lá num quadradinho verde [como se fosse essa a cor da esperança]. guardar por umas horas. andar pela sala sem saber bem para onde ir. pensar. pensar mais um pouco. voltar ao mapa. dizer: achas que matosinhos ainda é muito longe? ligar a um amigo na mesma situação. perguntar. o que colocaste aqui. e ali. leste isto e isto. sabes que tens que enviar a declaração. é pá, já me esquecia disso. voltar a ligar a outro. e mais um. quase como a pedir que alguém nos diga: sim, estás a fazer bem. sim, vai tudo correr bem. a tombola vai rodar e tu vais ter a tua sorte. podes confiar. mas nunca confiamos no sistema porque o sistema despreza-nos. sabemos isso. basta ver que um concurso nacional "extraordinário" é comunicado a quem tem que correr com menos de vinte e quatro horas. incrível. mas até esse desrespeito já ultrapassámos. já achamos natural que assim seja. e é esperar que o sistema não falhe. às vezes falha. e falha sempre. verificar tudo depois de uma ou mais noites a dormir mal. verificar outra vez. e mais uma vez. dizer: seja o que os deuses quiserem. clicar: submeter. sim, a palavra é mesmo essa: submeter. sim, submisso, eu submeto. submeto-me a um sistema cego, surdo e mudo. que contou comigo estes anos todos e todos os anos me faz passar por isto. em total desconsideração pelos dias que vivi a dar tudo o que sei e que possa à escola e à profissão que amo. em total desconsideração pelos miúdos que ajudei, pelas horas que retirei a mim e aos meus. pelos perigos de uma estrada feita à noite em dias de chuva onde só o seguro de trabalho e a vontade de ser professor me fazia sentir que era preciso fazer tudo isso no dia seguinte. submeter. mas desta vez, quando clicar mais uma vez no quadradinho verde de uma aplicação que não sabe quem eu sou desejo profundamente do que sistema "crache". que exploda. que rebente. que deixe de funcionar. como tudo o que se passou neste ano. para que possamos repensar tudo isto. para que o respeito volte e a vontade de ser e viver na escola possa renascer também. pode ser que sim. veremos... se tal não acontecer, sorte, sucesso e fortuna para todos os que hoje, são professores, e vão concorrer à lotteria nacional.